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Ai, Pagu!

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É um saco: sempre vai ter um escrotinho no mundo pronto pra fuder com você assim que possível. E da maneira que for possível também. Uma constatação banal e arrasadora ao mesmo tempo.

Era nisso que ela pensava, no ônibus, a caminho do hotel onde trabalhava como camareira, depois de ter falado no telefone com a gerente:

– Olha, eu tô chegando, o ônibus demorou a passar no meu ponto…

– E por que não saiu mais cedo, queridinha? Não posso fazer nada, seu salário vai ser descontado do mesmo jeito.

E ainda vinha lhe dar conselhos superinúteis:

– Nesse mundo a mulher tem que ser competente, minha filha.

Tudo bem. O que são noventa reais a menos?

Pensando bem, muita coisa. Mas tudo bem.

E seguia assim Mara, a camareira, perdida no seu mundo delirante pessoal enquanto no país acontecia o golpe de 2016. Mas enquanto as notícias desencontradas e os ataques cheios de ódio das redes sociais pipocavam a todo momento, essa não era exatamente o primeiro lugar de suas preocupações. Primeiramente, era a gerente do Tulipas Inn. Quer dizer, primeiramente não era isso, não. Mas por ora o importante a destacar é que depois de Dona Clotilde, a preocupação da vez era outra.

Era o Oswaldo. O nome dele era esse, e era só mais um nome, mas, vaidoso e arbitrário como muita coisa, ele fazia questão de ser chamado de Oswald. Era mais chiq, entende? dizia ele, piscando o olho muito negro naquele sorrisinho cretino que a princípio desarmava qualquer um.

Mas, depois de alguns anos de charme barato e falso, ela foi se enchendo e se enchendo cada vez mais. E por que não mandava ele pastar de uma vez?

Eis a questão que atravessava os delírios dela naquele momento. E dava de ombros, por pura comodidade, pura rotina…

O instante em que percebeu havia sido exatamente na véspera: acabou. Amor, paixão, tesão, a coisa minguou. Esfriou, murchou, feneceu, acabou. Uma rasga-mortalha cortava o céu com seu canto estridente quando ela percebeu: chega.

O canto cru da coruja tocou seu coração exatamente quando ela terminou a leitura do livro, sentada numa noite de domingo sem lua na sua varandinha de subúrbio onde morava há dois anos e dois meses, desde que viera estudar na capital.

(Enquanto isso, como numa ligeira digressão, além daquelas duas firmes decisões – mandar Dona Clotilde e Oswaldo para o raio da cilibrina – Mara, a camareira, se autoflagelava: qual é, você sabe ser tão firme, quando quer… Como no momento em que tomou a atitude impensada de escrever a um dos seus escritores prediletos, que morava alhures mas mantinha vínculo com a comunidade local rodando bolsa no principal jornal da cidade. Ela disse algo mais ou menos assim:

Olá, ilustríssimo! já pensou escrever assim, daí do alto de sua tribuna?:

“Recebo da província cartinha de fã frustrada com a última safra minha. Que eu só fico falando de bar na Europa, que eu só fico tirando onda com o poeta maldito da cidade…

Eu, que, de fato, nem li o último livro do bardo. Ela me diz que eu devia admitir minha soberba e meu sistema de injustiça.

Em suma: a fã frustrada me diz: escreve algo que preste, porra!”

E como diria o outro, esse sim um escritor de vergonha na cara, um beijo e tchau!)

Universitária de curso noturno, Mara, a camareira, arranjou aquele emprego assim que chegou à cidade para estudar. A gente precisa comer, além de se comer uns aos outros. Consolava-se assim, enquanto seguia chacoalhando no ônibus que àquele momento passava por uma extensa faixa do litoral.

Tinha fé que seria só uma chuva, pensava quando assinou o contrato e os panelaços tomaram as ruas vestidas de um (supostamente) cívico verde-amarelo.

Pois num daqueles dias de alvoroço de cabeças teleguiadas e corações furiosos, ao entrar logo no primeiro quarto de seu turno, deu de cara com o livro largado no chão. Leu o título e gostou. Já ouvira falar remotamente daquele autor. Mas o que segurou sua atenção foi mais o desenho da capa, uma mandala de traços finos e em cores diversas aquarelada por trás do nome: PAGU.

Recolheu o livro do piso, como que caído por descuido, sem que o dono percebesse. Folheou-o ainda um instante antes de começar a arrumação do quarto. Aquele hóspede certamente era alguém ligado ao mundo das letras, um jornalista, quem sabe. Livros e papeis espalhados por todos os lados. No final, ajeitou o livro com destaque sobre o centro da mesa, onde conseguiu dar uma certa ordem a cadernos e revistas com capas sobre Black Blocs.

No dia seguinte, no mesmo quarto, quando arrumava a cama, encontrou o mesmo livro sob o travesseiro. Um pequeno cartão marcava uma página e ela não se conteve, deu uma olhada: no cartão, apenas uma carinha desenhada com caneta Bic indicava um sorriso. Também não resistiu e deu mais uma folheada no livro, lendo partes do sumário e alguns trechos que lhe pareceram os mais interessantes. Aprontou tudo e deixou solenemente o livro sobre a cama arrumada com apuro.

E eis que, no terceiro dia, Dona Clotilde veio lhe avisar, visivelmente aborrecida: um hóspede pediu para entregar isso pra você. Pediu também para não ser identificado, então nem me pergunte quem era, queridinha.

Num envelope marrom, o livro com o mesmo cartão sorrindo e letras que diziam: boa leitura!

Poucos meses depois, quando Mara fechou o livro, um congresso canalha derrubava a presidenta. Era um domingo triste, e, sentada na sua varandinha de subúrbio, Mara quis chorar.

E ali seguia, segunda-feira de festa para uns e de tristeza para outros, chacoalhando mais uma vez no ônibus de sempre. Quando o ônibus atravessou a longa faixa de mar que era sua alegria naquele trajeto, desceu no seu ponto, e, sem se importar com o atraso, passou com calma na banca de todo dia, onde pegou o jornal diário. Enquanto seguia pela rua na descida para a praia, onde ficava o Tulipa Inn, viu. Estava lá:

“Recebo da província cartinha de fã frustrada. Só tenho uma coisa a dizer para ela: minha filha, vai à merda!”

No hotel, quando guardava suas coisas no armário e se preparava para vestir seu uniforme, Dona Clotilde chegou espavorida:

– Isso são horas de começar seu turno? Onde você pensa que vai chegar assim?

Então Mara lembrou-se das palavras que leu na véspera e pensou consigo: melhor cometer o crime de ser divergente do que ser escrava.

Largou o avental com enfado no chão, recolheu a bolsa de volta do armário e proclamou bem alto, para quem quisesse ouvir:

-Dona Clotilde, vai à merda a senhora também!

E foi-se embora, radiante. Dali não haveria retorno. Só lhe restava então encarar os olhos negros do cretino do Osvaldo e, apesar dos canalhas do Planalto Central, tentar ser feliz.

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Cellina Muniz

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