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A Academia chega aos oitenta anos – I

letras

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” (Fernando Pessoa)

O tempo é inexorável. Mudanças e transformações se apresentam. Faz-se e se refaz o mundo. Essencial é manter-se fazendo e criando em nosso redor. Criar é antes pensar e é ser, viver em essência. Viver requer ação prática, por evidente. Ação requer planos para a perpetuação do fazer, da obra. Tudo gira, enfim. Tudo gira. Acontece que portas se fecham e se abrem enquanto o mundo e a mente humana descrevem suas circunvoluções e as Superluas se posicionam sobre os nossos olhares curiosos que se jogam à escuridão da noite em busca do sanguíneo e sensual satélite a nos advertir sobre as nossas ancestralidades, nossas antiguidades e nossas possibilidades – limitadas ou nem tanto.

A ideia da imortalidade – ou o apreço à mesma – como maneira de desafiar a mais poderosa e indesejada personagem antagonista, está sempre sendo cultivada na mente humana. Daí porque os seus símbolos fortíssimos se mantêm, firmando-se psíquica e culturalmente. Em indivíduos e em coletividades, em grupos que almejam essa espécie de “perpetuação”. As academias de letras do mundo ocidental são assim. No mundo todo e aqui. São assim. Simbolizam vida eterna – muito mais da obra do que do homem ou da mulher que tomam assento nessa espécie de templo intelectual, associação, corporação, confraria, ou como mais se entenda sobre sua natureza.

Não sou dos que torcem o nariz para as academias. Ao contrário. Antes, percebo-as com a naturalidade e o respeito de quem compreende a importância das instituições como alicerces das sociedades organizadas e enraizadas sob aspectos civilizatórios que se buscam perenes. As academias, em si, não são boas e nem más. Bons ou maus são os homens e mulheres que eventualmente as compõem. Ali o que se mede são as biografias pessoais e as obras. É assim que deve ser, para que se mantenha a regra basilar do jogo. O jogo da arte literária e da história pessoal, medindo-se como isso pode contribuir com a posteridade, com a memória humana. Ora, os maiores beneficiários que uma arregimentação de homens e mulheres podem ter são os homens e mulheres das gerações que lhes são contemporâneas e daquelas que estão por vir. Em suma: um lugar individual ocupado num ambiente coletivo como uma academia de letras deve sempre trazer o que há de elevado, digno e essencial à edificação de uma sociedade plural e emancipada.

Percebo e presencio a realidade da nossa brava Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, que chegou aos 80 anos no recente 14 de novembro. Cada vez mais se direciona (e os seus membros) no rumo da luz (“Ad lucem versus”) e do entrosamento com a sociedade culta e com os mais profundos valores da arte literária.

Em evento comemorativo ao octogésimo aniversário, o Presidente Diógenes da Cunha Lima descreveu as muitas realizações e metas, lançamentos sequenciados e contínuos da “Revista da Academia”, capitaneada pelo acadêmico Manoel Onofre Júnior e pelo sócio benemérito Thiago Gonzaga, com outros projetos diversos sendo tocados, anunciando ainda os merecedores das “palmas acadêmicas” e da nova comenda da entidade – em entrosamento da arte literária com a arte jornalística, homenageando-se o imortal e saudoso jornalista Agnelo Alves.

Também têm sido anunciados intercâmbios literários que servirão aos autores e a todos os amantes das Letras. Evidente que haverá sólido componente didático-pedagógico, com o chamamento das escolas. E é claro que isso tudo se aperfeiçoará. Há até a possibilidade da criação de um pequeno memorial ou acervo que homenageie os patronos e acadêmicos. Uma ótima fonte de informações sobre essa espécie de acervo vivo é o livro do acadêmico Jurandyr Navarro intitulado “Memoriais Natalenses” (Offset Editora, 2016). Essa obra passeia por vinte e um Memoriais existentes na Cidade dos Reis, mostrando-nos que são muitos os modelos existentes para a realização do desiderato que ora se relembra. A Academia e todos os patronos e acadêmicos são merecedores desse retrato histórico.

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Lívio Oliveira

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