Dia desses Kid Vinil, em sua coluna no portal Yahoo, ao dar notícias do mercado de relançamentos que toma conta da indústria fonográfica gringa levantou uma bola interessante: por que as gravadoras brasileiras não fazem o mesmo? A resposta talvez não seja tão simples, mas o efeito seria imediato. Nos porões da música pop brasileira encontra-se uma quantidade considerável de álbuns e artistas – muitos inéditos em formato digital – que há tempos pedem por um relançamento decente. Como tudo é motivo para fazer lista, eis uma seleção de dez álbuns + 1 que, abstraindo a burocracia das gravadoras, não fariam feio em versões “deluxe” nas prateleiras nacionais.

Ronnie Von – A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais (1969)
Misteriosamente esquecido no pacote que relançou A Máquina Voadora e o mítico disco da capa amarela de 1968, A Misteriosa Luta… é um capítulo essencial na saga psicodélica de Ronnie Von. Embora a sonoridade seja mais pop que o disco amarelinho, a lisergia não é domada. Já abre de sola com a absurda (tomou fôlego?) “De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-Me de Volta a Alfa-Centauro, Meu Verdadeiro Lar”. Como se pirações desse naipe fossem pouca coisa, ainda há versões para “Dindi” de Tom Jobim, “Atlantis” de Donovan, aqui convertida em “Atlântida”, e “I Started A Joke” dos Bee Gees que na versão de Ronnie virou “Comecei uma Brincadeira”.

Jards Macalé – Jards Macalé (1972)
Compositor já tarimbado e, na época, já gravado por Gal Costa, Macalé estreou em disco próprio da maneira mais roqueira possível: em formato power trio, com Lanny Gordin no baixo e no violão e Tutty na bateria. O resultado não é samba, nem rock, nem jazz, nem bossa nova, mas um pouco disso tudo. O hit “Vapor Barato” aparece aqui como uma vinheta fantasmagórica, à capela. “Revendo Amigos”, “Mal Secreto”, “Movimento dos Barcos” e “Farrapo Humano” (de Luiz Melodia) são pérolas tortas, apresentadas em versões acústico-garageiras, pontuadas pelos improvisos de Gordin e pela interpretação singular de Macalé. Como bônus, a hipotética edição especial do disco poderia trazer as quatro faixas do compacto de estreia do artista, lançado em 1970: “Só Morto”, “Sem Essa”, “Soluço” e “O Crime”, mais “Gotham City”, composição de Macalé mais conhecida na versão d’Os Brazões, os favoritos de Mark Arm.

Marcos Valle – Previsão do Tempo (1973)
Lançado sob a barra pesada da ditadura militar, Previsão do Tempo é considerado pelo próprio Marcos Valle como um dos discos mais importantes de sua carreira. Sofisticado no uso de pianos Fender Rhodes e sintetizadores e espertíssimo nas letras do irmão Paulo Sérgio Valle, Previsão do Tempo é um disco de pop classudo, não por acaso cultuadíssimo na Europa. Abre com “Flamengo Até Morrer”, sutil sacaneada futebolística nos militares, e segue com um repertório de clássicos como “Samba Fatal”, “Nem Paletó, Nem Gravata” e “Mentira”, sampleada pelo Planet Hemp na faixa “Contexto”. Para incrementar o produto, bônus especial com faixas compostas pelos irmãos Valle para as telenovelas globais da época, como Pigmalião 70, O Cafona e Os Ossos do Barão.

Impacto Cinco – Lágrimas Azuis (1975)
Banda calejada nos bailes potiguares da década de setenta, o Impacto Cinco tirou a sorte grande e foi bater nos estúdios da CBS no Rio de Janeiro para gravar seu segundo álbum. Com o chapa Leno nos botões e emprestando composições como “Carmem, Carmem”, “Tudo Vai Mudar” e “Sentado A Beira do Arco-Íris”, o resultado não poderia ser mais certeiro. Lágrimas Azuis permanece até hoje um misterio mal solucionado na discografia do rock nacional. A existência de sobras de estudio do período é discutível, mas a qualidade da tracklist original já é suficiente para entender o porquê do disco figurar no topo das listas de mais procurados pelos colecionadores e arquivistas da psicodelia latina.

Ave Sangria - Ave Sangria (1975)
Espécie de Stones (fase Satanic Majesty…) do Nordeste o Ave Sangria até hoje tem viúvas chorosas lá pelos lados do Recife. A pintura psicodélica da capa não faz mistério quanto ao conteúdo de pérolas como “O Pirata”, “Georgia, a Carniceira” e “Sob o Sol de Satã”. Mas o grande anti-hit do disco é a polêmica “Seu Waldir”, sambinha de temática homoerótica levado no pedal fuzz (“Seu Waldir, o senhor magoou meu coração/Fazer isso comigo, seu Waldir/Isso não se faz não”). Uma vez que todos os envolvidos na feitura do álbum ainda estão vivos e de bem com a vida, um multirão poderia ser organizado em buscas de raridades, sobras de estúdio ou gravações ao vivo. Mas uma edição em CD simples já valeria a pena.

Arnaldo & Patrulha do Espaço – Elo Perdido (1988)
Depois do elogiado documentário de Paulo Henrique Fontenelle e do relançamento de Lóki? em CD bem que podiam dar uma chance a fase hard pop de Arnaldo com a Patrulha do Espaço. Tecnicamente, Elo Perdido nem chega a ser um álbum: na verdade, são as rough mixes das sessões de gravação do mutante com a Patrulha do Espaço, que ficaram engavetadas por dez anos até ver a luz do dia em formato de LP, pelo selo paulistano Vinil Urbano. A maior parte das faixas aparece também em versões soturnas no solo Singin’ Alone (1982), mas é aqui, com Arnaldo assumindo o posto de band leader ao piano, que canções perfeitas como “Sunshine”, “Trem”, “Corta Jaca” e “Sexy Sua” podem ser degustadas em sua total plenitude. Na internet circula também um piratinha da mesma época, apelidado de Vice-Versa Studio, com as faixas “Sr. Empresário”, “Sanguinho Novo”, “Cowboy”, “Imagino a Minha Morte” e “Singin’ Alone” que ficariam perfeitas como bônus.

Killing Chainsaw – Killing Chainsaw (1992)
Quem viu garante que não tinha para mais ninguém. Durante os poucos anos que permaneceu em atividade, o Killing Chainsaw fez barulho suficiente para ganhar o título de melhor banda independente brasileira e ainda arrancar elogios de Kurt Cobain. O sucesso subiu rápido e um contrato malaco com a Roadrunner fez a banda ir pro saco dois anos depois deste álbum de estreia, lançado pelo selo/loja Zoyd Music. A capa, sacada do clássico Akira de Katsuhiro Otomo, não é enganosa quanto ao conteúdo, filhote direto de Sonic Youth, Jesus & Mary Chain, Mudhoney e outros barulhos saudáveis. Qualquer banda que tenha uma música chamada “Fuck You Gently (With a Chainsaw)” merece ser preservada para posteridade. Como bônus, vale a inclusão na íntegra de Early Demo(ns), estreia em fita do Killing com os petardos “Evisceration”, “Lollypop” e a versão pervertida de “Paperback Writer”, dos Beatles.

Graforréia Xilarmônica – Coisa de Louco II (1993)
Lançado pelo extinto selo Banguela – capitaneado por integrantes dos Titãs e pelo hoje jurado Carlos Eduardo Miranda – a estreia oficial da Graforréia saiu de catálogo praticamente na mesma semana de lançamento. Disputado a tapa em sebos e leilões virtuais (outro dia, um cidadão ofereceu R$ 200 no Mercado Livre), Coisa de Louco poderia voltar incluindo como bônus a demo Com Amor, Muito Carinho, lançada ainda nos anos 80 pelo selo Vortex, dos Replicantes. Pronto: estariam lançados os alicerces para a segunda vinda do culto graforrélico no terceiro milênio.

Little Quail & the Mad Birds – Lírou Quêiol en de Méd Bãrds (1994)
O primeiro disco da segunda banda mais querida de Brasília é tão raro que nem o vocalista Gabriel Thomaz tem. Mais uma pérola lançada via Banguela Records, a bolachinha traz a tosqueira e lesação do trio em toda a sua plenitude. Desde o fim da banda já saíram duas compilações de raridades, o que limita um pouco as possibilidades de acréscimo de faixas extras ao disco original. Mas, quem se importa? “Berma Is A Monster”, “Aquela”, a versão porrada para “Samba do Arnesto” e – claro – “1, 2, 3, 4” são clássicos incontestáveis do underground brasileño e merecem um tratamento à altura de sua importância, com direito a execução semanal nas escolas da rede pública e na abertura de eventos oficiais. Doa a quem doer.

Júpiter Maçã – A Sétima Efervescência (1997)
Divisor de águas no indie nacional, a estreia solo de Flavio Basso (então conhecido apenas como ex-vocalista do Cascavelletes) é uma profusão de arranjos lisérgicos com letras amalucadas. Saiu em tiragem mínima pelo selo gaúcho Antídoto e hoje é objeto de desejo de 11 entre 10 garimpeiros discográficos do Oiapoque ao Chuí. O próprio Júpiter já acenou mais de uma vez com a possibilidade de relançar o álbum em uma edição especial caprichada, com encarte retrabalhado e faixas bônus. Recentemente, ele colocou toda a sua discografia para download gratuito em sua página na Trama Virtual, incluindo algumas raridades da época de A Sétima Efervescência, que provavelmente fariam parte dessa suposta edição especial.
Faixa bônus:

Tim Maia – Racional Vol. 02 (1975)
Não muito há o que dizer sobre os discos da fase Racional de Tim Maia que não tenha sido dito antes. Pedra filosofal da soul music nacional, o primeiro disco ganhou uma merecida edição em cd em 2007, pela Trama. Porém, devido a uma mal explicada treta familiar, o volume 2 permanece inédito em formato digital. Muitos fãs consideram este o melhor disco da fase Racional, o que se justifica pelo repertório irrepreensível que inclui “O Caminho do Bem”, “Quer Queira ou Não Queira” e “Que Legal”. A reedição do segundo volume poderia ser uma boa desculpa para reeditar os dois discos Racionais num pacote só, com um box caprichado, com encarte carregado de textos e fotos. Alô, Trama? Alguém?
*Texto publicado no site O Inimigo.