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Aratu no facho

O aratu é uma espécie de caranguejo achatado que habita os arrecifes do nosso litoral. Não o confunda com o aratu do mangue, uma espécie menor e menos saborosa. São seres notívagos e arredios. Alimentam-se de restos de peixes mortos e de algas esverdeadas que se prendem às rochas limosas. Na praia de Camurupim, em Nísia Floresta, temos um grande paredão de rochoso que se estende por vários quilômetros e bloqueia a fúria do mar agressivo, permitindo um ambiente adequado para a proliferação desses aratus. Os nativos praianos dizem:

– Vamos pegar aratu no facho?

A “pegada” dos aratus é feita em noites sem lua e a caçada é iluminada por um facho feito com uma cesta metálica pendurada em uma vara onde se queimam pedaços de pneus velhos. Observei uma variante ancestral dessa técnica em que se usam folhas de coqueiro trançadas e queimadas com esse intento. O facho é segurado pelo homem mais experiente que conhece o caminho entre as pedras e que sabe calcular o tempo aproximado de retorno das ondas, gritando para os outros do grupo:

– Olha o mar! Olha o mar!

Esse grito é um aviso para todos correrem da borda do recife fugindo a tempo da onda traiçoeira que se aproxima. Os coletores aproveitam-se do refluxo das ondas para capturarem, sem esforço, o maior número de aratus possíveis que, cegos momentaneamente pela luz do facho, são presas fáceis e dóceis.

A comitiva, correndo o risco de ser tragada pelas ondas e esmagada contra o rochedo escorregadio, não retrocede em sua marcha e, em pouco tempo, centenas de caranguejos são coletados. Baldes e sacos, cheios e pesados, são levados para as residências e os caranguejos são lavados e cozinhados só com água e sal. São extremamente deliciosos e têm muito mais carne que os outros tipos de caranguejo, tais como o siri, o goiamum ou o uçá.

Os locais gostam tanto dessa atividade coletiva que criaram um famoso bloco homônimo, Aratu no Facho, sucesso no carnaval local e que homenageia essa ligação primeva do caiçara com o delicioso crustáceo.

Fui a três pegadas de aratus e achei uma aventura perigosa e excitante, mas, confesso, na última vez sofri uma queda medonha, quebrei meus óculos, quase fraturei o braço e me arranhei todo. Temi pela minha vida e jurei não mais repetir a dose. Não caço mais aratus, porém… como são gostosos esses caranguejos!

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Edmar Cláudio

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