Azul e sombra

15 de fevereiro de 2012 às 8:20 | 2 Comentários
Por Jairo Lima

A François Silvestre

às nove horas
do milésimo dia
penélope espera

na sala vazia
senta e fica
olho no dia
mão na agulha
linha Afastada
que inventa azuis
vai e volta faz refaz
a mesma fábula
às nove horas
do milésimo dia
o sol que vem da janela
divide o seu corpo
em dois azuis
um azul de sombra
um azul de luz
na sala vazia
vastos planos azuis
lutam contra o dia
que morre
da mesma hemorragia
que mata todos os dias
sem transição
a escuridão se enfia
na sala azul
onde penélope inventa cada dia
o mito de quem espera
não mais por ulisses
nem por rebanhos ou nuvens
que o mundo sabe apascentar suas coisas
no seu ritual diário
de acender e apagar luz
penélope espera
sente que com ela as ovelhas esperam
as nuvens esperam
o mundo todo espera os seus navios
nos seus portos
e nessa espera não há agonia

No bar

8 de fevereiro de 2012 às 22:17 | 7 Comentários
Por Jairo Lima

Chegaste a mim não como lume
Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

E eu te vi.
Te vi como se vê mares e dunas
Como coisas que são sem oráculos nem seitas
Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
E parecia que contigo aquela noite estava feita

Te vi coxas, riso, ombros e mãos
Perdidos entre afago e maldição

Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
Se colam, se penetram, se invadem;
Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
Destruindo colheitas

Aquela noite só prometia suores
Conquistados a cada beijo
Os latifúndios do desejo
Eram cada vez maiores

(———–)

Vim de longe
Em hora incerta
Vim de lunas
Vim de céus perfurados de estrelas
Vim de amores submersos em dores e desfeitas
Para que celebrasses a consagração bizarra
Que faz a carne virar pão
O sangue virar vinho
E a cama virar mesa
Onde a fome dispõe as suas facas
Para cortar as carnes e sugar a seiva

(—————–)

******

Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
Não sei
2. E porque voltou a envia-los agora.
Sei lá.

Cinco coisas

7 de fevereiro de 2012 às 22:38 | 4 Comentários
Por Jairo Lima

(Publicado na revista Palumbo)

MEU PRIMEIRO ASSASSINO

Conheci meu primeiro assassino aí pelos nove, dez anos, isto é, antes eu já o conhecia, mas ele ainda não era assassino, e por conhecer não quero dizer que tínhamos alguma intimidade, ou que sequer nos falássemos, mas como deixar de conhecer alguém em Arcoverde, cidade pequena, magra e comprida afundada entre serras cinzentas, como não conhecer, dizia, nem que fosse só de vista até porque eu, menino sambudo, nem sonhasse de ser amigo de um cabra com mais de trinta anos, sério, gordo, amarelado, que trabalhava na loja de disco do pai, se ocupando do mais sublime dos afazeres, de vender rumbas, boleros e fox-trotes e sambas na mais pacata das cidades, mais admiraria até, se alguém pudesse ver naquelas mãos que botavam os discos pra girar no prato, ou naquela voz suave e abaritonada que dizia a senhora quer levar ou o senhor já ouviu este, chegou ontem, quem diria que esta mão e esta voz se levantaria contra uma moça pacata, enfermeira, morena, baixinha, crente, médium vidente, sossegada, que vivia do seu suor?

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Roliúde

11 de janeiro de 2012 às 15:29 | 3 Comentários
Por Jairo Lima

Finalmente saiu a edição digital do livro do Homero Fonseca e que eu só agora pude conhecer. Depois do Quixote, é o livro mais engraçado que já li na minha vida. Fica aqui minha entusiasmada recomendação.

Notícia

24 de dezembro de 2011 às 12:27 | 3 Comentários
Por Jairo Lima

Cupim de dromedário se rompe e provoca surto de febres palustres à esquerda da tarde. Todo cuidado é pouco diante dos olhos do sol.

Quadro de avisos

24 de dezembro de 2011 às 12:27 | Comentar
Por Jairo Lima

Alguém viu Fulano saindo da escola? E não me venham com retrospectivas de repolhos saindo da roça ou apodrecendo na feira do Alecrim, pelo menos até quinta feira.

Autoajuda de natal

24 de dezembro de 2011 às 12:25 | Comentar
Por Jairo Lima

Um homem deve ser banido quando prega a folha molhada na parede que dá sol e junta-lhe uma estrumeita de ventos.

Sono e cinzas

16 de dezembro de 2011 às 8:28 | 10 Comentários
Por Jairo Lima

destroços
ondas
terra
ilha firme
largo percurso do olhar
saliNo
desfiladeiro de velas gráVidas
ondas cavadas lenTas
abrem em remanso um ninho para a naVe exilada
na palavra repetida LONge lonGE
onde habita
um hálito de sol já todo consumido
em esta tarde se ouvirá ainda a invocação antiga aos profetas embriagados em sono interminável de cinzas
em esta tarde ainda
então
o vento baterá às portas do sonho antigo
para que um vaticínio amargo como pão deitado em vidros
seja um nome que repouse sobre nuvens cansadas
até que a tarde se Afaste do seu sol
e o frio possa [então] se abrigar em seus espinhos

Nuvens e tarde

11 de dezembro de 2011 às 9:13 | 3 Comentários
Por Jairo Lima

na cave azul dos olhos [então] o vôo que arrebata e modula os seus próprios ventos
ulisses inane arranca as esferas dos olhos que oferece [então] ao abismo sangrento
na tardemundi o sol [então] lava o semblante em visgos
o mapa abraça o braseiro vivo para que a distância se deite sobre o leito fumegante até que
(então) a corda de aço dedilha um grito
as sereias sussuram telêmaco em acordes sombrios ante os olhos abertos de ulisses
[então] o metro expõe as suas vísceras arfantes como um legado esculpido em sangue nas presas de um cão enraivecido
um corte diagonal descerra em planos simétricos Afastados a p a u s a dilacerada entre gemidos
ulisses vem porque um presságio de naves já se faz amanhecido
vem em naves tecendo a cor do seu corpo em brilhos
[então] em pé, ulisses acorda vivo entre as nuvens da tarde.

Vôo e exílio

6 de dezembro de 2011 às 7:39 | 6 Comentários
Por Jairo Lima

há um vôo entre aqui e lá-distante que o olhar Afasta e anula
sobre a Carcaça desolada há uma parábola vazia, um caminho sem pegadas, uma crescente crua e muda
o pássaro banhado em não sabe o caminho
o pássaro banhado em não sabe o designo
mas não acende os cristais que acolhem acesos o rastro interdito
olhos de sal escassos prescrevem desertos aos vales do exílio
a luna de sol nascido deixa tênues vestígios de ouro corroídos de ácidos
vivos
o mar devolve os seus naufrágios em uma
então

Proposta indecente

5 de dezembro de 2011 às 20:59 | 16 Comentários
Por Jairo Lima

Tácito, sei que a idéia é vulgar e silvestre, mas o SP bem podia fazer uma porra de uma festa de confraternização. Só peço que não seja no tal bar que toca Roberto Carlos, na Igreja Universal ou na Academia de Letras, que é para eu poder ir.

Agora e longe

29 de novembro de 2011 às 14:22 | 28 Comentários
Por Jairo Lima

à feição de uma nuvem Afastada o metro escava milimétricos prismas
e vê em seus espelhos úmidos a Carcaça desolada – informes ares a que o vento dá esquinas
panos vastos sem luz
panos vastos
entre o lago e a montanha, adágios em ruínas,vozes Afastadas,
fibras entrelaçadas /onduladas /taça plena/ amarga luz ceg-an-te
ulisses inteiro sobre as águas – vagamente a tarde recolhe trovões
- ulisses inteiro sobre as águas oscilantes
vagamente a tarde recolhe trovões distantes
vagamente a tarde recolhe em brasas
ácida
fonte
o peito do mar em quilha rasga panos de águas
ulisses acorda em pé sobre as vagas
trovões
simétricos
lhe resguardam a fronte
nuvens em olhos des-alumbrados gotejam sangue
toda a tarde é ulisses em pé acordado
o seu olhar Afastado expulsa as águas da tarde
simétricas fontes acordadas em março
des-azulando o país longe
vapores tardes mansos acordam em gritos verticais
a morte e depois da morte o silêncio macio dos panos
peixe em prata sobre a espuma
remanso lento lentíssimo sol sobre as nuvens
em luz se vê ulisses banhado em corais – agora longe

Pois é

27 de novembro de 2011 às 9:32 | 2 Comentários
Por Jairo Lima

O máximo que concedo ao estruturalismo é que se trata de uma verdade inútil, sendo que só estou persuadido em relação ao segundo termo.

Sol e água

26 de novembro de 2011 às 7:51 | 11 Comentários
Por Jairo Lima

corte no olhar
em planta a topografia do rastro luminante
que se deita sobre pós e águas rente à flor passante
ferro de espada e gume
(jorro quente de sangue)
em plantas a retina abrasada explícita fonte
em plantas o raio voraz tremente lume
escamas rígidas coaguladas ardente nuvem
oblíquas sílabas de pedra escandem o metro – lá longe
sob o rosto do sol o vento entulha nuvens
sob o rosto do sol
dorme em águas a linha do horizonte
entre aqui e ali o olho Afastado sonha uma ponte
entre aqui e ali
dorme em águas a linha do horizonte
linha lenta ondulada dorme em águas
linha lenta Afastada sonha pontes
sílabas em lava
lentas águas recolhem as fibras translúcidas do ar
e tecem a mordaça que detém o grito nas muralhas do horizonte
lentas águas.

Canto cerimonial de visitação a tua hora (final)

22 de novembro de 2011 às 14:17 | 2 Comentários
Por Jairo Lima

o Pássaro acorda entre pandeiros
e canta um triunfo para o sol esplêndido sol exato
a montanha ergue o Teu tema com os punhos cerrados
pratos, vastos timbales, zinco, fulgurações de astros
lâmina clara de luna
e Tu, erguendo-Te por sobre o gume das ondas
cantas o Nome, o Sim, o Aço
dança o Teu Pássaro nos vidros desnublados da Tua manhã
vive, esplêndido Nome exato
a Loba e o Pássaro levam ao teu Agora a hóstia inflamada do sol
para que tragas a Tua carne para dentro do meu nome
aqui há ventos e vinhos embriagados no lã da tua hora
vive a Tua Agora
o Teu poema se cala
em silêncio o Teu pássaro inclina as asas, invoca a rota dos teus Olhos e pousa no Teu Nome.

Batman vai à guerra

18 de novembro de 2011 às 10:12 | 13 Comentários
Por Jairo Lima

Num desses canais por assinatura, o Fox Live, flagrei um rápido diálogo em que alguém explicava a um grupo de amigos que as pessoas têm que ser como o batman, brigando quando fantasiadas e fazendo coisas chatas como ir a jantares e museus quando investido de sua verdadeira personalidade.

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Definição

16 de novembro de 2011 às 16:00 | 2 Comentários
Por Jairo Lima

O balé é o compromisso possível entre a metafísica e um quilo de alcatra.

Apelo

14 de novembro de 2011 às 9:20 | Comentar
Por Jairo Lima

Faço um negócio: vocês descriminalizam a coca, a maconha, o aborto, o craque; mas, por favor, CRIMINALIZEM o som! Cadeia para quem fabricar, vender, traficar, ou consumir som, pena de morte – só e unicamente nestes casos – para os que presentearem, venderem ou induzirem os agroboys a comprar sons muito potentes para instalar em seus veículos.

As nuvens da tua hora

14 de novembro de 2011 às 9:20 | 13 Comentários
Por Jairo Lima

e seguiu-se um relato de chuvas e de nuvens antigas
e de suas sombras erguidas sobre as torres dos sinos
dia imenso
ontem
ventos maciços empunhavam a lâmpada sobre mastros oscilantes
era assim
e assim os Olhos inundados de brilhos diziam sim ao aço
a Loba fincava as garras no limiar das horas
era assim
aí então já se podia ver a Dama Antiga e o Cavalheiro Antigo
em gesto clássico de gaivota
no baile daquelas lunas tardias
os marinheiros sopravam as mãos
gementes dias
era assim
assim se ia ao mar
as mãos inda vazias
esplêndida luna exata
exata luna esplêndida
daqueles dias

As vestes da tua hora

10 de novembro de 2011 às 7:47 | 12 Comentários
Por Jairo Lima

eras limo
torturado em ardente (junho)
as sílabas concêntricas do teu verde
diziam vestígios azuis
torre fincada em prata – o teu navio
se banhava em algas e corais vadios cantavam um ditirambo
ao que reluz (inventário das águas)
a Loba desaba a pata sobre o rastro da Luna
e só nos deixa o poema como pátria sem lagos
ou porta sem quintais ou árvore sem ar
……………………ou, ainda, éramos ontem
Por que com azuis, vermelhos, verdes, amarelos, roxos, incendiamos as águas da retina?
sabe, então, que a palavra que te rima se perdeu entre ventos e jamais encontrou a ilha que mirava nos mapas de tuas veias
ensina este naufrágio ao teu mar

AGENDA

  • Substantivo sorteará convites para ópera e balés que o Cinemark exibirá em Natal

    Soprano Angela Gheorghiu

    .

    TC

    Amigos,

    A Assessoria de Imprensa do Cinemark enviou cinco pares de convites para o Substantivo Plural sortear entre seus leitores e colaboradores das óperas que serão exibidas em Natal-RN nos dias 25, 26 e 28 de fevereiro (Tosca, com a soprano Angela Gheorghiu ); nos dias 10, 11 e 13 de março (Giselle – balé) e no dia 22 de março (Romeu e Julieta – balé). Os convites deverão ser trocados por ingressos na bilheteria do cinema, no Midway. Faremos três sorteios, um para cada espetáculo. Então, os interessados em assistir Tosca se manifestem nos comentários ou por e-mail (no Expediente), que anotarei os nomes e farei o sorteio publicamente no dia 23 às 19 horas no café da livraria Siciliano do Midway, divulgando em seguida o resultado aqui.

    Mais informações sobre os espetáculos: aqui

  • Bob Dylan faz shows no Brasil em abril

    NO ESTADAO

    SÃO PAULO – Bob Dylan se apresentará no Brasil em abril, anunciou nesta quinta-feira, 16, a produtora de eventos Time For Fun. O música fará seis shows, passando por São Paulo (21 e 22), Rio de Janeiro (15), Belo Horizonte (19), Brasília (17) e Porto Alegre (24).

    mais informações »

  • Grupo “Ô de Casa” faz “Carnaval do Povo”

    O Grupo “Ô de Casa” realizará domingo, 19, a partir das 14 horas, uma grande festa carnavalesca. Alegria. Tradição. Inovação. Marchinhas. Sambas. etc. Retomar o Carnaval Popular em nossos corpos e em nossas vozes! Se puder, traga salgados e bebidas, serpentinas e muita alegria! E venha fantasiado!”
    Local: RUA ALONSO PERES, 212 – VILA SABRINA (Zona Norte)
    São Paulo – SP
    FAVOR CONFIRMAR PRESENÇA:
    2931-6251/6387-3677 (Tais) ou 2262-4858/6098-0811 (Marcos) taisliger@hotmail.com marcossilva.usp@uol.com.br

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