CONTO: Acuado na Ribeira, de Juliano Freire

Juliano Freire
DestaqueLiteratura

Um calor de rachar cabeça de galo de campina na velha Ribeira, naquela quarta-feira de setembro de 1943. Malvado, o Sol do meio dia lançava raios danosos com fúria e precisão, em um antigo casario na rua Chile. Do chão de madeira saía um mormaço nauseante para qualquer pessoa. Finas rotas de luz solar escapavam pelo teto, repleto de vazamentos.

Dentro de um daqueles prédios centenários, testemunhas de um Rio Grande do Norte província, estava Mário Montelli, figura querida nos saraus culturais natalenses, nos quais em várias noites, desde a metade final dos anos 1930, recitava trechos de Alighieri, Lampedusa e Pirandello.

Antes de fixar residência, ele esteve na cidade em algumas ocasiões, para participar de gestões do ministro da Aeronáutica de Benito Mussolini, Ítalo Balbo, doador de uma coluna Capitolina à cidade brasileira.

Comerciante disfarçado, o siciliano era um fascista convicto. Vestiu a camisa preta desde que os seguidores de Mussolini tomaram o poder do Partido Fascista.

Três anos depois, o adolescente foi um dos 50 mil partidários do Duce na longa marcha, quando, pressionado, o rei Vítor Emanuel III convidou o líder extremista para formar o novo ministério.

Montelli era sobrinho de um deputado da Câmara Fascista. Era um homem de luta, descendente de sicilianos que se proclamaram independentes dos Bourbon, em 1848.  Crescido e homem feito, integrara uma das Milícias de Voluntários para a Segurança Nacional, criadas pelo ditador.

Ele vibrou com o assassinato de Giacomo Matteoti, deputado socialista denunciante da violência dos camisas pretas. Conhecidos integravam um esquadie responsável pela tortura e morte do político antifascista.

Fumava inveteradamente e, àquela altura, acuado pelo calor e algozes no bairro mais badalado da capital potiguar, Montelli tinha um cigarro amassado no canto esquerdo da boca, único ombro amigo na aflição.

Desabotoara a jaqueta com esforço, após horas sem comer, dormir ou respirar com tranquilidade. Seguia de moral elevado.

Tudo valeria aquele sacrifício, se os ideais que defendia, junto a milhões de italianos e alemães, triunfassem, espalhando o nacionalismo social pelo mundo. Daqui uns anos, quem sabe não governaria aquela província brasileira, com todos os chacais que o perseguiam sob suas ordens?

Aquele setembro era amargo. Havia dois meses, os aliados desembarcavam na Sicília. Logo depois, bombardearam Roma. Naquele fim de setembro, Mussolini governava apenas um pedaço do Norte do país. Hitler ordenara seu resgate por um comando alemão com o que restava de melhor na SS, em um hotel nos Apeninos.

O espião lamentava a queda do ditador, quando a Rádio de Roma propalou ao mundo a debacle do regime. Redutos fascistas foram incendiados. Montelli lamentou não poder reagir a tal desordem. Mataria oposicionistas com socos e pontapés. Mas, naquele instante, mal garantia o próprio pescoço.

No mês seguinte, tropas anglo-americanas conquistavam sua ilha natal em definitivo. Amaldiçoava o marechal Pietro Badoglio, cúmplice na queda de Mussolini e autor do armistício com o general Eisenhower. O ex-poeta, venerado por natalenses até poucos dias, ouvira os fatos por um receptor de ondas curtas. Os termos da rendição italiana foi no Quartel de Cassibili, na Sicília, terra profanada com o ato aviltante.

*****

acuado-na-ribeira_by-hypnotic-loveMontelli não se perguntava o motivo de ainda combater ou espionar para um governo em escombros. Ali, no casarão da Ribeira, entre pausas de gritos e atritos das botas dos perseguidores, relembrava das poucas vezes em que viu o Duce chegar a Villa Torlonia, residência oficial do líder.

O destino negou a brecha para conhecer de perto o homem pelo qual lutava. Achava que a sorte fugia do líder italiano por escassez de homens de fibra, ao contrário de Hitler. Somente a lealdade hitlerista poderia dar algum fio de esperança aos companheiros de ideais da península. Se desistisse das armas pelo Duce, pegá-la-ias pelo Führer.

Sei tutti, maledetti per sempre”, praguejava, enquanto a mão tremida segurava uma Luger carregada. Ajeitava outros três cartuchos dentro da jaqueta de brim, puída e marrom, que vestia há mais de três dias. Havia sido delatado por um dono de restaurante na Cidade Alta, onde comia spaghetti ao molho de pomarola e manjericão todo o dia.

Ali, apesar do infortúnio, trazia no bolso uma pequena garrafa de chianti, produzido em uma vinícola na aldeia em que nasceu.

Montelli dava baforadas nervosas. A mão trêmula apontava a arma para o teto do casarão abandonado. A última família a morar na casa de primeiro andar havia saído do local há uma semana.

De longe, ouvia vozes: “Signore Montelli, Signore Montelli”. Eram membros da Força Pública do Governo, sargentos e oficiais do Exército aos gritos, numa autêntica caçada. Achava que o encontrariam rápido.

Imaginava o interrogatório na Base Americana, instalada em Parnamirim, aonde diariamente chegavam centenas de aeronaves, a maioria bombardeiros.

Até o momento, tinha monitorado e informado outras células de espionagem do Eixo. Tinha informações privilegiadas da costa nordestina. Isso deveria chegar aos QG’s alemães e italianos do Norte da África.

Montelli acreditava que Hitler atacaria o nordeste brasileiro, tendo Natal como centro, pela condição geográfica.

Ele nunca tinha sido interceptado por contraespiões americanos. Trabalhava numa rede com outros cinco paesani, fiéis até a medula ao Duce.

Recebera altos oficiais fascistas em Natal, geralmente, em jantares rápidos, cheios de códigos e frases curtas, repassados em detalhes aos superiores.

Até aquela quarta-feira, ninguém em Natal suspeitava do papel duplo do italiano, frequentador dos lares mais tradicionais da cidade. Considerado um partidão por patriarcas e mães de donzelas, postadas feito sentinelas nas varandas e janelas da cidade, Montelli passava curtas temporadas em cidades mais afastadas, como Caicó, para onde viajava em companhia de patrícios de quem omitia a vida clandestina.

Por vezes, ia ao litoral, às praias de difícil acesso, montado em cavalo ou lombo de jumento.

*****

acuado-na-ribeira_10Sentado no assoalho de madeira empoeirado, sufocava um espirro com as mãos e controlava o fôlego para não disparar uma crise asmática. Os gritos acercavam o acuado. Arrastava as pantufas, agitadamente, fazendo riscos no chão. Conseguir sair dali seria um prêmio.

O mais interessante é que ele desconhecia os demais integrantes da célula. Mas todos os agentes alemães, como Johann Farber, o mais importante deles, eram conhecidos e trocavam informações constantes.

O trabalho para o Eixo iniciara em novembro de 1939. Informações capturadas por Montelli teriam sido úteis para o afundamento de diversos cargueiros brasileiros, uruguaios e argentinos. Muitos marujos e civis pereceram por causa do material transmitido por Montelli e parceiros.

De público, o siciliano dizia-se antipatizante e inimigo do Duce e do Führer. “Due farabutti, criminosi”, acusava em praça pública, sob aplausos. Juntava-se a gente como Câmara Cascudo e Manoel Rodrigues de Mello em manifestações pela democracia.

Na visão da persona pública e impostora de Montelli, o Integralismo, versão tupiniquim dos movimentos ultradireitistas europeus, era um mal à sociedade.

Anos depois, elogiava os dois intelectuais publicamente, sempre participando de eventos culturais com expoentes da cultura local.

Com apoio de Cascudo e Manoel Rodrigues, o italiano lançou dois livros de poesias, em que exalta a democracia e a Itália de Cavour e Garibaldi.

Em seu quarto de pensão, entre a Cidade Alta e Ribeira, havia armas, bigodes postiços, mapas e dicionários de alemão, português e italiano. Tornara-se fluente nos idiomas germânico e lusitano, quase sem sotaque.

Estava em pé, encostado na parede. Um punhado de homens de armas em punho parou em frente ao casarão azul e branco. Entre os civis desarmados, alguns membros da França Livre, que em Natal possuía fervorosos apoiadores do ideário do general Charles De Gaulle.

Thierry, Debrais, Corjean, De Mullét, Bartélemy e Alain eram alguns dos cognomes utilizados por simpatizantes que agora iam à forra, aproveitando a caçada ao stranieri empreendida por militares e policiais brasileiros.

Os perseguidores agitavam os punhos para o alto, como que pedindo sua cabeça. “Morte ao forasteiro”, “Queremos o quengo do espião”, vociferavam. Na rua Chile, fora o pessoal do comércio, devia ter uns 50 civis armados e mobilizados para a caçada.

Montelli olhou para todos os cantos da casa. Tentava ordenar o raciocínio, atrapalhado pelo suor cruel.

O capitão do Exército, Cleodomiro Cruz e Mello, comandante da operação, simulava um megafone com as mãos. Ele soltou a todos pulmões: “Entregue-se, senhor Montelli, não pretendemos matá-lo, mas se houver resistência teremos de usar a força”. O quepe impecável na cabeça achatada e morena escondia a calvície na fronte.

Fa van cullo, persone de merda”, falava baixo o italiano. Pela janela, brechou o entra e sai de soldados e civis das casas vizinhas. Restava apenas seu refúgio. Começou a buscar rotas de fuga. Arrastou seu 1,90m com dificuldade, a perna direita dolorida pelo esforço de escapar por mais de dois dias, desde a denuncia do dono do restaurante.

Emagrecido, Montelli tinha a pistola à frente como batedora. Ele alcançou o quarto dos fundos e abrir a janela. A casa tinha um terraço, com vista para o Rio Potengi. Pulou pela janela e por sorte não se cortou, após ter a queda amortecida por um caixote de madeira podre e caixas de papelão cheias de lixo e garrafas de aguardente.

Um cabo da Força Pública, branquelo e careca, alcançara a janela e, certo da vitória, apontou a Colt em sua direção.

Montado no parapeito de alvenaria, Montelli foi mais rápido e acertou o policial brasileiro. Uma bala zuniu acima de sua orelha esquerda. Escutou o berreiro do guarda, e sentiu a dor do tiro como se fosse nele. Viu o corpo do perseguidor ser jogado para trás.

*****

acuado-na-ribeira_foto-da-revista-life-realizada-em-fins-de-1941-ou-no-inicio-de-1942

Montelli mancava ainda mais. Um pequeno grupo descera pela janela onde o cabo foi baleado. O restante arrodeou para pegar o fugitivo pelo outro lado. Montelli corria em direção ao porto.

No caminho entre os fundos da casa e o porto, Sabino Ferrara corria ao seu encontro. Era um jovem farmacêutico de cabelos lisos e rebaixados, tão transtornado quanto o compatriota, que oferecia ajuda.

Mário Montelli estranhou, mas aceitou.  Não havia tempo para diálogos. Ferrara o apoiou no ombro e o conduziu até uma viela. Há poucos meses no Brasil, Ferrara tinha um forte sotaque. Entrou no salão de um amigo barbeiro e pediu que atendesse o amigo perseguido.

O brasileiro mestiço, baixinho e magro, se espantou, mas mandou o italiano sentar. Ele pegou uma navalha e preparou a espuma de barbear.

Ferrara avisou que passaria em seu laboratório de análises clínicas, perto dali. Nesse ínterim, despistou vários policiais espalhados por outros pontos do bairro.

Ao voltar à acanhada barbearia, Ferrara trouxe uma maleta de médico e entregou uma nota de US$ 10,00 ao brasileiro. Montelli estava barbeardo e segurava um pequeno pano sobre um pequeno corte no queixo. Ferrara entregou os óculos escuros.

Dove stai il mapa?”  – indagou o italiano, ciente da ajuda que o farmacêutico daria em sua fuga.

Os planos haviam mudado, pois a aparição de Ferrara foi uma surpresa. O farmacêutico batia a alavanca de um telefone antigo preso à parede e tentava uma ligação. “Aqueles macacos devem ter cortado as linhas. Temos que tirar o senhor daqui”, gritava em direção a Montelli.

*****

acuado-na-ribeira_2Antes de deixar a barbearia, o perseguido sacou a Luger da cintura e disparou contra o barbeiro, no lado do coração. Surpreso, Ferrara deu-lhe um tapa e o empurrou, como se quisesse tirá-lo do local com urgência. “Que mal este poveretto te fez?”, questionou ao fugitivo. “Você queria o quê? Deixar um delator vivo?”, devolvera o ex-poeta.

Eles estavam no jipe do farmacêutico, em um dos flancos do rio. O veículo esverdeado foi abandonado às margens do Potengi. Entraram numa embarcação e deslizaram pelas águas fluviais mais famosas da cidade.

Contornaram a entrada da barra e a Fortaleza dos Reis Magos. Sentado no piso do barco, Montelli dava uns goles no chianti seco. Com um pano limpava a Luger. Procurava não pensar no barbeiro.

Mais nervoso estava o dono do barco, um mulato de boné que conduzia a embarcação gaguejando e rezando baixo.

“Stai ito, figlio d’ una squadra di putani!”, ordenou Montelli, apontando a arma. Queria que o homem flutuasse o barco mais rápido sobre as ondas. Se havia algo refinado e erudito dentro do corpo do fugitivo, tinha ido embora.

Sentado de frente para ele, Ferrara contava dólares. Por que contava tantas notas, se o destino de fuga não era nenhum país anglo-saxônico? Montelli olhou com raiva para o companheiro de fuga.

“Que cara é essa? Por que está me olhando assim, Gattopardo?”, dizia o sorridente farmacêutico, mordendo uma maçã.

Montelli estava com a pistola na mão.  Nem ele sabia que sua denominação era Gattopardo. Geralmente, utilizavam números, nas comunicações da célula. Será que a denominação alusiva ao romance de Lampedusa zombava da origem siciliana? Ou pelo fato de o livro tratar da ascensão da burguesia da ilha?

Era como se o personagem Tancredi repetisse a famosa frase “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. A mudança era justamente tirar Montelli do caminho.

O barqueiro avisou que estavam com problemas. Atracaram em um minúsculo deck, em Ponta Negra, onde um pescador disse que deveria ser coisa simples. Ferrara explicou.

Gattopardo é o nome que lhe demos para auxiliar a sua fuga. Você tem importantes segredos sobre esta área, pontos estratégicos de pouso, depósitos e arsenais, rotas, fontes vitais de abastecimento e pessoas que podem ser arregimentadas aqui para nos ajudar no futuro, quando triunfarmos na guerra e controlarmos a Europa”.

Montelli não deu trela para conversa de Ferrara. Este convocou com um assobio dois homens de camisas brancas e gravatas, parados à beira da praia.

“O senhor prestou grandes serviços a nossa espionagem nesta área, protegendo a fuga de muitos companheiros, evitando assassinatos e que alguns agentes caíssem nas mãos dos americanos instalados em Natale”, continuava o farmacêutico.

*****

acuado-na-ribeira_8Na Ribeira, o grupo comandado por Cruz e Mello chegava à barbearia. Antonino Mendes, o proprietário, estava caído, sangue pelo tórax, mas respirava. O capitão bateu-lhe no rosto, tentando-o despertar.

O tiro de Luger, efetuado por Montelli, acertara o peito de Antonino. Por sorte dele e azar do italiano, a bala estilhaçou o vidro de loção para barba. Pedaços de vidro cravaram no peito do homem, mas a bala teve pouco impacto, pois o frasco era de vidro espesso. Com o crânio apoiado na coxa do oficial brasileiro, o barbeiro disse que ouviu Ferrara falar em Tabatinga.

Cruz e Mello decidiu perseguir os fugitivos pelo litoral. Com o rádio de um soldado telegrafista passou mensagem para o comando norte-americano em Parnamirim Fields, a base área dos aliados, distante quase 20 quilômetros da Ribeira.

Dois caminhões com soldados do Exército brasileiro partiram de locais mais avançados da capital, na região sul. Duas equipes de militares americanos saíram em Jeeps da base aérea e o próprio capitão pegou um barco da Marinha, para alcançar o de Ferrara e Montelli. Três militares armados de metralhadoras o acompanhavam.

Ferrara disse ao agente perseguido:

“Roma entende que você, apesar de tantos feitos, falhou ao não informar as condições de defesas inimigas que contribuíram para o afundamento do submarino Arquimede”.

O ex–poeta, encantador de moçoilas e donzelas natalenses, terminou de mastigar o último pedaço da banana.

“Isto só pode ser um brutto equivoco. Eu informei aos meus superiores que as catalinas estavam na área e prontas para afundar nostros sommergibili”, gesticulava um irado Montelli, misturando vernáculo italiano e o de Camões.

Em abril daquele ano, aeronaves catalinas da base de Parnamirim avistaram um submarino na superfície. Um dos pilotos manteve o curso. A uma milha, o sommergibile Arquimede abriu fogo. O avião iniciou o bombardeio deixando cair duas bombas num ângulo de 45 graus do alvo. Um típico ataque pela ré.

Em um ataque subsequente, outras duas bombas explodiram e o Arquimede rodopiou na superfície, deixando óleo e muita fumaça. A embarcação retomou a marcha em quinze minutos. A belonave estava parcialmente submersa, quando foi iniciado o ataque com quatro bombas de profundidade. Após as explosões, o submarino afundou lentamente, em meio a uma grande mancha de óleo.

*****

acuado-na-ribeira_benito-mussolini-in-rome-june-5-1939 Na superfície, a 115 milhas do arquipélago de Fernando de Noronha, cerca de trinta sobreviventes se debatiam.

“É, mas nosso governo não acredita nisso e disse que você não passou as devidas informações sobre a varredura feita pelos americani, na costa brasiliana, e não enviou mensagens cifradas para o capitão Guido Sacardo, comandante do sommergibili”, retrucava Ferrara, no instante em que os dois homens chegavam.

Os dois italianos musculosos feito gorilas, um louro e outro mais latino, se aproximaram dos homens que discutiam com as metralhadoras já destravadas.

“Parece que o senhor Gattopardo falhou também em relação aos amici tedeschi” – zombou o farmacêutico, cabeça em movimento de auto-aprovação.

“Do que você está falando, porco finocchio?”, perguntava Montelli em tom de desafio. Agentes apontavam armas em sua direção. Decidiu agir friamente e tomou mais um gole do chianti.

Naquela tarde, as ondas de Ponta Negra estavam agitadas. “Estou mencionando, agente Vincenzo di Loredano”. Ferrara provocava chamando Gattopardo pelo nome.

“O U-598 afundado pelos aviões e os Mariners, perto do Cabo de São Roque, a 60 milhas da cittá de Touros, scrittore!”, ironizava Ferrara o intelecto do agente, encurralado entre o barco atracado e o meio da ponte.

“Inclusive Farber é um dos seus principais críticos e colocou tudo no relatório da Gestapo, compartilhado pelos nossos companheiros”.

Para Montelli, fazia sentido a participação de Ferrara, sobretudo como ele apareceu no meio do cerco na Ribeira, auxiliando na fuga e agora armando uma arapuca. Certamente, o também fascista tinha sido enviado pelo serviço secreto italiano para vigiar seus passos e reforçar acusações.

Ferrara devia ser agente da Ovra, polícia secreta de Mussolini, que torturava adversários com a ingestão forçada de óleo de rícino. Tantas vezes Montelli teria apreciado fazer membros da França Livre beber o líquido. Agora, adoraria entornar um tonel contra a goela de Ferrara.

acuado-na-ribeira-9Uma bela donna desceu de um carro fechado, de fabricação americana, de óculos escuro e chapéu negro de feltro, e caminhou em passos apressados em direção ao quarteto. Parecia uma escultura de Michelângelo, de tão beleza e altiva. “Está tudo bem aqui?!”, ela perguntou.

“Pegamos e estamos julgando presto, il signore Gattopardo, Qui veramente é culpabile de moltos crimini e muorti, di paesani e tedeschi da la Krieg Marine”, anunciou Ferrara, beijando formalmente a signorina nos lábios

Questa é mia moglia!” – informou ao desafortunado Montelli.

Marta Giardotti tinha 26 anos e descendia de imigrantes italianos estabelecidos no interior paulista. Trazia uma bolsa, de onde retirou o batom e passou nos lábios.  Montelli viu o instante em que ela tirou uma pequena pistola de seus pertences.

“Dove stanno nostri companieri arrestati per lei militari americani ?”, questionou a mulher, se aproximando do perseguido.

“Só sei que tentamos matar o capitão Baldwin, piloto de um dos Mariners que ajudou a afundar o U-598. Que deveria ter morrido como o capitão Waugh, que ao se aproximar demais para o ataque, teve sua aeronave desequilibrada, que descontrolada caiu no mar. Todos os ocupantes do avião morreram. Com o submarino muito avariado coube ao capitão Gottifried Haltorf ordenar o abandono do sommergibile tedesco. Foram muitas bombas e poucos marinheiros escaparam daquela chuva de bombas e explosões”, relatou, tomando mais um gole de chianti.

“Tentamos forjar uma briga de bar, na Ribeira, para matar Baldwin, mas não conseguimos e depois descartamos um atentado à bomba”.

Marta riu seco e continuou. “Já sabemos de suas falhas, mas onde estão os prisioneiros”. Montelli deu de ombros, ignorando o paradeiro dos homens capturados pelos americanos. Teve acesso a fotos aéreas dos submarinos no momento das explosões, mas desconhecia o destino dos sobreviventes das tripulações.

“Como eu sabia de todos os movimentos da mais de uma centena de U-boats alemães que singravam as águas brasileiras, posso afirmar que minha atuação e a dos demais membros de minha célula, os quais jamais conheci, ajudou a conservar submarinos como o Barbarigo, Calvi e Tozzoli”, defendia-se perante aquele píccolo tribunale fascista.

O motor da embarcação que o levou até o trapiche voltou a funcionar, agora com ronco mais forte. “Acabe logo com isso, Sabino”, ordenou a brasiliana, entre Ferrara e Montelli, caminhando em direção ao barco.

O farmacêutico mandou os gorilas irem para a embarcação pesqueira. “Eu mesmo faço isto, comunicou. Você é pior que um partigiano!”.

*****

acuado-na-ribeira-10Puxou uma Beretta da camisa estilo bata e, de botões abertos, mirou na testa de Montelli. A distância era de três metros. Ferido na cabeça, o corpo do perseguido afundou no mar. Ferrara correu para o barco sem olhar para trás. O pescador que ajudou o barqueiro continuava no interior do meio de transporte marítimo, se é que pode ser chamado assim.

Uma das equipes do exército americano chegou ao local e avançou sobre o trapiche. Com o barco distante 400m, soldados dispararam seus fuzis. Um dos disparos atingiu o pescador auxiliar no peito. Os gorilas jogaram o infeliz no mar.

Ferido na têmpora direita, Montelli engoliu água e com esforço nadou submerso até uma das colunas de madeira que sustentavam o trapiche. Arfante, esperava a fuzilaria parar. Os americanos de capacete e jaquetas grossas demais para uma tarde de sol acertaram o casco do barco, mas não impediram o deslocamento ao extremo sul do litoral potiguar.

“Por sorte não atingiram o motor”, respirava fundo o barqueiro, com as Thompsons apontadas em sua direção. “Calma gente, estou fazendo o melhor que posso”.

“Avante, uomo”,gritava Marta, histérica, retirando as meias-calças.

Empunhando binóculos, o capitão Cruz e Mello enxergava o barco inimigo a dois quilômetros de distância. “Temos que ter mais velocidade, senão aqueles cretinos conseguirão escapar. Mais rápido, mais rápido”, implorava o perseguidor brasileiro para os dois condutores da lancha patrulheira da Marinha.

Mais próximo da beira-mar, embaixo do trapiche, seus braços doloridos enrolavam-se nas estacas, como se fossem pedaços de pão no reino da fome. A desesperança de Montelli se esvanecia à medida que os ianques deixavam a praia. A busca continuaria no mar e a poucas milhas dali aconteceria o desenlace.

Montelli concluia que o retardo do barco no pequeno deck de Ponta Negra foi uma simulação de Ferrara e do barqueiro, para esperar os gorilas e Marta. O farmacêutico deveria ser um agente de patente superior, prestigiado pela cúpula do partido fascista.

A inteligência americana reforçou o patrulhamento na aérea de Tabatinga.

Marta empurrava a embarcação para um lado e dizia mensagens cifradas pelo rádio de comunicação. “Lecce Uno. Lecce Uno”, fone apertado em uma das mãos enluvada. Ferrara ordenou aos gorilas que fossem para a popa do barco. Ele notava a aproximação da lancha da Marinha. Os barcos distavam cinco milhas da costa.

Lecce Due. Lecce Due”, respondera a voz grave no outro lado da linha. Marta saltou para o alto. A estudante de medicina estava em Roma há três anos e tinha sido recrutada pelos agentes do Dulce para retornar ao Brasil, seu país natal. Ela saltitava, comemorando o feito. O contato com uma unidade móvel italiana era motivo de júbilo. Ferrara se aproximou e ganhou um beijo da brasiliana. Ele integrava o grupo que a escolheu para a missão no Brasil. Pensava em Montelli ter virado comida de peixe.

*****

acuado-na-ribeira-11Dez milhas da costa, a lancha comandada por Cruz e Mello começava a mandar fogo. As balas passavam próximas à tripulação do pesqueiro. Ferrara e sua mulher se abaixou, ela apontando uma pistola ‘de brinquedo’ para a cabeça do condutor. Agachada, mandava o homem fazer o barco seguir depressa.

Alguns tiros da metralhadora da lancha brasileira raspavam o casco do pesqueiro. Marta gritava. As balas zuniam pouco acima da cabeça dos italianos, arrancando pequenas lascas do barco.

Nesses dez minutos de aproximação e troca de tiros, nenhum dos grupos em combate notou o sommergibile emergir e os dois marujos que saíram de uma escotilha para se instalar na metralhadora e na operação do canhão. O submarino e a dupla eram o suporte para o resgate da equipe de agentes secretos do Dulce. No interior do Gardini, o capitão de mar-e-guerra, Andrea Livoratti, assistia o tiroteio pelo telescópio. Viu um dos gorilas ser rasgado por tiros. Um sargento parrudo cortou o abdome do sujeito com bala, lançando-o ao mar. O canhão do Gardini começou a fustigar a lancha.

Deslocando-se em direção ao submarino, a menos de meia milha, o pesqueiro resistia aos tiros brasileiros. Ao se aproximar, o barqueiro tentou acertar Marta pelas costas com a Thompson do agente louro. A bala passou a centímetros da espiã. Sentado de frente para o barqueiro, o agente metralhou barriga e tórax do barqueiro. Os barcos ficaram a uma distância de 100m, um do outro.

O agente atira em um dos soldados brasileiros e leva uma rajada mortal, disparada pelo capitão Cruz e Mello. Restam Ferrara e Marta no pesqueiro. Ele assume o timão. A mulher continua atirando. O auxílio salvador vem dos artilheiros do Gardini. Os estilhaços de duas bombas matam os condutores, pai e filho.

Cruz e Mello ordena ao soldado sobrevivente que segure o timão da lancha descontrolada. O pesqueiro está a 200m do submarino. O marinheiro da metralhadora do Gardini varre a lancha. O soldado timoneiro e o sargento têm os corpos dilacerados pelas balas de grosso calibre da metralhadora do Gardini. Ferido por fragmentos das balas, o capitão se arrasta pelo piso da lancha, agora menos veloz.

O pesqueiro encosta no barco. Os artilheiros se aproximam e levam Marta até o submarino. Devagar e desgovernada, a lancha colide com o pesqueiro de leve. Cruz e Mello aproveita e se levanta sorrateiramente. O capitão brasileiro dispara contra o peito do marujo da metralhadora. Ferrara gira e com a Beretta atinge a testa do oficial. Cruz e Mello tomba morto para dentro da lancha encostada ao pesqueiro.

O marujo sobrevivente colocou Marta sobre seus ombros, dobrou as ancas carnudas da mulher para o alto e correu para o interior do Gardini. Antes de entrar na torre do submarino, os saltos altos da mulher cairam, sem poder o trio voltar para recuperá-los.

Livoratti, em traje de combate, faz questão de abrir a escotilha para a dama, recebida nos braços. Na suave descida, submarino a dentro, os longos cabelos negros bailam no ar, deixando-a ainda mais bela. O submarino singrava ainda na superfície. O comandante abre um vinho seco da Toscana para brindar o resgate da dupla.

O Catalina e o Mariner sobrevoavam o sommergibile. Ferrara foi até a casa de máquinas onde servia um primo. O barco iniciou o processo de submersão. Livoratti se impressionou com a beleza, inteligência e habilidade da jovem. Não havia sido informado de que ela e Ferrara eram casados. Abraçava e beijava a mulher.

Quando o operador do sonar detectou o som dos aviões, era tarde.

*****

Uma bomba explodiu próxima a casa de máquinas, arrombando o casco da embarcação. Ferrara ouviu o estampido sendo liquefeito milésimos depois. A água invadiu o compartimento e o motor a diesel deixou de responder, totalmente esfacelado. Livoratti, ciente do dever cumprido e do mísero final, tampou os ouvidos de Marta com força descomunal e lhe deu um amaldiçoado e molhado beijo. Segundo depois, a sala de comando era estourada por uma bomba.

Montelli passou mais de 10 horas agarrado às toras de madeira do trapiche. Meditava sobre o esforço para enviar mensagens para contatos em São Paulo, que de lá dariam um jeito de remetê-los a Itália, via Argentina, África ou Portugal. Operações de sabotagem e assassinatos de inimigos. Situações de despistamento e prejuízos a aeronaves e veículos americanos. Anos de vida desperdiçados em favor de uma causa. Tantas bocas deixou de beijar e mulheres de amar. Tantas amizades perdidas, perseguição e o resultado era sangue escorrido em uma quase morte.

Recordava das conversas com Farber, que o treinou e depois o traiu. O requinte da Ovra de enviar Ferrara e sua mulher para eliminá-lo e apagar o arquivo em que havia se transformado. Ali, atracado aos paus da pequena ponte, teve vontade de entregar-se aos americanos, dizer o que sabia, o que havia presenciado ou ouvira falar. Talvez recebesse asilo ou outra bala, mais certeira, na testa.

Naquela madrugada, arrastou-se pela areia da praia e perambulou pela Vila de Pescadores de Ponta Negra. Nunca mais foi visto e nem soubera do fim dos compatriotas.

*****

acuado-na-ribeira-12Maledetto, viene Qui, presto!”, berrava um velhinho, que andava com dificuldade atrás do neto Marco, menino de sete anos, avermelhado pelo sol de Tabatinga, teimoso por jogar futebol o dia todo com os filhos dos vizinhos. O avô ranzinza vendia artesanato para turistas europeus. Das barracas de renda e venda de tapioca, comerciantes e fregueses assistiam ao balé de golfinhos na baía, na qual jazia um misterioso Ferrara, uma ativa Marta e um apaixonado e destroçado capitão Livoratti.

Todas as noites, deitado em sua rede, o velho sonhava com o misterioso e a ativa. Nu sob a luz de candeeiros, tendo por cima uma das jovens nativas do lugarejo, o velho tinha duas dezenas de filhos e netos, incluindo Marco. A jovem nativa roncava desfalecida, recostada ao peito ainda cabeludo e branco do velho de pele queimada de sol. Sua meta agora era embuchar a garota, uma de suas três mulheres. As outras tinham 60 e 40 anos e não saciavam a vontade do sujeito.

Todas as noites, ao passar pela lateral da casa de taipa do velho, vizinhos assistiam o galope transcendental entre a nova e o velho, com a jovem de cabelos longos em contraluz e ofegante, tendo como montaria uma pesada rede.

Era a vida do homem que chamava os netos, carinhosamente, de maledetti nepotti.

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Juliano Freire

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