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Amantes do Potengi

O rio Potengi é aonde vai dormir o sol. Este é um milagre poético observado por Rosângela Trajano de um lugar sagrado, a Pedra do Rosário. Outro poeta, Zeca Brasil, de lá viu, no horizonte, o sol lilás. O nobre Otoniel Menezes valoriza nosso rio: a canção “Praieira” tornou-se o hino não oficial da cidade, sancionou a musicóloga Leide Câmara.

Natal possui três riquezas monumentais: a Fortaleza dos Reis Magos, Luís da Câmara Cascudo e o rio Potengi, ensinava Djalma Marinho. Os dois primeiros, a estrela de pedra e o gênio de Cascudo, têm os seus atentos devotos. É menor o número dos amantes do rio. Na afirmação do escritor e pesquisador Rubenilson B. Pereira o rio é “invisível” para a cidade.

A Academia Norte-rio-grandense de Letras, em sessão plenária, decidiu convocar homens de boa vontade para que seja o Potengi objeto de amor, a fim de que o natalense sinta-se responsável pelo destino do seu rio. Todos juntos atuemos para a limpeza das águas e para a utilização plena do seu potencial socioeconômico e turístico.

A nossa tarefa torna-se mais necessária e urgente quando o Governo está decidido a fazer o meritório trabalho do saneamento completo da nossa capital.

Vale a pena lembrar que Oxum, o orixá feminino dos rios, é do amor, da beleza, mas também é dona do ouro. Se assim é, o Potengi pode trazer até ouro aos potiguares.

Há todas as razões para amar o nosso rio. Ele deu nome ao Estado, tem fundamentado valor histórico. Foi ancoradouro seguro nos primeiros tempos do Brasil ibero-americano, repouso do pirata Jacques Rifaut, pouso dos pioneiros aviadores da história mundial.

Acolheu celebridades como os presidentes Roosevelt e Getúlio Vargas. Foi sede de base naval e com presenças norte-americanas e europeias. Mesmo com tal valia, nota-se a exclusão dos habitantes natalenses de suas naturais vantagens. Na margem esquerda nada se faz. A gente nela não pode habitar. Ela é margem proibida.

Além do mais, a navegação é subutilizada. Poucos espectadores das belezas do pôr do sol; do movimento das águas; do rico simbolismo da ponte de ferro; do Oceano Atlântico, renovando as águas sob a esplêndida ponte Newton Navarro e da beleza plástica do manguezal circundante.
A contemplação existe apenas para os felizes frequentadores do Iate Clube, dos barcos de passeio, de encantados homens do mar e do Exército.

O pessoal que criou e mantém a chama da Fundação Rampa não participa do desencanto resignado. Veem o rio como fonte da história. Entre eles estão: Augusto Maranhão, Mário Sendin e Fred Nicolau.

Há muito tempo, Tico da Costa, músico e compositor fascinante, e eu imaginamos uma campanha para renovação do rio. Tico convidou o mito da música norte-americana, Pete Seeger (1919 – 2014), para vir a Natal abrir o movimento. Ele aceitou, Tico me disse. Mas a minha dúvida só desapareceu quando vi que o “New York Times” destacou a parceria do potiguar em programa do ícone distante.

Infelizmente, a morte prematura do artista potiguar, pôs fim ao projeto.

A Convocação acadêmica para salvar e dignificar o rio está feita. Agora, devemos participar com força própria de amante.

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