Asas aprisionadas

24 de setembro de 2009 às 21:18 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

passaros

Encontrei-o no além-mar outro dia. O professor ainda tem o mesmo cabelo enorme e o mesmo jeito irreverente de quando era adepto da luta armada, nos anos setenta. Comunista ferrenho, não iria ver a sonhada derrocada da burguesia. Ao contrário, hoje contempla o auge do capitalismo individualista, com globanalização e desmatamentos.

As meninas burguesas da época se apaixonavam todas por ele. Mal caíam no laço (ou cama, como queiram), ele começava a pregação marxista. Era bom nas duas coisas: na cama e no doutrinamento. Em três tempos, ele convencia as meninas de que o rímel nos olhos delas era o vilão abominável responsável pela exploração do proletariado. Para terem o status de namorada do revolucionário, trocavam o vestido de seda pelas roupas de saco e o Chanel nº. cinco pelo sabonete barato. Rompiam com as amigas consumistas, com os pais retrógrados, com a família careta. Passavam a ler apenas literatura engajada. Uma ou outra adotava o baseado, hábito indispensável dele. O relacionamento era aberto, claro, mas só ele aproveitava essa tal abertura, porque as meninas, de tão apaixonadas, não tinham olhos para mais ninguém. E quando ficavam com outro, era só para chamar a atenção do ídolo.

Na sucessão de namoradas, a abandonada ficava péssima. Algumas delas fingiam não estar nem aí, eram afinal mulheres liberadas e coisa e tal… Continuavam engajadas no projeto revolucionário, lado a lado com o novo casal, certas de que mudariam o mundo. Outras caíam na real, encaravam o sofrimento, desmistificavam o cara, recuperavam a auto-estima (que ele era craque em arremessar no chão) e iam cuidar da própria vida. Ah, e voltavam a usar o Chanel nº. cinco.

Ele, a certa altura da vida, desiludido com a luta armada, comprou um sítio no meio-norte do país, onde continuou a pregar Marx, Engels e Cia. ilimitada. Mas, e como em tudo há paradoxos, além de comuna, o sítio era um lugar repleto de gaiolas de passarinhos. Eram incontáveis. Nesse lugar, reunia-se a nata da intelectualidade de esquerda local.

Pois um dia, um jovem professor, colega desse nosso personagem, no meio de uma falação do mestre revolucionário, pediu um tempo. É, fez um T com as mãos, aquele gesto característico de toda reunião chata. O mestre, contrariado por ser interrompido quando fazia uma preleção mais que perfeita sobre a libertação da classe oprimida, pensou ser de bom tom conceder o tempo. Aí o jovem, do alto da coragem que o fizera assumir recentemente a homossexualidade por muito tempo reprimida, perguntou-lhe pela libertação dos pássaros ao redor. O outro ficou vermelho, engasgou. É que ele nunca havia pensado nessa coisa tão básica: liberdade verdadeira é para tudo e todos. Nunca havia pensado se os passarinhos gostavam ou não daquelas gaiolas apertadas. Ele, simplesmente, gostava dos passarinhos nelas, e pronto. Como também gostava das meninas eternamente deslumbradas por ele, presas ao seu encanto, alimentando a sua vaidade.

Tanto não soube se explicar para o jovem, que foi no pescoço dele. Sentiu-se desmoralizado? Sentiu-se desnudado, até para ele mesmo. Os dois foram às vias de fato e teriam se engalfinhado se a turma do deixa disso não os tivesse apartado.

Falso libertário ou só um ser contraditório, como todos nós? Só sei que, pássaros ou pessoas, são tantos que a gente prende sem nem perguntar se eles estão gostando…

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AGENDA

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante