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Aos mortos e aos que hão de vir

CEMITERIO PARAIBA

A morte não é um tema de simples abordagem. É um assunto complexo que pode ser avaliado e discutido sob diferentes aspectos e, talvez, gere tanta discórdia quanto futebol, política e religião. Aliás, na maioria das vezes, o debate sobre o que há depois da morte tem forte conotação religiosa. Não é minha pretensão, enfim, aprofundar o tema, mas como em mesa do Bar de Ferreirinha tudo se conversa, resgatei algumas pesquisas e outras considerações que merecem atenção.

De início, alguns apontamentos feitos por Alcineia Rodrigues dos Santos e publicados na Revista Inter-Legere da UFRN que, dentre outras ricas informações, lembra que o Seridó antigo sepultava a maioria de seus mortos nas próprias Igrejas, e indica o ano de 1856 como sendo o início de uma nova fase onde os cemitérios passaram a contar com construção de monumentos funerários. A propósito, sobre o Cemitério São Vicente de Paula, em Caicó, a pesquisadora afirma que sua construção se deu em 1913 e que o túmulo mais antigo atualmente encontrado é de 1918, construído para abrigar os restos mortais de Pedro Gurgel do Amaral e Oliveira. Acrescenta, sobre a pesquisa: “Partindo desse pressuposto, elegemos os cemitérios das cidades de Acari, Caicó, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, por serem essas as que tiveram no ano de 1856 as primeiras necrópoles criadas fora das igrejas, bem como terem tido em seus municípios cemitérios improvisados para receberem os mortos provenientes das epidemias”.

Recordo, sobre epidemias, que há um curioso Cemitério, isolado na zona rural de São Fernando-RN, que sepultou, segundo a versão local, centenas de pessoas vítimas da cólera e de outras epidemias. O “Cemitério das Areias” está desativado há muitos anos, mas ainda suscita a curiosidade e a reverência de muitas pessoas. Há notícia também de um campo santo, em Caicó, anterior ao Cemitério São Vicente de Paula. Ficava próximo à Igreja do Rosário onde, posteriormente, foi construída a Ação Católica, prédio que abrigou por muitos anos a Emissora de Educação Rural de Caicó, na Rua Otávio Lamartine.

Mas, voltando ao trabalho de Alcineia, disponível também na internet, vale a pena a transcrição do seguinte resumo: “Pesquisar a cultura funerária é mergulhar numa abordagem mais ampla no sentido de perceber como os costumes são utilizados para dar vida a determinada ordem social. Não nos resta dúvida de que os rituais mortuários reproduzem essa ordem. Falar da cultura mortuária passa, essencialmente, pela compreensão que temos de como se constitui ao longo dos tempos, a morte, o morto e o morrer. A finitude da vida provoca uma grande incerteza nos vivos que buscam incessantemente respostas para um mistério: o que ocorre após a morte”.

Com a morte, pela crença que a maioria professa, a alma se liberta da matéria corporal e segue, segundo a fé e as obras praticadas, para lugares específicos. Aos cristãos católicos, em particular, é dado o exercício de oração pelas almas. No Seridó de todos nós, não raro, as intenções das Missas se referem “as almas do purgatório”, uma prece pelos que ainda não chegaram na plenitude da visão beatífica. Também existe uma certa devoção “as almas dos vaqueiros”, uma boa mistura de reverência à coragem dos que lidaram com o gado e a natureza da caatinga, associada a solidariedade do pedido para que tenham, na vida que se acredita post-mortem, o merecido descanso dos justos.

Sobre a devoção às almas e o respeito que, independentemente de crença, devemos ter aos mortos, muito se fez no Seridó mais antigo através das Irmandades das Almas. A primeira foi em Caicó. Aliás, Padre Eymard Monteiro, no livro “Caicó: subsídios para a história completa do Município”, evidencia que a Irmandade das Almas de Caicó é uma das mais antigas do Brasil, fundada em 1791. “Esta Irmandade é de uma organização admirável, contando com uma infinidade de sócios no Brasil inteiro”, completa Padre Eymard, dizendo que o Cardeal D. Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, “era irmão das almas e tinha o seu nome escrito nas páginas do livro da Irmandade das Almas de Caicó.”
Quanto aos rituais fúnebres, realmente, os tempos foram mudando os costumes. Os velórios, antes com a preparação de bolos e biscoitos nas próprias casas, passaram – por algum tempo – a ocorrer nas Igrejas e, em seguida, mais frequentemente em casas funerárias. Há também quem encontre indícios da influencia judaica na cultura seridoense que lavava e amortalhava o morto antes do sepultamento.

Mas, o fato é que novembro é o mês das almas. Antes, aliás, havia a Festa das Almas que era um acontecimento religioso com repercussões importantes no calendário social, mas a relativização de valores e a mudança de costumes, infelizmente, já não empresta ao tema o mesmo destaque que antes. Algumas verdades, contudo, continuam em vigor, dentre as quais, que a morte alcança a todos e, mesmo sendo o fim uma certeza, a vida – dádiva de Deus – deve ser valorizada todos os dias, inclusive no Dia de Finados.

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Fernando Antonio Bezerra

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