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Apologia da arte: O Artista está nu

Edilberto_Love's is paradox_Damien Hirst

Duas exposições em museus, além de uma peça de teatro, foram acusadas de serem antros de perdição e descaminho para crianças; tenho visto apologias ao crime, à morte, ao assassinato, à tortura, às ditaduras. É hora, pois, de uma apologia da arte.

Imagem de capa: “Love’s paradox”, de Damien Hirst

Quero escrever uma apologia da arte. Quero escrever porque a apologia está em voga e, como artista que me sinto, sigo também o que voga e vaga na atmosfera dos dias.

Tenho visto variadas apologias: ao crime, à  morte, ao assassinato, à tortura, às ditaduras. Proliferam apologias ou acusações de sua prática.

Vi recentemente que atribuem à arte apologia à perversão. Em torno da acusação criou-se ondas de combate à arte. É hora, pois, de uma apologia da arte.

Antes, porém, acorrem-me alguns pensamentos. Percebo que algo de positivo emergiu na suposta onda conservadora de combate à arte. Qual seja? A impressão de que a arte saiu da inércia, entrou na ordem dos dias e propicia acaloradas discussões.

Há não muito, artistas andavam a fazer arte e tranca-la em museus. Poetas a fazerem poemas e trancafia-los em livros. As luzes do teatro jaziam na penumbra de poucos ingressos comprados. Músicos soltavam harmonias entre dissonâncias de gosto duvidoso.

Homens modernos, de óculos lilases, e mulheres alegres de saberes visitavam museus e liam poemas em livros mal abertos. Ambos ouviam músicas plugados a smartphones. Tudo em morna fruição… salvo por ruídos estrondosos da cultura de massa, a quem urge invadir e ocupar espaço. No mais, formalidades e silêncios.

Apollonia Saintclair

Apollonia Saintclair

Quem está nu?

Subitamente, abriram-se os museus. Cercaram os teatros. E a turba apaixonada ameaça invadir e depredar. Crucificar atores e fazer imensas fogueiras com os livros. Subitamente discute-se “O que é arte?” como quem discute gol de mão e pênalti não marcado.

Duas exposições em museu, além de uma peça de teatro, moveram paixões e ódios. Ambas acusadas de serem antros de perdição e descaminho para crianças (Leia Conservadorismo impõe sua agenda). Em uma delas o ator estava nu e lá estava a criança.

Nudez e infância são elementos de difí­cil reconciliação. Anderson já nos alertava disso quando contou a história da Roupa nova do Rei. Naquele conto, ninguém teve coragem de perceber a nudez de sua majestade. Apenas a criança percebeu e apontou indiscretamente, num grito de eureca a mostrar o óbvio: o rei estava nu.

Diferentemente, na exposição do museu parece que a criança sequer se deu conta da roupa nova do rei. Viram-na os adultos. E apontaram de dedo em riste ao risco de se estar nu ante uma criança. Apontaram para o nu e acertaram na infância. É a criança o alvo e a mira de todos que acessam o famigerado episódio em redes sociais.

Fico pensando sobre que se passa com uma criança subitamente lançada em evidência aos olhos do mundo, vendo a si apontada e a mãe ou suposta mãe julgada. Como terá sido seus dias desde a famosa exposição? E que dizem os doutores da lei ante a nudez de uma criança vestida?

Riccardo Federici

Ilustração: Riccardo Federici

Os degenerados devem arder no fogo do Inferno

Entendo que estão todos nus. Já dizia o antigo rábula: toda nudez deve ser castigada. Para isso: vamos expor a criança, para fecharmos museus. A arte está nua, não há como esconder. E todos lançam pedras: isto é arte? O que é arte então? A arte é nefanda! Não queremos arte!

Discute-se o que não seja arte em vista de condenarem todos ao fogo do Inferno. A arte é ameaçada. E urge fazer sua apologia. Que se faça urgentemente a apologia da arte, sob risco de a vermos condenada e expulsa da República, como já o fizera Platão.

Mas antes convém entrar na discussão do que seja arte – questão das mais urgentes ao longo da história e que muito dividiu crí­ticos e filósofos –  mas é preciso que se resolva sob risco de morte, extinções e extirpações.

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Edilberto C.

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