Afinidades Eletivas

24 de junho de 2010 às 13:37 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

ERIC, NORTON, OSCAR E AS AFINIDADES ELETIVAS

Da primeira vez em que prestei atenção em Eric Clapton, ele não cantava, nem tocava guitarra e, portanto, naquele momento, Clapton não era Deus. Estava bem humano, dando uma entrevista e falando do centro de recuperação Crossroads, para tratamento de pessoas com problemas no consumo de drogas e álcool, o qual ele fundara em Antigua, ilha caribenha. Falava também das tragédias de sua vida, desde a perda do filho Connor à dependência de álcool e heroína. No final, a repórter perguntou-lhe sobre a vida, apesar das tragédias. Eric respondeu-lhe: a vida não é o que ela nos dá, mas o que podemos dar para ela. Foi essa frase que me prendeu a Eric. Antes eu gostava de algumas das suas músicas, sem nunca ter sido fã, nem saber de sua trajetória. Agora, li avidamente sua autobiografia e uma coisa reafirmo: elegi-o, de algum modo.

Nunca sei explicar as minhas afinidades eletivas, sempre penso que elas têm mais de eleição do que de afinidade mesmo. Eric é um sobrevivente e eu tenho simpatia pelos sobreviventes, eles semeiam sensatez. Penso sempre nos sobreviventes quando o desespero me ronda. Penso nos que experimentaram extremos quando tendo a atribuir aos meus melodramas pessoais a dimensão da tragédia. E penso que todos devem cultivar um modo qualquer de aproximar-se dos sobreviventes, um modo feito de simpatia e respeito. Tempo haverá, tempo haverá para que a lembrança das sobrevivências seja uma salvação.

Norton Nascimento eu achei lindo quando o vi pela primeira vez, nas telas. Era mais lindo pessoalmente e tinha um carisma de anjo. Uma vez, eu e uma amiga estávamos querendo alguma coisa para fazer no Rio de Janeiro. Queríamos também encontrar um amigo que morava para os lados da Barra da Tijuca e descobrimos que, em um bar temático, com nome e decoração inspirados na arte cinematográfica, a meio caminho entre nós e o nosso amigo, haveria um Pocket Show do ator Norton Nascimento, que cantaria sucessos da Soul Music. Para mim, uma oportunidade de apreciar mais esse talento de Norton. O show seria para ajudar Cassiano, mestre da Soul Music no Brasil, à época sofrendo de alguma doença crônica, se não me engano, nos rins. Norton falou com muita meiguice de Cassiano e eu, se já era fã de Norton, reelegi-o ali, naquela noite. Depois, acompanhei com apreensão o transplante de coração a que ele foi submetido, comemorei a sua sobrevivência, agora perecida. Tenho simpatia e cultivo uma espécie de aproximação dos sobreviventes. Às vezes, uma aproximação silenciosa, até parece distância, de tão discreta. Mas, se aprendo com eles, isso é aproximação.

Quando penso em Oscar Niemeyer, a palavra sobrevivência veste outro significado. Oscar está sobre a vida, acima da vida, ele é muito maior do que a própria vida. Essa é a sua sobrevivência grandiosa. Ele é história pura e o fato de estar vivo me dá a impressão de poder atravessar uma dimensão, de viajar no tempo. Dele escutei outro dia que fica da vida a nossa contribuição para ela. Clapton o disse, e também Norton, quando defendia a doação de órgãos. A vida é o que podemos dar para a vida.

Clapton não é Deus, ao contrário do refrão escrito no metrô londrino, nos anos sessenta. Nem Norton, que tão cedo perdeu a sobrevivência, o era. Tampouco Oscar, com seus cem anos de história na carne, é Deus. Às vezes, a humanidade é muito grande, muito, mesmo. Tão grande, que assusta. E comove.

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante