Acerca de alguns dispersos de Edgar Barbosa

13 de abril de 2010 às 18:30 - Comentar
Por Nelson Patriota

Jornalistas e escritores costumam deixar atrás de si, com o passar dos anos, amiúde inadvertidamente, um volumoso acervo daquilo que comumente é designado por “esparsos e dispersos”. São textos que, por algum motivo, ficaram como que esquecidos pelo autor, ou à espera de uma oportunidade para publicação que não aconteceu. Às vezes é necessário o esforço de uma geração posterior para que esses textos saiam do limbo do anonimato.

Diferentemente do ofício do livreiro e do editor, o trabalho do pesquisador de dispersos, que inclui também a preparação de texto, tem um sério óbice: a defasagem, haja vista que se ocupa de escritos que foram destinados a um público já deixado para trás. Trata-se, portanto, de um trabalho que só encontra justificativa na expectativa de que o acervo em organização ultrapasse, em virtude de suas qualidades intrínsecas, como estilo, temática, informação de primeira mão, os umbrais da sua época e desperte o interesse de novos leitores.

A trajetória de cronista do escritor Luís da Câmara Cascudo é um bom exemplo desse fenômeno, na medida em que permanece um desafio que, até hoje, não foi devidamente equacionado pelas diversas instituições culturais do Estado. É louvável, nesse aspecto, o esforço que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, através do seu presidente, o escritor Enélio Petrovich, vem fazendo junto à Editora da UFRN, ao Sebo Vermelho e outros, para dar conta do projeto serial “O Livro das Velhas Figuras”, reunindo as centenas de Actas diurnas que Cascudo deixou na imprensa potiguar.

O trabalho solitário e incansável do escritor Jurandy Navarro na recuperação da obra relegada pelo padre Luiz Monte é outro exemplo que vem se traduzindo em resultados que totalizam, até agora, dez volumes. Esse número, porém, ainda é parcial e deve ganhar um acréscimo ainda este ano.

Edgar Barbosa também se presta a exemplificar essa condição de autor de “dispersos e esparsos” que convidam à publicação. Sua longa passagem pelo jornal A República, em fins dos anos 1920, enveredando pelas três décadas seguintes, e abrindo-se numa estreita colaboração com outros veículos da nossa imprensa, tipifica bem tal condição. São dezenas de centenas de textos – crônicas, artigos, notas, críticas, observações das mais várias espécies – que permanecem em boa parte inédita.

Uma fração desse acervo, no qual sobressaem perfis de intelectuais norte-rio-grandenses, o próprio Edgar Barbosa se encarregou de selecionar e publicar, sob o título de Imagens do Tempo, em 1966, através da Imprensa Universitária da UFRN.

Uma outra fornada de inéditos seus compõe o  livro “Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa – Volume 1 (1927-1938”, que tivemos a missão de organizar e que foi lançado pela editora da UFRN, dias atrás, num evento acadêmico.

A edição teve uma acolhida favorável, entre outros, por parte do jornalista Woden Madruga, o qual, em pelo menos três datas de seu “Jornal de WM”, além de reiterar a excelência da prosa barbosiana, se demorou longamente na figura da vaporosa e elusiva Didi da Câmara, poetisa que foi objeto de uma crônica do ensaísta ceará-mirinense, mas cuja identidade e respectiva obra permanecem envoltas em instigante nebulosa.

Em sua Cena Urbana do dia 1º deste mês, o jornalista Vicente Serejo entendeu que a edição que organizamos para a Editora da UFRN seria uma reedição, sob outro nome, de Imagens do Tempo. Esclarecemos que se trata de obras diferentes. O livro organizado por Edgar Barbosa reúne textos que ele publicou na última fase de sua participação em A República, isto é, no período compreendido entre 1947 a 1957; o nosso, remonta aos anos de 1927 a 1938.

Por fim, adiantamos que a edição de Artigos e Crônicas de Edgar Barbosa deverá ser acompanhada de um segundo volume, a sair ainda este ano, conforme projeto aprovado pela direção da Edufrn.

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”