A$suntina das Amérikas (1976) – de Luiz Rosemberg Filho

Marcos Aurélio Felipe
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“Mentir para a sua própria vantagem é impostura, mentir para a vantagem de outrem e fraude, mentir para prejudicar é calúnia. Mentir sem proveito nem prejuízo para si nem para outrem não é mentir: isso não é mentira, é ficção”.
Jean-Jacques Rousseau

“O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”.
Oswald de Andrade

“Será que os sinos dobrarão por ele?”
Moacy Cirne

 

Antes de chegarmos a A$suntina das Amérikas (1976), de Luiz Rosemberg Filho (de quem vi três trabalhos em sequencia nesses últimos dias), é preciso falarmos um pouco sobre o poeta Sanderson Negreiros, pois, com a sua morte no início da semana, a cultura norte rio-grandense perdeu um dos seus mais importantes representantes literários. Como registrou a redação deste Substantivo Plural, Sanderson era um dos mais importantes escritores do RN, membro da Academia Norte rio-grandense de Letras (ANL), articulista da Tribuna do Norte e autor de diversos livros fundamentais para a literatura potiguar. Em referência a morte do artista plástico Newton Navarro, no livro Fábula-Fábula (1998), Sanderson tinha escrito: “Tu que estavas aqui, preso à condição humana, mais dolorosa e ressurgente, te libertarás”. Escrevia, ao mesmo tempo, pensando na sua partida? A liberdade para Sanderson chegou, quando, na noite da última segunda-feira, 18, foi dormir e não mais voltou à vida na manhã do dia seguinte. Deu adeus, assim, a dolorosa e ressurgente condição humana, deixando os seus poemas que podemos encontrar nos diversos livros que plantou.

Assuntina das Amérikas - 1976

Assuntina das Amérikas – 1976

Para além do lugar que ocupa na literatura local, Sanderson Negreiros é responsável pela lenda urbana mais fascinante do solo cascudiano: o Vampiro de Areia Preta. De certo modo, repete a magia da narrativa de invenção de Orson Welles, que, a partir de uma transmissão radiofônica, em 1938, deu vida ao livro A Guerra dos Mundos (1897 – H.G. Wells), provocando pânico em parte da população dos EUA, que pensou que estava de fato ocorrendo uma invasão alienígena em New Jersey, Estado de New York. Como o diretor de Cidadão Kane (1941), Sanderson, no começo dos anos 1960, nas paginas do Diário de Natal, inventou que existia um vampiro no bairro de Areia Preta, vestido com capa preta e que perseguia as pessoas. Chegou até a fotografar um amigo de costas, fantasiado do “dito-cujo”, como atestado da realidade narrada. Como registrou a Tribuna do Norte, de 12 de maio de 2002: “Durante um mês, a população ficou reclusa. Nesse período, as vendas diárias do Diário de Natal pularam de 2 mil, para 12 mil exemplares. Todos queriam saber das aparições do vampiro […] O vampiro que morava em Areia Preta entrou no imaginário popular a tal ponto de muita gente escrever cartas para a redação do Diário de Natal afirmando que o tinha visto”.

A morte de Sanderson Negreiros, cujo nome e a literatura conheço com a distância dos meus vinte anos, quando frequentava os sebos a procura, sobretudo, de discos; e com o interesse descuidado em relação a literatura local e ao poema processo (ainda tenho um exemplar do “impróprio” Femina Infantis (1987), de Anchieta Fernandes, guardado a sete chaves), trouxe-me a lembrança de outro poeta potiguar: Moacy Cirne – pesquisador, teórico e um dos fundadores do poema-processo; professor, crítico cultural e cinéfilo; e um dos precursores no Brasil da teorização e dos estudos no campo dos quadrinhos. Nos anos 2000, vindo do RJ onde morava, Cirne me presenteou com um pacote de DVDs, que continha diversos filmes que só conhecia pelos títulos. Ao repassar cada um deles, comentando as obras e os diretores, sem ser professoral, inevitavelmente, refez a história do cinema em uma espécie de aula magistral que tive o privilégio, na plateia solitária, de ouvir. Filme a filme, Cirne parou justamente em A$suntina das Amérikas, de Luiz Rosemberg Filho.

Mesmo com a simplicidade habitual, não deixou de demarcar quanto ao que devia ser prioridade: “Veja primeiro esse aqui. É obra-prima! Não vou comentar. Depois você me diz o que achou”. Foi, ao mesmo tempo, uma sugestão e indução sem meias palavras. Isso em meio a uma série de outras obras emblemáticas da História do Cinema, que aqueles DVDs abrigavam: a Trilogia de Apu, Carta da Sibéria, Prénom Carmen, Crônica de Ana Magdalena Bach, Olhos sem Rosto, Limite, A Lira do Delírio, A Idade da Terra etc. Vi o filme do Luiz Rosemberg Filho na época, mas só hoje, com um sentimento de arrependimento que me tomou quando a tragédia encerrou Assuntina das Amérikas, percebi que foi um pecado tê-lo visto de forma tão apressada naquela altura. Por isso, a morte de Negreiros, que me lembrou a generosidade do gesto de Cirne, que me fez resgatar o pacote de DVDs que, ao longo desses anos, estava guardado em um dos armários da nossa estante de livros, foi que resolvi sem a pressa do passado colocar para rodar novamente o filme do Rosemberg Filho.

Terceiro longa-metragem do diretor, realizado ainda na década de 70, Assuntina das Amérikas é uma obra incomparável, portadora de uma radicalidade que se aproxima e se afasta das convenções – integrando e desviando de diversos gêneros da história do cinema (especialmente, do musical) e do cinema brasileiro. A partir dos seus segmentos musicais, narrativos e antinarrativos, mesmo sendo possível identificar Chaplin, Fred Astaire, Terra em Transe, o Tropicalismo, o “cinema político”, o musical, “George Romero” e, em parte, a pornochanchada transfigurada, Rosemberg Filho não filia o seu filme a nenhum das bulas e traços predeterminados – contesta-os, debocha ao mesmo tempo que homenageia; critica-os mesmo assumindo suas facetas de outros modos. É importante lembrar que, apesar do flerte com a pornochanchada (e não passa de um flerte), nem mesmo as sequências de Assuntina enroscada nos corpos das suas duas amiguinhas no baixo meretrício e no corpo do personagem Papai Noel na areia da praia causam qualquer frisson.

Imagens - 1972

Imagens – 1972

Dois Casamentos – 2015

Dois Casamentos – 2015

Ao inscrever e ausentar, figurar e destituir toda e qualquer lascívia, Rosemberg Filho modula o erotismo de tal modo que não chega a se materializar. Por isso, é sobretudo hilária a cena do boquete na sala escura do cinema, com Assuntina e Papai Noel em uma luta corporal desfigurada – das preliminares ao êxtase (além de todos aqueles personagens estranhíssimos de um lado e de outro). Em um filme no qual o escracho dá a tônica, Rosemberg Filho apresenta a história da prostituta chamada Assuntina, mas com o mundo profano atravessado na garganta do sagrado sem meias verdades. Realizando filmes desde o final da década de 1960, Luiz Rosemberg Filho realizou obras imprescindíveis, como Imagens (1972) e Dois Casamentos (2015) (o verso e o anverso da mesma moeda, não, necessariamente, nessa ordem). Quando vi este último há mais ou menos um, deixou-me uma forte impressão pela radicalidade do cenário e da encenação, do lugar da palavra e da escuta, das posições diante da liberdade e do aprisionamento em convenções.

O nome da personagem Assuntina – que deriva de Assunta ou Assunção –, a mais real entre aqueles seres irreais do seu entorno (a performance da sua mãe e do seu amigo gay, com os diálogos e ações longe, portanto, de qualquer naturalismo ou realismo, são reveladores da irrealidade a qual nos referimos), é uma referência (in)direta ao dogma da assunção de Maria. Aliás, mais uma referência em um filme atravessado por diversas citações cinematográficas, literárias e políticas. Sobre a recusa do naturalismo e do realismo, Rosemberg Filho só abre espaço, quando, inevitavelmente, registra aquela criança perdida no pandemônio daquele minúsculo apartamento entre corpos profanados e anjos nus. Existe anjo mais inocente e libertino no cinema brasileiro? Nesse jogo entre cinema e realidade, a partir de uma poética alegórica e do escracho, em Assuntina das Amérikas, entra na berlinda um certo cinema nacional, pomposamente, político (quando pretende ser) e a violência latente do Regime Militar (o sangue a escorrer por fotos, rostos, objetos e as sirenes desnorteantes vindas de todos os lugares a perturbarem todos os nossos sentidos).

Nesse espelho de duas faces (que, às vezes, os filmes se transformam, como nos lembra Jean-Louis Comolli), entramos em um jogo mais notável quando a realidade do entorno das filmagens invade o filme, à medida que os transeuntes olham para a câmera, para os estranhos e carnavalescos personagens em atuação e, assim, denunciam um produto em fabricação. Entretanto, ao situar os personagens no contexto carnavalesco, com os seus desvios, bizarrices e inversões, provoca, naturalmente, os olhares dos transeuntes que, ao mesmo tempo, pertencem e estão fora da diegese. São figurantes e/ou passantes; fictícios e/ou reais, intencionais e/ou acidentais? Na verdade, flagra a massa excluída que sequer vive a ilusão que vê se acabar na quarta-feira. São diversos esses momentos, e não falo apenas dos modos alegóricos, em que o real e a ficção se encontram, como naquela praça, na qual, cercado por meninos, um grupo apresenta a sua performance teatralizante; bem como na sequência da feira de rua em que Assuntina passeia com o seu charme de Geni, compra uma banda de melancia e é mirada pelos passantes na mesma proporção que miram a câmera.

Ao situar Assuntina das Amérikas no carnavalesco, Rosenberg Filho abre um leque de operações de regulagem do visível, que, a depender dos objetivos da sequência, inscreve e/ou ausenta certos elementos históricos, dramáticos e cinematográficos. Ao acompanhar um dia na vida dessa mulher (sagrada no nome e profana no resto), com o figurino, exuberantemente, populesco; os personagens entre seres da ficção e seres de semelhança; com as sequências musicais emulando clássicos do cinema; e a crítica visceral ao cinema brasileiro (é impagável a sequência de Assuntina na parada de ônibus, com o cartaz ao fundo das Aventuras de Alice no País das Maravilhas, a falar para um câmera que, supostamente, está produzindo uma reportagem), lamentei não tê-lo assistido antes, pois teria sido grato a Moacy quando ainda dava tempo. Mais do que o filme em si, essa obra-prima de Rosemberg Filho, que acabei vendo em decorrência da partida do poeta Sanderson Negreiros, aos 78 anos, que me trouxe a memória de um gesto, fez com que resgatasse um dos mais belos e tristes poemas de Moacy Cirne:

Poema Final

o homem só
velho e cansado
olha para a frente
e nada vê
olha para os lados
e nada vê
olha para o fim do mundo
e nada vê
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados
o homem cansado
velho e só
olha para o poema
e nada vê:
será
que os sinos
dobrarão por ele?

FIM

Notas:

[1] A epígrafe de Rousseau: BERNARDET, Jean-Claude. Caminhos de Kiarostami. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 127

[2] Para os trechos da reportagem da Tribuna do Norte sobre o Vampiro de Areia Preta: Timeline de Eduardo Alexandre Garcia do Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/eduardoalexandregarcia> . Acesso em 19 de dez 2017.

[3] Para o programa radiofônico que envolve Orson Welles: Mundo Estranho – Como foi a transmissão de rádio inspirada em “Guerra dos Mundos”? Disponível em: https://mundoestranho.abril.com.br/cultura/como-foi-a-transmissao-de-radio-inspirada-em-guerra-dos-mundos/. Acesso em 22 dez 2017
[4] Para o Poema Final, de Moacy Cirne: Substantivo Plural – Lo Sguardo di Michelangelo. Disponível em: < http://www.substantivoplural.com.br/94674-2/>. Acesso em 22 dez 2017.

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