Ainda Moisés e o Atonismo – para Laurence
30 de janeiro de 2010 às 23:24 - Comentar
O profeta Moisés, para chegar à visão da Sarça luminosa, tivera (Freud apontou, no seu ensaio também luminoso) uma iniciação “na sabedoria egípcia” naquela mesma velha cidade de Om que não é outra senão a Heliópolis do culto solar antigo, renovado por Amenófis IV e, mais tarde, ampliado no primeiro monoteísmo (quando o rei ergue a nova capital e adota o nome de Akhenaton). Foi esse o culto que o rei egípcio primeiramente “reafirmou”, numa espécie de preparação da “revelação” que irá fazer – à sua maneira – aos egípcios. Será a religião de Aton, o Deus Único “expresso” pelo Disco Solar (um Princípio, e não mais uma divindade pagã, panteista etc).
Se falta algo nesse primeiro momento do primeiro monoteísmo seria qualquer coisa como as “Pedras da Lei” amarnianas (caso um autêntico deus egípcio fosse tão sucinto quanto Iaveh, na sua lei gravada a fogo na pedra da mente mosaica – dura como a da tribo e irada como uma boa cabeça de profeta bíblico condenando o mundo não-judaico etc).
Ainda as acharemos, algumas egípcias (oh choque do choques!) “Leis” amarnianas, justas e elaboradas noutro contexto e/ou estágio de cultura – se nos lembrarmos de que o Egito já era uma velha potência quando a Terra Prometida ainda era apenas (e ainda) “prometida”?
Talvez ainda venham a ser encontradas, elas ou qualquer coisa parecida com um “decálogo” refinado, em versão hieroglífica, naquela planície da margem oriental do Nilo que já nos ofereceu pequenas tábuas de argila capazes de revolucionar o conhecimento sobre esse assunto lateral da “terra dos faraós” – assunto que nem parecia tão importante ao vir à luz, inesperadamente, na história confusa das civilizações.
Confusa? “Confuso” é, na verdade, tudo que não pareça, à primeira vista, importante do ponto de vista ocidental, claro – para as ilusões, que nos fazemos, sobre o percurso traçado por crenças e idéias cujo impulso permitiu chegar até aqui (“aqui”, entenda-se, sendo o alto lugar – mais alto do que a Pirâmide – que faz parte dessa ilusão), no admirável mundo velho da nossa relativamente jovem civilização…
Mesmo tão “jovem”, o Ocidente acarinha sua visão ideal do passado, e, nela, é a Bíblia Sagrada – o livro de uma tribo errante (depois fixada em Estado) –aquilo que tem fornecido o “nexo” do que fomos, somos e seremos. [Será?] Primeiro, o que está lá escrito sobre sarças, leis, pedras, tribos e fogo – no Antigo Testamento. Só depois é que alinhamos a nossa mais estimada herança (subseqüente), para defrontarmos os gregos marmóreos, aqueles homens do mediterrâneo de cerebral claridade, cuja contribuição intelectual nos mantém também fascinados entre metafísica, heróis e banquetes de diálogos filosóficos sobre a República e as dívidas de galos comprados no mercado da dita cuja.
É a época na qual começam a despontar algumas das nossas taras – e o Negócio e a Política já exibem as suas muitas cabeças de Medusa, entre oliveiras e cabras.
Assim, após os lamentos, as profecias, as imprecações e os cânticos de louvor, meio embriagados, de David e outras figuras menos rudes daquela pequena horda semita surgida do nada, são os refinados gregos que fazemos “escalar” em seguida, como o melhor da nossa ascendência antiga. De olho no “Logos” e na Acrópole do sexto século, vemos esse edifício cultural nos fazer o grande, o enorme benefício de nos “confirmar” como herdeiros do melhor, do maior e do mais alto (pelo menos, a critério ocidental – pois a ilusão do “Ocidente” é um câncer de arrogância que nos mantém em constante contato com a sua metástase, e não importa Moenjo-Dahro ou qualquer outra cultura mais remota: o câncer se sente a super-star de todas as doenças civilizacionais).
Não importa porque encaixamos – estou falando sempre “em nome” da Doença – as brilhantes especulações filosóficas de Atenas e “vizinhança” como um fundamental alicerce de tijolos debaixo do nosso edifício ocidental ainda firme nas rachaduras. Depois de Babel, essa é a torre que cimentamos com o orgulho argamassado por Roma, aquela América do Norte da Antiguidade agradável de ver chegar, agora, para assumir a tarefa de “arrumar a casa”.
É um grande momento, de movimentação e mudança!: uns primitivos “povos itálicos” se reúnem para promover, carinhosamente, a despedida dos gregos, e para consolidar a civilização que tomará conta do mundo.
Torna-se, tudo, tão simétrico! O grande império dos Césares surge na hora exata, aí nesse “nó górdio” cultural (que Alexandre não desatou – nem poderia desatar – porque não chegou a realizar o seu sonho de mão dupla, o seu esforço de homem dos bálcãs: fazer a mão ocidental encontrar a “contra-mão” da Ásia)…
Esfera dentro de outra, a querida imagem de circularidade entre povos que seriam pólos “complementares” encontra, então (ou pouco depois) um espelho perfeito no reencontro dos caminhos da Galiléia helenizada com a nova tradição hebraica, em casamento que são “as bodas de Canaã” da nossa festa de ajuntamentos forçados. Ali, entre os templos romanos e a sinagoga de Cafarnaum (na província culta e reverente aos deuses que os romanos não precisaram inventar – porque tomaram emprestado ou roubaram), tudo se faz, de novo, tão unido e reflexo, tão “amarrado” idealmente, que a história prossegue como uma bola de mármore maciça rolando na mesa de granito encerado da antiga Palestina, entre a dureza da Judéia e as suavidades greco-romanas do “habitat” galileu ensejando a entrada triunfal de Messias, afinal, na Jerusalém do Espírito.
Como é bom nascer, culturalmente, num quarto bem arrumado! O Ocidente nos acalenta na falsa manjedoura que esconde o “berço de ouro” de tudo o que pensamos. E o Salvador faz mesas e cadeiras, como aprendiz, enquanto se prepara para ampliar os cômodos da casa. (Aqui, há uns anos de vácuo biográfico, enquanto o filho do carpinteiro, sumido, aprende umas tantas coisas mais, situadas talvez fora do perímetro perfeito no qual mesmo um Messias do Ocidente deve se movimentar – sem ultrapassar de muito as fronteiras culturais estabelecidas – antes de se fazer crucificar no Gólgota).
“A cruz do caminho” – será o título da próxima divagação, que fica aqui prometida ao Laurence Bittencourt Leite, notável intelectual natalense e que nada tem a ver, como tal, com lugares onde “um escritor é um escritor” etc.


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