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A Academia chega aos 80 anos – II

vintage books and a cup of coffee

“Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros” – Jean-Paul Sartre, in As Palavras

No último domingo, às vésperas de um feriado municipal em que teria mesmo que trabalhar, decidi me embrenhar por entre livros e itens dos meus alfarrábios guardados, pequenas relíquias colecionadas entre pastas e em gavetas ancestrais.

Numa dessas pequenas viagens em torno dos meus papéis, encontrei um documento valiosíssimo para mim: um diploma. Não um diploma burocrático qualquer, desses que poderiam compor um chatíssimo curriculum vitae (aqui vale lembrar que o Mestre Sanderson Negreiros já nos avisou numa de suas crônicas deliciosas: “Irmãos, desmoralizemos definitivamente o curriculum vitae”).

Repito que não trato aqui de um diploma burocrático, antipaticamente curricular. É um diploma de sonho, sim. Retrata algo que aconteceu há trinta e um anos e se passou exatamente na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, quando a entidade octogenária sequer havia chegado ao seu primeiro cinquentenário. E eu explico adiante o sentido da emoção por essa lembrança.

Entre os dias 06 a 10 de maio de 1985 eu conheci, naquela Academia, um senhor, um grande escritor brasileiro chamado João Guimarães Rosa. Claro que não foi pessoalmente (Rosa faleceu em 1967), mas foi intenso, profundo. No ambiente da nossa Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o escritor de Cordisburgo/Minas, passeava com desenvoltura diante dos olhos imaginativos daquele adolescente de dezesseis anos incompletos. Outros escritores falavam sobre ele e faziam sua anatomia intelectual e humana através da exploração de temas como Rosa, o bruxo da linguagem, O Regional e o universal em Guimarães Rosa, Guimarães Rosa, o homem, O epos da narrativa rosiana, Deus e o Diabo em Guimarães Rosa.

A cada palavra dos escritores, os palestrantes daquela semana, eu percebia e entendia as muitas facetas do escritor colossal que foi Guimarães Rosa. E também compreendia melhor o papel daquela Academia que nos brindava (havia muitos estudantes no recinto) com o projeto Academia para os Jovens, que ainda existe altaneiro e cheio de brilho e que, certamente, será ampliado e ganhará novo colorido nos próximos anos.

livio-oliveira_a-academia-chega-aos-oitenta-anos-ii_Esse diploma, datado de 10 de maio de 1985, assinado pelo Presidente Diógenes da Cunha Lima, eu o guardo comigo como quem guarda um relógio Patek Philippe de ouro. Exagero? Nenhum! Nenhum mesmo! É porque ele simboliza vários aspectos importantes da minha vida. Por exemplo, o fato de que sempre amei os livros e os autores. Também, que desde cedo alimentei desejo intenso de fazer parte do mundo dos escritores. E a Academia, já naquela época, oferecia nutrientes para isso, fazendo-me conhecer o maior autor – em língua portuguesa – no terreno da prosa (Grande Sertão: Veredas e Sagarana serão sempre as obras máximas, em prosa, para mim).

Voltando a 2016, destaco que presenciei o Cônego José Mário de Medeiros e o Padre João Medeiros Filho (ambos ilustres acadêmicos da ANRL) celebrando missa (tornando célebre a data e o acontecimento, como lembrado pelo Cônego) na manhã do aniversário de oitenta anos da Academia. Naquele dia cheio de sol, tivemos os presentes a felicidade de ouvir, além das palavras firmes e precisas do Cônego José Mário, uma homilia belíssima proferida pelo Padre João Medeiros. Nela se mostrou revelado, mais uma vez e brilhantemente, o real sentido da palavra literária, corolário preciso da palavra de Deus.  Assim disse o sábio Padre, numa passagem poético-teológica que nos trouxe a lume verdades inegáveis: “É importante dizer que a literatura constitui uma forma de oração, sendo uma experiência mística. Ela ultrapassa os limites das palavras, por isso o Verbo quis concretizar-se em livro, ou seja, literatura em plenitude”. E foi exatamente essa certeza que adquiri, inicialmente, naquela semana de 1985 e que guardarei comigo até o meu derradeiro dia sobre a Terra.

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Lívio Oliveira

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