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As Pedras da Loucura

[Ilustração Tomie Ohtake]

Talvez um dia ainda se descubra
a relação inquietante entre
pedra e loucura ou,
dizendo melhor,
o papel das pedras no caminho da loucura.

El Bosco e Pieter Bruegel imortalizaram médicos e embusteiros operando cabeças
para extração da suposta e estúpida pedra.

Na infância distante não era incomum ouvir-se:
Fulano, que andava abalado,
de pesadelos povoado,
agora está atirando pedra,
Ou, está louco de atirar pedra,
Ou ainda, (quando o quadro era
gravíssimo) está atirando pedra na lua!

No caso, quem sabe, a paisagem inóspita e pedregosa facilitasse
o encontro delirante da criatura
com o astro dos enamorados.

O que dizer então da suave
Virgínia Woolf, na distante Lewes,
condado de Sussex, sudeste da Inglaterra:
Não atirou pedras a ninguém,
mas encheu-se delas,
lotou os largos bolsos do vestido solto
e caminhou extraviada das margens
à superfície das águas,
e daí ao fundo do rio…
para enfim se acalmar.

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