Apolo/Dioniso: um no outro
30 de setembro de 2009 às 18:18 - ComentarNo blog Papo Furado, do poeta Jairo Lima:
“De Lobão, segundo a coluna de Sérgio Vilar: “O rock é dionisíaco; a Bossa é apolínea. A Bossa Nova é um esforço tão banal quanto o instrumental de Ray Conniff; coisa de bunda mole”. E completou: “Detesto música instrumental, exceto a erudita”.
• Esse caba pode ser uma metralhadora giratória. Mas, tem munição. Quando ele fala do rock como dionisíaco (participativo=rito) e da bossa nova como apolínia (contemplativa=arte) ele chega muito perto de uma definição inteligente de Arte. E chama música erudita de erudita, para desespero da monocultura pop. Aí, doidão, valeu. JAIRO LIMA
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Apolo/Dioniso: um no outro
Marcos Silva
Quando Nietzsche falou em Dioniso, operou uma reviravolta na leitura da Grécia clássica. Ao invés de uma mitologia embalsamada, ressurgia um mundo de intensa vitalidade e em pleno fazer-se.
Mais de cem anos depois, ficar repetindo a oposição Apolo/Dioniso como exclusão pura e simples é embalsamar Nietzsche. E sua aplicação ao par bossa nova/rock é muito limitada.
Aconselho a audição de bossa nova e seus desdobramentos. Canções como “Bim-bom” e “Oba-la-la”, são puro equilíbrio apolíneo? A delicadeza dos ritmos não oculta o gozoso de sua penetração corporal. E que dizer das aventuras de Baden Powell e Edu Lobo? Pra entornar mais o caldo, o Apolo do violonista dança capoeira com Exu! E o Apolo do outro compositor briga junto com os quilombolas!
Aconselho a audição de rock and roll e seus desdobramentos. As canções de Jimmi Hendrix e Carlos Santana são puro êxase dionisíaco? Lembro de Santana falando que usou LSD poucos minutos antes de de se apresentar em Woodstock. Não errou um compasso sequer! Por que será? A resposta é óbvia: anos de estudo racionalíssimo! As letras de Cazuza revelam um leitor dedicado do cancioneiro brasileiro mais clássico: Apolo-Dioniso?
É preciso não permanecer em 1968 – ano em que o disco “Tropicália” foi gravado. Mas é ainda mais necessário não ficar num patamar pré-Tropicália. Rita Lee gravou não sei quantos rocks com voz de Nara Leão!
Opor tipos ideais é fácil. Entender um no outro é mais complicado mas sempre interessante.”


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