Crônicas e Artigos

A Academia chega aos oitenta anos – III

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“Duas tarefas dificílimas: ensinar e escrever. Sem falar do ‘ofício de viver’, ainda mais difícil.” (Norberto Bobbio, in “O Tempo da Memória”)

O amor pela beleza e pela palavra impulsiona a arte literária, é fator que mobiliza o escritor. Também, anjos e demônios íntimos e aspectos diversos da exterioridade dos fatos ocasionam a busca da palavra escrita. O papel do escritor se apresenta e se eleva à medida em que combina esses itens todos da receita, de maneira apropriada e condigna artisticamente, realizando obra que valha o nome. O escritor, nesse contexto, afirma-se e permanece se souber bem lidar com todos esses ingredientes servidos à grande mesa das palavras, essas com sentido estético, humanístico, em seara aprofundada e valiosa.

Os que compõem e os que buscam compor uma Academia de Letras certamente possuem noção precisa acerca da realidade acima descrita. A dupla realidade que se impõe: essencial é que se ame a arte, essencial é que se ame a palavra. E que se busque trabalhar com a arte e com a palavra de maneira meticulosa, responsável, edificante artisticamente. Imprescindível que o escritor (ou o que almeja chegar a tal condição) empregue todos os seus tesouros intelectuais em busca das melhores palavras e da plenitude e do prazer do texto (lembre-se de Roland Barthes), que se pretende ver aceito como peça artística a compor, com alguma dignidade, o mundo cultural e do intelecto. Sem que tudo isso se efetive, não haverá sentido no fazer. Afinal de contas, não se pretende e não se aceita que o escritor seja um mero burocrata das letras, meramente as associando sem que lhes dê vida e essência. Não é fácil, portanto, o ofício do escritor. Não é fácil e há até aqueles que nem se encorajam a tentar. Ou tentam e não conseguem. Mas também não é fácil viver. E aí não tem mesmo jeito. Diferente da arte de escrever, da qual se pode desistir (e às vezes até se deve), quanto à vida, é sempre válido persistir.

As Academias de Letras são lugares dos que insistem, persistem e conseguem obter das palavras a essência em beleza. A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras tem nos dado grandes exemplos de homens e mulheres (há um verdadeiro pioneirismo da ANRL quanto à inserção das mulheres em suas cadeiras) que abrilhantaram e abrilhantam os lugares ocupados no passado e no presente. Tenho à mão um interessantíssimo livro de Pedro Salinas. Chama-se “La Responsabilidad del Escritor”, publicado pela Seix Barral em Barcelona, Espanha. Passo umas folhas e começo a recordar os grandes nomes da nossa Academia, os que souberam e os que sabem lidar artisticamente com as palavras. Uma passagem me chama atenção: “Al escritor, al artista, hay que dejarlo em paz. Por la sencilla razón de que él tiene ya movida, desde que nace, su própria guerra dentro, y há de atenderla.” Reflito. E percebo. De fato, há que se respeitar o escritor em sua condição mais íntima, de desbravador, de guerreiro, conquistador das palavras, traduzindo sentidos e instantes, fazendo ARTE.

Arte elevada é a primeira das responsabilidades do escritor. É o que dele deve se exigir: essa espécie de amor. A história de nossa Academia está repleta desses seres que sabem e souberam amar a palavra artística, bastando, para confirmar isso, dedicar-se à leitura de estudos e obras sobre a ANRL. Por enquanto cito os seguintes, para exemplificar: “Patronos e Acadêmicos” (Veríssimo de Melo, Pongetti,1972, 02 volumes); “Na Companhia dos Imortais” (Armando Negreiros, Natal, AS Editores, 2003); “Academia Norte-Rio-Grandense de Letras – Ontem, hoje e sempre – 70 anos rumo à luz” (José Soares Júnior, ANRL, 2007, 02 volumes). Também destaco que na segunda edição, revista e aumentada, do livro “Alguma Prata da Casa”, do acadêmico Manoel Onofre Júnior, há excelentes páginas com “perfis acadêmicos”. Já se tem notícia, também, acerca de futura e próxima publicação de obra que está sendo escrita pela acadêmica Leide Câmara. Aguardamos essa obra, com ansiedade, para a ampliação de dados e informações acerca dos nossos patronos e acadêmicos, artistas da palavra que se imortaliza, avança em perenidade.

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