Agradeço as palavras gentis de Chales Phelan, agradeço sua leitura. Vindas de um escritor que respeito, tais palavras só poderiam me deixar para lá de contente.
Da vida, da rua e das palavras
“Me llaman Calle,/me llaman Calle…
calle sufrida/calle tristeza/de tanto amar.”
(Manu Chao)
- Se calhar, vou desdobrar palavras aos jurados. Pronto. Avisar, avisei. Ele não me quis ouvir. E daí, se eu sou mulher da vida? Se ele não queria pagar, não ia ter. Sem paga, só faço com gosto, com o gosto de quem quero. Prometi-lhe a ponta de uma faca afiada, ele não acreditou. Ele nem bêbado estava. Eu disse, vou arranjar uma faca para lhe sangrar. Não vou matar de tiro não, que agora você só está me pegando porque não tenho como me defender. Você vai ver só, vai virar defunto quando menos esperar.
Delírio com coisas reais
As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos quase inatingíveis. Um dia, quando crianças, o algodão-doce só era visto, tocado e comido uma vez por ano. Quando vinha a festa do padroeiro, o parque de diversões e o homem do algodão-doce com a sua máquina rodopiante. E nós, avoantes e avoados, ficávamos horas “curiando” o homem e a sua máquina. Ele punha o algodão-doce num papel de embrulho e saíamos felizes a comer aquela coisa deliciosa e difícil. Aí, a gente cresce, o algodão-doce existe “a dar com pau”, dentro de sacos com uma bola de encher ao fundo. Quando crescemos, ficamos enjoados do algodão-doce que, a toda hora, nos gritam da rua.
Cores que não sei o nome

Tenho cores de outros. Sempre foi assim com as minhas cores. Sou mosaico, colcha de retalhos, entalhes: “cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo…”, dos “Esquadros” de Adriana Calcanhoto. Cores de Manu Chao, porque escuto sem parar “La Radiolina” e tenho a sensação de sons de notas tocando cores num sagrado aboio. Cores da Espanha, cores de Barcelona. Cores do México, cores de suas máscaras. Cores rubro-negras do Flamengo e do “Maná” em “Amar is Combatir” que também ando a escutar sem cansaço. Sou daqueles que, quando gostam de uma música, ou de um álbum, escutam à exaustão. Uma, duas, dez vezes mais…
La cubana en la Habana
Ela parecia guardar o mundo nas ancas. Era enorme, uma mulher enorme, daquelas que metem medo nos homens – mãe enorme parindo ao contrário, com jeito de engolir. Mas dançava com a desenvoltura de uma sílfide, dançava com a liberdade de uma salamandra, escorregava balançando como uma ondina.
Caminhos
“…O caminho agonizava, morria sozinho… Eu vi… Porque são os passos que fazem os caminhos!”
Mario Quintana
A primeira obra escrita é sobre travessia. Mesmo à época em que os seres humanos ainda não dominavam a linguagem escrita, já se guiavam pelo simbolismo dos caminhos. Da “Epopéia de Gilgamesh” à saga de “Matrix”, tudo é viagem. Seja material ou espiritual, o ser humano tem uma necessidade intrínseca de passagens.
Não é à toa que o caminho de Santiago, na Espanha, vem atraindo peregrinos há séculos. Quem já o caminhou fala de descobertas espirituais em uma senda mística e bela. Tiago era um pescador que virou apóstolo e depois santo, porque morreu defendendo a causa cristã. Seus restos mortais foram levados à Espanha e o caminho que leva hoje a seu túmulo, desenhado pelas peregrinações, tem cerca de oitocentos quilômetros.
Para se chegar a qualquer conhecimento, há que se atravessar algum caminho. Guimarães Rosa eternizou a travessia na literatura brasileira, com as veredas do Grande Sertão. Sua travessia do liso do Sussuarão tem, no dizer dos entendidos, vasta simbologia mística e literária, que desemboca numa epifania.
A lenda celta-cristã do Graal é centrada na procura de “Parsifal”, cavaleiro do ciclo arturiano, de algo para salvar o rei-pescador, com uma ferida incurável. A inocência do herói é, nesse mito, fundamental para a conquista do símbolo e a cura do rei.
São João da Cruz, o santo de palavras mais lindas que já existiu, fala também de um atravessar pela “Noite Escura da Alma” e de um subir espiritual rumo a Deus. “A Subida do Monte Carmelo” é um caminho de despojamento que leva ao tudo. Essas duas obras, a noite escura e a subida se completam. Os poemas que as compõem são muito semelhantes ao “caminho do meio” do budismo, aquele que leva à iluminação.
A saga da trilogia “Matrix” é imersa em símbolos, utiliza-se das idéias cristãs, gnósticas e budistas. No momento em uma só simbologia me deterei: a simbologia da jornada. Se você quer saber, se você quer descobrir, então siga. Vá. O que é a Matrix? A verdade está no caminho. O protagonista Neo empreende uma odisséia entre sonho e realidade para conhecer e vencer a Matrix. Sua nave chama-se Logos. Logos é a razão para os gregos. Mas seu significado primitivo é verbo – palavra. A razão se ergue da palavra. Para os gregos ele tem significado de conceito. Para a teologia cristã, logos é o verbo e, portanto, é Deus. Na mitologia da Grécia, a palavra das musas cantantes deu origem a tudo mais, inclusive aos deuses – os próprios criadores de tudo.
Se logos é o conhecimento através do conceito ou da palavra, voltamos à passagem, voltamos ao caminho. E o caminho é precisamente a palavra. É assim a poesia. Não estou certa se a poesia é a realidade, ou se ela é uma imensa Matrix – Maya – a ilusão. Mas sei que é o lugar onde as travessias se fazem pelas palavras: caminhos inóspitos, às vezes desesperadores que nos levam ao conhecer de nós mesmos. Nós que também somos, talvez, só Maya, ilusão.
Um café com Dandara
Lá estava Dandara sentada num café, ensimesmada até me ver, mas depois, toda derramada em abraços e beijos, chamando-me para sentar-se com ela.
Há quem ame perdidamente. O amor de perdição é o mesmo amor de salvação, sem tirar, nem pôr, dizia Dandara. Não sei se salvar-se depende de nós, não sei se é possível escolher entre as duas coisas, se “tão contrário a si é o mesmo amor”. Às vezes, a gente escolhe, ponderei. A vida escolhe por nós, disse a profusão de nome Dandara. Transbordando de tanta escassez, de tanta necessidade de amor, desse amor demais dentro dela, platônica e atávica como ela só. Não quero mais passar tanto tempo sem vê-la!
E “tão contrário a si é o mesmo amor.” O amor é o mesmo, e nosso, nós é que o projetamos nos outros. E eu entreguei o meu ouvir à voz roliça dela, e entreguei o meu olhar aos seus acesos olhos: amei perdidamente uma pessoa, você sabe, não? Amava tanto que nem percebia quão pouco vinha em retorno. Passei anos nisso, lembra? Pois é, e aí um belo dia, porque o coração dele desocupado estava, arranjou ocupação. Ocupadinho de outra, chegava a transbordar, que nem o meu de sofrer por ele. E você sabe o quanto eu sofri, o quanto passei a detestar aquela que me surrupiara a felicidade imaginária na qual eu vivia. Eu digo imaginária porque era uma felicidade pelo meio, minguada, feita só de amor meu, com um tempero forte de angústia. Você se lembra de todas essas coisas.
Eu lembrava. Ela amou perdidamente certa pessoa e não foi correspondida. O rapaz andou de namorico com ela enquanto não tinha algo mais interessante para fazer, e depois, deixou Dandara à perdição. Fazia uns anos, já. Dandara, 44 anos. Não digo a idade para explicar a mulher, nem sua história, que poderia ter acontecido aos 15, 20, 30, 50 e demais. Digo é só para me ajudar a descrever Dandara, contemporânea da minha primeira faculdade e pertencente à raça dos que amam demais.
O amor de perdição é o mesmo amor de salvação. A intensa Dandara está de novo apaixonada e, desta vez, feliz. Correspondência eleita pelo destino, ou pelo acaso, ou seja que nome se queira dar a esse bicho que arruma as coincidências. O outro amor, aquele acabara, como uma libertação. Mas libertação mesmo, diziam os acesos olhos da minha amiga junto com a fala roliça dela, fora deixar de odiar a antiga rival. Porque acabar um amor na gente, dizia ela muito dizendo, é também perder sentimentos bons desperdiçados. Alivia, mas dá uma nostalgia também. Já quando a gente acaba a raiva, só desaparece coisa ruim, que fazia mal para nós, unicamente para nós, porque a outra estava lá, feliz, vivendo sua muita história.
Eu só não concordei com isso de nostalgia por sentimentos bons desperdiçados. Desperdiçados eles eram quando direcionados para o alguém errado. Como disse ela mesma, o sentimento é nosso e nós o projetamos. Livramo-nos, então, somente do erro de direção. Daí para a frente, é acertar o arco. “Não quero saber de Lirismo que não é libertação”*. Quanto ao mais, Dandara, gosto de ouvir você dizer que o porquê da sua vida é “ir além”. Gosto mais ainda de saber que o significado desse “ir além” só os deuses e você conhecem. Só você e os deuses ditam.
*verso de Manoel Bandeira
Voltas sem volta no tempo
“Nosso futuro é tão irrevogável quanto o rígido ontem”
Jorge Luis Borges
Foi o astrônomo na televisão: “olhamos no céu o passado. Essas luzes ocorreram há milhares de anos (ou anos-luz, como queiram) e só agora estão chegando até nós”. E eu pensava no céu como futuro… Não, como eternidade. Eu aprendi isto: a olhar para o céu e enxergar o porvir. Já o Italo Calvino, nas suas “Cidades Invisíveis”, dizia: o passado, podemos modificá-lo, mudando a nossa visão dele.
Deve ser por essas coisas que a teoria da relatividade de Einstein nos fascina tanto, nos assombra tão além do seu valor científico. Gostamos de pensar num tempo rotativo, circular, como o nosso mais íntimo desejo de eternidade.
Desejamos a eternidade na forma de um céu estrelado. E no entanto… Somos escancaradamente finitos. De circular temos apenas que as nossas escolhas passadas sempre voltam, de um modo ou de outro. Elas são o nosso futuro, acontecendo agora. Isso é o nosso tempo. Temos de lidar com as nossas escolhas passadas durante todo o nosso tempo. Mudá-las, podemos, mudando a nossa relação com elas, como queria Calvino. Podemos também afirmá-las e reafirmá-las, ou porque elas foram frutos de grandes acertos, ou então porque perdemos a chance de acertar.
Só que o tempo, linear ou circular, ele se rompe na finitude, quando menos esperamos. Somos finitos, sim. E escandalosamente frágeis. É a nossa fragilidade o que temos de irrevogável, Jorge Luis. A tua, a minha, a de todos a quem pensamos eternos. Há pessoas que, parece, não se acabarão nunca. Há pessoas que, quando morrem, nos espantam, até nos agridem com essa exposição de finitude. E essa sensação não tem a ver com o grau de proximidade ou com o sentimento que nutrimos por elas. Podemos amá-las muito, ou amá-las pouco, ou detestá-las, ou apenas conviver com a sua existência. Essa sensação, concretizada com o choque, tem a ver com o não esperar. Não esperamos nunca certas mortes.
Existem mortes inacreditáveis para cada um de nós. E essas, só o tempo fará com que acreditemos que elas existiram. E, no entanto, elas ocorreram há anos-luz do momento no qual as admitimos. Quando conseguimos contemplá-las, encará-las, aceitá-las, elas são já passadas, feito as luzes do astrônomo que tirou a minha ilusão de pensar no céu como futuro e eternidade. Podemos mudá-las, mudar as mortes, Calvino? O passado pode ser mudado, mas… E a morte? Mudando nosso pensamento sobre ela, podemos mudá-la, ou é ela a encarnação (ou o desencarnar) do rígido e irrevogável ontem de que fala Borges?
Só temos a posse do presente, e quando a temos. Por isso, eu, uma pessoa ardorosamente crente nessa entidade chamada destino, tenho para mim um pensamento, que repasso a vocês “como princípio e também como fim de toda metafísica”*: façamos de um tudo para ser íntimos do nosso destino, tão íntimos, a ponto de nos confundirmos com ele, porque a morte, num piscar de olhos, dele nos separa.
* verso de Walt Whitman
Asas aprisionadas
Encontrei-o no além-mar outro dia. O professor ainda tem o mesmo cabelo enorme e o mesmo jeito irreverente de quando era adepto da luta armada, nos anos setenta. Comunista ferrenho, não iria ver a sonhada derrocada da burguesia. Ao contrário, hoje contempla o auge do capitalismo individualista, com globanalização e desmatamentos.
As meninas burguesas da época se apaixonavam todas por ele. Mal caíam no laço (ou cama, como queiram), ele começava a pregação marxista. Era bom nas duas coisas: na cama e no doutrinamento. Em três tempos, ele convencia as meninas de que o rímel nos olhos delas era o vilão abominável responsável pela exploração do proletariado. Para terem o status de namorada do revolucionário, trocavam o vestido de seda pelas roupas de saco e o Chanel nº. cinco pelo sabonete barato. Rompiam com as amigas consumistas, com os pais retrógrados, com a família careta. Passavam a ler apenas literatura engajada. Uma ou outra adotava o baseado, hábito indispensável dele. O relacionamento era aberto, claro, mas só ele aproveitava essa tal abertura, porque as meninas, de tão apaixonadas, não tinham olhos para mais ninguém. E quando ficavam com outro, era só para chamar a atenção do ídolo.
Na sucessão de namoradas, a abandonada ficava péssima. Algumas delas fingiam não estar nem aí, eram afinal mulheres liberadas e coisa e tal… Continuavam engajadas no projeto revolucionário, lado a lado com o novo casal, certas de que mudariam o mundo. Outras caíam na real, encaravam o sofrimento, desmistificavam o cara, recuperavam a auto-estima (que ele era craque em arremessar no chão) e iam cuidar da própria vida. Ah, e voltavam a usar o Chanel nº. cinco.
Ele, a certa altura da vida, desiludido com a luta armada, comprou um sítio no meio-norte do país, onde continuou a pregar Marx, Engels e Cia. ilimitada. Mas, e como em tudo há paradoxos, além de comuna, o sítio era um lugar repleto de gaiolas de passarinhos. Eram incontáveis. Nesse lugar, reunia-se a nata da intelectualidade de esquerda local.
Pois um dia, um jovem professor, colega desse nosso personagem, no meio de uma falação do mestre revolucionário, pediu um tempo. É, fez um T com as mãos, aquele gesto característico de toda reunião chata. O mestre, contrariado por ser interrompido quando fazia uma preleção mais que perfeita sobre a libertação da classe oprimida, pensou ser de bom tom conceder o tempo. Aí o jovem, do alto da coragem que o fizera assumir recentemente a homossexualidade por muito tempo reprimida, perguntou-lhe pela libertação dos pássaros ao redor. O outro ficou vermelho, engasgou. É que ele nunca havia pensado nessa coisa tão básica: liberdade verdadeira é para tudo e todos. Nunca havia pensado se os passarinhos gostavam ou não daquelas gaiolas apertadas. Ele, simplesmente, gostava dos passarinhos nelas, e pronto. Como também gostava das meninas eternamente deslumbradas por ele, presas ao seu encanto, alimentando a sua vaidade.
Tanto não soube se explicar para o jovem, que foi no pescoço dele. Sentiu-se desmoralizado? Sentiu-se desnudado, até para ele mesmo. Os dois foram às vias de fato e teriam se engalfinhado se a turma do deixa disso não os tivesse apartado.
Falso libertário ou só um ser contraditório, como todos nós? Só sei que, pássaros ou pessoas, são tantos que a gente prende sem nem perguntar se eles estão gostando…
link do texto sobre Antígona e Zuzu
A leitora Elianne Diz lembrou que eu deveria ter dado os créditos do texto ao qual aludi no escrito sobre Antígona e Zuzu. Peço desculpas pela falha que, embora não corrija, espero amenizar fazendo o que ela sugeriu, ou seja, passando o link que ela encontrou na internet: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10125
No entanto, ela se move
Encontrei na web um texto que achou identidade entre duas mulheres separadas por épocas históricas, espaços geográficos e até pela realidade, porque uma delas é somente ficção. Antígona e Zuzu Angel. Antígona é uma mulher lendária, personagem-título da tragédia grega de Sófocles, é a moça que enfrentou o Rei de Tebas, Creonte, pelo direito de enterrar o irmão, o qual morrera lutando contra Tebas. Pela Lei de Creonte, inimigos não podiam ser enterrados, mas pelas leis dos deuses, o enterro era um direito sagrado. Antígona foi enterrada viva numa caverna, por determinação de Creonte, pelo fato de tê-lo enfrentado e de ter questionado suas leis, contrapondo a elas aquele direito sagrado.
Zuleika Angel era mãe de Stuart, torturado e morto nos porões da ditadura. Porões aqui uso em sentido figurado, porque Stuart foi morto a céu aberto, arrastado por um carro com a boca presa a seu cano de escape, uma das mortes mais horrendas daquele período. Seu corpo nunca foi encontrado, dizia-se à época que havia sido jogado ao mar. Zuzu, sua mãe, invocando o sagrado direito de enterrar o filho, protestou contra a ditadura, através do seu trabalho. Ela era estilista e sua marca registrada eram as estampas de anjos, que, depois da morte de Stuart, se tornaram feridos, ensangüentados, atacados e machucados. Em 1976, Zuzu sofreu um acidente de trânsito fatal e muito suspeito, em um túnel no Rio de Janeiro.
Curioso Antígona e Zuzu terem ambas morrido em cavernas. O túnel carioca repetiu a função da caverna grega, a função simbólica da ocultação. Porque precisam ser ocultadas, o que tinham, uma e outra, para ameaçar os poderes que as massacraram?
E o que possuía Galileu, além da razão, para dizer que a terra se movia, embora o poder da Igreja dissesse o contrário? Galileu desdisse a sua afirmação, mas, mesmo assim, foi mantido recluso até a sua morte. Escondido, oculto. Se insistisse em falar contra os dogmas da época, seria destinado à tortura e morte no calabouço.
Antígona e Zuzu, preferiram falar dos seus direitos considerados sagrados. Também Joana d’Arc o fez, sendo morta na fogueira da inquisição pela defesa ardente de suas convicções e de suas visões, tidas como bruxarias e apostasias.
Se pode tanto o poder, porque calar a impotência? O que pode a impotência? Geralmente, essa impotência só possui uma coisa: a razão. E brande sua razão contra a insanidade do poder. Por isso, a relação do poder com a impotência é perpassada pelo medo que o primeiro tem da segunda. Um paradoxo que sempre conduz a tristes tragédias. No livro, “O Deus das Pequenas Coisas”, da indiana Arundhati Roy, há uma cena de tortura e assassinato, que leva o narrador a uma digressão sobre esse medo. O personagem morto havia sido despojado de tudo, de todo e qualquer direito. Aliás, já nascera despojado, pelo sistema de castas da sociedade indiana. Mas, para o poder, encarnado no livro por policiais torturadores, era preciso que se despojasse de si mesmo.
Ou morrer, ou negar-se a si mesmo, como fez Galileu. Mas, a despeito dos podres poderes e tiranias de qualquer tempo e lugar, “ela se move” e continuará se movendo. Move-se, ainda quando só tem espaço para incomodar as disfarçadas tiranias do dia-a-dia, mais terríveis do que aparentam, mesmo sem matar.
Decadência com elegância
Se o poeta grego Konstantinos Kavafis houvesse escrito apenas o poema “Ítaca”, já seria um grande poeta. Se houvesse apenas escrito “Ítaca”, já teria feito versos possuidores de algo de nossas vidas. Mas ele não escreveu apenas “Ítaca”. Embora tenha feito poucos poemas – escrevia e reescrevia até a exaustão da estética – seus versos estão entre os mais fortes já escritos.
Foi ele mesmo quem disparou o conselho: “que seus versos sejam escritos de sorte/que contenham… algo de nossas vidas dentro deles”.
E sejam assim, ou não sejam versos. Que só se escreva o que se pode dilatar para abarcar os outros. Que só se faça poesia se houver poesia a se fazer. Que se seja sério, compenetrado, amante reverente da língua com a qual se escreve.
Kavafis nasceu em Alexandria, em 1863. Aprendeu o grego, língua de seus versos e de sua paixão. Escreveu poucos poemas, cerca de cento e cinqüenta e quatro, mas muito disse da vida e do mundo no qual viveu.
Cantava um decadentismo exalado de tradições pagãs e cristãs, não o que era corrente na Europa. Era decadente e elegante, como soem ser aqueles a quem a vida distribui impossibilidades, e que acolhem com estoicismo tais presentes dessa vida. Sendo homossexual, cantou o homossexualismo quase sempre a partir de lindos corpos inalcançáveis.
Escreveu “Ítaca”, poema do qual já falei antes aqui. Falei de “Ítaca” reportando-me ao tempo do ócio. Mas falaria igualmente se quisesse dizer de coragem ou de sabedoria. Ou se falasse de ideais ou de compreensão das coisas insondáveis. Os versos de “Ítaca” contêm muito de nossas vidas. Mas, não só. Em todos os poemas de Kafavis há algo de nossas vidas esplendendo ou se escondendo na sombra.
Entre o paganismo e o cristianismo, Kavafis ficou com os dois. Sorte a dele, pois a ambigüidade lhe era necessária à liberdade para escrever. Em literatura, quase sempre a liberdade tem, não só duas, mas infinitas cabeças que, como a Hidra de Lerna*, renascem e se fortalecem quando atacadas.
No ocaso da civilização romana, Kavafis encontrou o objeto do seu poema “À Espera dos Bárbaros”. Uma cidade espera os bárbaros, prepara-se toda para defender-se deles. Se os bárbaros não vêm, quê fazer? Então quem somos nós? Se não há bárbaros, em que consiste a civilização? Ah, meus caros, os bárbaros são o parâmetro e, se não os há, contentem-se em contemplar a solidão da decadência. Sem contrários. Própria, irrestrita.
Além de pouco escrever, Kavafis nunca publicou livro em vida. Publicou alguns poemas esparsos em revistas, mas sua maior preocupação sempre foi aperfeiçoá-los. Afinal, embora não haja impedimento, mudar um poema depois de publicado é estranho ao próprio escritor. Para Kavafis, fundamental era mesmo a perfeição e ele manteve a maior parte de seus poemas consigo, até que a morte os separou.
* A Hidra de Lerna era um monstro de inúmeras cabeças de serpente, que se regeneravam quando mortas. Uma das cabeças era imortal. Derrotá-la foi um dos doze trabalhos de Hércules.
Crônica para uma saudade
Ele era tão antigo que dava até para praticar medicina sem ser médico, nem ser preso. Não era bioquímico, tampouco. Mas fabricava remédios, com água de chuva, em objetos tão antigos quanto ele. E curava doentes, aliviava dores. Jornalista… Bem, algumas vezes inventou de escrever e imprimir jornais. Uma vez, um desses jornais foi empastelado, outra vez ele foi preso, isso em 1932, quando o chefe de polícia era Café Filho. Depois, virou conservador, ficou do lado do governo na época da ditadura, o pior momento da história para se ficar do lado de algum governo.
Era padrinho de uma procissão de afilhados. Penso que quando eu vivia ao lado dele, a palavra que mais se escutava em casa era benção. Sua benção, sua benção, sua benção. Ele tinha abençoado muitos com saúde, por causa dessa história de ser médico, mesmo sem ser. Naquelas eras de desamparo, a cura representava muitas vezes um quase milagre e os herdeiros dos pajés, como ele, eram reverenciados.
Ele tinha uns tantos desafetos, porque, além dessas atividades, inventou de ser político. Mas faço questão de dizer que era honesto, ora se faço. Antigamente, tinha uns políticos que ficavam mais pobres depois da ilusão da politicagem. Meninos, ele chegou a perder um imóvel. Eu vi!
Mas não quero dizer que era santo. Anjo, ele virou depois. Em vida, era alguém com alguns defeitos e insuperáveis qualidades. Para mim, naquela era antiqüíssima, ele era um paletó com gravata borboleta de bolinhas, dois bolsos cheios de confeitos que eu alcançava erguendo os braços e um colosso que brincava comigo.
Foi a primeira pessoa amada que eu vi morrer e porque senti eu mesma o bafo da morte essa semana, aferrei-me à lembrança dele. Hoje eu poderia estar morta, porque fiz o que ninguém jamais deve fazer: reagi a um assalto. Quando se faz isso sem querer (a reação foi absolutamente involuntária), a sensação posterior de horror é algo indescritível. A noite gótica desperta todos os temores, a quase morte amedronta os ossos. Para acalmar os pavores, eu busquei em mim a lembrança desse anjo.
Enquanto escrevo, ele me olha por trás dos óculos. E pensar que já se vão quase trinta anos sem ele… Nos seus últimos dias, passava o tempo a bordo de um pijama, deitado numa rede, entre balanço e pigarros. Queria talvez uma morte cultuada e prolixa, vivia a se despedir de toda a sua linhagem, dos que haviam passado e dos que passariam. Mas a morte, a dona das trapaças, uma noite meteu-se no sono dele e lhe arrastou a consciência. Ele não teve tempo nem lucidez para dizer adeus. Durante anos, arrastei uma mágoa por ele não me ter reconhecido no meio do ataque súbito da fatalidade. Olhou-me e não me viu. Agonizava, já, eu não sabia.
Foi a primeira pessoa amada que eu vi descer à terra e até hoje acredito que essa visão desencadeie um ritual de passagem. Um instinto com natureza de repentes nos dá a dor dilacerante quando alguém amado desce à terra. Outro instinto sem controle nos faz reagir sem querer a um assalto, por exemplo. Enquanto eu cá vivo na primariedade dos instintos, ele conquistou a natureza dos anjos. Dos anjos da guarda, para a minha sorte.
Da natureza dos muros
Oscar Wilde e Chico Buarque perceberam o muro. Para Oscar Wilde, o muro fora erguido pelo “Gigante Egoísta”, para que as crianças não fossem brincar no seu jardim. Só que, sem crianças, o jardim do gigante também não era mais visitado pela primavera e, entrava ano, saía ano, a única estação que por ali pousava era o inverno: neve, geada e granizo. Um dia, o gigante percebeu a natureza do muro, derrubou-o e chamou as crianças de volta. A partir daí, seu jardim se encheu de flores.
O muro que Chico Buarque cantou era um e eram dois: um cercava o bosque junto à rua, onde a felicidade morava, mas o dono do bosque não via. O outro muro separava o eu lírico da música “Até Pensei” e a sua amada. Ambos os muros proibiam a aventura.
O Conto “O Gigante Egoísta” e a canção “Até Pensei” falam de impossibilidades e impedimentos que estão além das vontades do eu lírico da música e das crianças do conto. Já Fernando Pessoa nos aconselha: “Cerca de grandes muros quem te sonhas.” No poema “Conselho” é o próprio eu lírico que impede que lhe vejam como é. Diz o Pessoa que somente onde ninguém nos vê, podemos deixar “as ervas naturais medrar”.
E é assim: erguemos muros entre nós e os outros, por egoísmo, por auto-suficiência ou por medo. Ou porque chega um tempo de pensar que não vale a pena nos mostrarmos como realmente somos.
Quando erguemos muros por egoísmo ou por auto-suficiência, somos como o gigante de Oscar Wilde, que não entende porque a primavera não visita o seu jardim. Ficamos nessa inconsciência de não saber que, com o ruído alheio, vem também a floração de nós mesmos. Mas quando nossos muros são erguidos por medo ou desencanto, aí nós já compreendemos o significado dessa floração. Sabemos o motivo pelo qual estamos nos cercando de “grandes muros”. Então, dissociamos ser e aparência. No entanto, se essa dissociação se aprofunda, a aparência vira caricatura. Não é difícil nos defrontarmos com pessoas tão artificiais, tão artificiais, que sequer sua aparência é crível. O ser fica tão dissolvido que essas pessoas acabam por acreditar que só a sua aparência existe. Existe, mas não convence. Sabem a sensação de conversar com uma mentira?
Falei outro dia de partes de nós que para sempre permanecerão secretas para os outros, isso é da nossa natureza, pois algo de nós até para nós permanecerá segredo. Porém, esconder por inteiro é da natureza dos muros, não da nossa. Mesmo que nos protejamos de vez em quando, mesmo que cultivemos a cautela, não pendamos aos radicalismos. Também é preciso deixar que os outros vejam “as flores que vêm do chão crescer”, tão mais reais do que os canteiros cuidadosamente podados.
Seria maravilhoso intuir sempre quais são os outros a quem nos podemos mostrar, quais são os outros que podem chafurdar nos nossos jardins, bosques e ternuras. Mas não é assim. A intuição nem sempre é exata e sem dúvida nos machucaremos de vez em quando pela falta do muro. Mas, e a primavera?
Cinco Dias de Sagração (*)
“As moças solitárias
carregam nos seios os estigmas da lua.”
(Boghdán Tymích Rubtchák)
Seu corpo era corpo de homem, ancorado nas machezas. Ele não carecia. Não temia o sublime. Era moreno, medieval, impassível. Espiava espichados cortejos de pecadores, cultivava a concisão. As vontades, não as expiava, nem tinha crepitações. Era homem, e de sol; incólume, porém, aos incêndios de mulheres e de ratos, à ardência dos sinais.
Mas, naquele tempo de acontecimentos inexplicáveis, todas as coisas cortejavam o destino. Um dia, o homem que poderia ter morrido de heroísmo mudou-se em dama. Mudou-se, não se sabe o motivo. Mudou-se, e a partir desse momento, foi tomado de ternura esfomeada. Não sabe o que perdeu, não lhe perguntem.
É mulher. Empalideceu. Ganhou febres, ganhou astúcia, ganhou o medo de envelhecer. Foi marcada nos seios pelos estigmas da lua. Vestiu o hábito da vertigem. Mudou-se em dama. Aprendeu a chorar e se arrepender. Mudou-se em dama o homem. Agora é mulher, mulher egressa de travessias, cujo pudor foi espoliado pela paixão. Não leva inocência nas mãos e nem pureza na barra do vestido. É mulher tingida de mundo, muitas vezes refeita, mulher que conheceu gozo e descaso e toda sorte de “milacrias”. Mulher sem placidez, carecida, entregue ao cativeiro da esperança.
De tanto olhar a lua, ficou prolongada de sortilégios e pelos prolongamentos da lua, aos sábados não é mulher, nem se volta ao homem: vira serpente luminosa. Nesses dias, quem a vê tomar banho, fica cego imediatamente.**
Essa mulher se lembra do seu corpo de homem. Ela se lembra de superfícies planas, de julgamentos destituídos de paixão, de rígidas afetividades. Mas, além de memória, seu corpo de homem é também amor. Ama o seu antigo corpo de homem no outro, no que não é ela. Ama suas antiguidades naquele que a quer mansa, desamparada. O corpo de homem que já foi ela a quer agora, e ela não é de ficar se adiando.
Ela o ama e vai para ele, para o corpo de homem que a espera. Leva o melhor e o pior de si, a serpente do sábado lhe dá flexibilidade. Vai para ele, consagrá-lo. A umidade da mulher consagra o homem, a sagração do homem consagra a mulher. Ela vai para consagrar o amado corpo do homem e consagrar a si mesma.
Mesmo tomada de carências, tem gosto pela vida e pelas ondas do mar. E estarrece de ter tanto gosto. Adora o mistério, mas sem “temência”, pois o mistério ela o vivencia quando se entrega às mutações. O mistério ela o possui no coração de ousadias irrompidas.
O homem, ela o experimentou sendo ele, e agora o experimenta no outro. Agora, aproxima-se dele, mas não é ele. Não tem retorno, ela jamais será homem de novo. O ser homem, cujo conhecimento foi só experimentado, parece exaurido, como se o pouco que conheceu fosse demasiado para ela. Apesar de já ter sido ele, o homem lhe será desconhecido para sempre e a isso ela chama destino. Ou amor.
* Título de um romance de Cunha de Leiradella.
** Variação da lenda européia da Melusina.
Vozes veladas, veludosos desvelos
A lenda européia da Melusina conta a história de uma mulher que casou após obter a promessa de que seu marido nunca a veria tomar banho. Um dia, vencido pela curiosidade, ele quebrou a promessa, perdendo sua esposa para sempre. Em uma variação, ele a vê em forma de uma serpente luminosa que o cega imediatamente. Em outra versão, a moça transforma-se em dragão e sai voando.
A mitologia grega trás o mito de Psiquê, a alma, que perde o seu marido Eros, o amor, por não resistir à vontade de vê-lo, quando prometera nunca tentar conhecer a verdadeira identidade daquele que sempre a amava no escuro. Com a curiosidade espicaçada por suas irmãs, invejosas da felicidade de Psiquê, ela esperou o marido dormir e acendeu uma lâmpada para enxergá-lo. Imaginava encontrar um monstro terrível, como suas irmãs haviam previsto, mas ficou tão encantada com a beleza do amor que acabou por acordá-lo, acordando também a sua raiva pela perda da confiança nela. Para recuperar o marido, a alma teve de aprender a duras penas a importância da confiança no companheiro de vida. Ainda bem que essa história do amor e da alma tem um final feliz: o nascimento do filho Voluptas, o prazer.
Também da mitologia grega vem a história de Orpheu. Sua noiva, Eurídice, a quem muito amava, foi morta por uma serpente e desceu ao reino dos mortos. Orpheu, que ganhara dos deuses o dom de encantar com seu canto e com o toque de sua lira, mesmo vivente embrenhou-se por aquele lugar de almas sem carne, rogando ao deus dos mortos que lhe devolvesse Eurídice. O deus concordou, disse que Eurídice iria atrás dele, mas o fez prometer que não se voltaria para vê-la até que os dois tivessem transposto os limites daquele reino. Sem resistir a olhar Eurídice de novo, Orpheu quebrou a promessa e Eurídice, que não havia ainda recuperado a matéria, desvaneceu-se diante dos seus olhos.
Uma parte de cada um permanece oculta até para si mesmo. Como então alguma criatura poderia ser perfeita e completamente transparente para outra criatura, ainda que entre elas haja um vínculo profundo, visceral? Não há, oh gente, oh não. Compreender (mais que tão-somente aceitar) a natureza insondável desses segredos, desses lados que devem permanecer apenas imaginados, faz parte do respeito ao outro. E quando não há respeito, a relação tem o mesmo destino de Eurídice: desvanece.
Alguns segredos não serão jamais desvelados. Algumas das nossas vozes permanecerão em silêncio, porque algumas vozes são nascidas para o silêncio e isso não é um paradoxo, é uma confirmação da necessidade que os opostos têm um do outro. Talvez sejam exatamente esses veludosos segredos que manterão acesa a chama da fascinação e do encanto de um ser pelo outro. Afinal, meu Rimbaud, se o eu é um outro, o outro é um outro mais ainda, e algo dele, por ínfimo que seja, permanecerá encoberto aos meus olhos. Nem pense que isso me descontenta. Há tanta volúpia em desvelar o possível, quanta volúpia há em conviver com insondáveis segredos veludosos.


