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Apologia da arte: onde andam as borboletas?

ROdin_O Beijo

Temos medo da arte que mostra a pedra grotesca que nos tornamos.

Escultura “O Beijo”, de Auguste Rodin

A atmosfera está pesada. Perdemos a leveza do ser. Vivemos atualmente tempos duros e densos. A sociedade arrasta-se como Sí­sifo, sentindo o peso de sua imensa rocha empurrada montanha acima.

Em todos os cantos, esmaga-nos o fardo coletivo que carregamos e lançamos uns sobre os outros. Não se trata de dividirmos o volume em vista de aliviar o desconforto coletivo.

Mas de provocar uns nos outros aquilo que sentimos.

Leto sente a densidade e, inchada, reveste-se de camadas superpostas de seda originadas de seu suor. Cobre seu corpo e fecha-se atarantada. Quanto mais pesada se sente, mais e mais densa tornam-se suas roupas. Teme a nudez e inconscientemente foge da leveza.

Assim estamos nós em sociedade.

Tememos a nudez e fugimos da leveza.  A arte que nos dispa será execrada. Temos medo, e o nosso medo emana ódio. Não há em nossa geografia a ilha flutuante de Delos que nos dá abrigo e alívio ao fardo que nos oprime.

Estamos encasulados. Tememos a arte que nos dispa ou reflita em seu espelho a grotesca pedra que nos tornamos.

Leto não conheceu o velho feiticeiro, Rodin, que com cinzel nos desnudava, libertando em nós a borboleta.

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Escultura “Andrômeda”, de Auguste Rodin.

A beleza é sempre submersa 

Com um “beijo”, Rodin desnuda a pedra. Do casulo do mármore evola o corpo nu. Erotismo, paixão e verdade pairam no ar como se sequer fossem concretos.

Diz-nos Rodin que a beleza é sempre submersa, e só a nudez diz a verdade. Só a nudez desfaz a pedra que nos oprime. Não era o homem, a mulher, a natureza o foco, a mira de Rodin. O que ele buscava na pedra, no mármore e no bronze, era o nu. Suas modelos transitavam nuas em seu ateliê. Borboleteavam até encontrar a leveza de ser.

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François-Auguste-René Rodin (1840-1917) foi recusado na principal escola de arte francesa; de uma família da classe operária, ele se tornou um marco na arte moderna.

Só então, braços desarmados, pernas abertas, sexo aflorado, transpiravam em flor vinda da pedra. Na forma que nascia, a luz batia, os gestos criavam vida e o corpo pairava em movimentos reais, dinâmicos, alternando leveza e paixão, ternura e drama.

O corpo lançava-se no ar, e o coito era uma dança de luz e sombra.

Arte para amenizar a atmosfera pesada

A atmosfera está pesada. Perdemos a leveza do ser. Vivemos atualmente tempos duros e densos. Leto não conta mais com a magia do feiticeiro. Temendo a arte, retorna a crisálida e, em breve, arrastar-se-á ao chão, negando a borboleta.

É a hora de salvarmo-nos, é a hora de salvar a arte.

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Edilberto C.

Comentários

6 comments

  1. Lena Azevedo Ritzel 21 novembro, 2017 at 13:52

    Sensibilidade e força caminham juntas na construção desse querido, caminhante e nobre professor! Bj

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