Aborto: corpos em jogo
15 de agosto de 2010 às 10:40 - ComentarAmigos e amigas:
Na entrevista do Prof. Marco Aurélio Prado (aqui), a questão do aborto é assim caracterizada: “o direito de as mulheres decidirem sobre o próprio corpo”.
O Prof. Prado esqueceu de mencionar outros corpos em jogo num aborto: o do feto e o do pai; o feto é um corpo que está dentro do corpo de uma mulher; o corpo do homem, através de seus espermatozóides, participou e continua a participar desse acontecimento. As mulheres, no caso, não decidem apenas sobre seus próprios corpos – mexem com os direitos daqueles outros.
Defendo que homens e mulheres pensem mais cuidadosamente sobre os efeitos do encontro entre espermatozóide e óvulo para que os três corpos em potencial não sejam obrigados a posteriores tomadas de decisão (ou sofrimento das consequências) dessa natureza. Camisinha e outros recursos similares ajudam a evitar essas difíceis decisões tripartites – e uma das partes (o feto) não consegue se expressar verbalmente ainda, finda sendo objeto de decisão (talvez fatal) alheia. Transar com penetração vaginal sem camisinha ou outros preventivos anti-gravidez é assumir o risco de uma gravidez. Todo homem (e toda mulher) em idade adulta já transou assim, poucos deles e delas encararam a última possibilidade. A educação sexual dos jovens deve enfatizar a beleza do prazer e seus desdobramentos em potencial.
Mas Prado tem muita razão ao insistir sobre debates mais claros a respeito desse e de outros assuntos que os candidatos às eleições evitam. E também é muito feliz ao reivindicar a republicanização da república, sem bancadas religiosas respalpadas em espaços públicos leigos. Lugar de cobrar valores religiosos é no seio da comunidade religiosa – se uma religião proíbe aborto e relações homoeróticas, seus fiéis devem obedecer a esses preceitos ou se afastar dela. Sociedade civil é outra coisa. Já imaginaram se um ateu pudesse legalmente impor seus pontos de vista a um cidadão católico ou adventista? Pois o inverso ocorre muito frequentemente quando a sociedade civil é invadida por valores das religiosidades.
Abraços:

