“Hoje não há mais nenhum artista importante no mundo. Em literatura também. O que acontece é que desde que a web foi globalizada, há um vazio. Os jovens que cresceram nesse mundo da web. O tipo de imagens que vêem na tela não têm a mesma qualidade das imagens da história da arte, imagens a óleo.
Predomina a técnica do photoshop, da arte digital. E as cores também. As cores do mundo digital são como de quadrinhos. Os jovens só vêem cores de quadrinhos. Mas quando você vê uma grande obra de pintura a óleo, a gradação é incrível. Como nos impressionistas, como Monet, Renoir. Num bosque pode haver 30 tons diferentes de verde…
Os jovens nunca viram isso. Acho terrível que sutilezas, as sombras na pintura, não sejam apreciadas como um dia já foram. Hoje, com as técnicas de photoshop, meus estudantes de fotografia sempre me dizem que é trágico. Que as habilidades de usar câmeras e de tratar de uma fotografia, trabalhando num laboratório, estão perdidas agora por causa do digital. Porque se pode fazer todo o tipo de modificação artificial”…
As asas da noite que surgem (1)
3 de fevereiro de 2012 às 17:32 | 5 ComentáriosArte: Francisco Brennand
Da noite longa e já animada desde o fim do expediente nos dias do verão levando a tarde até o limite do ar noturno: um frisson na sombra, um acender de luzes nas latadas, sob letreiros (alguns) ainda escritos à mão, longe do estardalhaço padronizado das McDonalds freqüentada pelos jovens – estranhos como marcianos, na verdade.
Pelo menos para mim, que caminhava por ruas onde havia o “Lumidis”, o café dos literatos, o “Zakaratu”, vizinho do Parlamento, o “Hellenizon” dos gerânios dos tempos de Kazantzakis, o Kolonaki das trepadeiras enrolando-se nas colunas fingindo de “cretenses” de um jeito menos desajeitado do que aquelas de Evans, no palácio de Knossos restaurado com o mal gosto “fin-de-siècle” de um diletante endinheirado.
E não, eu não ouvia a vulgaridade cinematográfica do sirtaki de Zorba como uma decalcomania grosseira colada nos meus ouvidos, mas a soprano Bidú Sayão cantando a “Melodia Sentimenal” – tão pungente – com uma tristeza lacustre de fim de tarde brasileira que casava com o meu desespero.
“Deveria haver um prêmio nacional de literatura anualmente oferecido a”…
25 de dezembro de 2011 às 18:27 | 4 ComentáriosTexto de Fernando Monteiro que sairá no jornal literário Rascunho, com circulação prevista para a primeira semana de janeiro de 2012 e que ele antecipou para o SP por motivo de viagem. TC
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O começo de um romance abandonado:
“Deixei o Facebook. Deixei?
Ainda não sei se deixei. Parece incrível ter deixado – e parece incrível ter entrado, ter suportado aquilo, ter vivido umas coisas que…
A primeira vez que ouvi falar em ‘rede social’, tive uma antipatia instintiva. Uma mulher me disse que agora tudo era em ‘rede’, e ela só faltava ter uma rede no cabelo, me metendo na rede de um filme que eu não queria fazer e terminei não fazendo. Isso é outra história.
Claves para un fracaso literário
6 de dezembro de 2011 às 14:24 | 6 Comentários{Artigo publicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP. Faz referência a texto anterior, também publicado no SP: aqui}
Aqui na nossa página (“Fora de sequência”), mês passado, vocês ficaram sabendo das dez “Chaves para um êxito literário”, segundo o receituário sabiamente preconizado na edição de julho/agosto da revista de bordo da Ibéria, a Ronda.
Quem aproveitou, aproveitou. Quem não leu as dicas da vistosa publicação espanhola, poderá tentar encher o saco de Rogério Pereira, atrás da edição nº 139, em busca das dicas do texto “CLAVES PARA UN ÉXITO LITERARIO”, oferecido – por velhas aeromoças – a viajantes comuns e, oh, a escritores & escribas sentados na poltrona do êxito ao alcance dos novos talentos, a dez mil metros de altura.
Rota da Música do Cinema
5 de dezembro de 2011 às 8:11 | 8 ComentáriosDefendo (sempre defendi) que a música composta para o cinema, as trilhas sonoras feitas para filmes (portanto, sob encomenda) provavelmente respondem pela “grande música” – no mínimo da metade do século 20 para cá.
Estamos no mês em que se comemoram cem anos de nascimento de um dos maiores autores de trilhas da história da chamada “sétima arte”: Nino Rota (foto), italiano de Milão, nascido numa família de músicos como qualquer Google da vida poderá informar. Foi aluno de Casella, no conservatório de Santa Cecília (Roma), e, obtendo bolsa de estudos no Curtis Institute of Philadelphia, ouviu aulas de composição de Rosario Scalero e, de orquestração, pelo então professor no CIP, Fritz Reiner, maestro húngaro radicado nos EUA.
“Claves para un éxito literario”
10 de novembro de 2011 às 9:55 | 13 ComentáriosPublicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP.
“Chaves para um êxito literário”…
Quem voou pela Ibéria em agosto passado (e fosse, por acaso, escritor), contava com esta surpresa: a oferta de dicas para o “êxito literário”, na revista de bordo – RONDA – das aeronaves da empresa aérea espanhola.
Surpresa. As revistas de bordo brasileiras costumam ser uma merda, eu apenas passo a vista, vejo quase todas enfiadas junto com o saco de vômitos, na frente das poltronas apertadíssimas etc. Mas essa, ibérica, a cara de mamão do simpático Plácido Domingo na capa, teria algo a dizer a um escriba sentado…
“O Arquiteto da sua Mitologia”
2 de novembro de 2011 às 9:57 | ComentarSchneider Carpeggiani, do “Jornal do Commercio”, fez uma bela entrevista com Francisco Brennand - “O Arquiteto da sua Mitologia” -, publicada domingo último, no jornal recifense. Aqui, um fragmento do texto que buscou flagrar a intimidade do grande artista (84 anos), na intimidade da sua famosa Oficina:
“Nossa conversa com Brennand aconteceu durante a tarde da última quinta, em seu escritório, na Oficina. Na porta, apenas a inscrição “pintor”, seis letras que lutam para dar conta de um homem que ergueu um mundo salvar suas lembranças.
Brennand conversa diante de uma mesa cercada por livros em processo de leitura ou releitura. ‘Os livros que estão aqui, ao meu lado, são os que estou lendo”. Lá de longe na estante, nos observa a obra completa de Jorge Luis Borges. O tigre está na biblioteca. Ao lado do pintor, lutam por espaço romances de Fernando Monteiro e alguns de Roberto Bolaño (“Ainda não tive coragem de começar 2666. Por isso ele está ali, na estante’). Brennand mostra trechos grifados de Alvo noturno, última novela do argentino Ricardo Piglia. A passagem que despertou seu interesse passa a impressão de ser um tratado estético: ‘As coisas que parecem diferentes na verdade são a mesma coisa (…) Enquanto estou interessado em demonstrar que as coisas que parecem a mesma coisa na verdade são diferentes’. Brennand diz que é da literatura que parte suas obras. É a pulsão inicial.”
UMA CONFISSÃO…
8 de outubro de 2011 às 12:05 | 2 ComentáriosCena do filme A Rede Social, sobre o Facebook
Gente, eu me rendo. Ou melhor, estou prevendo que, ao fim e ao cabo (da Nenhuma Esperança), eu vou terminar sendo obrigado a também chorar pela morte desse empresário [criativo, sim] do ramo da Informática, diante do mundo inteiro ainda se descabelando pela triste notícia, em toda parte.
Quando Zuckerberg morrer então (e não estou agourando o Nerd)!, acho que todo mundo vai ter que sair desfilando de pijama preto, robe idem e chinelos de pregos de ponta fina pelos vales do silício afora…
DUAS FRASES
6 de outubro de 2011 às 16:28 | Comentar“Vamos inventar o amanhã e parar de nos preocupar com o passado”. STEVE JOBS
“Aqueles que não conseguem se lembrar dos erros do passado estão condenados a repeti-los.” GEORGE SANTAYANNA
OBS:
As duas frases não estão simplesmente justapostas, AQUI.
A primeira é tão só uma “coisinha” de inspiração otimista-meio-sem-sentido-americano-à-la-Casa-Branca etc etc, dita por alguém superestimado [morreu, eu lamento, mas é preciso dizer a verdade de vez em quando].
A segunda frase… Bem, já essa é VERDADEIRA sabedoria — de um filósofo esquecido, porque Filosofia não está na moda, porém Informática está.
TENHO SAUDADE DAS BANDAS DE ROCK PORTUGUESAS (em tempos de Rock-in-Rio)
30 de setembro de 2011 às 15:10 | 3 ComentáriosEu vivi uns tempos em Portugal, e, por incrível que pareça, tenho saudade das formalidades deles – pelo menos de algumas, melhor dizendo – e, pincipalmente, das bandas de rock portuguesas (que existem, sim)…
O país da floresta encantada de Sintra e daquele formal “da parte de” (nada, na terra de Camões – como dizem os acadêmicos nos dircursos de laudas e mais lauudas das academias de letras ensonadas – funcionava sem ser “da parte de”)… o cartão da parte do raio de quem for que circula, a apresentaire, a pedire, e, enfim, andando de mão em mão.
Clique aqui para ler mais »
Western na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
23 de setembro de 2011 às 14:14 | ComentarDe hoje até o dia 02 do próximo mês, a VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco acontece com força, no Recife (no Centro de Convenções local).
Na segunda-feira 26, a programação inclui o painel “Cinema e Cidadania: o caso do Western”, a partir das 19 horas, conduzido por Fernando Monteiro e com a participação de José Carlos Targino, no espaço “Círculo das Ideias”.
Ver aqui http://www.bienalpernambuco.com/
Esta vai para o Diógenes
20 de setembro de 2011 às 13:29 | 5 ComentáriosEsta vai para Diógenes da Cunha Lima: http://www.imcbr.org.br/011set19.html
PS: Neste momento (11:13), é notícia de cinco horas atrás, sobre baobás, no site do Instituto Maximiano Campos, que realiza a Flip de Porto de Galinhas em Olinda, além de outras iniciativas. Como diz aquela musiquinha infantil sobre elefantes etc, um baobá chateia muita gente, dois baobás… etc etc.
PS do PS: Imagina o monte que tem por aqui, segundo o vetusto IMC.
MOLOCH DA MÍDIA – do Cidadão Kane a Rupert Murdoch
3 de setembro de 2011 às 19:49 | 4 ComentáriosNão há problema: é só consultar Wikipédia, para ficar sabendo que Moloch – ou Moloque – “é, conforme os textos bíblicos, o nome do deus dos amonitas ao qual eram sacrificados recém-nascidos, jogando-os em uma fogueira. Também é o nome de um demônio da tradição cristã e cabalística. A aparência de Moloch era de corpo humano com a cabeça de boi ou leão” etc.
O Diário de Nohara (2)
1 de setembro de 2011 às 13:48 | 1 ComentárioTexto do escritor Fernando Monteiro, publicado simultaneamente no jornal Rascunho, de Curitiba, e neste SP.
Leia aqui a Parte 1.
NAVIOS DO OCASO
11 de agosto de 2011 às 8:05 | 4 ComentáriosA náiade de uma tarde
colhendo agulhas e tempestades,
curvada como os anos curvarão
a lembrança do sabor de sal
da intimidade do banho.
A náiade nada sabe dos navios do ocaso,
enquanto espalha uma beleza tão grave
que é como se acabasse
de chegar da Idade de antes
dos desastres,
quando sorriam os deuses
para homens sem maldade.
Eu, que a vejo,
e que prendo a respiração desde
os dois dedos do seu pé molhado
(ligeiramente levantados),
sei que vou morrer
por conta do fim da tempestade,
do começo dos desastres
e também por culpa
dessa visão de uma tarde
por sobre a fumaça
de um mar de esmeralda.
Grande escritor pensador universal intergaláctico na FLIPORTO
14 de junho de 2011 às 15:26 | 3 Comentários“Deepak Chopra na Fliporto 2011! “MAIS de 25 livros escritos!”
“MAIS de 10 milhões de livros vendidos!”…
Acabo de receber isso, por e-mail.
Deepak Chopra? Aquele?
É.
E essa “Fliporto” não é uma feira, um festival [sei lá!...] de LITERATURA?
Sim, mas… Agora, as coisas são assim. Mudaram [as coisas mudam!].
É… Pensando bem, talvez faça todo sentido: “Mais de 25 livros… Mais de 10 milhões”…
Deepak $$$$$$$$$ Choprinha, então! E o grande “escritor”
especialmente convidado etc, trará para a Flip pernambucana seus biscoitos de sabedoria para degustação na festa de “Literatura” (?). Um exemplo:
“Seja qual for o relacionamento que você atraiu para dentro de sua vida, numa determinada época, ele foi aquilo de que você precisava naquele momento”.
Se pensam que estou de brincadeira, confiram ESSA entre as muitas “pérolas” de Chopra chopradas aqui: http://pensador.uol.com.br/autor/deepak_chopra/biografia/
O Adeus ao Último dos Renascentistas
5 de junho de 2011 às 21:39 | 4 ComentáriosSabato entregando a Raul Alfonsín o célebre Relatório final sobre os Desaparecidos
Ernesto Sabato quase chega aos 100 anos. Glória da literatura argentina, o décimo dos 11 filhos varões de um casal oriundo da Calábria (com sangue albanês misturado nas veias de emigrantes), ele veio ao mundo em Rojas, província de Buenos Aires, no dia 24 de junho de 1911.
O lugar passou a constar do mapa literário internacional, como cenário da infância do escritor e pintor da perplexidade em face das dores humanas e do inconformismo perante as injustiças que agravam o “desconforto de existir”, o tema central da sua obra.
Morte pela merda
5 de junho de 2011 às 11:50 | 5 ComentáriosUm pequeno ajuste nas suas informações, caro Marcos Silva: não tenho bem certeza se poderá ser dito, rigorosamente, que Guimarães Rosa “esteve” na Academia Brasileira de Letras, pelo menos no sentido de frequentá-la – como um Nelson Pereira dos Santos a frequenta (suponho eu, pelas fotos que vejo), e, sem dúvida, um Lêdo-e-Ivo engano o faz, quase todos os dias, e, sem nenhuma falta, nas quntas-feiras mornas das empadas e dos bolinhos de aipim etc.
Isso porque o autor de “Grande Sertão: veredas” infelizmente faleceu apenas alguns dias depois de pronunciar o discurso, na noite “fardônica” da sua posse. Consta que o mal súbito – e fatal – do Rosa teria tido origem direta na emoção nele causada por estar entrando na ABL, versão que até hoje eu reluto acatar, apesar de ser uma opinião médica e também dos familiares então mais próximos do escritor mineiro.
[UM GUIMARÃES ROSA!, "emocionado" até a morte, por estar tomando posse naquela merda?...]
Assim TAMBÉM falou o poeta Auden
1 de junho de 2011 às 21:27 | 7 ComentáriosA pedidos (verdade!), eu fui cascavilhar em mais anotações deixadas por W. H. Auden, o poeta inglês (1907-1973) situado entre os mais importantes e influentes do século 20, cujas observações são de extrema agudeza e pertinência, neste momento e, principalmente, neste “Pindorama” não apenas do segmento literário que é um cantinho obscuro de rutilantes vaidades & solenes enganos, no vasto mar de tudo o que acontece (e nos espanta, às vezes).
Façamos mais uma rodada de “Auderianas”, infelizmente nos despedindo da sabedoria do grande poeta espalhada aqui no “Substantivo Plural” e no FACEBOOK:
“Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, no sentido de que o pior vinho do Porto é preferível à água destilada.”
Nota: São os nulos, os vazios, os sem-alma que viciam e estragam a literatura. Auden certamente defenderia Marcelo Mirisola – que não é exatamente “vulgar” (e que nunca irão eleger para a Academia Brasileira de Letras) – contra quem? Por exemplo, contra o honorável membro da ABL que atende pelo nome de Paulo Coelho, o qual não é vulgar (conforme muitos pensam), mas é simplesmente nulo, como escritor, em português ou em qualquer língua na qual ainda reste por aparecer a sua “obra” de nulidade literária recebida – todas as tardes das quintas-feiras, a partir das quinze horas – no vetusto edifício da nossa Academia, no centro do Rio de Janeiro. Ali, Paul Rabitt pasta, no chá morno do Trianon, ao lado dos velhinhos e dos nem-tão-velhinhos que o elegeram – como também um dia elevaram à honra acadêmica o “caudilho” Getúlio Vargas, o general Aurélio de Lyra Tavares (vulgo “Adelita”), o senador e ex-vice-Presidente Marco Maciel e outros também notáveis escritores brasileiros…
NOSSO PENDOR (Our Bias)
19 de maio de 2011 às 22:36 | 4 ComentáriosPOEMA DE AUDEN – via CHICO GUEDES
Nota: Este poema de W. H. Auden — em tradução de J. P. Paes — foi pinçado pelo erudito e atento Chico Guedes (nosso melhor especialista magiar, junto com o Nelson Ascher), em homenagem ao grande poeta anglo-americano. Nosso pendor é um poema de 1939, da “primeira safra americana de Auden”, explica Guedes. [FM]
NOSSO PENDOR (Our Bias)
A ampulheta sussurra ao rugido do leão.
Diz o relógio da torre ao jardim ali perto,
Que, sendo o Tempo paciente com os erros, quão
Errados ele estão de estarem sempre certos.
O Tempo, no entanto, quer badale grave ou alto,
Por veloz que se despenque em torrente raivosa,
Nunca de leão algum logrou deter o salto
Nem abalar jamais a firmeza de uma rosa.
Para ambos, só o sucesso importa, pelo jeito:
Enquanto escolhemos as palavras pelo som
E julgamos um problema pelo seu desajeito.
O tempo sempre nos traz divertimento, e bom:
Quem não prefere dar umas voltas, fazer hora,
Em vez de vir direto para onde está agora















