Música

Amor e ódio em um show de George Michael

George Michael Symphonica i Herning : George Michael havde mandag aften verdenspremiere på sin nye koncertturne : George Michael Symphonica , i Boxen i Messecenter Herning. Her ses George Michael på scenen med symfoniorkestret. (Foto: Henning Bagger/Scanpix 2011)

Lá estava eu, prestes a atravessar a rua, esperando o sinal abrir, pronto e bastante entusiasmado para assistir meu primeiro show de George Michael.

Enquanto esperava o sinal ficar verde, pensava na minha canção favorita dele e revisava a letra e melodia na minha cabeça. Queria cantar junto!

De repente o sinal abre e vejo um tumulto do outro lado da rua. Em frente à entrada do estádio, havia um grupo de manifestantes com cartazes e megafones.

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Ilustração: Suzzy Punky

Enquanto cruzava a faixa de pedestre tentava compreender o que se passava. A princípio, pensei que eram funcionários do estádio insatisfeitos com as condições de trabalho.

Notei que era um grupo de 30 pessoas, composto de homens e mulheres de meia-idade. Com peito inflado, cheios de razão e gestos largos, falavam alto.

Quando finalmente cheguei perto deles, consegui distinguir os sons de suas vozes e ler os cartazes. Eis que eles ali estavam para protestar sobre a homossexualidade. Os cartazes atacavam e classificavam, como pecado grave, o amor gay. Fiquei surpreendido e ao mesmo tempo entretido pelo absurdo.

Os cristãos radicais estavam ali pra salvar almas perdidas ou para condená-las?! Na verdade, não sei. Claro que a provocação não passou despercebida e os casais gays agora se beijavam em frente dos protestantes.

Os cristãos falavam ainda mais alto e o público de George gritava num misto de orgulho por peitá-los e deboche pelo ridículo daquilo tudo. Tudo se passava em frente ao local do show de George Michael, que começaria em meia hora.

george-michael_4Desfile de hits

Ao entrar no estádio, os ânimos eram outros. Tudo era bem mais tranquilo e harmônico, porém excitante. Era 2008, em San Jose, e fazia 17 anos que George Michael havia se apresentado nos EUA. Fãs e curiosos esperavam ansiosamente pelo espetáculo.

Na platéia gays, mulheres e seus namorados. Um total de 18 mil pessoas lotavam o lugar. Muitos dos que estavam ali testemunharam várias etapas do sucesso iniciado nos anos 80.

Estes, talvez, até conhecessem suas posições políticas, envolvimento com drogas e escândalos sexuais. Porém havia também pessoas mais jovens que estavam lá atraídas pelo novo sucesso Amazing.

O show começou e o que se viu nas duas horas seguintes foi um show pop perto da perfeição: iluminação excelente, palco espaçoso, arranjos dançantes e harmônicos, que davam um toque de elegância às composições.

O talentoso compositor, aos 44 anos, parecia maduro e coerente com a idade. A voz continuava firme e afinada. Ainda assim, pediu desculpas à platéia por não estar mais na fase can can e continuou o desfile de hits e novas canções.

Apesar das desculpas, seus movimentos sensuais ainda estavam lá, sem excessos, e a platéia correspondia cantando juntos, com eventuais gritinhos.

arco-irisGeorge Michael celebrou a liberdade

Ao final, George Michael se despediu do palco e quando as luzes se acenderam todos ainda carregavam em si a energia celebratória daquele evento.

Vagarosamente as pessoas despertavam daquela experiência com um sorriso no rosto. Meio que em êxtase, a multidão fazia sua procissão em direção à saída.

Alguns dos versos ainda ressoavam nos corações dos presentes. Ouviam-se pessoas cantando baixinho trechos das canções, como Praying for Time: É tão difícil amar/ há tanto o que odiar … bem talvez devemos todos implorar por mais tempo.

Mas as últimas estrofes que ouvi da multidão foram os da música Freedom! ’90: “Eu vou me agarrar à minha liberdade/ Talvez não seja o que você quer de mim / Mas é como tem que ser … preciso viver”.

Enquanto isso, lá fora, protestantes, embora abundantemente alimentados pela intolerância, já haviam cansado de protestar. Esperavam o transporte, com cartazes dobrados, sem saber ao certo se a missão havia sido cumprida.

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Joseh Garcia

Comentários

2 comments

  1. thiago gonzaga 28 dezembro, 2016 at 10:30

    Legal o texto.
    Apenas quem viveu um pouco dos anos 80 tem a real noção da importância de George Michael para a música Pop. Faith, lançado em 1987, pelo jovem de 24 anos, vendeu mais de dez milhões de disco apenas nos Eua, e quase ofuscou o lançamento de outro grande disco, Bad, de M. Jackson. Faith, fez as vendas de discos dos Eua, crescerem em 3% a mais do que no ano anterior, e pra completar ainda ganhou o Grammy de álbum do ano. George Michael foi o grande astro dos anos 80, ao lado de Prince, Madonna, e M. Jackson. Mas, pra surpresa de todos os fãs, no seu segundo disco solo, lançado em 1990. Ele já nao queria ser importante, ele queria que a música dele fosse . E passou a não aparecer mais na capa do disco, nos clipes e em seus shows, cantava mais musicas dos outros do que as dele. Era uma nova fase, até que em 1991, quando veio se apresentar no Rock In Rio, conheceu Alsemo Felepa, a a vida dele tomou outros rumos, a música já nao era mais importante, e sim o coração.

  2. Joseh Garcia
    Joseh Garcia 30 dezembro, 2016 at 19:48

    Bem lembrado Thiago Gonzaga! George Michael vem de uma geração de cantores que alcançaram o sucesso mundial apoiados pela última onda de força da industria musical, (anos 80 e 90). Depois de viver o auge do sucesso, confrontou a indústria fonográfica, e passou a tomar mais controle de sua própria música que, por sua vez, ganhou em qualidade.

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