As Mil e Uma Noites
8 de agosto de 2010 às 21:33 - 2 ComentáriosAs Mil e Uma Noites é para Jorge Luis Borges um dos mais belos títulos do mundo. Para ele, a sua beleza reside no fato de a palavra mil significar para nós, quase sinônimo de infinito.
“Dizer mil noites é dizer infinitas noites, as muitas noites, as inumeráveis noites. Dizer mil e uma noites é acrescentar uma ao infinito”.
Jorge Luis Borges faz menção a uma expressão inglesa onde em vez de dizer “for ever”, fala-se “for ever and a Day”, ou seja, “para sempre e um dia”. Segundo ele remete à epigrama de Heine dedicado a uma mulher: “hei de amar-te eternamente e ainda depois”.
A primeira versão européia publicada na França em 1704, traduzida pelo orientalista francês Antoine Galland é considerado por Borges como um acontecimento capital para todas as literaturas da Europa.
Por que primeiro mil e depois mil e uma? Para Borges, se deve a duas razões. A primeira, supersticiosa, segundo a qual os números pares seriam de mau agouro. Assim, procurou-se um número ímpar, acrescentando-se felizmente “e uma”. Caso tivessem colocado novecentos e noventa e nove noites, sentiríamos que falta uma noite. Assim, ao contrário, sentimos que não só nos dão algo infinito, mas de quebra, acrescentam uma noite ao infinito.
Para Borges, temos vontade de perder-nos em As Mil e Uma Noites, pois quando entramos neste livro corremos o risco de esquecer o nosso pobre destino humano, ao entrarmos num mundo feito de umas tantas figuras arquetípicas e também de indivíduos.
Um repertório fantástico e vasto a tal ponto que, Jorge Luis Borges afirma não ser necessário tê-lo lido já que “ele é parte prévia de nossa memória e é parte desta noite também”.
Borges narra das Mil e Uma Noites, o conto intitulado: “História dos dois que sonharam”. Um habitante do Cairo em sonhos ouve uma voz que lhe ordena que vá até a cidade de Isfahan, na Pérsia onde encontrará um tesouro. Enfrenta a longa e perigosa viagem e já em Isfahan, exausto, deita-se para descansar no pátio de uma mesquita. Sem saber, está entre ladrões. Todos são presos e o cádi lhe pergunta por que chegou á cidade. O egípcio conta-lhe tudo. O cádi ri até mostrar os dentes do siso e lhe diz: “Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa no Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim há um relógio de sol, e depois uma fonte e uma figueira, e sob a fonte, há um tesouro. Jamais dei o menor crédito a essa mentira. Que eu não volte a ver-te em Isfahan. Toma esta moeda e vai-te embora”.
O homem volta ao Cairo: Reconheceu no sonho do cádi sua própria casa.
Cava sob a fonte e encontra o tesouro.
Como bem disse o filósofo francês Michel Foucault: Eu penso em As mil e uma noites: falava-se, narrava-se até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo deste desenlace que deveria fechar a boca do narrador.



2 Comentários
DE JARBAS MARTINS:
ver-te perdida pelos labirintos de borges, tânia…que fascinante… beijos…
Tânia, que legal os seus posts. Parabéns!