Geral

Antônio contra o capitalismo

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Arte: Iberê Camargo

Antônio de Zé de Chico tem razão: não é possível que vivamos apenas para comprar. Antônio Francisco também, ao esquecer em casa o celular e nunca ter feito um cartão de crédito. Eu entendo bem o que eles dizem toda vez que vejo o meu sedentarismo. Meu peso-corpo, cabeça caída no peso dos ombros e dos pensamentos.

Entre tantas filosofias nos continentes, esbarramos nesta que tem os olhos grandes. Adquirir uma coisa pensando noutra. Outro carro, outra porta, outra sala, outro quarto, outra cama, outro travesseiro, outro sonho que não seja aquela densa sensação de que a qualquer momento podemos perder tudo que ainda nem conquistamos.

Lá em Antônio, luxo é comida. A mesa é farta de um tudo. Ele come com as mãos para sentir o gosto e o tato dos alimentos. Uma simbiose. A química das mãos e da comida parece ter influência no sabor. Antônio sabe disso, por isso demora-se à mesa o tempo que for preciso para convencer o espírito da satisfação do sabor. Porque para Antônio a vida é muito curta para se pensar em colesterol, cardiopatia e em tantas patologias modernas.

Também, tanto faz o dia, Antônio pega uma bicicleta ou um machado e se embrenha no mundo. Força os músculos que incham nas pernas. Abaixa-se, pula e se movimenta como um lavrador ou um poeta. Antônio é uma simbiose, já disse.

Não há necessidade de tantas cadeiras porque o chão é mais firme. O quintal é mais frio que a sala e as árvores mais companheiras que as paredes. Conversar só se for sobre as coisas bestas, porque sério já é o dinheiro e a necessidade de tê-lo. A vida não é fácil nem para lenhador, nem para ferreiro, mas também não é tão difícil assim que não se possa viver sem espelho.

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