O calor se espalha nas montanhas da alma
E a lua que sorri
É pequena para os lábios do mundo
Todo mundo quer muito
e perde muito do que se deseja
…
O calor se perde nas montanhas da alma
É preciso escalar a prece
E ver o lado de lá da fé
Porque aqui é tudo muito seca
Sem água para apagar a pele
O fogo escorre nas vestes
E a gente vai se perdendo na gente…
Está quente essa cidade…
esse mundo todo está quente
…
Termômetros quebrados nas noites e nos dias
4 de julho de 2011 às 11:52 | 3 ComentáriosO estado febril causa delírio. Deliram os verbos, as noites, os jeitos e até objetos. Despedir dá febre, já dizia Guimarães Rosa. E é no calor que conseguimos enxergar o inimaginável, acessar miragens e descortinar os olhos. Talvez estas sejam as sensações mais fortes do espetáculo “Essa Febre que não Passa” do Coletivo Angu (PE) que estreou sua turnê pelo País por Natal, na Casa da Ribeira no último final de semana. E não é só de delírios que a peça trata. São universos femininos que ardem em qualquer gênero, vibram por dentro e nos descortinam.
De Vagar
18 de junho de 2011 às 14:47 | 2 ComentáriosDevagar porque as coisas rápidas não tem gosto
elas se atropelam
reviram no asfalto
e ninguém percebe…
Devagar porque a tristeza é permanente
e as coisas pequenas
são mais lindas
assim como os passarinhos
e as bolas de gude nas mãos dos meninos
Devagar porque as vassouras também varrem flores
e o silêncio não percebeu ainda o ruído discreto das violetas
elas gemem…
devagar porque a saudade não passa
tão cedo
nem as águas presas nas núvens
viram chuva
elas ventaniam
Devagar porque os pés são pequenos
e as estradas são poucas para atravessar uma vida tão corrida
Sequidão
Calor paralisado escorrendo as pernas
Gota ácida caída sobre os pelos
Solidão
Copo de água seco
Esperando chão
Fome de lamber paredes
Rachaduras sem fim
Lembram veias
Vozes
Fissuras de ossos sem função
Partes de mim
Pequenos pedaços que não juntam mais
Caquinhos de derramar no não
Ventilando
Fazendo estalar
Fogo e palhas
Amontoados como fogueiras gigantes
Véspera de São João
Vãos
7 de junho de 2011 às 8:02 | 1 ComentárioO fogo, a febre o frio
tudo cabe aqui
nesse pedaço de mundo
habitado por tudo
são vãos, vãs, terrenos baldios, vadios,
serenos dias quentes
termômetros quebrados nas noites
nos dias
nas horas mais sagradas
nos sabores
nas linhas verdes trançadas pelo vestido de chita, da menina
com os cabelos voando nos cantos da vida
no cais de suas rendas
nos sentidos todos
mesmo que invisíveis
Descanso
23 de maio de 2011 às 9:29 | 6 ComentáriosCansa o dia ruim
As contas para pagar
Os vazios
Cansa a infelicidade
A reclamação das longas filas
E a falta de calor quando se tem frio
Cansa o frio quando há falta de calor
E cansa falar do tempo quando não se tem nada a dizer
Cansam esses dias inúteis
As ruas todas cheias
E um monte de gente sem saber para onde ir
Cansa não saber viver
Cansa esperar
Cansa partir
Cansam os homens que se despedem dos filhos
E os filhos cansados de tanta ausência
Cansam de esperar
Cansa o vazio
Cansa a maré cheia que empurra os barcos para longe dos seus bens
Cansam os bens
Cansa a saudade
O prato cheio de sopa fria
E cansa também a comida quando não chega a lugar nenhum
Até as canções cansam
Os vinis cansaram de rodar e de serem arranhados por uma agulha
E viraram cd
Cansa a tecnologia
E tanta luz acesa
Quando se precisava somente de um pouco de vela
Cansaram as velas
A eletricidade cansou
Os dias cansaram
A gente cansa
O tempo cansa
Mas ele não pode descansar.
Onde a Terra Acaba
4 de março de 2011 às 15:19 | 1 Comentário“A palavra FIM editada ou pronunciada barraria todo o meu vôo”.
Mário Peixoto não acreditava no tempo. Ele escreveu em seu diário alucinado de vida a seguinte frase “Em nenhum lugar, existe tempo algum”. É de tempo que Mário Peixoto se alimentava. Suas construções leves e com mares calmos cheios de sons dentro não eram feitos de nuvens nem tampouco de concreto, mas de uma substancia que escorre feito liquido na vida. É de seres que ele fala. Estes que chegam e vão embora num conflito interminável envolvendo a memória e as sensações presentes. Como a água que bate no corpo e faz acordar diferentes trópicos das periferias umbilicais. Não existe tempo. Isso talvez seja apenas um sentido sem flores ou um prato cheio de vazio. “Limite” é um pouco disso. Uma espera dilacerada ou um acontecimento que quebra a corrente da bicicleta da criança e renova a eletricidade das descargas do cotidiano.
São Paulo meu (des)amor
26 de janeiro de 2011 às 8:27 | 3 ComentáriosEsqueci os gritos, a rua, o delírio
foram voar
na terra de Mário de Andrade
A poesia respira com sinais de fogo
delirante, inquieta e quase desesperada
ela se desfaz nos dias quentes
e volta quando a chuva não quer molhar a palavra
ali é realidade
revirada, insensível e doída
quase sólida
feito pedregulho amontoado para um prédio novo
um ovo
descascado, sem volta
querendo implosão
desejando …
árvores.
_________________________________________
SOBRE TODAS AS COISAS ESTRANHAS
Todas as coisas inexplicáveis
São altas
Acima das cabeças
Abaixo dos prédios
Nessa cidade
Os homens são pardos
Somados à chuva
Se diluem
Superficializam -se
Como estou
Sem casa, sem rumo, sem filho
Falta tudo nesse deserto de vidas
Longe léguas do Saara
Falta a cidade inteira por dentro
De mim, dos outros
Dos céus
Desses viadutos abrigados por gente
Cobertores, dores, elevadores enguiçados
Há séculos
Por onde os carros passam
Transitam e intransitam
Intransitáveis
Quase sem ar
Fôlego de gente asmática
É assim São Paulo
Esse mundo quase cego
Cerrado, estreito, sem ar
Sou eu
Aguardando o próximo metrô
Pra voltar a dormir
E ser moída de manhã cedo
Por todo esse encharcado
Que escorre as pernas
Depois seca
Vira solidão
O Amor quer Descansar
4 de dezembro de 2010 às 8:47 | ComentarO surto, a velocidade e os vazios. Tudo habita nela. Como os pães nas tardes quentes derretidos nas manteigas da faca. Não existe tempo pra isso. Só os fornos enguiçados e movidos de lenhas velhas. Só eles conseguem acelerar a quentura dos dias e das noites.
Encontro reúne Espaços culturais independentes do Brasil e da América Latina na Casa da Ribeira
26 de novembro de 2010 às 8:43 | ComentarInterromper o cotidiano e provocar um momento de reflexão na prática de 25 organizações não governamentais que pensam e fazem cultura em todo o Brasil e na América Latina. Estes são verbos e ações que movem o Encontro de Espaços Culturais Independentes – EEI – que acontece do dia 29 de novembro até 01 de dezembro na Casa da Ribeira.
HÓSPEDES DO TEMPO
11 de outubro de 2010 às 16:39 | 1 ComentárioEla amanhecia jogando bolinhas de ouro para o alto
Ele ardia por ver incêndios pelo corredor
Eles adormeciam
Cada um em sua cama
azul, sem lençol, sem nada
Eles comiam
Cada um no seu prato
amarelo, sem sal, sem nada
Anoitecia
E amanhecia de novo
As bolinhas não iam dormir
Nem os incêndios
E os remédios eram cada vez mais fortes
entorpecentes de gente
anestesiavam a esperança, a família, os filhos
Anestesiavam o sexo
O medo, tudo
menos a solidão
Ela não
Ela estava sempre ali
Sorrindo entre as bolinhas e o fogo
Terminava o dia
e ela estava pronta para abraçá-los
e amanhecia
de novo.
(para Maria e J. S que estão internos numa das celas da loucura nesses hospícios brasileiros)
NENHUM PAÍS
2 de outubro de 2010 às 21:08 | 1 ComentárioAquela chuva
Era caco
Vidros pequenos
Inundavam a rua
Não era possível voltar
Piscina profunda
Trombo de veia aberta
Mãos em sentidos contrários
Não ajudavam em nada
Formavam mapas inteiros
De nenhum país.
Só dava para ver um resto de sol
Uma saudade
Um pouco de solidão, guardada
E uma gaveta de papéis amarelos
Todos já gastos de vida
Cheios de medo dentro
E um pouco de café
É difícil perceber algo quando o pé e o sonho sangram.
A NÃO SER
29 de setembro de 2010 às 16:01 | 1 ComentárioA chuva não caiu na noite
secou a saliva, o suor, a loucura
secou o medo do escuro
e a solidão disfarçada
secou o mundo
o tempo
as vestes
o vento
secou o corpo
as certezas
o vazio
as lentes
não sobrou quase nada
a não ser essa cidade
Anistia
17 de setembro de 2010 às 17:15 | 2 ComentáriosAs redes estão vazias
Todos os homens se foram
Não sobrou nem um fio de linho para contar a história
Poderia ser de dia
Mas não
Eles foram ao escuro
Deixaram aqui
Os ecos dos gritos
Que ninguém ouviu
As mordaças e os choques
As vestes furadas
E uma solidão que perdura por muitos homens a fio
As redes estão vazias
Ninguém veio balançá-las
Talvez por medo do escuro
Ou pela surdez
Que conseguiu adormecer uma parte do mundo.
A Dança do Mundo: o balé ágil da existência humana na terra
14 de setembro de 2010 às 22:28 | 2 Comentários
“A Modernidade criou um mundo menor do que a humanidade” (Betinho)
“No caminho da dúvida, Descartes encontra a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro. Será que essa possibilidade de ser louco não faz com que ele corra o risco de ver-se despojado da posse de seu próprio corpo, assim como o mundo exterior pode refugiar-se no erro, ou a consciência adormecer no sonho?”
Despedaço
13 de setembro de 2010 às 16:03 | 3 ComentáriosO colorido intocado
as coisas todas fora do lugar,
um azul quase despedaçado
e um rio de ar quente transbordando fora
muito longe
duas garças verdes
sobrevoam o amanhecer
com seus pés de dedos finos
elas rasgam a manhã
arranham nuvens
e desaparecem na chuva
tão fina quanto suas pernas
quanto o par de seus olhos
oblíquos e pequenos
lembram o anoitecer
elas não anoitecem
elas são feitas de dia
e nada mais.
O perfume de Wislava
10 de setembro de 2010 às 18:03 | 4 ComentáriosDepois de sair da casa do poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, a poesia despertou uma tarde inteira. O cheiro de café escorrendo e um pouco de mar por dentro poderia definir um segundo desta sensação… Foi assim que saí para vasculhar a poesia de Wislava Zsymborska. Polonesa, ela apareceu para mim de dentro da rara biblioteca do poeta… acesa. O perfume de Wislava lembrou muito o de Akhmatova. Um perfume derramado pelas ruas infinitas, como revoluções. E a sensação forte chegou como um metrô…
Metrópole Humana Incendiária
23 de novembro de 2009 às 14:36 | ComentarNão dava. Eram grandes as grades invisíveis que cerraram meus impulsos. Não sei conviver com isso. Não disse uma palavra, apenas deixei o cigarro aceso na mesa de cabeceira, poucos livros e minhas mãos ainda inquietas sem desejo. Dali nada mais delineava meus dias. Nem as velas, nem os riscos, tampouco o futuro imaginário cheio de filhos e uma solidão.
Voei. Arranquei as fibras dos meus antebraços já endurecidos de muitos anos sem ser pássaro e implantei ali séculos de loucura. Não sabia mais existir.
Tudo que não invento é falso
29 de julho de 2009 às 9:13 | ComentarPelas telas de cinema dos festivais espalhados pelo Brasil afora, os documentários superam a produção cinematográfica de ficção. Uma verdadeira obra prima é o filme “Só 10% é Mentira” do mineiro Pedro César sobre Manoel de Barros, um dos maiores poetas brasileiros no auge dos seus 93 anos. O filme traz Manoel desnudo, falando de si e contando ao mundo para que serve a poesia. O homem que possui um pente ou uma árvore, serve para a poesia…
Citando trechos de poemas, Pedro narra em off como foi difícil filmar Manoel em sua casa. Ele que não gosta de comentar sobre suas obras, abriu uma exceção ao diretor quando depois de insistentes visitas o diretor dá adeus ao poeta dizendo, “tudo bem Manoel, isso era só um sonho”. Tocado por isso, Manoel pede que ele leve todas as “tralhas” logo pela manhã do outro dia e assim o filme acontece.
Manoel começa contando como é trabalhar num “escritório de ser inútil”, quando se refere ao seu trabalho de escritor e inventor de poesia, enquanto a câmera demoradamente mostra –imitando o ritmo de uma máquina de escrever – os quase 300 cadernos de rascunho com ilustrações feitas pelo próprio poeta e os lápis que ele utiliza para fazer suas “inutilidades”, como Manoel mesmo brinca.
É delicioso entrar naquele universo sagrado de composição de silêncios. Junto às imagens e aos depoimentos de Manoel, Pedro trouxe também depoimentos do filho João de Barros, do irmão, da esposa e de admiradores do poeta como Viviane Mosé e Elisa Lucinda, quando é dito uma frase tocante, “Manoel é o poeta que consegue nos trazer de volta a humanidade”. Acertou em cheio, algo raro nos dias de hoje…
Além das falas e da impagável leveza do olhar de Manoel contando como foi feito seu livro “Poeminhas pescados na fala de João” – quando ia atrás do filho no quintal com uma caderneta e um lápis e ia anotando suas frases soltas – o filme traz ainda imagens sendo criadas dos pedaços de muro descascado, recortando e remontando a própria fragilidade humana.
São 75 minutos de encantamento e doçura, quando podemos nos descobrir seres humanos puramente, simples e repletos de cores de passarinhos sobrevoando os dias e noites da vida.
Vale a pena conferir!
Como vale conferir os documentários “Loki” sobre Arnaldo Batista e um maravilhoso que virá pelas telas chamado “Os Filhos de João” sobre os Novos Baianos.
Blog e poemas do Rodrigo
5 de julho de 2009 às 21:28 | ComentarMELHORA
Rodrigo de Souza Leão
http://lowcura.blogspot.com/
Tudo é uma criação da mente
Um poema ou um poente
Tudo tem um forte sentido
Quando não se oprime o indivíduo
Alguém soletra uma distância
A distância separa os fatos
A verdade não é tão necessária
Já que Heráclito já morreu







