Abrindo a velha caixa de brinquedos

2 de maio de 2010 às 18:37 - 6 Comentários
Por Tânia Costa

Querido Tácito,

O Capítulo abaixo por ser longo, dividirei em quatro momentos. Assim, a cada semana (domingo) postarei uma parte do mesmo.

Para Carlos de Souza, infância vivida em Areia Branca! (?)

“Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem não surge de uma velha caixa de brinquedos?” Walter Benjamim

Crianças, éramos todas mágicas. Nossa imaginação? Ah! Essa não conhecia limites nem fronteiras, a tudo abarcava. Um simples carretel de linha, uma lata de sardinha, de óleo ou de doce transformava-se num carrinho, caminhão, trator. Pedaços de ossos (juntas do boi, mocotó), tanto viravam o rebanho da fazenda quanto carrinhos e até mesmo bebês. Cabeça de lagosta depois de seca virava cavalo ou boi que puxava as carroças. Talo de bananeira virava espingarda, seixos de pedras, bebês, cuidadosamente encoeirados (enrolados) em pedaços de panos. Papel de embrulho, papel colorido e molambos (pedaços de pano) para fazer o rabo viravam corujas a rodopiar em pleno ar, guiadas pela mão ágil dos meninos. Sabugos de milho, vestidos, transformavam-se em reis, rainhas, moças e rapazes.

Os brinquedos e as brincadeiras transformavam a nós, e o mundo a nossa volta, como num passe de mágica, tal qual Aladim com sua lâmpada.
Brincar era a coisa mais importante que fazíamos, encarada com a maior seriedade e até certa gravidade se fazia presente na maneira como vivenciávamos os papéis, as encenações. Toda a nossa vida estava relacionada aos brinquedos, às brincadeiras – jogos, adivinhas, parlendas, trava-línguas, estórias, ditos e rimas infantis, cantigas de roda, de ninar, garrafão, tica-tica, esconde-esconde, touro-passa, perna de pau, pé de quenga, cama de gato, bafo, galamarte, pau de sebo, gato no pote, dentre outras brincadeiras.

O brinquedo, ponte para o imaginário, era um meio de exercitar a imaginação, a memória, a convivência, a autoria. Momento de deixar fluir a fantasia, externar as emoções, as criações, experimentar papéis, ensaiar para a vida adulta, amadurecer.

Quem não ocupou um dia o lugar de “Senhor” ou de “escravo”, na brincadeira de “Boca de forno”?
- Boca de forno?
- Forno!
- Tirando bolo?
- Bolo!
- Jacarandá?
- Dá!
- Quando eu mandar?
- Vou!
- E se não for?
- Apanha!
- Remandinha, remandinha mandou dizer que [...].

Saíamos correndo numa desabalada carreira para cumprir o que fora ordenado: dar um abraço, cumprimentar ou dar um grito na porta de alguém, trazer uma flor ou outra coisa qualquer. Aquele que, cumprida a determinação, chegasse primeiro, era o próximo mestre, já quem chegasse por último levava “bolos” (tapas) nas mãos. Esses “bolos” variavam de intensidade: quente (bolos fortes), morno (bolos médios) e frio (bolos leves). Havia ainda os bolos de passarinho (pequeno beliscão, beliscão fino). De pai (bolo forte) e de mãe (bolo leve).

Quem um dia não foi “Senhora”, rica e poderosa: “Eu sou rica, rica, rica de mavé, mavé, mavé, eu sou rica, rica, rica de mavé gepê [...]”. “Senhora D. Sanja, coberta de ouro e prata, descubra o seu rosto quero ver a sua cara [...]”. Mãe dedicada e zelosa: “Eu não dou as minhas filhas, no estado em que elas estão, nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de Alazão [...]”.
Virtudes de honra, lealdade e obediência às regras eram valorizadas nessas brincadeiras com um detalhe: pobres e ricos, brincávamos todos em condições de igualdade. Os papéis eram trocados à medida que a brincadeira ia avançando.

COSTA, Tânia et al. Brinquedos e brincadeiras populares: Identidade e memória. 2. ed. Natal: IFRN 2010.

6 Comentários

  1. Flávio José
    2 de maio de 2010

    O texto me convida a relembrar meus verdes anos. Tive uma infância muito feliz e brincava com estes mesmos instrumentos, com excessão da cabeça de lagosta. Mas, vejo com preocupação os brinquedos e as brincadeiras da atualidade. Os jogos virtuais me incomoda, a violência simbólica das armas de plástico me assuta. Concordo que não teremos a infãncia do passado para nossos filhos, mas precisamos repensar os novos brinquedos e as novas formas de brincar. Fico aqui esperando a continuação do texto.

  2. João da Mata
    2 de maio de 2010

    Adorei Tania,

    Não conheço esse livro que voce participa. Vou procurar
    Brinquei com a maioria desses brinquedos.
    Voce ja foi ver o Museu de Brinquedos na Cidade Alta?
    Em Fortaleza vi uma bela exposição com esse brinquedos.
    Voce ja brincou de onça? Se nao conhece, eu ensino.
    E dedola? brincava com minhas irmãs

    E o cavalo ou bila do jogo de bilocas.

    E o dinheiro com notas de carteira de cigarros

    Espelhos

    Vamos brincar

  3. Tânia Costa
    3 de maio de 2010

    João da Mata,

    Na primeira edição do livro, tivemos uma tiragem extra de apenas 500 livros disponibilizados para venda. Talvez ainda exista alguns na livraria Poty, Cooperativa Cultural e Sebo Vermelho.
    Tanto a pesquisa quanto o livro foram realizados com recursos em parceria com o Ministério da Cultura. Assim, o mesmo (1. ed.), conforme edital foi disponibilizado para as escolas públicas do Estado. Em sua segunda edição que está para sair esta semana, não contaremos com livros para venda. Mas, como cada pesquisador tem a sua cota, pode contar desde já com o seu. Fico te devendo, só entregarei pessoalmente.
    Nesta segunda edição foram acrescentadas brincadeiras que não constam na edição anterior. Inclusive muitas brincadeiras com a biloca ou bila
    Quanto à exposição referida por você no Campus Avançado da Cidade Alta (IFRN) fomos nós, pesquisadores do NECLI-IFRN (Núcleo de Estudos Culturais da Ludicidade Infantil) que montamos a mesma. Todo o acervo foi adquirido ou reconstruído durante a pesquisa. A intenção é participar de editais para a instalação de um museu do brinquedo (interativo) aberto à comunidade. Isto para breve. Quanto as brincadeiras: bila ou biloca, dinheiro de notas de carteira de cigarro e onça, referidas por você constam no livro. Dedola? Espelho? Fiquei na dúvida (o que é exatamente?).
    PS: Quando vamos marcar de novo para ir no Fabrício? Espero não furar dessa vez.

  4. danny
    3 de maio de 2010

    Está muito otimo isso que tenham postado, pois mostram como as criancas de antigamente brincavam e o que elas usavam para brincar. Outra coisa que queria saber mais o que é galamarte, uma busca mais detalhada sobre esse brinquedo antigo.
    Muito obrigado!

  5. Lunardo
    3 de maio de 2010

    Muito bom Tânia!
    Eu pelo menos tinha certeza que seria empresário do ramo de transportes coletivos ou motorista de ônibus…
    Quando criança eu era o próprio dono dos ônibus.
    Tinha uma verdadeira frota. Tudo feito com lata de óleo, lata de leite, aspas (material usado para prender embalagens), cabos de vassoura, pregos, dentre outros…
    Inventava até o itinerário pelo quintal de casa.

  6. Solange
    6 de maio de 2010

    Tania !!!!
    Eu voltei no tempo, e foi tão bom reviver aqula magia que faz a vida boa, como podeira ser todos os momentos da vida.
    A maturidade nos traz de volta a nossa meninice e faz de todos nós verdadeiramente seres humanos: Razão e emoção harmoniosamente equilibrados.
    Obrigada por tudo!!!
    Solange

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AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”