Abrindo a velha caixa de brinquedos
9 de maio de 2010 às 22:20 - 4 ComentáriosContinuação do post de 2 de maio de 2010
Quem, menino ou menina, no sertão não se arriscou em busca das frutinhas (vermelhas sem igual!) do pé de cardeiro ou da coroa de frade, tão apreciadas por nós e que dão em meio a pedras e lajeiros? Quem, menino, não furtou frutas nos quintais ou sítios vizinhos correndo dos tiros de sal ou de pedradas na cabeça atiradas por fundas?
Quem não galopou escanchado num cavalo de pau com o cabo da vassoura, do talo da carnaúba, do pau do marmeleiro e da macambira ou até mesmo numa palha de coqueiro, conforme os recursos que a natureza oferecia? Atirou de baladeira, bodoque ou funda nas lagartixas, calangos, passarinhos e outros bichos? Soltou corujas? Quem não brincou de fazer bolinha de sabão, pular corda, cabra-cega, academia, cadeirinha, peia quente, pão doce, iô-iô, bandeirinha, coelho na toca, passa anel, cantigas-brinquedo? “Licença, meu bom barquinho, licença para passar, que eu tenho muitos filhinhos não posso mais demorar [...]”; “Lagarta pintada quem foi que te pintou [...]”; “Varre, varre vassourinha que esta casa está cheia de cocô de galinha [...]”; ou brincadeiras como: “Coqueiro cai” (com as mãos uma sobre a outra em forma de punho); ou: “Seu pai matou um porco? Você teve medo?” Só para ficar em alguns exemplos.
Quem não brincou de casinha debaixo da mesa, redinha armada entre os pés da cadeira, mobília de caixa de fósforo, de caixa de pasta de dentes ou sapato, panelinhas de barro (feita por nós) ou da lata do leite em pó (pequenas medidas que vinham dentro da lata de leite Ninho), copinhos de tampas de pasta de dentes? E não faltavam as comidinhas de folhas de mato picadinhas, de papel, de sementes de manjerioba ou muçambê, de grãos de arroz, feijão ou milho, galinha do melão caetano, bolos de areia molhada, cuja fôrma era a quenga de côco e comida do que mais coubesse na imaginação. Não faltavam também os cozinhados debaixo da sombra das árvores lá pelos roçados, para quem era menino no sertão. A notícia corria logo de boca em boca. E lá íamos nós esquipando pela estrada. Cada um levava um punhado do que conseguira pegar na cozinha da mãe. Às vezes até às escondidas: arroz, farinha, feijão, cozinhado tudo junto, sem falar nos miúdos da galinha que nossas mães limpavam e nos davam para esse fim: tripa, couro, moela. Não havia comida no mundo melhor que essa feita com o pouco trazido por cada um, cozinhada em panelas de barro e fogo improvisado com pedras e/ou tijolos e lenha (trempe). Lá ficávamos o dia inteiro, voltando para casa já com os últimos raios de sol do dia.
E os brinquedos? Era tempo de bonecas de pano, de sabugo ou de espiga de milho, de melancia, de “seixos” de pedras, do talo da carnaúba, da mandioca, de panos enrolados com uma coberta por cima como se fossem bebês e, pasmem, até de tijolos! Pião, corrupio, rói-rói, academia, jogo de pedras, carrinhos de lata ou de madeira que os meninos enchiam com a “carga” (caixas de “fosco” cheias de areia) e saíam puxando. Prender besouro na caixa de fósforo para fazer rádio ou rádio de caixa de sapato e botão de pasta de dentes, fazer direção de carro da tampa da panela ou da tampa da lata de doce com chave para ligar do abridor da lata de kitut de boi Wilson. Jogar com bilocas ou castanhas de caju, futebol de botão, de prego ou de tampinha de garrafa. Torar rabo de lagartixa para ver mexer, caçar com bisaco de lado, botar “visgo” do pé de pau da “barriguda”, da “burra leiteira” (árvores) ou do talo da jaca em cima das porteiras, nos mourões, ou galhos próximos aos poços d’água para prender passarinho. Descobrir ninho de rolinha e armar laço da crina ou do rabo de cavalo nos ninhos para a rolinha ficar presa na hora de voar. Atirar de baladeira ou funda em arranca-milho, papa-lagarta, casaca de couro, rolinha e beija-flor. “Matar e engolir o coraçãozinho da beija-flor pra ficar atirador”. Matar passarinho, pôr embaixo de uma cuia de cabaça e batucar em cima para ressuscitar o bichinho. Fazer quixó de pedra e pau de marmeleiro e/ou fojo (com lata de querosene ou tábua de caixão de sabão), ou mondé armado numa pedra pra pegar preá. Armar arapuca para pegar arribaçã e rolinha. Derrubar enxu com vara, botar gasolina no rabo do cachorro, que saía disparado, botar rabeira em jumento – latas velhas presas num cordão e amarradas no rabo do jumento que danava-se no mundo com aquelas latas velhas batendo. Cachorro e jumento ficavam doidos! Cavar buraco na areia do rio, espanar com o pé a areia e cobrir com capim para a pessoa pisar e afundar ou fazer quebra-canela na rua – cavar buraco, botar papel e areia por cima e esperar para ver alguém cair, colocar pedra em caixa de papelão ou em caixa de sapato e se esconder para ver alguém chutar e estrepar a cabeça do dedo.
Continua no próximo post!
COSTA, Tânia et al. Brinquedos e brincadeiras populares: Identidade e memória. 2. ed. Natal: IFRN 2010.



4 Comentários
Maravilha, Tania
Um dia brincava da casais.
Eu ficava com a Irmã do Daniel
Ele ficava com minha irmã.
Bricávamos de casinha
Depois dormir. Só de quincadeira
Num quartinho que papai tinha como atelier
Um ao lado do outro. Duros. Não ousávamos tocar a mao do outro.
Depos conto para voce uma brincadeira de comparar os tamanhos. Isso foi depois!
João,
Fiquei interessada nessa brincadeira!
Beijos,
Bravo, Tânia…
Nesta invocação da infância no sertão consegue fazer um excelente levantamento e registo das práticas lúdicas hoje quase desconhecidas. Estas práticas estão a ser substituídas por uma panóplia de objectos – dos mais simples aos mais sofisticados, das inestéticas futilidades de plástico aos dispendiosos aparelhos electrónicos – mas que colocam as crianças muito longe da natureza e do “próximo”, e nos quais já não se descobre o encanto que lhes era dado pelas pequenas mãos que lhes davam forma , vida e sentido. Parabéns pelo vosso esforço na luta pela preservação e revalorização de um património cultural da infância que fez parte da aurora dos dias de todas as gerações de meninos e meninas que precederam os nossos filhos e netos. O vosso trabalho, sobre brinquedos e brincadeiras, interpela seriamente, afinal, a nossa responsabilidade de adultos!
Um abraço desde Coimbra (Portugal)
Que belo, Tânia!
O teu texto me trouxe lindas e doces recordações… Ah, que saudade da simplicidade e do encanto das minhas brincadeiras de criança!
Obrigada pelo presente em forma de texto!
Beijos, querida.
Cláudia Magalhães