Arte e ética em “The Square”

Tácito Costa
Artes VisuaisDestaque

Tenho dedicado os últimos dias a assistir filmes que não pude ver no decorrer de 2017. Falei sobre isso no meu texto anterior. Ontem fui ao Cinepólis Natal Shopping conferir “The Square: A arte da discórdia”, ganhador da Palma de Ouro 2017, em Cannes, e um dos cotados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano.

Por uma feliz coincidência, assisti na semana passada em casa (baixei da Internet), outro filme, “Força Maior”, do mesmo diretor, o sueco Ruben Östlund. Recomendo os dois, que abordam algumas questões éticas contemporâneas.  As sinopses e críticas vocês conferem na Internet.

Percebi uma certa unanimidade com relação a “Força Maior”. Já em relação a “The Square” a crítica se dividiu. Algumas enalteceram e outros consideraram fraco. Gosto de ler a opinião publicada nos blogs especializados. Algumas chamam atenção para detalhes do filme que às vezes não nos damos conta ou não valorizamos. Contribuem também para eu formar a minha própria opinião.

Vou me ater a “The Square”, que continua em cartaz em Natal. Dois eixos dominam o filme: a arte contemporânea e a vida do curador de um importante museu na Dinamarca, Christian, às voltas com a montagem de uma importante exposição. Essas coisas caminham juntas durante todo o filme.

Acrescentaria uma terceira questão tratada lateralmente, mas nem por isso menos importante, que aborda o trabalho da imprensa (no caso Assessoria de Imprensa) nesses tempos dominados pelas redes sociais, fakes news e idiotas.

Em todos os casos são levantadas questões atuais, que merecem nossas atenção e reflexão. Na verdade, a discussão levantada pelo diretor Ruben Östlund, sobre o lugar da arte no mundo atual, o que a diferencia do embuste, não é nova. O que muda, no final das contas, é a forma como cada artista ou intelectual aborda o assunto. Muito já se escreveu e debateu sobre isso, mas o tema não perdeu sua atualidade. Continua polêmico.

O filme trata esses dilemas com graça, um humor corrosivo é bem verdade, mas que, inevitavelmente, nos empurra à reflexão. Desnuda uma parte dos bastidores do mundo das artes. Bastidores esses nem sempre recomendáveis. Entre os recortes hilários, destacaria a performance do “homem gorila” no jantar de gala para as elites financeira e cultural dinamarquesas.

Conhecendo um pouco o meio cultural, que tem características muito parecidas, independente de ser na Dinamarca ou no RN, o filme deverá ser visto como “conservador” por pessoas ligadas às vanguardas e performances. E fiel à realidade por outra parte dos apreciadores da arte. Assistam e tirem suas conclusões.

Share:
Tácito Costa

Comentários

4 comments

  1. Liana Batista 16 janeiro, 2018 at 18:48

    Como eu te disse, acho que há um forte comentário político no filme: a distância entre o mundo do curador, as afetações e artificialidades do mundo artístico contrastando com a pobreza que quase passa despercebida por ele no seu cotidiano. Os pedintes são em sua maioria, imigrantes. A recusa que muita gente demonstra em ajudar essas pessoas, mostra o quão ousada é a proposta da artista que teve sua obra destruída pela falta de profissionalismo do curador e a vontade de “viralizar” dos desastrados marqueteiros. E, acredito que a cena do macaco traz outra alfinetada: um recado na linha “Ainda somos todos orangotangos”, parafraseando Spolidoro . E você se divertiu na cena, eu fiquei tensa, me lembrando de algumas performances malditas que já presenciei com artistas arrastando o público para o palco…rs Desconfio até que este é um dos motes do filme: o riso no embaraço, uma sensação de desconforto constante que, não raro, leva ao riso.

Leave a reply