Geral

A tinta, o caderno e a dádiva

rupestre

Para d. Terezinha Alves de Melo Ramalho

Ao nascer, Deus perguntou-me: “O que queres?”. Sem pestanejar, respondi: “O chão!”. Ele sorriu maliciosamente como um jogador de baralho em blefe, e percebeu que eu era igual às outras sementes: sempre à espera da canastra real. Sendo assim, retalhou e me entregou um pedaço raso de couro de carneiro medindo 19,04 por 19,74 centímetros, e disse: “Taí o seu caderno! Borde letras com fios do próprio sangue, derramando-o na geografia áspera da celulose!”.

Uma sensação estranha ferveu nas minhas vísceras. Fiquei atônito com aquela possível liberdade de desfiar o meu rosário de penas no infinito mundo mágico do cartear. Ora! Que liberdade seria essa se ao menos não posso querer permanecer ou, sendo mais astuto, prolongar a permanência até desaparecer no espaço como uma nuvem silenciosa que trafega para o abismo do éter? Ou será que eu poderia escolher sumir de maneira abrupta como o concreto que evapora das mãos ilusionistas do crupiê? Definitivamente estava no cárcere perpétuo das dúvidas!

Não havia o que fazer! Peguei o meu caderno e saí aos pinotes pelo labirinto das hostilidades. Saltando pedra em pedra! Escalando serra a serra! Submergindo vala a vala! As cortinas que se abriram e se abrem são as mesmas que se fecharam e se fecham. Os teatros e as suas encenações existem aos montes e sempre existirão! E eu mesmo ainda não tinha me dado conta de que o meu palco já se iluminara há tempos. Hoje, às vésperas dos quarenta e três anos, vejo fachada, nave e cúpula precisando de cuidados clínicos.

É, o tempo caminha parelho com as formas e, principalmente, com as substâncias. E falando dessa última em específico, lembro da magistral diretora que soube conduzir o elenco uno do meu mundo, com instantes de doce de leite e vestes de cambraia bordada; e outros com cenas de sola de couro e borracha da amazônia.

Tinha um zelo dedicado à minha simplória personagem sem máscaras. Ensinou-a a soprar os primeiros “ais”. Foi muleta quando era necessário equilibrar a carne no trapézio, e é corpo quando sustenta nos braços finos o peso de cinco arrobas. Foi mestra quando a palma da sua mão engolia o dorso da minha e guiava o preenchimento caligráfico do couro escolar. Foi e é algodão quando os lábios tocam a fotografia sustentada na parede. E é falível quando diz que a saudade corrói lentamente a esperança, mas nem por isso deixará de vibrar o êxtase do encontro que vivo em desatada sangria.

Minha diretora ensina-me que um mais um são dois. E que dois são trilhões de possibilidades algorítmicas, que extrapolam o quadro aritmético e assentam a poeira do surto na comunhão dos olhos e dos oceanos que encerramos em nós.

Assim, temperando o meu caderno com tinta e dádiva, a diretora também me ensinou, ensina e ensinará sempre, a temperar o lúdico do inesperado com a lógica do cartesianismo no jogo das cartas. Sigo construindo os meus seguidos e já conto com uma jangada real de paus na mesa. Foi com essa canastra que encontrei o meu casebre realista de grandes novidades e o meu imenso castelo de futilidades!

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Italo de Melo Ramalho

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