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Ao mestre com carinho

O crítico literário Antonio Candido, que relança "Formação da Literatura Brasileira", na biblioteca de sua casa, em São Paulo (SP). (São Paulo, SP, 03.11.2006. Foto de Julia Moraes/Folhapress)

Eu iniciava nas letras, aos 18 anos, até certo ponto ainda imberbe, com poucas marcas no corpo e na alma, ao ler “Literatura e Sociedade”, de Antonio Candido (1918-2017); lia-o como um manuscrito achado nas ruí­nas de uma antiga civilização. 

Meu adeus ao professor

“Nada mais importante para chamar a atenção sobre uma verdade do que exagera-la. Mas também, nada mais perigoso, porque um dia vem a reação indispensável e a relega injustamente para a categoria do erro, até que se efetue a operação difícil de chegar a um ponto de vista objetivo, sem desfigura-la de um lado nem de outro”, dizia-me Antonio Candido em seu Literatura e Sociedade, que eu lia no início de minha formação com mais sede do que compreensão.

Falava ele neste artigo sobre as formas de abordagem crítica frente à  obra literária e seu contexto de produção, mas dizia-me muito mais do que isso: dizia-me experiências de vida que eu ainda não tinha, nem como indivíduo, nem como sujeito integrante do corpo social.

Naquele momento eu me iniciava nas letras – jovem de 18 anos até certo ponto ainda imberbe, com poucas protuberâncias no rosto e menos ainda na alma.

Apesar daquela leitura, eu ainda exagerava e por bom tempo ainda exagerei muitas verdades e constatei empiricamente a validade daquele pensamento: vi muitas das minhas verdades solaparem na vala do erro.

Ao longo deste tempo, não me destituí daquelas verdades, mas tenho me permitido aceitar suas fugacidades e ambiguidades.

Hoje considero-me um homem maduro e experimentado, embora preserve da juventude a capacidade epifânica do espanto.

Livros.2

Fosse Antonio Candido um Vieira, dir-me-ia: “nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, caro rapaz! Perceba que tudo é dialético!”

Percebi que tudo é dialético

Foi com a leitura de Antonio Candido que me iniciei na palavra ‘dialética’.

E com que doçura eu não a compreendia! E como quanto menos compreendia, mas me desafiava a fazê-la valer sobre todas as minhas verdades! E tanto me expus a esse desconhecimento que me fui deixando envolver por sua força vital.

Tanto na vida concreta quanto no mundo das ideias, fiz-me saber dos diversos que se apartam e se tangem, e construí­ em mim e em meu pensamento a coexistência de contrários que se integram.

Enveredava naqueles idos anos oitenta do século vinte na sutiliza simuladamente translúcida daquele pensamento claro.

Mas, dialeticamente, embevecido pelas ousadas experiências poéticas da época, fazia-me um formalista da palavra. Dançava com os signos e neles via o sentido lúdico de um jogo que eu preferia ao mundo e muitas vezes ao mundo me esquivava.

Fosse Antonio Candido um Vieira, dir-me-ia: “nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, caro rapaz! Perceba que tudo é dialético!”

Muitos anos se passaram para que eu sentisse e visse transformado este meu í­mpeto da arte e pela arte e da palavra em si palavra.

Não sei ao certo quando o mundo entrou em minha poesia e quando minha poesia foi ao mundo.

Antonio CandidoAntônio Candido: a palavra como exercí­cio polí­tico

Sei que as palavras hoje me dizem que são pérolas sem prescindir da ostra nem do mar. Se faço com as pérolas colares, coso cada uma dessas contas com a linha que há no mundo e o mundo em sociedade.

Naquele tempo eu não via no teórico o polí­tico, embora alguns mestres me o mostrassem. Lia-o como quem lê um manuscrito escavado nas ruí­nas de uma antiga civilização, mas que, por ser assim tão distante do meu mundo, era o novo que me apontava um horizonte.

Hoje entendo que o mestre Antonio Candido era um homem do seu tempo e, por isso mesmo, ajudou a construir o nosso tempo, fazendo da palavra o exercí­cio polí­tico por excelência: cosendo a verdade sem nunca a exagerar, transmudando o vil metal em fino ouro, como só acontecer na mais pura dialética.

Tenho de admitir que ainda não cheguei ao ponto de vista objetivo capaz de preservar a verdade sob todos os seus ângulos sem algumas vezes a desfigurar, mas isto não se dá pela idade nem pela ignorância de quem não deu ao mestre a devida atenção.

Dá-se em mim porque tenho viés de subjetividade que transborda no externo o mundo interno, mas isto ainda é dialética e por isso vejo contemplada a clareza das palavras do mestre Antonio Candido.

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Edilberto C.

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