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A Academia chega aos oitenta anos – IV

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“Queremos registrar apenas aquilo que edifique.” (Veríssimo de Melo, no texto introdutório de “Patronos e Acadêmicos”, volume I, ed. Pongetti, RJ, 1972).

No início daquela semana em que o Brasil e o mundo perderam o colossal poeta Ferreira Gullar, andei buscando respostas às íntimas indagações que me invadiram: Por quais razões sou um apaixonado pelos livros? E esse prazer pela leitura? De onde surge a minha necessidade de sempre escrever? Meti-me, então, entre alguns dos melhores autores, em minha biblioteca; inclusive, entre obras do próprio Gullar, em pesquisa sôfrega para a obtenção de alguma resposta válida que me trouxesse alento e calma. Naquele ambiente, mergulhei de cabeça à procura das palavras de aclaramento.

Foi folheando – mais uma vez, dentre muitas – “A Biblioteca e seus Habitantes”, obra-monumento do saudosíssimo Américo de Oliveira Costa, que me deparei com esse trecho, que talvez explique razoavelmente o sentido da entrega ao exercício da leitura e da escrita de livros: “Com uma unção quase religiosa foi que o maltratado Maquiavel penetrou, igualmente, o nobre sentido, a exata, a pura verdade dos livros. Eis uma passagem de carta sua a um amigo: ‘À tardinha, volto para casa e vou para a minha biblioteca; deixo à porta as roupas poeirentas que usei durante o dia, e visto-me decentemente antes de ingressar no recinto dos homens do passado. Eles me acolhem com bondade, e com eles me nutro do alimento que me é próprio e para o qual fui feito. Tenho a ousadia de a eles dirigir-me e de perguntar-lhes as razões por que agiram desta ou daquela forma. São boas almas e, em regra, respondem. Assim, por muitas horas, estou livre de aborrecimentos, esqueço todas as minhas dificuldades, domino o medo da pobreza e o horror da morte.’ ”

Acreditei, naquele momento, ter obtido algumas evidências acerca das raízes da paixão pelo livro e pela escrita. É que a palavra escrita é móvel da própria vida. Assim como o sábio florentino Niccolò dominava os seus medos e horrores, entregando-se à companhia dos antigos que lhe exibiam caminhos de luz, também o fiz naquele dia em que o poeta maranhense partiu. Também permaneço fazendo tal esforço da coragem e da luta, neste mundo cheio de perigos e riscos, armadilhas por desfazer.

Como o próprio Gullar insistia num dos seus poemas mais célebres: “Uma parte de mim é só vertigem;/outra parte, /linguagem.” A linguagem dos livros e dos homens e mulheres que já foram e também a presença dos que estão vivos e que compartilham os seus saberes e esse sentimento em torno da memória e do sonho eternizado em palavras. Disso é que falo aqui. É isso que me faz nutrir amor pelos livros. Esse tipo de amor digno e elevado que sempre vi sendo cultivado num templo literário – que se mantém ereto e firme através do tempo – como é a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

O sentido que se busca é o da palavra perene. É a palavra dos livros e dos seus autores. O sentido do eterno é mesmo o que vale quando estamos entre os livros e nos banhando de palavras dos antigos e dos atuais escritores, os que produziram e produzem arte verdadeira. O essencial é procurar as palavras que nos possam fazer altivos, na companhia dos que também as amam. São assim os que engrandeceram e os que engrandecem a Casa Manoel Rodrigues de Melo, edificação do saber e da convivência entre pares ilustrados, edificadores.

Josué Montello já afirmava acerca da ABL, no livro intitulado “Uma palavra depois de outra” (Instituto Nacional do Livro, RJ, 1969): “A Academia é uma instituição vitalícia. Quem ali ingressa, ingressa para o resto da vida.” E é mesmo assim com todos os verdadeiramente apaixonados pelo livro e pela palavra escrita. É porque a relação de amor não cessa nunca. É por toda a vida.

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Lívio Oliveira

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