As histórias dentro das histórias
27 de junho de 2010 às 23:25 - 7 ComentáriosPara Jarbas Martins
Desde muito tempo mantenho o hábito intuitivo de recorrer a histórias, mitos, fábulas, poesias e contos dentre outras coisas lidas para auxiliar numa conversa no intuito de provocar uma reflexão, tornar mais clara uma situação, considerar uma questão sob outra ótica, outra lógica.
Por vezes a história relatada suscita uma segunda que evoca uma terceira e assim, sucessivamente, tal qual bonecas Matrióchka (bonecas russas) que, carregam uma(s) dentro da(s) outras.
Contudo, não me peçam para contar uma história. A história surge quando convocada pelo outro, da sua necessidade em ouvi-la, ou seja, o material que o meu interlocutor me fornece é que evoca a história a ser contada. E isto requer sensibilidade, disponibilidade e, particularmente, doação.
Uma palavra, uma frase, uma história que ouvimos ou lemos, por vezes provoca um insight na direção do próprio conhecimento por traduzir algo até então desconhecido de nós mesmos e que não estávamos conseguindo nomear.
Um dos possíveis significados da palavra aramaica abracadabra, é “eu crio ao falar”. Algo como llamar o tocar a la puerta, expressão descrita por Estés (1998), como a batida dos contos de fadas à porta da psique profunda da mulher. Llamar o tocar a la puerta: Tocar o instrumento do nome para abrir uma porta, usar palavras para obter a abertura de uma passagem.
No século XIX, a paciente que ficou conhecida como Ana O. solicitou a seu médico Josef Breuer, precursor da psicanálise e estudioso da histeria que a deixasse falar para que ela pudesse fazer uma espécie, de “cura pela palavra” o que parece ter sido fundamental para a psicanálise.
Estés (1996), relata uma antiga tradição familiar de responder a perguntas com histórias, sobretudo, àquelas referentes à como viver a vida, particularmente questões do coração e da alma.
De acordo com essa tradição (Estés, 1998), histórias, mitos, fábulas e folclore são aprendidos e conservados como um grande grupo de medicamentos de cura, cada um exigindo preparação espiritual e certos insights tanto do contador de histórias quanto do ouvinte. A vida de um guardião de histórias seria uma espécie de pesquisador, curandeiro, especialista em linguagem simbólica, narrador de histórias, inspirador, interlocutor de Deus e viajante do tempo.
Ainda de acordo com essa autora, as histórias são tradicionalmente usadas de muitos modos: Para corrigir erros, para iluminar, auxiliar a transformação, curar ferimentos, recriar a memória. Contudo, seu principal objetivo consiste em instruir e embelezar a vida da alma e do mundo.
Como uma história leva a outra, puxo um fio muito antigo para elucidar que as histórias como “instrumentos de cura”, já se faziam presentes em As mil e uma noites, história que remonta ao século IX.
As mil e uma noites é uma história fascinante sobre “contar histórias”. Cada história está intrincada em outra e quando desenrolamos o seu fio, elas vão se derramando uma após outra, sucessivamente.
O que mantém Sherazade viva a cada noite está no saber encadear uma história na outra, despertando o desejo de ouvir o resto do desfecho, pois ela interrompe o relato exatamente no ponto mais instigante.
O rei Sheriyar ao descobrir que sua mulher o traía com um escravo cada vez que ele viajava, mata a ambos e convencido de que nenhuma mulher no mundo é digna de confiança, desposa a cada noite uma e depois de satisfeito os “prazeres do corpo”, manda executá-las.
Sherazade, filha do vizir, comunica ao seu pai que deseja ser esposa do rei e se mantém irredutível mesmo diante dos seus apelos que, desesperado tenta dissuadi-la do que seria morte certa.
Sherazade casa-se com o rei e na primeira noite em que dorme com ele, põe em ação uma sábia estratégia: contar histórias para passar a noite em vigília.
Após a permissão do rei que concorda em ouvi-la, Sherazade dá início então, ao primeiro ciclo de história-dentro-da-história, interrompendo-a no ponto exato: “Isto não é nada, comparado ao que contarei amanha à noite se o rei me deixar viver”. E o rei: “Por Alá, não a matarei até ouvir o resto da história”.
E a história contada a cada noite é interrompida antes do fim para novamente ser continuada história após história e o rei cada vez mais
maravilhado com as narrativas de Sherazade vai poupando-a da execução, desejoso em saber o final.
Ao fim de inúmeras histórias, passaram-se mil e uma noites, nas quais Sherazade, de forma hábil, conseguira sobreviver e já havia tido três filhos do rei.
Sherazade, então, suplica-lhe que a poupe por amor aos filhos: “Ó rei desta era, estes são teus filhos, e rogo que me libertes da fatalidade da morte, pelo bem destas crianças”. O rei que há muito havia se arrependido dos seus atos passados, ao ouvir essas palavras, começa a chorar. Toma as crianças em seus braços e declara seu amor a Sherazade.
A primeira história narrada por Sherazade, O mercador e o gênio diz respeito a um homem que é salvo da morte. O mercador parando para almoçar num jardim (oásis no deserto), atira um caroço de tâmara e de súbito, aparece um enorme gênio, brandindo uma espada: “Levanta-te, para que eu te mate, assim como mataste meu filho!” O mercador: “Como matei teu filho?” E o gênio: “Quando atiraste o caroço de tâmara, ele atingiu meu filho no peito, e ele morreu de imediato”.
Segundo Auster (1982) esta é uma culpa inocente e remete ao destino das moças solteiras do reino ao mesmo tempo em que inaugura o nascimento do encanto – transformando um pensamento em uma coisa, trazendo à vida o invisível. O mercador apresenta sua defesa e o gênio concorda em adiar sua execução deixando-o partir para voltar num prazo de um ano a este mesmo local para o gênio proferir a sentença.
De acordo com este mesmo autor um paralelo já está sendo traçado com a situação vivenciada por Sherazade. Ela deseja adiar a sua execução, e ao plantar essa idéia na mente do rei já está fazendo sua defesa e o faz de uma maneira que o rei não percebe. Pois esta é verdadeira função da história fazer alguém ver o que está diante de seus olhos, ao lhe mostrar outra coisa.
A história continua e três novos enredos vão surgindo, trazendo três velhos como personagens encadeando-se uma história na outra, sempre com uma função necessária, dentre as quais, defenderem o mercador e como num texto espelhado a própria defesa de Sherazade. No final, a vida do mercador é poupada
Para Auster, a defesa do mercador não ocorre tal qual um tribunal, com argumentos, contra-argumentos, apresentação de provas. Isso equivaleria ao gênio olhar para o que ele já está vendo e a esse respeito ele já está decidido. O que o velho da história propõe é desviar sua atenção dos fatos, da idéia de morte, e assim deleitá-lo com um novo sentimento pela vida, que o fará renunciar à obsessão de matar o mercador. Auster diz que uma obsessão desse tipo empareda uma pessoa na solidão onde ela não vê nada além dos próprios pensamentos. Uma história, no entanto, por não ser um argumento lógico, derruba essas paredes, afirmando a existência de outros e permitindo que o ouvinte entre em contato com eles mesmo que em pensamento.
Uma história “forte” possibilita uma fala consigo próprio (a) a partir da história do outro que no fim é a nossa própria, mas que só a reconhecemos quando nos distanciamos dela.
Assim como os sonhos, ricos em simbologia, as histórias de forma semelhante ao tocar à alma retira peso ao coração, podendo oferecer curas para os males passados, presentes e futuros.
Desenrolo um pouco mais o fio e eis que vem em meu socorro uma história antiquíssima que remonta à Grécia antiga. Perséfone, Deusa da terra é raptada por Hades (Deus do inferno) e mantida no mundo subterrâneo. Sua mãe, a Deusa Deméter da agricultura sente tanto a sua falta que, inconsolável se torna árida e escassa de alimentos. Um inverno frio e estéril se abate sobre a superfície da terra.
Perséfone, ao ser libertada do inferno, volta para a terra com tanto regozijo que, cada passo descalço do seu pé ao tocar o chão estéril, enraíza sementes que se transformam instantaneamente em uma imensa faixa verde com flores espalhando-se em todas as direções.
E por falar em sementes que se enraízam no chão, há uma história sobre o que não pode morrer nunca… Mas, essa é uma história que contarei amanhã se você, caro leitor, estiver acordado para ouví-la…



7 Comentários
excelente texto, tânia. a contação de estórias e histórias, é algo fascinante e o próprio contador vai também (se) ouvindo e apreendendo mais e mais de acordo com as respostas do interlocutor.
ah, eu adoro a kore/ perséfone. e vc.
beijos.
belo texto, matrioska. estou feliz pelo seu presente. hoje é dia do meu aniversário. beijos.
Jarbas,
Meu querido!
Que alegria ter lhe presenteado com a narração de histórias. Alegria maior ainda foi tê-lo feito feito sem ao menos supor que seu aniversário pudesse ser hoje. Nâo acredito em coincidências, mas sincronia. Fico maravilhada com o poder de uma história forte. Sinto-me presenteada também.
Um grande beijo!
Tânia! Vou levar essa reflexão adiante com os meus interlocutores… Você, que conta tantas histórias, refletindo sobre o ato de contá-las. Para mim, também são curadoras e dão liberdade a alma e coração…
Um abraço!
Emanuelle.
Muito bom, Tânia! Genial! Adorei a tua história sobre (e com) histórias, assim como o teu jeito doce de contá-la, ao mesmo tempo belo e sábio.
Abraços.
Que maravilha de texto, Taninha! Nossa, lembrei de um projeto de contação de histórias que realizei com um amigo meu: SENTA QUE LÁ VEM A HISTÓRIA, uma proposta artístico-pedagógica que buscava desenvolver nas crianças o enriquecimento do seu imaginário, educando através da narração e encenação de histórias, estimulando-os de forma lúdica, a criar imagens, cores e formas a partir de seus conhecimentos de mundo, onde o narrador (contador de histórias) era o elo entre a platéia e os personagens encenados. Primeira etapa do projeto: Assessoria pedagógica; Fornecimento de material didático à escola; Esquete teatral para divulgação na escola. Na segunda etapa: Apresentação do espetáculo; sorteio de brindes e distribuição de picolés na saída do teatro.
Apresentamos: O menino que virou pedra, A Princesa de Bambuluá e Teseu e o Minotauro.
Poxa, que doces lembranças…
Saudades de você, moça querida!
Beijos e beijos…
Como também eu gostava de saber contar e, muito especialmente, de saber criar histórias!
Elas são janelas para os outros lados das coisas. As histórias tornam-nos mais curiosos, mais tolerantes e mais sábios!
A partir de agora que li o seu texto, Tânia, e ao fazer diariamente (ou quase) um percurso pedonal de alguns quilómetros (por recomendação médica), hei-de convencer quem me acompanhe que cada uma daquelas plantas e flores silvestres que ladeiam o caminho são pegadas de Perséfone, uma vez libertada do Inferno! Estou certo que a caminhada será, assim, mais leve , mais estimulantes e mais benéfica.
Obrigado e um grande abraço desde Coimbra (“rouxinol de Bernardim!…”)
João Amado