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Almir Sater, um tatu underground

Os estados brasileiros com maior área verde e fauna diversificada são os que menos têm municípios com nome de animal. No Mato do Grosso do Sul, terra natal de Almir Sater, só tem a cidade de Jateí, variante de Jataí, uma espécie de abelha.

A zoomúsica de Almir Eduardo Melke Sater contesta essa imagem do Mato Grosso do Sul com quase 30 diferentes animais em músicas gravadas entre 1981 e 2015, em 11 álbuns solos e um em parceira com o paulista Renato Teixeira. São Paulo é o estado com mais municípios com denominação animal: 56.

Sem zoomúsica, o álbum 7 Sinais só tem uma evocação: “Eh, boi, vem água aí”. Os bovinos são os mais cantados por Almir Sater. “Bota de couro surrada / Cheiro de boi ou viola” traduz os estradeiros e os nativos: “Cruzou os pés, apeou do seu cavalo.”

Os quatro animais mais quantitativos em provérbios e ditados zoos – equinos, bovinos, cães e galinhas – estão na zoomúsica de Almir Sater. São todos utilitários. A música Peixe Frito traduz essa preferência: “Fui morar lá no fim do mundo / Num vale fecundo onde é bom para criar / Umas vaquinhas, uns cavalos e uns cachorro / Vou recolher as minhas galinhas / Pros bicho de pelo não se aproveitar”.

Almir Sater tem versos com raiz e estilo proverbial. “Tristeza é mula brava / Corcoveia, mas se doma.” O mesmo acontece com “Valentão que fala grosso / Quando cão morde não late.”

Bichos não domesticados aparecem em só uma música. Não são recorrentes. Algumas letras reúnem três ou mais animais distintos. Uma zoomúsica é dedicada ao (último) condor. O Ganso é título de uma “instrumental”.

Tocando em frente e andando devagar, Sater é cronista. Canta “formigas tentando se esconder da chuva”. Na Terra de Sonhos, “A garça agora / Voou, se foi”. O bom humor dele é leve: “Tatu, bem ou mal é um underground”.

Além de participações especiais em diversos trabalhos, Almir Sater gravou clássicos zoos da música caipira, como Tristeza do Jeca (Eu sou como o sabiá / Quando canta é só tristeza), Moreninha Linda (Eu tenho um canarinho / que canta quando me vê) e Cabelo Loiro (Passarinho perde as pena, o peixe perde as escama).

No AR

Gravado em 2015, AR, sigla de Almir e Renato (Teixeira), é o álbum mais zoo da carreira musical deste sul-mato-grossense. Em diferentes épocas, nas zoomúsicas dessa parceria têm lobo, boi, galo, passarinho, bicho feio e um pouco mais: “Por compaixão, os peixes nadam contra a correnteza”. E quando

Um Violeiro Toca, os olhos dos bichos vão ficando iluminados e entristecidos. “São os olhos de quem ama.”

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