
Dizem que o futebol evolui. E era como evolução que até pouco tempo atrás andavam saudando o novo papel dos treinadores de futebol.
Antigamente, não passavam de anônimos. Ou quase isso. A maioria vivia escondido ali, no banco de reservas, mal eram vistos pelos torcedores.
Alguns eram tão discretos e tão absortos em seu voluntário anonimato que chegavam a cochilar na hora do serviço.
E ninguém reclamava. Achavam… folclórico, no máximo.
O que aconteceria, hoje, se Wanderley Luxemburgo ou Muricy Ramalho – salários de mais de R$ 300 mil cada um – resolvesse puxar uma palhinha no meio de um jogo?
Quem imagina Vicente Feola, técnico campeão do mundo em 1958, na beira do campo, gesticulando, xingando o juiz e berrando com seus jogadores, feito um Luxemburgo?
Com um time daquele, o gordo se dava ao luxo da sesta em pleno expediente. Se aquela seleção jogava por música, era talvez embalado por ela que Feola dava seus cochilos.
Ao final da partida, um longo bocejo e o bicho garantido no bolso. Nunca foi importunado por um repórter – nem levado para uma sala de entrevista, muito menos vestido com boné do patrocinador.
E quem por acaso lembra o nome do treinador daquele time mágico do Santos, dos anos 60 – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe num ataque avassalador?
Pois esse tipo de técnico bonachão e sonolento feito Feola desapareceu. Foi engolido pela “modernização” no futebol; pelo espetáculo globalizado da bola, com seus protagonistas e figurantes e suas cifras mirabolantes, inacreditáveis.
Os treinadores modernos vinham sendo saudados como supra-sumo do futebol moderno. Tudo muitíssimo profissional. Muitos são chamados também de “manager”, palavrinha no nível do pedantismo de alguns treineiros contemporâneos.
Mas para quem acha que nada pode ser tão ruim que não possa ser piorado, calma lá. Pode sim.
Agora é a vez dos juízes de futebol. Alguns já brilham mais do que os treinadores. Do que boa parte dos atletas, nem precisa dizer. São as novas estrelas.
Perceberam? Agora, toda vez antes do jogo faz-se o perfil detalhado do juiz, que nem mais juiz é. A maioria chama de árbitro, carregando na formalidade. Tem até comentarista especializado.
Os bandeirinhas sumiram. Agora são auxiliares. E nos torneios mais importantes usam fones de ouvido e microfone para a comunicação mais ágil. Tudo muito supimpa e moderno.
Lendo outro dia Eduardo Galeano, na versão atualizada do seu delicioso “Futebol ao Sol e à Sombra”, edição pocket da L&PM, dei de cara com “Pobre mãezinha querida”, a crônica aludindo ao coro maldoso do qual costumam ser vítimas, ainda, apesar dos tempos modernos, os juízes – ou árbitros – de futebol.
Não pude deixar de pensar nos juízes de antigamente, nos treinadores de antigamente, no futebol de antigamente. Divido, pois, com vocês o texto de Galeano, aliás um clássico:
Pobre mãezinha querida
“No final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador, depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório da cidade de Quito: foi ao estádio, ver jogar o time do Aucas. Era uma partida importante, e o estádio estava repleto.
Antes do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na véspera. Todos se levantaram, todos calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a partida, cumprindo com seu dever nas mais tristes circunstâncias. No meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se ocupavam do árbitro para gritar “filho da puta”.
E começou a partida. Aos quinze minutos, explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol, por impedimento, e imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus dias:
- Órfão da puta! – rugiram as arquibancadas.”
PS.1 – Ah! O treinador do Santos supercampeão da Era Pelé se chamava Lula. De batismo, Luiz Alonso Perez. Morreu aos 50 anos, em 15 de junho de 1972, vítima de uma infecção generalizada decorrente de um transplante de rim. Currículo resumido? 38 títulos na carreira, entre 1954 e 1966.
PS. 2 – Na foto que ilustra esta coluna aparecem o técnico Lula e seus dois filhos, Luiz e Marcos. Capturada no globoesporte.com
PS. 3 – O poeta Jorge Enrique Adoum, lembrado por Eduardo Galeano, morreu há cerca de dois meses, com 83 anos. É considerado o maior intelectual do Equador, país que descreveu como “irreal, limitado por si mesmo, cortado por uma linha imaginária”.
PS.3 – Tenho quase certeza que a maioria dos que prestaram atenção ao título da coluna pensou que eu ai espinafrar o presidente ou falar do STF. Não que eles não mereçam; mas me desculpem. Foi só um drible.