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Ariano Suassuna, a estética da cabra e o Brasil Real

Em 2011, me desloquei de Mossoró até Pau dos Ferros para tentar uma entrevista com o escritor Ariano Suassuna. Ele tinha ido ao município para dar uma palestra na abertura do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia (IFRN). Nos hospedamos no mesmo hotel, Hertz, e eu fiquei de prontidão lá pela recepção aguardando o momento certo. Seu agente chegou a dizer que talvez não desse tempo, botou um pouco de dificuldade, mas quando viu que eu não desistia, pediu para eu esperar para depois do almoço. Quase duas da tarde eu estava na recepção quando ele sentou-se do meu lado. O ar condicionado não funcionava e a pele de veludo dele transbordava. Eu, aspirante a escritor e admirador confesso, estava nervoso demais para um jornalista experiente. Então numa hora disse: já vamos acabar com a entrevista e assim, a palo seco, ele respondeu: pois acabe mesmo! Foi só o tempo de terminar as perguntas, pegar meus autógrafos e tirar algumas fotografias. Segue a entrevista publicada originalmente na edição número 3 da revista Contexto, do Jornal de Fato.

O senhor ainda cria cabras. O que é a tal “Estética da Cabra”?
ARIANO SUASSUNA – Não existe uma estética da cabra, eu só acho um animal bonito. Eu realmente crio, mas quem cuida mesmo é o meu primo Manoel Dantas Vilar. Então, quando entrei no negócio, eu quis criar a cabra nativa, porque é uma cabra que já tem quinhentos anos de adaptação. Você pega uma anglo-nubiana e coloca dentro da macambira, ela não resiste. Agora, esse negócio da estética apareceu porque eu queria as cabras de três cores: vermelha para representar o índio; branca, para representar o povo português e a preta para representar o povo negro, que são as três cores iniciais da cultura brasileira. Depois uma azul para representar os italianos e o resto do povo que apareceu (risos).

COMO é sua casa nos finais de semana e feriados? É dia de visita de filhos e netos?
OLHE, meus filhos me visitam com tanta frequência que não tem isso lá em casa. Eles fizeram suas casas no quintal da minha, de forma que nos vemos todo dia.

COMO o senhor define a sua relação com dona Zélia de Andrade Lima, sua esposa? O senhor tem alguma dependência dela?
EU sou totalmente dependente dela. Nós namoramos desde o dia 20 de agosto de 1947 e não acabou ainda e nunca vai acabar. Certa vez, alguém me disse que Zélia era minha eterna namorada. Eu disse, não, ela é minha esposa!

QUEM faz as suas roupas é mesmo uma costureira popular do Recife? Como é a sua vivência com o “Brasil Real”?
NÃO, veja bem: eu sei que não é o fato de eu me vestir de um jeito ou de outro que vai me fazer pertencer ao “Brasil Real”. Eu fui nascido, criado e deformado pelo “Brasil Oficial”, mas, na medida em que me é possível, eu procuro chamar a atenção para a importância do povo do “Brasil Real” e a minha roupa, eu fiz questão de passar a ser feita por uma costureira popular para mostrar essa minha identificação com o “Brasil Real”.

POR QUE o senhor se opôs ao manguebeat de Chico Science?
OLHE, vocês precisam me conhecer melhor. Há pouco, ali, um rapaz veio até me dá os parabéns por um texto que eu teria escrito que está na internet; um texto defendendo o forró. Eu nunca escrevi aquele texto, nem me interesso por esse tipo de coisa não, tá certo? Então eu gosto muito de maracatu rural, agora, eu detesto o rock! Então eu não podia concordar com Chico quando ele tentou fundir uma coisa com outra, segundo ele, para valorizar o maracatu rural. Eu digo: eu não sei como uma coisa ruim como o rock vai valorizar uma coisa boa como o maracatu rural!

EM 2002, durante entrevista à revista Continente, o cantor Chico César disse que Chico Science fez em três semanas o que Ariano Suassuna tentou fazer a vida inteira…
PRONTO. Essa é a opinião de Chico César, vá perguntar a ele! (fica visivelmente irritado).

COMO é a sua vivência hoje com os artistas, incluindo o próprio Chico César?
OLHE, convivência comigo é a coisa mais fácil do mundo. Eu tive a melhor convivência do mundo com Chico Science, tá certo? Éramos amigos, agora eu discordava dele; e Chico César eu estou sabendo disso agora… Eu tenho uma convivência ótima com ele, tenho uma grande admiração por ele e sei que essa admiração é retribuída, agora, ele pode pensar o que quiser, eu penso o meu e pronto!

COMO está sendo feita a cultura nordestina? O senhor acha que essas influências externas estão apagando a cultura de Câmara Cascudo?
OLHE (pigarro), o que Câmara Cascudo fez e o que ele cita não se acabou não. Podem vir trezentas mil coisas modernosas aí, o que ele fez está lá feito. Esse tipo de cultura de massa que quer uniformizar as culturas existe também na Espanha, mas a Espanha verdadeira está sempre no Dom Quixote, ou na música de Manoel de Falla ou no teatro de García Lorca e na poesia de García Lorca, isso não importa não. Eu faço a distinção entre sucesso e êxito… Tá vendo? – Entre sucesso e êxito: essas bandas de rock que estão por aí, ou de “punk” ou de “funk” (palavras pronunciadas por ele como se escreve), ou seja, lá do que for, têm mais sucesso que qualquer um de nós, mas eu duvido que eles façam uma obra da importância da obra de García Lorca, ou da obra de Vila Lobos aqui no Brasil.

O SENHOR usa computador?
NÃO, uso não. Não tenho nada contra o computador. Não uso porque eu gosto de escrever à mão, mas eu tenho um genro, que é assessor meu, Alexandre, que ele passa para o computador. E um amigo, chamado Carlos Nilton Junior, que também passa o que eu escrevo para o computador, o que facilita o meu trabalho de escritor.

COMO é a relação do senhor com o Rio Grande do Norte?
BOM, é uma relação muito forte. Eu vou lhe resumir. Como nós dois somos nordestinos eu não estou ofendendo ninguém. Eu tenho para mim, que o Nordeste é o coração do Brasil e o coração do Nordeste é formado por três estados: Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Então para mim, o Rio Grande do Norte tem uma importância enorme. Inclusive, hoje de manhã eu dormi no Martins. Eu fiz questão de passar pelo Martins, apesar de que aumentava a viagem, mas o que eu queria conhecer era a terra do meu avô. Meu avô nasceu em Martins. Então, o meu bisavô nasceu em Pernambuco, meu avô em Martins, no Rio Grande do Norte e meu pai e eu na Paraíba. De maneira que você já entende porque que eu digo que o coração do Nordeste é feito por Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

O SENHOR está assistindo à novela Cordel Encantado? (por esses dias ainda passava no horário das seis). O que o senhor acha da abordagem dos temas Nordeste e Cangaço?
EU estou assistindo. Veja bem: aquela novela representa uma vitória nossa. Pense vinte anos para trás, aparecer uma novela daquelas, num é? Com o Nordeste presente em tudo; uma música dos tipos; uma própria maneira de encarar o real. Agora, eu tenho minhas restrições, mas eu vou dizer uma coisa: do gênero novela, eu tenho me encantado com poucas quanto aquela, ou para ser justo: eu nunca me encantei com uma novela como estou encantado com aquela, agora, fazendo minhas restrições.

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Comentários

3 comments

  1. Anchieta Rolim
    Anchieta Rolim 24 julho, 2014 at 22:23

    Porra, José de Paiva, depois de uma entrevista massa dessas faz outras e manda pra cá homi. Apareça… sumiço sem graça esse seu.

  2. Inacio Salviano Nery 29 julho, 2014 at 16:54

    realmente nos congratulamos com o nobre escritor sobre as questões culturais que precisam serem preservadas e uma das maneira de isso possa acontecer é a propagação nas escolas, nos teatros, nos meios de comunicações em geral e novas vertentes culturais não vão apagar as já existentes, e no mundo da cultura e da ciência não há inimizades e sim pontos de vistas diferentes sob os quais as pessoas defendem com argumentos e informações consistente que possa trazer amparo aos seus posicionamentos.

  3. Alex de Souza 30 julho, 2014 at 14:00

    “Carlos Nilton Junior” é, na verdade, Carlos Newton Junior (que inclusive foi professor na UFRN). De resto, um bom papo.

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