Amor Secreto

5 de julho de 2010 às 10:30 - 1 Comentário

Por Romana Alves Xavier

Ele era calado, quase não falava, mas sabia ouvir como ninguém. Muitos o achavam anti-social, mas ela o amava sem restrições. Não havia um só dia em que não confessasse a ele todos os seus sonhos de menina. Era uma relação de cumplicidade sem precedentes.

E como faziam planos juntos. Aonde um ia, o outro sempre acompanhava. Ela mais falante e ele dono de um silêncio maduro. Maduro de uma maturidade sem vícios. As amigas a invejavam e queriam muito tê-lo nos braços. Saber o que se passava naquela alma tão enigmática e sedutora era um convite tentador.

Mas, ele era fiel. Jamais a trairia. Seu amor e sua dedicação estavam bem além das linhas de um conto trágico. Ela, ingênua, não imaginava o que se passava na mente das amigas.

A rotina quase diária não diminuía a força do que sentiam. E quando não se encontravam, quanta intensidade. Tantas coisas a contar, tantos beijos e declarações de amor. E quanta poesia por metro quadrado cabia nesses encontros de amor.

Um amor secreto. A saudade tomava conta da cama e, a portas trancadas, ela se revelava. Parecia que havia se passado um ano em horas de separação. Não poderia haver ninguém por perto. E todos os desejos proibidos se tornavam permitidos. Nesses momentos, ela era uma mulher com rosto de menina e vestido de fita.

O tempo se passava e, dia após dia, outro alguém tentava descobrir mais a respeito deles. Em vão. Eles eram um casal singular, discretos e protegidos da curiosidade alheia. Mas, de repente, como se perde as melhores coisas da vida, ela faltou a um encontro de amor. Algo que quase nunca acontecera.

Ele, que a conhecia melhor do que a si próprio, sabia que ela mudara. Não fora exatamente a primeira vez que o deixara esperando sem explicações. Fazia alguns dias que os encontros não eram mais os mesmos. No máximo, um agrado sem carinho e ela o deixava de lado, sozinho, com um jeito doce de quem não volta mais.

Aos quinze, ela estava realmente diferente. Indiferente. Ao menos com ele.Certamente, ela se apaixonara por outro e estava sem coragem para dizer. Ultimamente ele não sabia mais o que se passava no seu coração. Não era ciumento, mas estava triste, se sentia trocado. Logo ele que sempre fora amante, confidente e fiel. Folhas de um papel que estava se acabando.

E como tudo que começa tem um fim, foi assim também com eles. Nesse dia, ela chegou ao quarto, séria e misteriosa, com um semblante de uma mulher em busca de novos desafios. Ao vê-la, ele soube que tudo terminara.

Não houve choro nem despedida. Ela não o olhou no rosto, tampouco o beijou. Sequer disse alguma palavra de consolo, típica dos casais cujo amor chega ao fim. Simplesmente o pegou nos braços, e sem qualquer abraço, abriu uma gaveta antiga onde o guardou, colando nele uma etiqueta que dizia: “Diário 1997”.

1 Comentário

  1. Tânia Costa
    5 de julho de 2010

    Leitura gostosa. O final me “pegou” desprevenida.

Postar Comentário

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”