Abrindo a velha caixa de brinquedos
23 de maio de 2010 às 18:15 - 3 Comentários
Continuação do post de 16 de maio de 2010 (4º e último post)
Era uma vez… Tempo de, à noite, nas calçadas ou ao redor de um paiol de feijão para debulhar, contar e ouvir histórias de trancoso, de Camonge, de reis e rainhas, histórias de mal-assombrados, de encantamentos. Tudo entrava por uma perna de pinto e saía por uma perna de pato. De ver e fazer assombração. Fazer alma com quenga de côco ou oco de mamão verde com vela acesa dentro e colocar em cima de “monturos” ou dos mourões ao lado das porteiras e correr feito cavalo desembestado com medo da própria assombração.
Tempo de imitar a “marrada do carneirinho”, brincar de “dedo mindinho, seu vizinho [...]”, brincar de cavalinho sobre o joelho do pai ou da mãe, de adultos fazerem “bizouro” ou “carrinho” com a boca para entreter o bebê. Tempo de bicho papão, de temer “alma do outro mundo”, de rezar p’ras almas do purgatório, morrer de medo do papa-figo, da mula-sem-cabeça, do lobisomem, de zumbi, de temer o batatão (alma do compadre e da comadre) quando dava as primeiras chuvas lá no meio das vazantes. De brincar de adivinhação, par-e-ímpar, frio ou quente, de brincar até na hora do almoço, fazendo macaco com feijão macassar e farinha amassados na mão. Não faltava também o jogo de baralho: pif-paf, buraco, sueca e relancim arriado.
Também jogar com pedrinhas ou búzios, assistir ou encenar os dramas ou romances cantados, jogar casca de laranja nas ripas para enganchar e ficar dependurada. Tempo de fazer carinho em forma de cafuné e de catar piolhos. De andar com um lenço cobrindo a cabeça após nossas mães aplicarem Neocid, dos meninos andarem com a cabeça raspada por causa deles, os piolhos. Como se catavam piolhos nas calçadas. Numa fileira de três meninas chamadas Maria, catando piolhos, ninguém queria ser a do meio, pois se dizia que a do meio morreria antes. Quando deitavámos no chão, também não queríamos que ninguém nos enguiçasse (passar por cima), pois aí não cresceríamos mais. Tempo de comer o olho do coco ou esfregar cebola nos peitos para fazê-los crescer. Tempo de jogar com bola de infinitas possibilidades: de meia, de capim seco, de cabelo e palha de milho, bola do talo da bananeira e bola até da bexiga do boi.
Era tempo de comprar, nas bodegas, confeito que vinha com anel de ouro e pedrinhas de cores variadas, confeito com figurinhas e dinheiro. E por falar em dinheiro, a moeda de troca entre os meninos era o dinheiro de cigarro, um bolo de notas juntado em caixa de sapato. Comprava boi, rebanho e bilocas. Tempo de colecionar pequenos soldadinhos e índios que vinham dentro dos vidros de Toddy, figurinhas de jogador de futebol que vinham dentro do pacote de macarrão e do biscoito Fortaleza, utilizadas no futebol de botão e de caixa de fósforo.
Tempo de brincar de modelagem com as nuvens, transformando-as, com nossa imaginação, em carneiros, leões, pássaros, cavalos, anjos, monstros e outros bichos. Tempo de céu de muitas estrelas, de procurar o Cruzeiro do Sul, localizar as Três Marias, de ver São Jorge na lua, montado em seu dragão, de contemplar as estrelas, só não se podia contá-las, para que não nascessem verrugas nos dedos. Tempo de ver estrelas cadentes riscarem o céu e fazermos pedidos.
Com o passar dos tempos, as brincadeiras passavam a refletir os rituais de passagem, a saída da infância para a idade adulta. Experimentar os primeiros contatos físicos na brincadeira do: “Tô no poço”! “Tô no poço. Água por onde? Pelo pescoço! Quem lhe tira? Um alguém! Com o quê? Com um abraço e um beijo”. Se a fruta escolhida corresponder ao menino ou menina por quem o coração bate mais forte, grata surpresa; se ao contrário, frustração.
Para quem foi menino no sertão, iniciar-se nos cercados e currais com as cabras, jumentas, burras e galinhas nos prazeres do amor.
Eram muitas as possibilidades do brincar, variando de acordo com as características regionais, geográficas e culturais, próprias de cada localidade.
Desafiando origens, o brinquedo atravessou continentes e épocas, permanecendo iguais em sua essência, diferentes em suas versões regionais, rurais, urbanas e litorâneas em termos de vocabulário, regras das brincadeiras, recursos materiais, espaços e tempos próprios para cada vivência. Uma coisa, porém, não muda, a universalidade presente no brincar e o encanto que causa nas crianças de qualquer lugar. Através do brinquedo a criança fazia sua incursão no mundo, ensaiava a vida.
COSTA, Tânia et al. Brinquedos e brincadeiras populares: Identidade e memória. 2. ed. Natal: IFRN 2010.


3 Comentários
Adorei a foto da “mula-sem-cabeça” .
A mula-sem-cabeça é uma lenda do folclore brasileiro. Trata-se de uma mulher que virou assombração como castigo de Deus por ter cometido pecados. A mula sem cabeça solta fogo no lugar onde deveria estar sua cabeça e possui em seus cascos, ferraduras de prata ou de ferro.
O encanto pode ser quebrado se alguém tirar o freio de ferro que a mula sem cabeça carrega, fazendo surgir uma mulher arrependida pelos seus “pecados”.
De acordo com a lenda, a mula-sem-cabeça surge no momento em que uma mulher se envolve amorosamente com um padre. Logo, qualquer mulher que namorasse um padre seria transformada em uma mula sem cabeça à meia noite de quinta-feira para sexta-feira.
Presume-se que a lenda tenha surgido através da igreja católica que passando a imagem do padre como pessoa santificada e não como homem reduziria os casos entre padres e mulheres.
Além de grande pesquisadora, amiga Tânia, seu estilo flui. Acho que quando você abre sua caixa de brinquedos, o conteúdo sai se esgarçando como a neblina na Serra de Santana. Beijos.
Quantos anos de letras presas em vontades contidas.
Quantas vontades contidas em palavras não ditas, não escritas.
Quantas palavras não ditas ou escritas, mesmo com uma profusão de vivencias.
Mas, elas estão fluindo feito tudo que há de mais belo e profundo.
Com uma força impulsionada de um desejo há tanto contido.
Trazendo elementos essencias para tocar as mentes e os corações de todos e todas amantes da uma boa leitura.
Toda admiração a minha amiga.
Felicidades meu bem.