Ademir da Guia, Ditadura Militar, Epifania
11 de junho de 2010 às 14:06 - Comentar
A famosa academia do Palmeiras. Ademir é o 2º agachado, da dir. para a esq.
Vi Ademir da Guia, o Divino, jogar.O Palmeiras, naqueles terríveis anos 70, era chamado de A Eterna Academia, e o país atravessava a fase mais tenebrosa da história da República.Alguns amigos estavam presos, sendo caçados e torturados.Esse doloroso inventário levava-me a uma certeza: era proibido, naquele momento histórico, ser feliz. Acompanhado de um certo remorso e de uma melancolia indefinida, adentrei os portões do Castelão,apelido que os civis e militares, em seu mau gosto, escolheram para popularizar Castelo Branco, o general golpista que destituíra o presidente Jango.Naquela tarde, em que o Palmeiras jogava contra o nosso América, o Estádio General Castelo Branco se me afigurava como um circo romano, antes de um grande espetáculo. Além de Ademir da Guia, o Palmeiras contava, em seus quadros, com outros astros de brilho incontestável: Dudu, Leão, Luís Pereira, Baldochi, Eurico.Guardo nas várzeas da minha retentiva a coesão, a harmonia, o virtuosismo, exibidos como uma dádiva naquela tarde de remorso e deslumbramento. Ademir da Guia, mais do que um meia armador, comandava, com um zelo e elegância incomuns, todas as jogadas do seu time.Passes perfeitos, calculados, cerebrais.Contido, febril, a epifania em cada seu mínimo movimento, e até mesmo quando, parado, fingia ser estátua grega em campo. Estas, as minhas impressões de uma equipe, que tinha Ademir da Guia como paradigma, jogador incomparável de rara ciência.Dolorosas impressões, ó tolerante leitor meu. A leveza das linhas do Estádio, projetado pelo arquiteto Moacyr Gomes da Costa, homem sensível e de posições políticas liberais (foi escolhido como paraninfo de uma turma de Engenharia, da qual faziam parte um amigo meu do PCB, Lacides Brunnet de Sá, e Carlos Alberto Tinoco, sobrinho do esquerdista Aldo Tinoco), a leveza do Estádio contrastava com o seu entorno. O Estádio fora construído às pressas para uma Mini-copa, comemorando os 150 anos da Independêcia do país. O projeto do professor Moacyr Gomes deve ter sofrido alterações: fora concebido antes do golpe militar. Mas a Ditadura, em seu ufanismo, queria a todo custo comemorar aquela data cívica.No entorno do Estádio coabitavam a pobreza, suas mazelas, a dor dos infelizes arrancados de sua terra, alguns sem indenização, a fome, a tortura, o desespero acentuado, em mim, pelas leituras de Sartre. Dentro do Estádio o pão e o circo romanos.Ademir da Guia era. sem dúvida, um ser alado. Mas com os pés fincados no chão: o gramado, extensão de sua pele, e sua morada concreta, perecível e eterna.

