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A vida num refrão

Ilustração_Maria Eugênia

 

*“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

 

– Tudo bem?
– Tudo – respondeu.
(Era mentira. Estava tudo uma merda. Mas as pessoas que perguntam se está tudo bem não estão muito interessadas em saber se realmente está tudo bem. E, quando muito, elas só querem a réplica “tudo bem” e pronto)

Segunda tentativa:
– Como foi seu dia?
– Foi bom. Normal.
(Bom, nesse caso, a segunda pessoa realmente não está querendo muito falar. Ou, numa outra hipótese, está querendo falar, mas não sabe como e também não está muito a fim de responder a perguntas tão óbvias). Aí ela arrisca um outro tipo de conversa:
– Eu estava pensando…
– O quê?
– Eu acho que tem alguma coisa errada…
– Eu tava pensando se a gente não podia mudar de assunto. Eu tive um dia cheio, tô cansado pra caramba e meu chefe me deu maior sabão hoje à tarde e você fica com esse ar todo queixoso e essa cara mal lavada e assim não dá para conversar.
– Quer ir ao cinema?

 

“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

 

– Alô?
(- Oi… o que é que você está fazendo? Estava pensando se você não quer passar aqui mais tarde…)
– Ooooi. Não sei se vai dar. Estou meio ocupado
(- Pena… Coloquei um vinhozinho na geladeira e aluguei um filme que eu acho que você ia gostar. É daquele cineasta…)
– Pois é. Mas é que eu estou atolado de coisas agora. Eu te ligo depois.
– (Então tá. Um beiiiijoooo. E me liga viu?).
– Quem era?
– Ninguém. Um cara chato do trabalho querendo que eu fosse ver um relatório com ele uma hora dessas. Vê se pode?
“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

 

– Sinto falta dele.
– Mas já faz um ano e meio que ele foi embora.
– É. Mas, a gente se entendia tão bem.
– Tão bem que ele nem pensou duas vezes antes de partir.
– Não foi bem assim. Nós conversamos bastante e chegamos à conclusão – juntos – de que não dava mais para continuar.
– É isso que eu não entendo. Como é que você sente falta de uma coisa que não tinha continuidade. Para de fazer flash back de Love Story, isso não está com nada. Coisa mais passada.
– Ai amiga, você está tão ácida hoje.
– Só estou sendo realista. O cara nunca mais te procurou e pronto. Parte para outra.
– Isso você não sabe.
– Como assim? Ele telefonou? Mandou carta? Imeio?
– Sim e não.
– Hã?
– A gente voltou a se falar. Ele está pensando em dar uma passadinha por aqui de novo.
– Dar uma passadinha? Estar pensando não é o mesmo que fazer ou falar, amiga. O Vinícius nunca foi um cara de agir muito de acordo com suas palavras. Eu me lembro muito bem que ele vivia marcando com você e na hora “agá” inventava uma desculpa e não aparecia e desligava o telefone e sumia do mapa.
– Não. Esse não era o Vinícius.
– Não?
– Não. Afinal de quem você está falando heim?
– Ai, você me deixou confusa. Vai ver que eu estou falando de mim. Deixa pra lá.
– Eu heim…

 

“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

 

– Ô mãêeeeeeeeeeee, já acabeeeeeei!
– Mulher, o menino acabou. Vem limpar!
– Tô indo.
– Ô meu filho, você já tem sete anos, não acha que já pode se limpar sozinho?
– Mas ele não se limpa direito, mulher. Você não sabe que aqui a gente não vive sem você?
– Sei. Ao menos para limpar o cu, eu sou imprescindível.
“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

 

*Refrão da música O Amor é um Rock (Tom Zé)

quem quiser assistir ao clipe:

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Sheyla Azevedo

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