Geral

Apenas um pitaco

Acho que até Iberê está careca de saber (desculpe, nunca resisto a essa piada) que o debate sobre cultura com os candidatos ao governo será nesta quarta-feira à noite. Participam os três mais bem postos à mesa: além do supracitado, tem ainda Rosalba e Carlos Eduardo. Será na Casa da Ribeira e coisa e tal (aqui).

Fui até convidado pelos dois grupos que estão organizando a parada, a Revista Catorze e o Núcleo de Jovens Artistas (valeu, caras!), mas não vai dar para estar em Natal no dia. Isso não significa que eu vá perder a chance de dar um pitaco sobre uns dois ou três assuntos interessantes sobre os quais os candidatos poderiam falar.

Aliás, antes disso, lembrei de um assunto que não me interessa nem um pouco: festa. Até porque tenho certeza que os três reis magos vão falar tanto de festa, que me daria vontade de colocar um cocar de penas e começar a sambar. Geralmente quem vem com esse papo não tem uma visão sobre cultura que vá muito além disso. Beleza: festa é bacana, todo mundo gosta e uma ruma de gente tira um troco com elas. Mas se for assim, que tal sugerir um calendário de eventos consistente, que contemple as diferentes regiões do estado, com regras claras para concessão de apoio público a cada iniciativa? De preferência, contemplando as diferentes tendências, gostos e estilos. Só se fala em porra de auto. Sinceramente. Por que não festivais regionais de teatro, colocando os artistas para circular, promovendo a formação deles e de novos pelo intercâmbio e pulverizar a audiência (mas por favor sem matar o povo), apresentando em escola, teatrinho, casa de cultura e o escambau? Pelo menos assim, agrada àqueles com visão meramente utilitarista da cultura e faz algo de futuro pela classe.

Eu queria muito que alguém me dissesse o que diabos vai fazer com a Fundação José Augusto, esse bode antediluviano atravessado da sala ao quintal. Além de uma estrutura sucateada e funcionários desestimulados, um esquema de desvio de verbas públicas montado na Casa Civil do governo Wilma de Faria por gente de boa família conseguiu piorar o que já era muito ruim bote aí uns 20 anos.

Não bastasse a dotação orçamentária vergonhosa, a FJA terminou soterrada por uma burocracia brutal. Se você aliar isso à incompetência administrativa dos atuais gestores, dá para entender o atual estado das coisas por lá. Como todo governante com mandato novinho adora uma reforma administrativa, que tal sugerir o compromisso de uma mudança radical naquele buraco, de preferência que garanta autonomia administrativo-financeira ao órgão? É o único modo de se ter planejamento, o que duvido já haver existido na FJA.

A atual gestão ao menos criou câmaras setoriais. Tudo bem que elas não funcionam a contento e estão esvaziados (também, já pensou passar dois, três meses discutindo a criação de um edital e não ver o bichinho sair da toca dois anos depois?). Mas são espaços ideais para discutir ações para cada expressão artística ouvindo àqueles que as fazem: eu, você e aquele outro cara esquisito ali do lado. É disso que precisamos: de espaço para sermos ouvidos e levados em consideração. Aí as coisas acontecem.
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Aproveitando o gancho anterior, apresento minha crítica também ao evento em si. É louvável propor uma discussão que trate exclusivamente de cultura. Sou um cara novo, mas como tem eleição de 2 em 2 anos nesta birosca, já vi algumas campanhas e não lembro de nenhuma deste tipo promovida anteriormente. Mais uma vez parabéns à galera que propôs e organizou.

Mas debate é um troço que já era. Tem um apelo apenas midiático. E nem o povão mais curte, é só reparar nos índices de audiência dos promovidos pelas tevês. Além de vir com umas regras chatas, que limitam as falas dos candidatos.

Num lugar com 160 lugares, somos (teoricamente) um público qualificado que entende (teoricamente) do tema. Se for para falar de cultura, deixem os caras falarem. Quero escutá-los, retrucá-los, redargüi-los. Fabrício Nobre e sua turma, lá em Goiás, promoveram encontros individuais, sabatinas, com os candidatos ao governo.

É muito fácil encarar as notórias nulidades da política potiguar discutindo cultura por 5 minutos. Queria ver elas trocarem uma ideia conosco por 2 horas, sozinhas, como elas adoram fazer com empresários e comerciantes.

Seria também uma forma de discutirmos uma política cultural, da qual somos tão carentes. Até porque não lembro de, em momento algum nos quatro anos que antecederam esta eleição, ter ouvido falar de algum grupo político que convidou alguma entidade representativa da classe artística para discutir ou formatar um esboço de programa de governo. Coisas de uma democracia de espetáculo, aquela que precisa de hora marcada e autorização da justiça para acontecer.
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Essas mal traçadas acima são também uma resposta com mais de 140 caracteres para a jornalista Ramilla Souza, com quem tive o prazer de conversar rapidamente ontem à noite sobre política. Nos últimos anos tenho até me esforçado para votar num ou outro candidato a cada eleição. Mas sou a favor do voto nulo. Se você não curte viajar pro exterior, sou a favor de não ir nem lá pr’essa babaquice que é ‘justificar’ o voto ou teclar números não-cadastrados. Acho até mais complicado justificar o voto em certas criaturas do que não querer sair de casa para votar nelas.

Mas isso não signifique que despreze a política. Estou, sim, rodriguesneteando para esses caras que acham que fazem política e suas estruturas viciadas de poder. Faço política olhando criticamente para as ações deles e de seus apaninguados, trocando idéias com meus semelhantes aqui e acolá em alguns artigos, faço política quando escrevo meus continhos de ficção científica. Aí, aqueles que se importam com os ‘canais institucionais de representação democrática’, como você, Ramilla, os meninos do Núcleo de Jovens Artistas, a turma da Revista Catorze, e tantos outros grupos organizados e atuantes, podem dialogar comigo e com quem mais tiver afim, sobre como podemos mudar as coisas.

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Comentários

6 comments

  1. françois silvestre 7 setembro, 2010 at 19:45

    Tá todo mundo no “acho”, vou pro acho também. Sabe o que vai dar nesse debate? Nada. Absolutamente nada. Tudo conversa fiada. E não é culpa só do poder. Não. Hoje, vendo de longe tudo que se passou, pergunto; quem cobrou a interrupção do programa que havia? Ninguém. Nem os exigentes jornalistas isentos e sisudos da cobrança. Só interessava o escândalo. Ninguém perguntou sobre o prejuízo do corte do trabalho que se fazia. Ninguém. casas de Cultura, revista Preá, restauração de imóveis e bens arquitetônicos, Teatros, Forte, solares. Teatro de cultura popular, resgate de mamulengos e bois bumbás. Reestruturação da Orquestra sinfônica, ineriorização das ações culturais. Ninguém sentiu obrigação de cobrar a manutenção desse trabalho. Ninguém. Era como se o foliaduto desobrigasse todo mundo da cobrança. E desse a todos o mesmo e surrado direito de não reconhecer o trabalho realizado. E o que é pior: desse a todos o mesmo e escroto direito de jogar pedras sem nada edificar. Escarro na cara hipócrita dos cobradores de cultura. A inveja deu a eles a satisfação da sacanagem. Pra cima de mim? Tudo um bando de canalhas. Debate? Promessas? Teorias? Só paparicam o poder e o que podem dele tirar. E a maioria das críticas não saem da vontade de fazer pela cultura, mas pelo ranço da insatisfação pessoal ou por interesses contrariados. Ou até por falta de assunto cultural e busca de janela para buscar luminosidade. Pra mim, esse é um assunto que não serve à cultura. Serve à mendicância cultural. E de mendigos da cultura estamos cheios. De rabo a saco.

  2. Ramilla Souza 7 setembro, 2010 at 19:48

    Gostei bastante das sugestões. Por incrível que pareça (ou nem tanto) eu já tinha esquecido da existência dessas câmaras setoriais, mas, de fato, elas são interessantíssimas. É o melhor espaço pra diminuir essa burocratização do inferno e a incompetência comum às instituições públicas.

    Quanto ao debate, essa ideia da sabatina é bem legal mesmo. Em três dias, acho que seria impossível, mas juntando os candidatos num dia só… Talvez a falta de experiência tenha nos atrapalhado, mas, por mim, esse vai ser só o começo.

    Sobre o alvo de nossa discussão, o voto nulo. Ainda acho muito complicada essa ideia. O fato é que nós precisamos escolher. Se a gente não escolhe, outros escolhem e por motivos menos dignos. Há uma espécie de puritanismo nessa vontade de não se envolver, não se sujar. Mas, não se faz gemada sem quebrar os ovos, né? Se envolver é necessário. Se manter limpo também e juntar essas duas coisas é muito difícil.

    Mas, é claro que, muito mais importante que votar, é falar sobre política, gestões, apontar, criticar, o que também é fazer política.

    Abraços e obrigada pelo artigo.

  3. mr moo 7 setembro, 2010 at 22:41

    Fazer um intensivão de qualificação em gestão pública bem que poderia passar a ser pré requisto exigível para os que fossem indicados para assumir cargos públicos relevantes no setor de cultura.

  4. foca 8 setembro, 2010 at 06:57

    Francois, se você acha mesmo que quem se propos a sair de casa (como o dosol) ou de abrir sua própria casa (como a casa da ribeira), está fazendo isso por mendicância cultural, só posso concluir que você desconhece nosso trabalho (no mínimo).

    Vou lá para participar e para poder ter MORAL PARA COBRAR DEPOIS. Não pecar pela omissão. Não precisamos de governos, do jeito que está a coisa, eles é que precisam da gente. Mais do que nunca.

    Se você desacredita tem o direito, mas não queira tirar a importância de quem ainda se importa, porque foi exatamente isso que você criticou quando citou a falta de cobrança (inclusive da imprensa) nas questões culturais que você levantou.

    Em tempo, levantar casas de cultura, sem se preocupar (sem verba e sem pespectiva) com a programação e a ocupação delas foi uma péssima ideia.

    Muito respeito e grande abraço Mestre!

    humildemente…

    foca
    dosol

  5. Luana Ferreira
    Luana 8 setembro, 2010 at 08:18

    Concordo com Alex em relação ao formato do debate, embora ache que é pedir demais que o candidato discuta com profundidade assuntos muito específicos da área. Bom mesmo é que ele assuma o compromisso de instituir/fortalecer instrumentos de participação popular para não ‘correr o risco’ de governar sozinho ou com um pequeno grupo apenas. Quanto ao voto nulo, eu acho que o cenário está tão desastroso que se abster de escolher é arriscado demais. Se não há candidato ideal, paciência: eleja um critério, vote pelo passado, pela equipe, pelo projeto para alguma área…

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