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22 de setembro de 2009

Jornalismo cultural

Por Carlos de Souza

O jornalista Daniel Piza nasceu em São Paulo em 1970 e estudou Direito no Largo de São Francisco (USP), começou sua carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo (1991-92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cultura. Trabalhou em seguida na Folha de S. Paulo (1992-95), como redator, repórter e editor-assistente da Ilustrada, cobrindo especialmente as áreas de livros e artes plásticas. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; desde 2004 assina também uma coluna sobre futebol.

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17 de setembro de 2009

Velhice

Por Carlos de Souza

Carlos Magno, eu só sei que tu estás escrevendo cada vez melhor caba véio. Te conheci num bar da velha Ribeira, paquerando com Rosa, ambos repórteres do finado Diário de Natal. Todos jovens, menos eu.

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Então, meu velho, você é o próprio Matusalém reencarnado porque mais de 50 anos antes desse encontro já tinham te avistado numa das esquinas mais suspeitas de Areia Branca.

16 de setembro de 2009

Literatura

Por Carlos de Souza

Indispensável a leitura do texto de Franklin Jorge, em seu blog indicado aí ao lado, sobre Falstaff, o mais completo dos personagens de Shakespeare. Marylin Monroe lendo Ulisses, de Joyce, é um deleite para os olhos e a alma.

16 de setembro de 2009

Imprensa

Por Carlos de Souza

Quando o Diário de Natal demitiu a maioria dos jornalistas natalenses e mudou de formato eu vi aqui algumas pessoas elogiando a mudança. Um jornal precisa ter a cara de sua cidade para poder merecer o nome que leva na primeira página. Agora eu pergunto: o Diário de Natal é de onde mesmo?

10 de setembro de 2009

Natal letal

Por Carlos de Souza

Neve sobre a cidade. Poeira do Machadão implodido sobre a cidade. É por isso que cada vez mais me exilo de Natal.

8 de setembro de 2009

Para entender melhor as idéias de Kant

Por Carlos de Souza

Outro dia Carlos Peixoto estava aqui na redação tentando lembrar uma frase de Hamlet que diz mais ou menos “o mundo está fora dos eixos”. É essa a sensação que muitos de nós estamos sentindo neste terceiro milênio, “alguma coisa está fora da ordem”, como diz a canção de Caetano. Nessas horas, meus amigos, só tem duas saídas. Procurar algum consolo na religião ou buscar um rumo na filosofia.

É nessas horas também que faz um bem danado ler filósofos como o alemão Immanuel Kant. Mas ao tentar fazer isso qualquer leitor vai perceber logo de entrada uma grande dificuldade. Ler Kant não é fácil. Daí a importância deste Kant – Uma Leitura das Três “Críticas”, de Luc Ferry, Difel, 336 páginas, R$45,00. Logo no início o autor diz que “podemos tentar contornar a dificuldade o quanto quisermos, freqüentar os cafés filosóficos e os locais de iniciação de todos os tipos. No fim, não há o que fazer: é impossível entrar realmente na filosofia sem nos dedicarmos a compreender a fundo pelo menos um grande filósofo”. E acrescenta que ler Kant é importante “em razão de sua posição intermediária entre o mundo dos antigos e o dos modernos”.

Porque ler Kant “é dar-se a oportunidade de uma perspectiva incomparável sobre a história da filosofia ocidental”. E também porque “é impossível ler adequadamente Nietzsche, Husserl, Heidegger ou Arendt sem ter uma boa compreensão da Crítica da Razão Pura”. Dito isso com a voz do próprio autor resta-nos ainda a pergunta. Por que é tão difícil ler Kant? Porque é preciso ter “chaves de leitura” para sua compreensão. E é o que nos oferece a leitura deste livro de Luc Ferry. “Sem essas e algumas outras chaves da mesma ordem, hoje é quase impossível ler diretamente Kant. Não que suas teses sejam, por si sós, tão difíceis ou obscuras como às vezes se supõe. Mas o fato é que não pertencem – ou não mais – à cultura geral das pessoas cultivadas. As questões as quais elas trazem respostas desapareceram no campo de nossas preocupações ordinárias, de maneira que praticamente já não são admitidas, em todo caso não mais sob sua forma original, no espaço público”.

A seguir ele lista algumas das dificuldades na leitura de Kant e completa: “Todas essas dificuldades podem ser superadas depois de compreendermos a lógica de conjunto de seu pensamento – elas não deixam de ser obstáculos assustadores para o leitor iniciante e até, sejamos francos, para muitos professores de filosofia”. E agora? Ficou com medo, cabra? Nada. Este livro foi feito justamente para que o leitor interessado em filosofia possa começar entender o pensamento de Kant de forma mais suave, sem a corrida de obstáculos dos jargões acadêmicos. Escrever difícil esconde muitas vezes grandes imposturas intelectuais e Luc Ferry prova isso com uma escrita de fácil acesso.

Luc Ferry é autor de outros livros de introdução à filosofia de grande sucesso como O Que é Uma Vida Bem Sucedida? E Tratado de Filosofia Para as Gerações Jovens. Aqui ele acerta em cheio ao proporcionar para o público leigo a possibilidade de compreensão deste grande filósofo.

A primeira vez que tentei ler Kant foi num volume da coleção Os Pensadores. Fiquei vários dias sem conseguir passar de algumas páginas, tendo que voltar várias vezes para entender o que lera páginas atrás. Uma pedreira mesmo. Então comprei um livrinho bastante simpático intitulado Kant & A Crítica da Razão Pura, de Vinicius Figueiredo, Coleção Passo a Passo, Jorge Zahar, 76 páginas, R$19,90. Desses livros que você pega naquelas prateleiras que giram nas livrarias e leva sem pensar. Confesso que desisti várias vezes de sua leitura pela dificuldade que encontrei logo de entrada.

Para voltar à questão que coloquei no início, sobre o mundo de pernas para o ar, volto a citar Luc Ferry com muito prazer. “Se o mundo, a partir de então, é um caos, um tecido conflituoso de forças, é claro que o conhecimento já não pode assumir a forma, no sentido próprio, de uma theoria. Com efeito, nada mais há de divino na natureza que o espírito humano possa incumbir-se de contemplar. Doravante, é este último que, por assim dizer, do exterior, deverá introduzir a ordem num mundo que quase já não a oferece à primeira vista. Eis a razão para a nosa missão, na verdade inaudita, da ciência moderna, que já não reside na contemplação, e sim num trabalho, na elaboração ativa e até mesmo na construção de leis que permitem conferir sentido ao universo desencantado”.

Einstein disse que “Deus não joga dados com o Universo”. Joga sim. O poeta Mallarmé sabia disso.

1 de setembro de 2009

Tico

Por Carlos de Souza

Na semana passada o músico Babal andou ligando para meu telefone (que estava com defeito) e não conseguiu contato comigo. Aí o músico Mirabô Dantas ligou para a casa da minha mãe e quando cheguei na Tribuna entrei em contato com ele. É que eles procuravam um jornalista de Areia Branca que escrevesse um texto sobre Tico da Costa. Disse que ia pesquisar alguma coisa nos jornais e escreveria sim, mas confesso que estava constrangido. Não conhecia tão de perto assim a música de Tico da Costa. Conhecia muito seu irmão Paula Neto, grande companheiro de farras. Quando li o texto de Carlos Magno sobre o encontro que ele teve com o músico cosmopolita e areiabranquense, fiquei emocionado e travei, travei mesmo. Não tem cristão no mundo que me faça escrever algo sobre ele depois do que li em Carlos Magno. Logo mandei um e-mail para Mirabô pedindo que entrasse em contato com Magno. Ele vai entender. Todos vão entender.

19 de agosto de 2009

Realpolitik

Por Carlos de Souza

Estava vendo agora há pouco a declaração de Marina Silva sobre sua saída do PT. A impressão que se tem é que o PT está se desmilinguindo, perdendo todos os seus componentes que tinham algum compromisso com a ética. Tudo isso vem acontecendo depois do escândalo do mensalão. E o inoxidável Lula fica aí defendendo o cacareco Zé Sarney. É, meus amigos, o velho Maquiavel tinha razão, sempre teve. O poder corrompe alguns. Pois bem. São duas linhas de pensamento: Dilma Roussef e Zé Serra são dois autoritários que defendem o progresso a qualquer custo. Marina Silva é a defesa do desenvolvimento sustentável. Isso é discurso novo nessa campanha chata e pode arrebatar os jovens. Olhem o que eu digo. Gilberto Gil parece que vai embarcar nessa onda. Vai ser legal ver Marina, Gabeira e Gil. Já em Natal… Deixa pra lá.

18 de agosto de 2009

Politik

Por Carlos de Souza

Eu ia dizer alguma coisa sobre o quiprocó de Lina Vieira, mas Chico Guedes já disse. Essa ministra ex-guerrilheira tem o costume de se meter em assuntos que não lhe cabem. Ela faz tudo para agradar ao chefe. Gosta de dar gritos nas pessoas. Só quem gosta dela é Fernando Mineiro e uma meia dúzia de petistas. Se o Brasil fosse um país decente elegeria Marina Silva presidente. Mas isso não vai acontecer.

14 de agosto de 2009

Machadão

Por Carlos de Souza

Amigos, o artigo de Alex Medeiros sobre o Machadão me pegou de surpresa e confesso que fiquei emocionado. Se todos os que fazem parte do poder público parassem de usar nosso dinheiro e nosso patrimônio como se fossem propriedades suas, este país estaria em melhor situação. Lavar o estádio com água e sabão foi a melhor metáfora que já vi até hoje sobre como evitar as práticas de governos perdulários. Imagine lavar com água e sabão o Hospital Walfredo Gurgel, postos de saúde, escolas públicas e polícias militar e civil? Imagine lavar o lixo que entope esta nossa cidade! Fico feliz quando leio uma coisa assim.

14 de agosto de 2009

Para ficar íntimo de Montaigne

Por Carlos de Souza

Este não é fácil de encontrar nas livrarias. Consegui um exemplar no site Estante Virtual, mas se você tem interesse em conhecer de perto o pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne antes de mergulhar de vez nos Ensaios, vale a pena o esforço. “Montaigne em Movimento”, de Jean Starobinski, Companhia das Letras, 325 páginas, R$70,00 é um daqueles estudos em profundidade que deixa o leitor completamente à vontade para degustar a obra do escritor que a pessoa admira. Se bem que ler Montaigne não é coisa muito difícil como tentar ler outros filósofos, como Immanuel Kant, por exemplo.

Montaigne escreve como se estivesse conversando com o leitor e é aí que mora todo o segredo e encanto de sua escrita. Ele, na verdade, escrevia para si mesmo, revela Starobinski, mas sempre flertando com um possível inalcançável leitor. Essa decisão do filósofo foi exatamente a que garantiu sua imortalidade. Primeiro ele queria prestar homenagem a um grande amigo falecido. Então essa conversa com alguém ausente passa imediatamente a nos transformar em amigo íntimo do filósofo.

Uso este termo para definir Montaigne apenas pela falta de outro melhor, pois o que menos se parece neste grande apanhado do conhecimento humano é filosofia. A impressão que passa é que ele queria falar de tudo que lhe passasse pela mente sem qualquer obstáculo que freiasse sua imaginação. Qualquer assunto é motivo para que ele mergulhe na mais deliciosa digressão. E o que faz Starobinski é guiar o leitor neste mar de palavras, muitas vezes malandramente surrupiadas de outros, pois nos tempos de Montaigne esse negócio de direito autoral ainda não existia. Grande ladrão de palavras este cidadão.

Da mesma forma como fazia Shakespeare, o filósofo também toma frases inteiras de outros autores e as transforma em coisa sua, completamente originais. O frescor do pensmento de Montaigne é o que faz dele um verdadeiro Cult entre as pessoas que se ocupam dessas coisas etéreas. Daí o grande interesse pelo que ele que ele fala sobre o amor. Eis aí um departamento dos mais interessantes nesta análise de Starobinski da obra do mestre francês. O capítulo Dizer o Amor tem a vocação de por si mesmo ser um verdadeiro Best seller.

Confesso que ler Montaigne não é mais a mesma coisa depois disso. Sempre o li em doses homeopáticas (tenho os dois volumes da coleção Os Pensadores, da Abril), escolhendo aqui e ali um capítulo particularmente interessante. Agora caio sempre na tentação de ler fazendo o cotejamento entre o estudo de Starobinski e o texto original. Não existe divertimento melhor para as horas solitárias.

Essa minha paixão por Montaigne começou a partir da convivência com uma pessoa muito especial que passou pela minha vida. Ela gostava muito de lê-lo e isso despertou minha curiosidade. Agradeço muito tal influência, porque tenho adquirido muito conhecimento e alegria com cada coisa relativa ao pensador francês. Outro dia estava procurando alguma coisa para ler e encontrei uma promoção do livro “Montaigne”, de Marcelo Coelho, da Publifolha (êpa! Não estou ganhando nada da Publifolha, viu?). É um livrinho de 89 páginas da coleção Folha Explica que dá dicas preciosas sobre a obra e a vida de Montaigne.

Foi aí que vi a indicação do livro de Starobinski e também de outro livro que ainda não li, mas que já está comigo que é “Montaigne a Cavalo”, de Jean Lacouture, um misto de biografia e ensaio que comentarei depois aqui. Pois bem. Hoje estou recomendando “Montaigne em Movimento” porque sei que alguns de meus raros e importantíssimos leitores desta minha coluna vão logo sair no encalço deste livro tão necessário.

Agora, antes que eu me esqueça, um aviso. Não é uma leitura das mais fáceis. Pois é, Montaigne é fácil de ler, mas Starobinski não. Como todo schollar, o suíço tem aquele costume acadêmico de dificultar as coisas para o leitor leigo. Você precisa começar a leitura, munido da mais espetacular paciência e boa vontade para ir remando nessas águas revoltas do pensamento montaigneano. Não precisa crucificar Starobinski por isso, pois sua intenção foi das melhores. Todos os capítulos dos Ensaios do filósofo os capítulos são precedidos de análise aprofundada da biografia e contexto em que aquilo foi escrito, vale dizer.

Você sabe que um esforço como esse, de facilitar a compreensão da obra de qualquer autor, é sempre muito bem vindo. Então antes que se esgote este tempo e espaço em que dialogamos aqui, eu e o leitor, vamos descrever alguns tópicos abordados no livro. Primeiro vem a questão de “para quem escrevemos”; depois “a verdadeira face das coisas”; em seguida “a relação com os outros”; passando pelo “momento do corpo”; ainda “dizer o amor”; culminando com “a natureza e a obra” e concluindo com “os costumes públicos”.

É importante salientar que tais tópicos cobrem assuntos os mais variados como a arte do pintor, a iminência da morte, a felicidade de sentir, os empréstimos de palavras, a revolta do estômago, o impudor, os erros médicos, os livros proibidos, os livros desejados, os serviços recíprocos no amor, a obra-prima de viver, a simpatia à crítica, a ação calma, etc. Esta é a grande aventura de ler Montaigne e entender o que ele quis dizer com tantas palavras e tantos mundos imaginados.

8 de agosto de 2009

Livro

Por Carlos de Souza

Legal. Como é que eu faço para falar com Wandir?

8 de agosto de 2009

Dicionário

Por Carlos de Souza

Encontrei o Dicionário Crítico Câmara Cascudo, organizado pelo professor Marcos Silva no sebo de Ronaldo, na Rio Branco, uma edição novinha em folha. Estava procurando um livro que me desse informações sobre a obra do mestre potiguar para um romance que estou terminando de escrever e será publicado pelo Sebo Vermelho. Mas o dicionário é tão bom que virou livro de cabeceira. É fundamental para quem quer conhecer de perto a obra do grande escritor que é Câmara Cascudo. Chamou a minha atenção o livro Dante Alighieri e a Cultura Popular (é este mesmo o nome?). Onde é que eu consigo um exemplar deste livro, meus amigos?

4 de agosto de 2009

Comunismo

Por Carlos de Souza

Engraçado, mas não tenho medo de Hugo Chavez, nem de qualquer ditador seja de esquerda ou de direita. Acho a idéia de Marx maravilhosa, mas uma utopia pouco provável de aplicação em se tratando de raça humana. O que tenho medo é do desmonte da democracia (e não venha me dizer que os governos de direita nos EUA são democracia). A América Latina está, sim, sempre à beira de uma ditadura ridícula coberta de bananas e lama. A questão das drogas no mundo é tão ideologizada que não dá nem para se começar uma discussão decente sobre o assunto. O mundo não é um lugar muito seguro para se viver. Mas isso Guimarães Rosa já sabia.

4 de agosto de 2009

Diário de bordo

Por Carlos de Souza

Memória

A memória é uma coisa mágica. Não me admira que Proust tenha escrito páginas e mais páginas só com a fugaz lembrança de um aroma. A obra de Proust é um calo no meu sapato. Eu já comecei a lê-lo uma série de vezes e nunca passo da metade do segundo livro de Em Busca do Tempo Perdido (ou À Procura do Tempo Perdido, como queiram), À Sombra das Raparigas em Flor. Só o título já é suficiente para despertar inumeráveis lembranças para qualquer um com o mínimo de sensibilidade. Até agora eu só li todo O Caminho de Swann, que é uma delícia e nos diz muito sobre certas paixões que nos ilude por um bom tempo. “E pensar que ela nem era o meu tipo”, a frase de Swann é lapidar.

Música

O mesmo me ocorre agora ao ouvir O Verão de 42, de Michel Legrand, no meu canal de música. Quanta lembrança uma coisa dessas pode despertar… A juventude, as tardes chuvosas ouvindo o rádio no meu quarto, as leituras do gibi Mortadelo e Salaminho (eu tinha a coleção completa que se perdeu nas muitas mudanças de casa. Quanto deveria estar valendo agora?). A música me faz lembrar também de um comercial de TV, acho que de perfume ou cigarro, a imagem de um trem percorrendo uma paisagem européia ou era a imagem de um quarto bem sofisticado e o perfume derramava um pouco na mesa, sei lá. Lembranças da Sessão Coruja, da Globo, que passava tantos filmes bons…

Vinil

Eu tinha um LP de Michel Legrand que mostrava na capa uma sapatilha bem usada e um ramo de camélias. Nos anos 70 a gente não tinha receio de ouvir música orquestral. Depois foi se confundindo com música de elevador e ficou difícil separar o joio do trigo. Quando eu vendi grande parte os meus discos de vinil, para comprar um toca-cds, lembro que foi junto também um disco de num cara que tocava órgão acompanhado de uma orquestra. A capa era bem brega, daquelas que mostram um pôr-do-sol alaranjado, mas o disco era muito bom. Nunca mais vi igual. Perdi também um LP com um concerto para violoncelo de Brahms.

Cinema

Quem se lembra de Theme From a Summer Place, da Mistic Mood Orchestra? As sessões do Cine Miramar, em Areia Branca, eram sempre precedidas desta música. Eu gostava de chegar cedo para escolher o melhor lugar e ficar escutando o repertório de orquestras do cinema. Agora vem à memória o cheiro de hortelã e balas que eram vendidos na entrada. Engraçado, não me lembro do cheiro de pipoca. Toda semana eu ia umas duas ou três vezes ao cinema (porque em Areia Branca havia dois cinemas e a programação era alterada várias vezes na semana) e ia sempre sozinho. Meus amigos iam ao cinema para namorar, eu ia para ver o filme. No final dos anos 70 veio a decadência e os cinemas foram sendo fechados. Deram lugar às novelas na televisão.

Natal

Quando cheguei a Natal por essa época, os cinemas Rio Grande e Nordeste ainda lotavam suas salas. O Cine Cid, na Rio Branco, ainda exibia bons filmes. Havia uma sessão de arte lá, do Sindicato dos Bancários, que depois mudou para O Rio Grande. Mesmo sem filmes de arte dava para ver grandes sucessos do cinema nessas salas. Mas não lembro mais das músicas antes das sessões. Creio que ainda tocavam os Bee Gees de vez em quando, não sei.

Passado

Difícil esquecer os tempos em que os cinemas tocavam o Tema de Lara , do filme Doutor Jivago, antes das sessões. O público era educado e silencioso. Não iam lá para fazer suas refeições. Alguns amigos reclamam que eu não vou mais ao cinema. Não vou. Prefiro ficar em casa no meu silêncio vendo só o que gosto.

31 de julho de 2009

Justiça

Por Carlos de Souza

A justiça brasileira é uma nefasta herança cartorial da colonização portuguesa. Aqui quem tem dinheiro pode protelar um processo por mais de 20 anos sem pegar um dia de cadeia sequer. Mas quando se trata de ninharia esses senhores juízes, que não enxergam um palmo diante da papelada à sua frente, são muito rigorosos e invariavelmente confusos. Mandam presos passear de avião às nossas custas, prendem duas inglesinhas idiotas que queriam dar um golpe no seguro (vão conhecer de perto a delícia de um presídio brasileiro) e soltam criminosos de alta periculosidade porque são guiados por um Código Penal caduco.  Às vezes dá inveja dos americanos que prenderam aquele calhorda financista.

27 de julho de 2009

Cinema

Por Carlos de Souza

Fiquei estarrecido com o que li na Folha no final de semana. Não, não foi mais um escândalo envolvendo Zé Sarney. Foi a crise no cinema independente. Pior foi saber que o maior problema são os jovens que perderam a capacidade de julgar o que é bom ou ruim. Sem estética não dá para saber o que está acontecendo em nosso tempo e espaço. Sem ética ficamos à mercê dos ratos que infestam a política nacional e mundial. Partidos que nascem sob o signo da ética estão mais corrompidos que nunca, vide PMDB, PT e o partido que elegeu Mandela. Um especialista em segurança pública comentou outro dia que um delegado disse que os policiais que lidavam diretamente com o tráfico de drogas tinham prazo de validade. É que eles são pagos com uma mixaria para combater um negócio milionário. Pois bem, vamos em frente, que tudo vai bem como dois e dois…

21 de julho de 2009

Em busca de William Shakespeare

Por Carlos de Souza

Não me canso de dizer que leio tudo de e sobre o velho Shakespeare, seja lá o que for, peças, ensaios, ficções, biografias, o diabo a quatro. Peguei este livro numa promoção da Publifolha e foi uma grata supresa. Shakespeare – O Mundo é um Palco – Uma Biografia, de Bill Bryson, Companhia das Letras, 199 páginas, R$. Você pode pensar que é mais uma daquelas biografias do Bardo e começar a bocejar, mas tenha calma. Apesar de repisar todos os caminhos dos outros biógrafos, Bryson nos oferece um retrato em lusco fusco do grande homem de Strattford. Não se sabe quase nada sobre a vida de Shakespeare, a não ser que ele escreveu as melhores peças de teatro da história da humanidade, sonetos de tirar o fôlego dos reles mortais e foi um próspero cidadão de sua província.

Como todo bom biógrafo, Bryson fala sobre as desconfianças do lado gay de Shakespeare, de sua fama de plagiador, de como foi quase esquecido por todos apenas alguns anos depois de morto, etc. Vocês que sofrem com a falta de reconhecimento de seus contemporâneos podem pedir mais uma ‘chancinha’ a Deus, porque nunca se sabe. Shakespeare foi espinafrado por todos os medíocres de sua época e até por gente de peso como Samuel Johnson.

Pois é, ele pegava textos dos outros sem citar e transformava em algo maravilhoso de sua autoria, cometia erros de geografia, manipulava datas a seu bel prazer e falava de política sem chamar a atenção de políticos contemporâneos. Quando queria criticar o poder era só ambientar a peça na Roma antiga e passar nas ventas das “otoridades”. Cabra bom, esse Shakespeare.

De vez em quando Bryson nos oferece tanta informação que, às vezes, parece cultura inútil. Se não vejamos: “Contaram cada palavra que ele escreveu, registraram cada ponto, cada vírgula. Podem nos dizer (e disseram) que as obras de Shakespeare contêm 138 198 vírgulas, 26 794 dois-pontos e 15 785 pontos de interrogação; que ele fala de orelhas 401 vezes em suas peças; que dunghill, ‘esterqueira’, é usado dez vezes e dullard, ‘tacanho’, duas vezes; que seus personagens se referem ao amor 2 259 vezes, mas ao ódio apenas 183 vezes; que ele usou damned, ‘maldito’, 105 vezes e bloody, ‘infame’ e ‘sangrento’, 226 vezes, mas bloody-minded, ‘sanguinário’, apenas duas; que ele escreveu hath, ‘tens’, 2 069 vezes, mas has, ‘tem’, apenas 409; que no total nos deixou 884 647 palavras, contituindo 31 959 falas, espalhadas por 118 406 linhas”. Hehehehehe, é bom demais!

Como não poderia deixar de ser, ele também fala nos autores que defendem a inexistência de Shakespeare, ou seja, que ele não escreveu suas peças, e aí é de matar de rir. Ele desmonta cada teoria, cada invencionice com uma ironia tão fina que torna seus autores verdadeiros bobocas. É triste saber que gente como o filósofo Ralph Waldo Emerson, Thomas Carlyle, Mark Twain, Henry James e até mesmo Sigmund Freud e Orson Welles (pasmem!) embarcaram nesta barca furada. Não, não é triste não. A humanidade é assim mesmo.

Sinceramente, já tentei ler alguns desses livros que defendem que Shakespeare não é Shakespeare. Mas não passei das primeiras páginas, porque não consigo ler empulhação. Se você já leu algumas das melhores peças do bardo inglês nem precisa ler as outras peças menos conhecidas. Em Hamlet, Otelo, Macbeth, Romeu e Julieta, Rei Lear, O Mercador de Veneza e as peças I e II de Henrique VI ou uma e outra que me esqueci de mencionar, já pode se dar como bastante satisfeito de conhecer o gênero humano.

Tem gente que acha que Shakespeare é coisa para intelectual e mal sabe que mais popular que este sujeitinho não há. O cara fala das coisas mais simples da maneira mais simples e direta e das mais coisas mais complicadas da maneira mais simples também. Fala do mundo dos ricos como se os conhecesse de perto e do mundo dos pobres como se fosse um deles.

No Brasil existem excelentes traduções de Shakespeare e as de Barbara Heliodora e Millôr Fernandes estão entre as melhores. Ademais, nem adianta ficar de nariz empinado e dizer que só lê suas peças no original, pois o inglês de suas peças é completamente estranho para nossa época. Somente depois de Shakespeare e da Bíblia do Rei James é que o inglês se consolidou enquanto língua. Para encerrar, quero deixar aqui um trecho de Hamlet que é o mais simples que se pode dizer sobre a existência.

“Ser ou não ser. Eis a questão: é mais nobre sofrer na alma as pedradas e flechadas de um destino ultrajante ou pegar em armas contra um mar de problemas, e enfrentando todos, acabar com eles? Morrer, dormir… mais nada. E no sono acabar com a aflição e os mil choques naturais que a carne traz em si. Essa é a consumação que se deve querer como uma bênção. Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil! Porque os sonhos que podem existir nesse sono da morte, depois que nos livrarmos desta confusão mortal, nos fazem parar para pensar.”

Menino, traz a cerveja!!!!

17 de julho de 2009

É uma dor canalha!

Por Carlos de Souza

Quando um deputadozinho de merda diz que está se lixando para a opinião pública, diz que vai se reeleger, ele  e o compadre dele que tem um  castelo em Minas. Quando um senador diz que a culpada de tudo é a imprensa que mostra as merdas que eles estão fazendo com o nosso Congresso. Quando o presidente cheio de pinga diz que todo mundo lá no Congresso é pizzaiolo. Sinto que está mais do que na hora do povo dizer basta! Como é que se faz isso? Não votando mais neles, ora.

10 de julho de 2009

Diário de bordo

Por Carlos de Souza

Biografia

No meio da noite, pensando em combater a insônia, peguei a biografia do poeta curitibano Paulo Leminski, do jornalista Toninho Vaz. O livro estava encostado em minha cabeceira há tempos e eu não adquiria coragem para começar a lê-lo. Perdi o sono de vez e só fechei a última página com o sol batendo na janela.

Amigo

O livro é bem escrito e tem a vantagem de ter sido feito por um amigo, alguém próximo a ele e não por um biógrafo interessado em ganhar famas às suas custas. O único defeito que eu notei foi um certo cacoete de dizer “este biógrafo que vos fala” ao invés de simplesmente “eu”. Fica a impressão de que o cara se vangloria o tempo todo de ter convivido tão próximo do poeta. Um jeito meio brega de falar. Mas é só isso.

Porrada

Meus amigos, a vida de Leminski é porrada. Não morro de amores por sua poesia, mas acho que ele tinha umas sacadas muito legais, sabe. Aquele pensamento rápido e curto, cortante feito uma lâmina de samurai. Ademais, ele era bastante influenciado pela cultura japonesa.

Tradutor

Mas eu conheço Leminski mesmo de suas magistrais traduções do Sayricon, de Petrônio e Malone Morre, de Samuel Beckett. E claro, amo suas letras de música. Quem não conhece Verdura, gravada por Caetano Veloso?

Mulher

Fui a uma palestra da poeta Alice Ruiz (a mulher que viveu mais tempo com ele), na Capitania das Artes, e gostei muito dela, apesar de seu bate boca virtual com a jornalista Michele Ferret. Lendo a biografia de Leminski você percebe a força de uma mulher. Não é todo mundo que consegue viver com um alcoólatra. Leminski era do tipo pé de chumbo, daqueles caras que tomam vodka no café da manhã. Igual a ele só sei de Sérgio Sampaio.

Figuraça

Leminski não gostava de tomar banho nem escovar os dentes. Quando tinha que falar uma coisa falava na cara das pessoas e aos berros. São muitos os episódios em que ele aparece dando vexame, inconveniente, causando mal-estar. Ele parece não ter sido um pai dos mais presentes e era mulherengo. Dizendo assim desse modo, você vai logo antipatizando com o cara, não é? Mas não era assim. Leminski era um sujeito brilhante, desses que todo mundo queria estar perto. Depois ele foi virando uma espécie de Charles Bukowski de Curitiba e aí só os garçons o suportavam e alguns fiéis amigos.

Marketing

Mas tem uma coisa. Ele sabia claramente o seu caminho. Logo cedo procurou a companhia dos irmãos Campos. Ficou amigo de um deles: Augusto e também de Décio Pignatari. Criou um círculo de amizades tal no eixo Rio-São Paulo que, muito antes de publicar Catatau, já era uma lenda. Um dia estava em casa treinando equilíbrio em cima do muro quando Caetano e Gal bateram à porta. Imagine algo assim com um poeta potiguar?

Mito

Leminski é um produto de sua época, filho da efervescência da contracultura. Conviveu com todos os papas desta corrente de pensamento, Zé Agripino, Luis Carlos Maciel e Wally Salomão. Se alguém aqui quiser se destacar a nível nacional vai ter que fazer um caminho semelhante. Mas tem que correr rápido. A internet está engolindo esta forma de fazer cultura.

Fama

Leminski foi bafejado pela deusa poesia e pela deusa fama, ambas altamente destrutivas se o sujeito não souber lidar com elas. Poucos chegam a Drummond, João Cabral, Manuel Bandeira ou Quintana. Ele queimou rápido como um incenso de perfume muito intenso. Com pouco mais de 40 anos já estava com uma cirrose a caminho. Não desejo isso para ninguém. Com essa idade já era reconhecido como um grande poeta em todos os recantos do Brasil.

Problemas

Mas, no meio do caminho tinham pedras. O pai alcoólatra, um irmão suicida e um filho levado pelo câncer aos 10 anos de idade. Quem suportaria? Como todo gênio, Leminski também falava besteiras. Dizia que escrever contos era uma forma fácil de fazer literatura. Menosprezava Dalton Trevisan. Mas no final da vida estava planejando fazer um livro de contos.

Memória

Quando estive em Curitiba fui ver a Pedreira Paulo Leminski. Ali estava uma homenagem justa ao grande homem de letras que ele foi. Ninguém aqui em Natal foi tão longe. Porque aqui poucos têm a profundidade das leituras de Leminski que amava os clássicos da antiguidade.

3 de julho de 2009

Jornalismo

Por Carlos de Souza

Folgo em saber que nossos ilustres parlamentares em Brasília estão apresentando dois Projetos de Emendas Constitucionais para a regulamentação da profissão de jornalista. Aí vai voltar a obrigatoriedade do diploma, sim, mas de forma mais sensata, espero. É preciso mostrar a este senhor ministro Gilmar Mendes que o Brasil é uma democracia, não é a bodega que ele pensa mandar, não. por falar em jornalismo, vendo a Intertv Cabugi gastar vários minutos esta semana com o sumiço de uma cadelinha e logo depois Geider anunciar que no próximo bloco teríamos uma deliciosa receita de sopa, fico a pensar… Ah meu Deus!

13 de junho de 2009

Grande Sertão

Por Carlos de Souza

Décio Pignatari disse que viu incoerências no Grande Sertão: Veredas. Que incoerências? Eu não vi nenhuma. Agora que é uma história sobre ser ou não ser gay, isso ele tem lá sua razão.

13 de junho de 2009

O mundo amanheceu mais pobre

Por Carlos de Souza

Puta que pariu! Vamos ter que suportar esse Ahmadinejad por mais não sei quantos anos…