As palavras de Saramago

Manoel Onofre Jr.
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Depois de várias tentativas frustradas, consegui ler todo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago. Com um certo alívio fechei o grosso volume, quatrocentos e tantas páginas. O estilo pesado, lento, palavroso e um tanto formal do mestre português foi como que uma pedra no meio do caminho da leitura. Melhor seria dizer: foi rio cheio, caudaloso, de barreira a barreira, difícil travessia.

Desgostou-me também a forma de disposição dos diálogos ao correr das frases, antecedidos de virgulas. Sestro, mania de originalidade? Ou mera injunção editorial, medida de economia de espaço e , consequentemente, de papel?

“O Evangelho”… é obra de gênio, formalmente digna, claro. Mas, gosto não se discute…

Quanto ao conteúdo desse polêmico romance, parece-me quando menos um inteligente e salutar contraponto entre os evangelhos bíblicos. Admiro a coragem que o autor teve, de mexer com coisas tidas e havidas como sagradas, mas que, na verdade, não passam de frágeis invenções humanas.

De Saramago, além do livro referido, tive oportunidade de ler duas obras que me despertaram grande interesse : “As Pequenas Memórias”, única incursão autobiográfica do autor, e a “Viagem a Portugal”, narrativa saborosa, que não pretende ser um guia, e nos ensina a amar o patrimônio histórico/artístico e a alma da gente lusitana. Neste dois livros não se encontra o Saramago meio barroco do “Evangelho”, mas um estilista, surpreendentemente, ágil e leve.

Por último li “As Palavras de Saramago” (São Paulo: Companhia das Letras, 2010), coletânea de trechos de entrevistas feitas com o escritor em vários jornais do mundo, coordenadas e anotadas por Fernando Gomes Aguillera.

Três capítulos – “O homem”, “O escritor”, e “O cidadão” – , agrupando inúmeros tópicos, contêm declarações sobre os mais diversos assuntos: Azinhaga, a aldeia de nascimento, no interior de Portugal; Lisboa, onde foi morar, ainda criança, com os seus pais; Lanzarote, nas Canárias, lugar da última fase de sua vida. Vários outros assuntos são abordados: ética, literatura, pessimismo, Deus, morte, compromisso, democracia, comunismo, cidadania, direitos humanos, etc., etc.

O homem de origem humilde, autodidata, escritor temporão, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (1998), traça um admirável autorretrato em numerosos depoimentos, dos quais transcrevo a seguir, duas frases:

“ Tentei não fazer nada na vida que pudesse envergonhar o menino que fui”.
(Agência EFE, Madri, janeiro de 2007. Entrevista a Ana Mendoza).

“Nunca esperei nada da vida, por isso tenho tudo”.
( “Faro de Vigo”, Vigo, 20-11-1994. Entrevista a Rogelio Garrido).

O escritor fala sobre a sua própria obra, referindo-se, pormenorizadamente, a cada um dos seus livros. Revelações interessantíssimas. Maior impressão, no entanto, causou-me o que ele diz na condição de cidadão, feito um Dom Quixote moderno, sempre de pena em riste, obstinado no combate às misérias deste mundo.

Vejamos esta sua afirmativa:
“Não consigo me ver fora de nenhum tipo de envolvimento social ou político. Sim, sou escritor, mas vivo neste mundo, e minha escrita não existe em um plano separado deste.”
(“The Observer”, Londres, 30-04-2006. Reportagem de Sthephanie Merritt).

E estas palavras, valendo profissão de fé:
“É importante dizer “não”, a tudo o que está aí e que merecia ser eliminado. É preciso dizer não às coisas insuportáveis, como o fato de que há no mundo 225 pessoas que acumulam a mesma riqueza de que dispõem outros 2,5 milhões de pessoas”
(“ABC”, Madri, 09-10-1998. Entrevista a Dolores Massot).

Cético, inconformista, extremamente critico, José Saramago revela, a todo instante, sua extraordinária dimensão humana. Dele se poderia dizer: Eis um homem que não envergonha a espécie humana, muito pelo contrario, a dignifica.

No Brasil atual, pobre país, infestado de corruptos, falta alguém com a integridade, o desassombro e a lucidez de Saramago.

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Manoel Onofre Jr.

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