…Pois deu de me habitar um destes verbos madrugadores: colher, ordenhar, confiar. Deu também de me habitar a lembrança dele. Era ele quem me dava de beber o leite tirado da vaca na hora. Não o verbo, o avô. E eu bebia o leite espumado sem nojo, menos porque estava muito apegada às coisas da terra e mais porque confiava nele. Nem pensava em impurezas, bactérias, ou em coisas assépticas. Confiar era cósmico, natural, e ele e a vaca também eram cósmicos e naturais. E eram bons.
Os muito exibidos que me desculpem
31 de janeiro de 2012 às 18:52 | 4 ComentáriosMas o retraimento é fundamental. Aprendi com a lua, mais do que se aprende com o Eclesiastes: há dias de minguar, dias de habitar-se. São dias solenes, dias de ritual e névoa. Dias que se fixam na gente por um tempo. Esses dias, a gente reconhece desde cedo: a gente se reconhece neles, nós, os retraídos. Esses são dias plenos de descobertas. O retraimento é bom para isto: descobrir. Essa é uma palavra de nobreza.
Da inutilidade das coisas
12 de janeiro de 2012 às 8:21 | ComentarMas é que o meu próprio pensar estava possuído de utilitarismo. Oscar Wilde disse que a arte é inútil. E eu pensava que não, que a arte servia para a elevação espiritual e então não era inútil. Era inútil para coisas práticas. Mas o meu pensamento estava preso a essa noção de utilidade que Wilde quis extirpar da arte. É inútil, sim. O utilitarismo e a arte não ocupam o mesmo lugar no espaço. Eles se excluem.
O encontro
15 de dezembro de 2011 às 18:14 | ComentarQuem nunca sonhou com um fantasma sólido, atire a primeira inveja. Mal me voltei para o trem abandonado, onde já cresciam as heras, ele saiu do vagão das bagagens, abocanhando a minha insônia. Seus passos produziam som, seu andar tinha um ritmo. Não caminhava à toa. Queria estar diante de mim. Aí eu me lembrei que ele era igualzinho ao personagem de um poema antigo, um poema que eu havia escrito aos treze anos, largando-o não sei onde. Vestia-se com uma malha vermelha, aderente da cabeça aos pés, e ainda por cima usava uma máscara. Imaginei que ele quisesse me fazer retomar o poema.
Por que amamos tanto o Hamlet?
24 de novembro de 2011 às 21:15 | 5 ComentáriosPor que amamos tanto o Hamlet? Porque nos extasiamos tanto com um texto e um personagem? É uma coisa para ser entendida olhando espelhos. Estou convencida de que nós, leitores apaixonados pela peça mais completa de Shakespeare, que se quedam de fascínio à pura menção de qualquer coisa relativa a ela, embora não sendo escritores, podemos dizer, à maneira de Flaubert (que disse ser Madame Bovary): Hamlet sou eu.
Escritas e escrituras
27 de outubro de 2011 às 7:59 | 4 Comentários“Colho o que preciso nas fendas das rochas, lá onde o mar
Precipita as cabeças de cavalos montados por cães a uivar
E a consciência já não é o pão no seu manto real
Mas o beijo único a recarregar-se com brasa própria.”
(André Breton).
Contra a palavra, saio ao vento e seco. Mesmo seca, frutifico. A palavra ofega sob meu jugo ou eu ofego sob o jugo dela. Não somos (nem ela, nem eu) da raça dos libertos. Eu não a suporto, ela não me dá suporte. Ela sempre me seca, sempre me esvazia. Esvaziar-me é a minha tendência e o meu destino, pelo menos quando estou em estado de palavra. E alguém ainda pensa que há conteúdo entre mim e a palavra. Nenhum. Se compartilho usando a palavra, estou compartilhando nadas. Estou dando os meus nadas, que se revelam em palavras, só isso. O que houver a mais não é meu, é de quem lê. “ Mas só a que eles não têm.”
A Márcio
Trago para ti é uma voz barroca, encampada pelos ecos e pela rouquidão dos quereres escuros.
Eu te oferto as mãos que outrora rabiscaram bisões, eu te dou mãos de procura, as mãos mesmas da procura por ti.
E a inocência turva desta procura, tutelada pela angústia do pecado de buscar.
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Sobre autenticidade e aconchego
17 de setembro de 2011 às 10:46 | 2 ComentáriosA carícia dela não era cafuné, ela acarinhava com as unhas, mas era carícia mesmo, não feria nunca, era um roçar de unhas no cabelo. É que as dela eram bem grandes, como eu sempre quis as minhas, mas nunca as tive. Ela me chamava para comer galinha caipira e puxa-puxa e eu comia. Depois eu fazia a lavação das mãos e da cara na bacia de ágata com água esbranquiçada de sabonete e ela mandava alguém me levar em casa. Às vezes eu ia sozinha, mas era raro. Para ela eu era meio bibelô, mas era bom.
Cantares das coisas tenras
19 de agosto de 2011 às 17:50 | ComentarTodo mundo sabe que a felicidade não é coisa de durar para sempre. Mesmo assim, mesmo sabendo disso, tem gente que costuma se apossar da felicidade, sem considerar sua natureza de esvair-se quando bem quer. Apossar-se é possuir, mas não é ser dono. Não é ter. Você até pode se apossar de alguém ou de alguma coisa, mas ter alguma coisa ou ter alguém é bem diferente. Da coisa, inerte, você pode até ser dono. Já ser dono da pessoa, esqueça. Uma pessoa nunca é de outra pessoa, a menos que ela o queira. Para uma pessoa pertencer a outra tem de haver um ato de entrega, não de posse. Que o diga o Vinícius, no “Testamento”: dono e senhor do material?
Um lugar a guardar: o da inocência
3 de agosto de 2011 às 14:21 | ComentarA inocência pode até nos fragilizar, mas a total falta de inocência (ou a sua perda) nos enfraquece. Quando por algum motivo ficamos menos ingênuos, parte de nossa energia se esvai. A vontade de agir depende muito das nossas crenças. Agimos para que alguma coisa dê certo, aconteça como queremos ou sonhamos.
Um olhar sobre Galatéia
21 de julho de 2011 às 16:42 | 3 ComentáriosPigmalião e Galatéia (1886), de Ernest Normand
Pigmalião, reza o mito, era rei de Chipre, sacerdote e um maravilhoso escultor. Além disso, era um homem que via nas mulheres seres belos, mas cheios de defeitos morais e atitudes condenáveis. Decidiu não casar-se, mas não conseguiu deixar de admirar a forma física do sexo oposto. Então, dedicou-se a criar uma estátua que fosse a mais bela de todas essas formas admiradas. Sendo estátua, ela não teria o comportamento abominável das outras mulheres. Pigmalião criou sua estátua de marfim, à qual chamou Galatéia. Aquela matéria inanimada era mesmo a forma feminina mais bela já vista. Imóvel, Galatéia era perfeita. Não errava, não discordava, não saía do seu pedestal.
Tenho fases, como a lua…
11 de julho de 2011 às 17:51 | Comentar“uma parte de mim é permanente…”
Ferreira Gullar
Por que esperar outras vidas para ter outras existências, se eu as tive tantas nesta vida mesma e tantas outras me acenam, querendo acontecer? Aconteci tantas vezes que já perdi a conta, mas estou pronta para outras. Sou da raça dos que gostam de brotar. E quando não aconteço, eu me sonho. Nessas horas em que é o mundo que acontece, não eu; nessas horas em que me apassivo, eu fico me sonhando, muda e eterna, como se fosse feita de deus.
Partícula apassivadora
30 de junho de 2011 às 14:34 | ComentarEla era antiga de raiz. Era antiga até no nome, tinha nome de avó, mas era um nome sem pompas. Era discreta, só brilhava mesmo porque o brilho saía dela sem ela querer. Era ainda uma menina, ou quase, com os claros cabelos escorridos pelos ombros. Quando era criança, ela dizia, tinham dito a ela que água de maravilha curava tudo, desencardia até amor, como se fosse alvejante. Ela acreditava em água de maravilha e assombrações, mas, olhando para ela, não tinha quem desconfiasse de sua herdada antiguidade. No amor, acreditava, para um dia, talvez.
Existências, as outras
16 de junho de 2011 às 15:22 | 2 ComentáriosComo outras existências, mas em uma vida só. Assim espero as outras que serei, às vezes. Só às vezes dou de esperar. É quando não entendo. Aí, espero, para entender ou só para aceitar, sem precisar entendimento. Aceitar faz parte deste apego à existência, deste aferrar-se. Mas mesmo obstinando-me em existir, às vezes careço de respostas. “Não há portas, e te achas dentro”, disse um poeta. Pois é, o labirinto. As pessoas que serei atravessam labirintos, sempre. E dentro do labirinto, outras pessoas que também são eu metem-me medo. Ameaçam, talvez não a mim, mas a pessoa que quero ser. A pessoa que quero ser, essa é a mais esperada, a pessoa desejada. Quando conseguirá sair do labirinto, quando conseguirá percorrer-me?
A paz impaciente
6 de junho de 2011 às 15:46 | 5 ComentáriosPara Márcio
A paz que conheço e sei que a um só tempo me espreita e está dentro de mim é uma paz masculina e espaçosa. Não tem timidez, nem limites, ela avança entre sombras e desvãos, subverte esconderijos. É de uma alegria indecente a paz que chamo de minha. Tem uma língua afiada, me diz verdades, as verdades dela. As minhas, ela as ouve e entende. É uma paz compreensiva e acolhedora e do muito que me dá, só uma coisa me pede: quer ser vivida. Tento contentar a minha paz contente. Tento fazê-lo assim, com palavras que se vão despindo, feito a mesma paz que lhes despe.
Truques para escrever mal
31 de maio de 2011 às 11:32 | ComentarLuís Antônio Giron
Aprenda a melhor técnica para levar vantagem na literatura, na academia e até na vida.
O perdão, essa liberdade
18 de maio de 2011 às 17:55 | 4 Comentários“Sun and Life”, Frida Kahlo (1947)
Foi de uma amiga que ouvi pela primeira vez há uns bons anos: só quando você perdoar, vai se livrar da dor. Lenta, passei um tempo entendendo, precisando perdoar. É preciso livrar-se da necessidade de perdoar. E para isso, só tem um jeito, é como a história da tentação: ceder, sucumbir ao perdão. Só assim nos livraremos dele, e também da mágoa, da dor e do veneno que guardamos enquanto não conseguimos perdoar. Ceda ao perdão, sempre que puder. Nem sempre se pode, mas a falta de perdão só faz mal a uma pessoa: a quem não o dá.
Escrita e conforto
26 de abril de 2011 às 18:25 | 7 ComentáriosEscrever não me dá conforto. Dá-me um bocado de outras coisas, mas conforto, não. Agora mesmo estou escrevendo e tem coisas gritando. Escrevo e organizo os gritos, mas às vezes organizo mal. Eu não posso gritar quando estou escrevendo. Tenho de escrever compassada. De compasso e régua, se preferem. Incontáveis vezes não dou conta disso. Embora digam que a literatura é uma arte apolínea, eu não sinto assim. Acho escrever dionisíaco e, num sentido grego, infernal. Escrever é o meu inferno (no sentido grego, repito). Um inferno do qual já provei, comi a romã, portanto, não posso sair. Alguns textos me dão euforia, mas é passageira. Não me dão satisfação nunca. Sinto sempre que poderiam ser melhores.
Estas, as coisas:
27 de março de 2011 às 12:04 | 5 Comentáriosaqui (imagem/Google)
Esta, a coisa: o ânimo. E se a gente se enreda na teia da palavra… Ânimo, ânima, alma. É isso o que falta, às vezes, quando a gente sabe o certo do fazer, mas não faz. É o ânimo que não chega. Sem ele, a gente é só corpo cansado, mesmo com a mente e o espírito em ebulição. Falta o ato. Como Hamlet, falta a ação. E as coisas vão transcorrendo, sem contribuição nossa. Mas a nossa não contribuição é uma contribuição grande! Ação e omissão são irmãs siamesas.
A parte elástica da alma
3 de março de 2011 às 9:05 | 1 ComentárioRESILIÊNCIA OU A PARTE ELÁSTICA DA ALMA
Há pessoas que têm a capacidade de suportar traumas violentos e, mesmo assim, refazer-se de modo a continuar suas vidas normalmente, passados tais choques. Diz-se que têm resiliência, palavra cuja definição migrou da física para a psicologia, e da psicologia para a vida, dando conta dessa elasticidade presente em alguns espíritos, que os faz voltar ao estado natural após o sofrimento, e seguir.












