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Anchella Monte: 40 anos de poesia

 

No final do ano passado, comemorou-se o aniversário de 40 anos da estreia da poeta e escritora Anchella Monte, com o livro “Passagem”.

Na verdade a obra é uma coletânea com participação de Erinaldo de Souza, Estêvão, J. Fernandes e Vicente Vitoriano. O grupo inclusive, foi tema de uma matéria neste mesmo jornal, em dois de junho de 1978, onde seus integrantes falaram sobre a poesia de maneira geral e se referiram ao livro, publicado em 1976. Até hoje, eles em vidas opostas, estão ligados pela arte.

Livro de poemas, “Passagem” tem na capa uma imagem feita a partir de uma fotografia de autoria de Erinaldo , um dos componentes do quinteto. Na época, saíram eles pelas ruas de Natal procurando uma imagem que viesse a entrar em harmonia com o livro. Eles mesmos datilografaram o trabalho, que tem aquela letrinha de máquina de escrever e o editaram na Escola Técnica, na época ETFRN, hoje IFRN.
“Passagem” é um livro interessante, de jovens.

Anchella ainda cursava 2º grau e os demais, recém entrados na faculdade. Não tinham dinheiro, mas fizeram 300 exemplares. Não conheciam autores do RN, mas foram até Nati Cortez, indicada por um amigo, e ela escreveu o singelo prefácio. No ano seguinte, 1977, Anchela entraria para a Faculdade de Letras, conheceu, dentre outros, Eulício Farias de Lacerda e Jacirema Tahim, escritores que foram seus professores. Anchella Monte, curiosamente, na época assinava Anchella Fernandes (o Fernandes do pai.). O grupo de “Passagem” chegou a ser entrevistado por Berilo Wanderley no seu programa, na TV Universitária.

Em 1977, a jovem escritora cria com amigos o jornal alternativo “Letreiro” na UFRN e , no ano seguinte, publica novo livro de poemas coletivo, “Ato”.

Anchella começou a escrever poemas ainda menina. Cearense, nascida em Fortaleza, é filha de Henrique Fernandes Silva e Maria Salete Monte. Migrou junto com os pais, ainda bebê, para Natal e depois passou a morar em São Paulo. De volta para a capital potiguar, em 1974, cursaria o ensino médio. Suas primeiras leituras foram os contos de fadas, depois Monteiro Lobato e José Mauro de Vasconcelos. Professora de Língua Portuguesa, lecionou nas redes pública e privada, e continua atuando na rede municipal de ensino.

Publicou outros livros individuais: “A Trama da Aranha” (2001), “Temas Roubados” (2006) ,” Pesos e Penas” (2011), todos pela Sebo Vermelho Edições, e “Entre Tempos” (2015) pela Sarau das Letras. E tem sido referência quando o assunto é poesia no Estado, participando de mesas e debates.

Anchella colaborou em diversos periódicos culturais com poemas e contos. Como professora, coordenou os projetos de leitura Poesia Potiguar em Cena, Poesia ao Microfone e O Autor é Leitor, nas redes pública e privada.

Em “Entre Tempos”, seu mais recente livro, é muito marcante a presença da memória, das lembranças: “Quando eu era pequena/tomava banho de rio”… Esta é uma das características mais fortes da poesia de Anchella Monte, não só nesta obra, como também nos livros anteriores. A natureza: “Era uma vez um pé de fícus/ guardadas as pás/ as folhas que não ventam mais/ um tronco dilacerado”… A causa social: …”Os passos do menino seguiram/marcados pelo peso do carro/ pesado em sua infância operária”… Além de outras temáticas de natureza humana, como o próprio ato de amar “Fraternal”: “Depois que eu fui mãe/sou mãe/ Em tudo há um cheiro de leite/de toalhas com lavanda”…

O acentuado lirismo de Anchella Monte traz marcas, traços, registros de fatos e coisas que, às vezes, estão ao nosso redor, e não paramos para observar, talvez porque a modernidade, as novas tecnologias, estão nos afastando do lado simples da vida. A propósito, o estudioso Alfredo Bosi disse certa vez que a poesia “parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender”.

Parabéns a poeta e escritora Anchella Monte pela data simbólica.

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Thiago Gonzaga

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