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A selfie que mata

Andreia Braz_A selfie que mata

Sobre acidentes causados por gente que usa celular enquanto dirige.

Às vezes, é difícil acreditar que pessoas ainda usam o celular enquanto dirigem. Todo dia tem notícia de morte no trânsito justamente por alguma distração ao volante (cochilo, celular).

Hoje cedo fiquei chocada ao constatar, na ida à padaria próxima a minha casa, que quatro ou cinco pessoas tratavam isso como a coisa mais normal do mundo. Pior ainda: uma delas tirava selfies com uma das mãos, enquanto a outra segurava a direção.

Como se ignorasse a fila quilométrica de veículos atrás de si, a mulher de cabelos tingidos de loiros e batom vermelho estonteante, sorria para os autorretratos como se o mundo lá fora não existisse, ou, como se aquele ato egocêntrico não pudesse causar um grave acidente de trânsito. Um acidente como aquele que tirou a vida de um funcionário da UFRN na Rota do Sol há quase dois anos.

Numa manhã de sábado, Raimundo Furtado Neto, de 43 anos, saiu de casa para pedalar e não voltou porque um rapaz enviou uma mensagem ao pai enquanto dirigia. Em depoimento ao G1, o delegado responsável pelo caso, Frank Albuquerque, declarou: “Ele disse que estava indo buscar o pai e como estava atrasado resolveu mandar uma mensagem para avisar o pai. Quando escrevia a mensagem no celular ele atingiu o ciclista”.

O ciclista morreu no local. À polícia, o homem, de 27 anos, declarou não ter prestado socorro à vítima porque tem síndrome do pânico. Ele responde por crimes de homicídio culposo, omissão de socorro e ausência no local do acidente. Desconheço as penalidades para esses crimes, mas estou certa de que a lei é branda com quem mata no trânsito.

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“Um pouco mais de severidade na aplicação das leis e educação para o trânsito talvez sejam um bom começo para mudar essa realidade.”

Impunidade e leis brandas

Basta lembrar o caso de Thor Batista, filho do empresário Eike Batista, que atropelou e matou um ciclista no Rio de Janeiro, ou mesmo o do ciclista que teve seu braço decepado em um acidente de trânsito e pouco depois jogado em um córrego pelo próprio motorista. O acidente aconteceu na Avenida Paulista.

Um pouco mais de severidade na aplicação das leis e educação para o trânsito talvez sejam um bom começo para mudar essa realidade. Não tolero essa atitude porque sei que o ato insano pode ceifar vidas ou deixar pessoas sequeladas. Será que não dá para esperar chegar ao seu destino para mexer no celular? Será que a vida do outro não é importante?

Existe um vídeo publicitário que mostra jovens estrangeiros explicando, quase sempre às gargalhadas, porque usam o celular enquanto dirigem. Twiter, Facebook, WhatsApp, estão entre as razões mais frequentes. Poucos minutos depois, entra na sala uma moça com dificuldade de andar e um dos braços paralisado. Quando voltava do baile de formatura, aos 21 anos, ela sofreu um grave acidente de trânsito no qual morreram seus pais. Trata-se de uma campanha de conscientização para o uso do celular no trânsito.

Alexandre, um amigo do bairro onde moro, foi atropelado enquanto voltava do mecânico, e caminhava pela calçada. A motorista estava ao celular. Em virtude do trauma ocasionado pelo acidente, ele precisou fazer tratamento psicológico durante seis meses e ficou afastado do trabalho por igual período.

“Fiquei muito fragilizado com o que aconteceu porque senti a morte bem perto de mim. Chorava todos os dias”, disse emocionado, enquanto conversávamos na seção de frutas do supermercado. A lembrança do acidente e o medo de morrer deixaram sequelas profundas.

Andreia Braz_A selfie que mata.5Quem são os bichos escrotos?

Voltando à minha caminhada até a padaria. Quando chego na calçada de casa, esbaforida de calor e revoltada com o que acabara de presenciar, ainda deparo com outro tipo frequente de falta de educação: cocô de cachorro na porta da minha casa.

A maioria dos transeuntes que passeiam com seus lindos cães pelo meu bairro não recolhe as fezes dos animais. Outro dia, um rapaz de porte atlético parou em frente a minha casa e esperou tranquilamente o cachorro defecar. Saiu como se nada tivesse acontecido. Mesmo aborrecida com a falta de respeito, decidi nada falar.

Próximo a minha casa, há um local excelente para caminhar: a calçada de um condomínio de apartamentos. Mas isso é quase impossível, tão insuportável é o cheiro de urina e fezes de animais naquele lugar. Eu mesma só passo por lá quando não tenho outra opção. Para minha surpresa, soube outro dia que na entrada no condomínio há sacolas disponíveis para recolher fezes de animais.

Enquanto preparava meu café da manhã, refleti sobre essas duas situações vivenciadas durante uma simples ida até a padaria, e fiquei pensando na quantidade de discursos vazios com que nos deparamos diariamente, sobretudo nas redes sociais, onde todos têm voz e são especialistas em quase tudo, o que me irrita profundamente.

Mas, será que estamos mesmo refletindo sobre nossas atitudes e, principalmente, sobre as consequências do que fazemos em relação às outras pessoas?

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Andreia Braz

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