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	<title>Substantivo Plural &#187; Carmen Vasconcelos</title>
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	<description>CULTURA + IDÉIAS + INFORMAÇÕES</description>
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		<title>Avoengo</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 18:35:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8230;Pois deu de me habitar um destes verbos madrugadores: colher, ordenhar, confiar. Deu também de me habitar a lembrança dele. Era ele quem me dava de beber o leite tirado da vaca na hora. Não o verbo, o avô. E eu bebia o leite espumado sem nojo, menos porque estava muito apegada às coisas da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8230;Pois deu de me habitar um destes verbos madrugadores: colher, ordenhar, confiar. Deu também de me habitar a lembrança dele. Era ele quem me dava de beber o leite tirado da vaca na hora. Não o verbo, o avô. E eu bebia o leite espumado sem nojo, menos porque estava muito apegada às coisas da terra e mais porque confiava nele. Nem pensava em impurezas, bactérias, ou em coisas assépticas. Confiar era cósmico, natural, e ele e a vaca também eram cósmicos e naturais. E eram bons.</p>
<p><span id="more-40598"></span>Ele dizia que a madrugada era o tempo de acordar e ir para o arisco. O arisco, ele mostrava, era acolá. Eu avistava o horizonte empoeirado, perto do roçado onde o milho balançava. Era distante, mas era bom o arisco. Coisa de tempo e trabalho fazerem virar roçado. Ele era assim também, bom e distante. Carinho não dava, mas era bom e talvez fosse habitado por emoções retidas. Emoções retidas também me habitam, um pouco. Tenho isso dele, tenho pouco dele.</p>
<p>Tive pouco dele, éramos estranhos íntimos partilhando madrugadas, roçados e leite de vaca. Mas, que digo, pouco? E o roçado? Tenho em mim o roçado, o milharal, e isso é muito, porque o roçado era a grande significância dele. Era o seu sentido. Tive muito, tenho muito. Lembra-me também que sei debulhar, e esse verbo diário me habita desde que o aprendi com ele. Pouco, não. Tenho muito dele, mas está retido.</p>
<p>Todo o mundo deseja algo que não lhe está disponível. Ele, não. Desejava com um ardor diário aquilo que tinha, era essa a sua intensidade e a sua precisão perante a vida. Esse era o seu entendimento de suficiências. Quanto a mim, embora não seja mais “tão criança a ponto de saber tudo”, continuo pequena para compreendê-lo. Talvez isso de entendê-lo devesse começar pelo fiapo de rio passando ao lado da roça. Pois era o riozinho que fiava o milho, era a sua insuficiência perene que fazia o milho brotar.</p>
<p>Eu não via nenhuma poesia no avô suspendendo a madrugada para ordenhar e colher. Eu não via, mas não era porque não tinha, era só eu quem não sabia ver. Poesia bem que tinha, poesia empoeirada e arisca como ele. E nem precisava desbastar, a poesia estava feita e por si mesma se sustinha. E eu, alheia, só agora me dou conta de que, além de espigas e leite fresco, ele também me deu poesia para as minhas debulhadas. Mas a poesia imergiu no tempo, na cisterna, no roçagar do milharal, no leite espumoso da vaca cheia de recuos, no cosmos. Imergiu no avô que passou a vida cismando. Imergiu, é certo. Imergiu nos verbos madrugadores que me habitam. E ficou no fundo, precipitou-se.</p>
<p>À maneira de Whitman, diria a poesia precipitada: procura-me no fiapo de rio arranhando a entranha da terra, nos cabelos que envolvem a espiga de milho, na água encoberta da cisterna, no esguicho do leite da vaca, no arisco. Procura me avistar no distante, seco e empoeirado horizonte do arisco; agora e na hora dos teus olhos empoeirados. Procura-me nos longes, diria o avô. Não no beijo, nem no abraço, mas nas retidas emoções. Procura-me no afeto não expressado. Procura-me. Em algum lugar, eu estarei à tua espera.</p>
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		<title>Os muito exibidos que me desculpem</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 21:52:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Mas o retraimento é fundamental. Aprendi com a lua, mais do que se aprende com o Eclesiastes: há dias de minguar, dias de habitar-se. São dias solenes, dias de ritual e névoa. Dias que se fixam na gente por um tempo. Esses dias, a gente reconhece desde cedo: a gente se reconhece neles, nós, os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/luas.jpg"><img class="size-large wp-image-40262  aligncenter" title="luas" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/luas-464x373.jpg" alt="" width="325" height="261" /></a></p>
<p>Mas o retraimento é fundamental. Aprendi com a lua, mais do que se aprende com o Eclesiastes: há dias de minguar, dias de habitar-se. São dias solenes, dias de ritual e névoa. Dias que se fixam na gente por um tempo. Esses dias, a gente reconhece desde cedo: a gente se reconhece neles, nós, os retraídos. Esses são dias plenos de descobertas. O retraimento é bom para isto: descobrir. Essa é uma palavra de nobreza.</p>
<p><span id="more-40258"></span>São muitos os dias de retrair-se. Quando a gente não se suporta a si mesmo nos outros, os nossos espelhos. A gente pensa que eles são o inferno, os outros. Ledo engano! O inferno mesmo é dentro da gente, deriva da gente.</p>
<p>Esses dias de minguar são aqueles nos quais a gente precisa deixar de exercer papéis, quando a gente sente a necessidade de exercer-se um pouco.</p>
<p>Os dias de retraimento são necessários quando há verdades embrionárias, aquelas verdades ainda em formação. Ai, como é bom deixar de pensar coisas, de emitir opiniões, de achar coisas. Ai, como é bom deixar que as coisas mesmas se achem. Afirmações veementes, absolutas, podem ser boas para o ego e outros demônios, mas têm sempre um quê de aprisionamento.</p>
<p>Os dias de retraimento, esses têm gosto de liberdade. Têm gosto da mais sábia desistência: a desistência de mudar o mundo. Têm gosto de compreensão: a de que, para mudar-se a si mesmo, é preciso esforço, concentração, vontade e tempo.</p>
<p>E tempo&#8230; Tem horas em que pensamos que o tempo até nem existe, de tanto que ele nos falta. Para nos trazer de volta o tempo perdido, há os dias de ficar minguante. De aprender tanto com os acontecimentos, a ponto de pensar que os próprios acontecimentos têm o propósito de nos ensinar. Evidentemente, não têm. Os acontecimentos não têm qualquer propósito. Nem a vida. Nós é que temos propósitos aos montes.<br />
A contração é uma forma de apaziguar-se. Precária paz, eu bem o sei, porque a nossa sempiterna fragmentação não nos deixa iludirmo-nos com a completude. Em qualquer situação na qual estejamos prestes a nos sentirmos completos, vem um pudor e nos assalta: não, jamais seremos um todo. Somos partidos, de raiz.</p>
<p>Mas, mesmo precária, o ato de minguar é uma paz. Uma paz até com as esperas. Uma paz, ou uma trégua, com esse deus escorregadio chamado felicidade. Uma paz com a vulnerabilidade, essa deusa súbita e surpreendente.</p>
<p>Com quem compartilhar os meus nadas? Comigo mesma, nos meus dias de minguar. Assim a lua compartilha crateras. Também as temos nós, pois não?</p>
<p>Para quem não tem a benção de se adaptar facilmente ao mundo, os dias de minguar se derramam em forma de outras bênçãos. Nos dias minguantes, eu me concedo, eu me concebo, eu me recrio.</p>
<p>Que me desculpem, mas há dias em que é fundamental deixar-se, largar-se, entregar-se fundamente ao ato solitário de ser.</p>
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		<title>Da inutilidade das coisas</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 11:21:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mas é que o meu próprio pensar estava possuído de utilitarismo. Oscar Wilde disse que a arte é inútil. E eu pensava que não, que a arte servia para a elevação espiritual e então não era inútil. Era inútil para coisas práticas. Mas o meu pensamento estava preso a essa noção de utilidade que Wilde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mas é que o meu próprio pensar estava possuído de utilitarismo. Oscar Wilde disse que a arte é inútil. E eu pensava que não, que a arte servia para a elevação espiritual e então não era inútil. Era inútil para coisas práticas. Mas o meu pensamento estava preso a essa noção de utilidade que Wilde quis extirpar da arte. É inútil, sim. O utilitarismo e a arte não ocupam o mesmo lugar no espaço. Eles se excluem.</p>
<p><span id="more-39401"></span>Entendi essa inutilidade quando li, recentemente, um livro no qual uma das discussões dizia respeito à inutilidade do bem. Um personagem discursava sobre atos de heroísmo que não levaram a nada, atos de lealdade a uma causa que só fizeram foi deixar mortos ou desgraçados aqueles que os praticaram. Em contrapartida, houve atos de covardia e recuo que enriqueceram e deram poder aos que optaram por eles. Aí, o personagem brandia: de que vale o heroísmo, a honestidade, para que servem? O bem, dizia ele, é inútil.</p>
<p>Sim, o bem e arte são inúteis. Mas a questão nesses casos não é de utilidade, é de destinação. Pensar a destinação do bem e da arte requer deixar de lado o pensamento utilitarista. A questão é do destino da essencialidade humana. No livro do qual falei, um outro personagem trazia à tona essa questão. Os atos de heroísmo e honestidade se destinaram a provar que somos capazes deles e, portanto, e enquanto formos capazes deles, ainda poderemos ter esperança de sobreviver, dizia. Se tais atos não tivessem existido ou não seguissem existindo de quando em quando, isso significaria que já não seríamos capazes de cultivar o bem na essência humana (a qual também contém o mal) e então em pouco tempo sucumbiríamos à barbárie.</p>
<p>É isso, a importância do bem não está no terreno da utilidade, defendia o personagem. Está é na possibilidade de provar que ainda conseguimos nos manter juntos sem nos eliminarmos mutuamente, ou seja, ainda há entre nós os que respeitam os seus semelhantes.</p>
<p>Pois a arte também não cabe no espaço utilitário, nem no conceito de utilidade. O destino, ou a destinação da arte, é de outra natureza. A arte é um desses atos de heroísmo e crença no bem como parte do humano. Mesmo muitas vezes revelando o terrível, a arte não se acumplicia com ele. Transforma-o em beleza. A arte evidencia a existência do terrível, mas também do belo e do bom, portanto, do humano. A arte é essencialmente humana, essencialmente cultural. Não existe arte fora do homem, fora de algum tipo, mesmo incipiente, de cultura.</p>
<p>E é absolutamente inútil. Qualquer tentativa de usar a arte, de pô-la a serviço de algo, frauda-lhe a essência, rouba-lhe a sua natureza, tira-lhe o equilíbrio. Transforma-a em não-arte, porque a coloca em um espaço onde ela não se comporta: no espaço da utilidade. A arte não serve para nada. Mas tem uma destinação fundamental para a preservação humana. Assim como os atos de honestidade nos provam que o homem é capaz de exercitar a bondade, a arte nos prova que podemos exercitar a beleza.</p>
<p>Dizem que a fé nos livrará do perecimento. Penso que a arte exista para isso. De outro modo “nossa história se abrasaria num relâmpago” (Montale).</p>
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		<title>O encontro</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 21:14:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem nunca sonhou com um fantasma sólido, atire a primeira inveja. Mal me voltei para o trem abandonado, onde já cresciam as heras, ele saiu do vagão das bagagens, abocanhando a minha insônia. Seus passos produziam som, seu andar tinha um ritmo. Não caminhava à toa. Queria estar diante de mim. Aí eu me lembrei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem nunca sonhou com um fantasma sólido, atire a primeira inveja. Mal me voltei para o trem abandonado, onde já cresciam as heras, ele saiu do vagão das bagagens, abocanhando a minha insônia. Seus passos produziam som, seu andar tinha um ritmo. Não caminhava à toa. Queria estar diante de mim. Aí eu me lembrei que ele era igualzinho ao personagem de um poema antigo, um poema que eu havia escrito aos treze anos, largando-o não sei onde. Vestia-se com uma malha vermelha, aderente da cabeça aos pés, e ainda por cima usava uma máscara. Imaginei que ele quisesse me fazer retomar o poema.</p>
<p><span id="more-38382"></span>Costumo desprezar as coisas malditas. Aquele poema foi resultado de uma vontade sem freios. Ainda não tinham inventado o crucifixo e a inquisição. Naquele tempo, eu exibia sem vergonha ou medo a marca bastarda dos meus impasses, dos meus incontornáveis senões. Agora eu não era mais assim, tinha de dizer isso a ele. Agora eu tinha de dizer, eu não era mais amante dos declives e das incertezas, agora me tinham dado mistérios, eu estava bem distante do tempo de inventá-los. Depois, mesmo ele não houvera sido uma invenção, eu o tinha roubado de uma revista em quadrinhos.</p>
<p>Pedi para tocá-lo, acariciá-lo, como um amigo que volta. As minhas mais tenras lembranças, o biscoito esfarelado, o brinquedo que virava os olhos ao ser puxado, a balsa atravessando o mar pequeno, tudo voltando e se entregando ao meu olhar, às minhas mãos, aos meus devaneios. O fantasma não queria o seu poema de volta. Não queria que eu o renovasse, nem mesmo que o procurasse. O poema o prenderia, ele dizia, como eu estava naquela hora presa aos meus quatro anos. Melhor ter-se perdido, melhor ter sido feito de abandonos. E eu nem tinha certeza se as coisas que corriam diante de mim tinham acontecido mesmo ou se me haviam contado. Mas eu recordava perfeitamente.</p>
<p>Pedi então para ele tirar a máscara. Aí ele me disse que eu não tinha feito o rosto dele, e também não queria prender-se a um rosto. Não queria ser só rosto. Ele era o que era. Pudera. Eu não havia me lembrado de descrevê-lo, mas eu o via, eu sabia como ele era e disse isso a ele. A pele clara, a boca fina, os olhos cheios de intuição, vendo-me por dentro mais que eu mesma me via e me era. Não adiantava querer vê-lo. Eu não o tinha descrito, não tinha dito no poema. O rosto dele não se materializara. Só o corpo eu pormenorizara, por baixo da malha.</p>
<p>Sentamos os dois a espalhar formigas com os pés. É bom ter criado alguém, mesmo imitado, mesmo imperfeito. Alguém palpável. Ele não era da revista, constatei. Nem da Diana, nem dos pigmeus. Era outro, estava diferente mesmo de quando eu o fizera. Não aparentava, mas por dentro ele mesmo se escrevera. Desistira de ser um herói.</p>
<p>Nós nos despedimos quase ao amanhecer e só então pude dormir. O fantasma virou as costas, largou sua malha e sua máscara. Mesmo que nos encontremos de novo, não o reconhecerei. Mudará mil vezes de rosto, ao encontrar quem se encante com ele. Eu somente o sonharei do jeito que ele era quem eu sou. Mas eu também desisti de heróis.</p>
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		<title>Por que amamos tanto o Hamlet?</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Nov 2011 00:15:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Por que amamos tanto o Hamlet? Porque nos extasiamos tanto com um texto e um personagem? É uma coisa para ser entendida olhando espelhos. Estou convencida de que nós, leitores apaixonados pela peça mais completa de Shakespeare, que se quedam de fascínio à pura menção de qualquer coisa relativa a ela, embora não sendo escritores, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/hamlet05imagenwx9.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-37491" title="hamlet05imagenwx9" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/hamlet05imagenwx9-464x348.jpg" alt="" width="404" height="303" /></a></p>
<p>Por que amamos tanto o Hamlet? Porque nos extasiamos tanto com um texto e um personagem? É uma coisa para ser entendida olhando espelhos. Estou convencida de que nós, leitores apaixonados pela peça mais completa de Shakespeare, que se quedam de fascínio à pura menção de qualquer coisa relativa a ela, embora não sendo escritores, podemos dizer, à maneira de Flaubert (que disse ser Madame Bovary): Hamlet sou eu.</p>
<p><span id="more-37489"></span>Por quê? Hamlet é o ser humano, desnudado perante si mesmo. O que somos senão eternos seres pendentes, oscilantes entre o destino e a consciência? Nada. Ser e não ser: é essa a questão, respondida pelo próprio Hamlet, quando diz que o homem, obra-prima, maravilha do mundo, significa não mais que a quintessência do pó. Mas não é uma questão totalmente respondida, jamais o será. Põe-nos a pensar e, por isso, nos encanta.</p>
<p>Nascera Hamlet sob o signo de gêmeos, o signo da indecisão? Edmundo, o vilão do “Rei Lear”, do mesmo Shakespeare, não concordaria. Para ele, é “admirável escapatória do homem essa de colocar suas veleidades lúbricas sob a responsabilidade de uma estrela!” Edmundo desdenha: “seria o que sou, mesmo se a estrela mais virginal aparecesse no céu quando nasci.” Aarão, outro vilão de Shakespeare (do “Tito Andrônico”) também exalta a consciência (no seu caso, maligna) como determinante do comportamento quando, à hora da morte, arrepende-se apenas dos males que não fez. O Hamlet, porém, é mil vezes mais complexo do que os dois. Enquanto as consciências de Edmundo e Aarão afirmam o mal e, portanto, contentam-se em afirmar, a consciência de Hamlet não afirma, nem nega. É uma pergunta (Clarice Lispector mergulhou nessa pergunta): há mais coisas entre terra e céu, além das estrelas? Sim, há ela mesma, a consciência humana. Mas a consciência produz o pensamento e induz ao vacilo. Não estamos destinados somente a cumprir cegamente as ordens do destino. Cabe-nos a escolha, porém, “se seguia o sulco de um caminho, o oposto me tentava o coração e talvez me faltasse a lâmina que corta, a mente que decide e se resolve” (Montale). No entanto, temos apego ao vacilo: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” (Paulo Coelho/Raul Seixas).</p>
<p>Hamlet usa a razão para subverter a própria razão. Contraria Descartes (“Penso, logo, existo”): Existo? Pensar é duvidar da existência. Existência é ser muito, é ser tudo, e não ser nada, tudo ao mesmo tempo agora (o depois da morte é uma incógnita). Tudo e nada é o pensamento, que é tanto, mas é invisível, inatingível, como a inexistência.</p>
<p>O pensamento é inatingível, até quando surgem as “palavras, palavras, palavras”. Ou as imagens, que também são linguagem. Mas é na matéria das palavras que o Hamlet se concretiza para nós, os que existimos à sua imagem e semelhança e à luz dos seus pensamentos e palavras, atos e omissões.</p>
<p>E na matéria das palavras, na matéria da nossa vã filosofia, nós o amamos. Amamos o Hamlet porque ele nos incita ao amor do saber. De onde viemos e e para onde vamos? Das palavras de Shakespeare, nos descobrimos. Ou, como diz o Harold Bloom, nos inventamos. Somos, enfim, invenção de nós mesmos para dar gosto ao desconhecido. À morte? Não, à vida.</p>
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		<title>Escritas e escrituras</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 10:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Colho o que preciso nas fendas das rochas, lá onde o mar
Precipita as cabeças de cavalos montados por cães a uivar
E a consciência já não é o pão no seu manto real
Mas o beijo único a recarregar-se com brasa própria.”
(André Breton).
 Contra a palavra, saio ao vento e seco. Mesmo seca, frutifico. A palavra ofega [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Colho o que preciso nas fendas das rochas, lá onde o mar<br />
Precipita as cabeças de cavalos montados por cães a uivar<br />
E a consciência já não é o pão no seu manto real<br />
Mas o beijo único a recarregar-se com brasa própria.”<br />
<strong>(André Breton).</strong></p>
<p><strong> </strong>Contra a palavra, saio ao vento e seco. Mesmo seca, frutifico. A palavra ofega sob meu jugo ou eu ofego sob o jugo dela. Não somos (nem ela, nem eu) da raça dos libertos. Eu não a suporto, ela não me dá suporte. Ela sempre me seca, sempre me esvazia. Esvaziar-me é a minha tendência e o meu destino, pelo menos quando estou em estado de palavra. E alguém ainda pensa que há conteúdo entre mim e a palavra. Nenhum. Se compartilho usando a palavra, estou compartilhando nadas. Estou dando os meus nadas, que se revelam em palavras, só isso. O que houver a mais não é meu, é de quem lê. “ Mas só a que eles não têm.”</p>
<p><span id="more-36556"></span>Já o silêncio, esse me conforta, me aquece, me recheia. O silêncio me dá estofo. O silêncio eu acho mais bonito. Mesmo assim, mesmo com a fascinação pelo silêncio, a palavra é muito mais presente, muito mais freqüente. Talvez me compraza o vazio, ou talvez eu aceite o vazio para poder ficar com a palavra. Talvez seja uma espécie de masoquismo, de preferência bizarra. Uma esquisitice, enfim.</p>
<p>Enfim, de algum modo prefiro a palavra, mesmo que seja desse modo inútil de escrever. Não fosse assim, isto mesmo não se estaria escrevendo neste papel virando vão (“uma semente de ilusão”). Não, o papel não é oco antes de eu escrever, ele fica branco depois, branquinho, para quem quiser enchê-lo de palavras. Ora, direis, escrever para contrariar o vazio. Eu escrevo para chegar ao oco, ao vão.</p>
<p>E tenho pressa, porque só esvaziada é que posso receber, pois é esvaziada que sinto necessidades. Se estou toda ocupada, se meus espaços estão cheios do silêncio profuso, não posso ter esperança de agasalhar nenhuma outra dádiva. O vazio, a fome e a falta me trazem premonições, o vazio das palavras me dá decifrações. Talvez seja essa a explicação para o fato de eu preferir a estadia prolongada com as palavras escritas, secantes.</p>
<p>Mas não é transe místico este meu esvaziamento, é uma coisa bem banal, até. Uma coisa diária, comezinha. Uma coisa bem própria deste mundo feito de palavras: ser ultrapassada pelo querer dizer, sem que esse querer chegue às palavras; ser ultrapassada por palavras que nunca quererão acumpliciar-se. Quem nunca se indispôs e se inquietou com a rasteira que as palavras lhe deram um dia, atire a primeira tecla.</p>
<p>“Palavras, palavras, palavras.” Por essas e outras faltas, vou ao vento, à intempérie, eu desassossego. Para alguma vez ficar repleta, vou primeiro às palavras, para abrir-me os espaços, os vãos.</p>
<p># Citações dentro do texto: Fernando Pessoa, Gilberto Gil e Shakespeare, nessa ordem.</p>
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		<title>Ofertório</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/ofertorio/</link>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 20:38:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[A Márcio
Trago para ti é uma voz barroca, encampada pelos ecos e pela rouquidão dos quereres escuros.
Eu te oferto as mãos que outrora rabiscaram bisões, eu te dou mãos de procura, as mãos mesmas da procura por ti.
E a inocência turva desta procura, tutelada pela angústia do pecado de buscar.
Dou o que sou: vastidões onde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Márcio</p>
<p>Trago para ti é uma voz barroca, encampada pelos ecos e pela rouquidão dos quereres escuros.<br />
Eu te oferto as mãos que outrora rabiscaram bisões, eu te dou mãos de procura, as mãos mesmas da procura por ti.<br />
E a inocência turva desta procura, tutelada pela angústia do pecado de buscar.<br />
<span id="more-35788"></span>Dou o que sou: vastidões onde as vagas se formam pela hostilidade das ventanias e toda eu me encrespo de ternuras.<br />
É o que tenho. Procurei a ti como quem se arremessa, teu amor procurei onde o mistério se trinca e se fende, onde há a semeadura e a ceifa.<br />
Eu te trago um jeito mergulhador de quem é infenso a desistências, mas também te trago dúvidas, mas também te trago crenças.<br />
Mas também trago secura, de nascença. Mesmo seca, frutifico. Broto no meio da aridez. Fui destinada à teimosia.<br />
Precipito-me, mas a minha precipitação é a de quem vai ao fundo das coisas, e fica, sob águas tintas de espera.<br />
Trago é uma nostalgia de anáguas. Eu te oferto uma alma penada, alma de errâncias: a alma branca de Isolda, a alma suicida de Ofélia, a alma crente de Ariadne, a alma tecelã de Penélope, a alma calosa de Pandora, a alma feiticeira de Circe.<br />
Sei dos restos de insônia desejante, andrajos com os quais me vesti. Sei que chego pedinte, sedenta, faminta. Sei que me fiz onde o consolo não basta, onde só o tudo é suficiente. Sei que dou, mas peço muito.<br />
Trago para ti o visgo do âmbar. A eternidade da lágrima da ostra. A recorrência da lua.<br />
Eu te procurei com os ritos do instinto, procurei os teus sins e os teus nãos, as tuas ambigüidades. Os teus nãos, eu sabia, eram só as beiradas do teu mistério. Procurei tuas procuras, tua perene inquietação. Procurei a ti como a faca procura afiar-se, com a sinceridade das lâminas.<br />
Sou o que dou: indagação. Pés entre encruzilhadas. Olhos e olheiras terrosos de olhar agruras. Sangue fustigado pela ausência do deus.<br />
Eu te oferto a nudez felpuda do silêncio e a veste grosseira da palavra.<br />
Trago-te premonições. Labaredas para iluminar as charnecas. Também mandingas, patuás e figas. Também sortilégios, porque eu não te acredito, mas que tu existes, existes.<br />
Eu te procurei entre danações. Eu te procurei no pleno e no vazio. Eu te procurei sob a intempérie. Eu te procurei entre hóstias. Eu te procurei entre nódoas. Eu te procurei na germinação das graças.<br />
Para dar-te o que sou.</p>
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		<title>Sobre autenticidade e aconchego</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/sobre-autenticidade-e-aconchego/</link>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 13:46:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[A carícia dela não era cafuné, ela acarinhava com as unhas, mas era carícia mesmo, não feria nunca, era um roçar de unhas no cabelo. É que as dela eram bem grandes, como eu sempre quis as minhas, mas nunca as tive. Ela me chamava para comer galinha caipira e puxa-puxa e eu comia. Depois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A carícia dela não era cafuné, ela acarinhava com as unhas, mas era carícia mesmo, não feria nunca, era um roçar de unhas no cabelo. É que as dela eram bem grandes, como eu sempre quis as minhas, mas nunca as tive. Ela me chamava para comer galinha caipira e puxa-puxa e eu comia. Depois eu fazia a lavação das mãos e da cara na bacia de ágata com água esbranquiçada de sabonete e ela mandava alguém me levar em casa. Às vezes eu ia sozinha, mas era raro. Para ela eu era meio bibelô, mas era bom.</p>
<p><span id="more-35276"></span>À margem dela e de tudo, portando a minha sempiterna dificuldade de inserção, eu já experimentava espessuras. Apesar de as pessoas ao meu redor prestarem muita atenção às minhas necessidades objetivas, sempre prontamente atendidas, nunca reparavam no que para mim era realmente importante: as espessuras. Eu achava que tudo podia e devia ser espesso e denso, a começar de mim. Eu aprendia a espessura da chuva, da música, das vozes das pessoas, do mato secando, da noite espaçada. Eu aprendia a espessura das palavras. Queria me tornar espessa também, embora eu ainda precisasse da vida inteira para isso. Mas tenho é densidade, não tensão, eu bradava. Bradava, é bem verdade, para dentro de mim. Bradava à margem, enquanto alguém me desaprendia.</p>
<p>Quem, na legião dos anjos, acreditaria? Pareço tensa, talvez, como alguns parecem pedantes, generosos ou calmos. Pareço outras coisas também, é só um parecer, uma aparência. “O resto é silêncio.”</p>
<p>Nos últimos tempos, tenho posto minha atenção à espessura dos discursos. O discurso, coberto de aparências, é mais revelador quando olhado por dentro das palavras, ainda mais se as palavras estiverem só cobrindo a dificuldade que as pessoas têm de se olhar no espelho. Claro que há o risco de eu fazer conclusões equivocadas quando pesco as pessoas de seus discursos.</p>
<p>Acontece, mas o meu olhar é de contemplação, não prejudica. O meu olhar não ataca, nem fere, é carinhoso até, mais ou menos como as arcaicas unhas da madrinha nos meus cabelos.</p>
<p>Por que eu devo ficar na superfície do discurso, crer piamente no significado escancarado das palavras, se elas, as palavras, ocultam outros dizeres? Por que não as virar do avesso? Por que me satisfazer com a parte ataviada e envernizada do discurso? Por que não meter-me pelas fissuras?</p>
<p>Eu me meto, sim, silenciosa, em estado de contemplação, só para aprender de espessuras. Intenção de ser autêntico é uma coisa, autenticidade é outra. Autenticidade é uma coisa difícil, muito difícil. Não é só treinar um discurso e dizê-lo. Às vezes você pensa que está sendo autêntico, mas você está é reproduzindo uma idéia de ser autêntico.</p>
<p>Há discursos autênticos, do começo ao fim, com palavras tiradas da densidade da pessoa, que se fixam na fala totalmente, até com suas contradições, o que só reafirma a autenticidade, pois a contradição é condição humana em estado puro. Outros discursos, por melhores intenções que tenham, escondem até de si mesmos certas nuances contidas nas palavras. Escondem-se. E há outros discursos que apenas fazem tipo, repetem padrões, procuram aconchego em chavões, só para serem aceitos e defendidos por quem lhes interessa agradar.</p>
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		<title>Cantares das coisas tenras</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 20:50:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo mundo sabe que a felicidade não é coisa de durar para sempre. Mesmo assim, mesmo sabendo disso, tem gente que costuma se apossar da felicidade, sem considerar sua natureza de esvair-se quando bem quer. Apossar-se é possuir, mas não é ser dono. Não é ter. Você até pode se apossar de alguém ou de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo sabe que a felicidade não é coisa de durar para sempre. Mesmo assim, mesmo sabendo disso, tem gente que costuma se apossar da felicidade, sem considerar sua natureza de esvair-se quando bem quer. Apossar-se é possuir, mas não é ser dono. Não é ter. Você até pode se apossar de alguém ou de alguma coisa, mas ter alguma coisa ou ter alguém é bem diferente. Da coisa, inerte, você pode até ser dono. Já ser dono da pessoa, esqueça. Uma pessoa nunca é de outra pessoa, a menos que ela o queira. Para uma pessoa pertencer a outra tem de haver um ato de entrega, não de posse. Que o diga o Vinícius, no “Testamento”: dono e senhor do material?</p>
<p><span id="more-34360"></span>E a felicidade não é coisa, nem pessoa, mas costuma se entranhar nas coisas e pessoas. Não é raro confundir-se a felicidade com algo palpável, mas ela não é. Dono e senhor da felicidade? Ora, nem pense nessa estultice. Viva-a (a felicidade) com pudor, sem escândalo. Isto vale para qualquer tipo de alegria: não ande com ela às escâncaras. Ela merece a reverência de um segredo.</p>
<p>E ainda tem o fato de que a felicidade junto de você pode ser um acinte para os outros, para os que não estiveram suficientemente receptivos quando ela eventualmente lhes quis abençoar. Porque há os que recusam a felicidade, por medo, por preconceito, por covardia. Mas não se conformam quando ela vai buscar outro pouso. A felicidade nunca ofende a quem ela mesma não quis abençoar, aos que a esperam sem defesas, mas pode ferir de morte os que recusaram um dia a sua benção. Os que se recusam a serem felizes costumam ficar ressentidos quando vislumbram a felicidade nos outros.</p>
<p>Não se exponha, você não tem a menor necessidade disso. E também a dor, quando houver, deve ser vivida em silêncio e, na medida do possível, solidão. Compartilhar é uma palavra que tem imensa capacidade de aconchego, mas carece de certos cuidados. A vida toda, aliás, faz bem que seja discreta. Não se deve exibir as coisas tenras, e a vida, a vida mesma, é tenra e vulnerável, frágil como um cristal. A vida está sempre em estado de nudez, e é de uma insuspeita delicadeza.</p>
<p>Compartilhar a sua felicidade com os outros pode significar fazê-los felizes ou infelizes e nem sempre você vai saber quando acontece uma ou outra coisa. As pessoas são muito estranhas mesmo, por isso, é preciso cuidado e intuição. Não se sabe em que medida o incômodo dos outros com o seu bem-estar pode lhe causar mal, mas, pelo sim, pelo não, é melhor resguardar-se.</p>
<p>Mas há as pessoas em quem se pode confiar, claro que as há. São como as bruxas, existem. Há as pessoas a quem nos podemos entregar sem medo, entregar as nossas fragilidades, sejam elas feitas de alegria ou de dor. Nesse sentido, há as pessoas a quem podemos pertencer, mas somente quem pertence pode enunciar isso. Só quem é de alguém pode dizer que o é. Pois só quem pertence a outra pessoa sabe o porquê de pertencer, só quem se doou sabe o que e o quanto de si foram doados.</p>
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		<title>Um lugar a guardar: o da inocência</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 17:21:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
A inocência pode até nos  fragilizar, mas a total falta de inocência (ou a sua perda) nos  enfraquece. Quando por algum motivo ficamos menos ingênuos, parte de  nossa energia se esvai. A vontade de agir depende muito das nossas  crenças. Agimos para que alguma coisa dê certo, aconteça como queremos  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Jorge_Mautner-1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-33799" title="Jorge_Mautner 1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Jorge_Mautner-1.jpg" alt="" width="400" height="293" /></a></p>
<p>A inocência pode até nos  fragilizar, mas a total falta de inocência (ou a sua perda) nos  enfraquece. Quando por algum motivo ficamos menos ingênuos, parte de  nossa energia se esvai. A vontade de agir depende muito das nossas  crenças. Agimos para que alguma coisa dê certo, aconteça como queremos  ou sonhamos.</p>
<p><span id="more-33797"></span>Outro dia assisti a uma entrevista de Jorge Mautner,  poeta, compositor, cantor e músico que semana passada completou setenta  anos e está a pleno vapor com lançamento de CD e DVD, além de shows e  entrevistas por todo lado. Ele é vitalidade pura. Pois bem. Mautner tem  uma crença que a muitos pode soar ingênua: ele acredita no Brasil,  acredita que a mistura cultural brasileira, à qual ele chama de amálgama  e vem pesquisando, fundará uma nova cultura para o mundo. De certo modo  (a seu modo), ele reedita o ?Brasil, país do futuro? livro de Stefan  Zweig cujo título virou expressão nacional, primeiro de orgulho de ser  brasileiro e depois de descrença e escárnio, quando os acontecimentos no  país não corresponderam àquela profecia. Mautner parece estar entre os  poucos ufanistas que ainda acreditam no Brasil, e, olhando para ele,  também parece claro que, no seu caso, acreditar é sinônimo de amar.</p>
<p>A fala de Jorge Mautner me chamou atenção pelo fato de exaltar a  ?amálgama brasileira?, segundo ele definida por José Bonifácio de  Andrada e Silva, em 1923. A partir dessa idéia, ele procura ?tesouros  culturais do Brasil?, porque ?toda arte é amálgama?. Para além da arte,  eu sempre me encantei com a nossa miscigenação. Toda pessoa aqui é  amálgama também. A melhor coisa deste país é ser essa mistura de raças,  que se expandiu por centenas de anos. Aqui não há quem possa dizer que  pertence a uma única estirpe. Cada um de nós é um mosaico, somos  formados de tantas culturas e influências que é impossível  especificar-nos.</p>
<p>Mas a idéia de que dessa amálgama fundar-se-á  uma nova cultura, uma nova idéia de gente, que aqui nascerá essa nova  era, por assim dizer, foi o que me prendeu na entrevista. Além de  ingênuo, pode soar demagógico, mas Jorge Mautner não parece se importar  nem um pouco com isso. Ele fala do que acredita, está sendo verdadeiro. É  o que basta para energizar a criatividade desse cara de setenta anos,  cheio de projetos, planos e força de vontade para concretizá-los.</p>
<p>É verdade, a inocência nos fragiliza, sabemos disso desde que nossos  formadores nos avisam para ficar alertas, na defensiva, ter cuidado com  as cercanias. Quanto mais crédulos somos, mais riscos corremos de ser  enganados e decepcionados. É, o mundo não é mesmo um bom lugar para se  acreditar. Porém, cada crença que perdemos (e nós perdemos tantas ao  longo da vida) é uma força nossa que se dissipa. Cremos, e estamos  prontos para agir, quer tenhamos oito ou oitenta anos. Descremos, e  ficamos fracos, mirrados.</p>
<p>Por isso precisamos conservar um pouco  de inocência até o fim da vida. Entre as dobras das inumeráveis capas de  proteção, entre as frestas das cascas, entre as linhas das defesas, há  de se deixar lugar a um tantinho de ingenuidade que nos energize.  Afinal, de decepção em decepção não é raro que o cinismo acabe por  ocupar os espaços guardados em nós com tanto zelo para a lucidez.</p>
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		<title>Um olhar sobre Galatéia</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/um-olhar-sobre-galateia/</link>
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		<pubDate>Thu, 21 Jul 2011 19:42:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Pigmalião e Galatéia (1886), de Ernest Normand
Pigmalião, reza o mito, era rei de Chipre, sacerdote e um maravilhoso escultor. Além disso, era um homem que via nas mulheres seres belos, mas cheios de defeitos morais e atitudes condenáveis. Decidiu não casar-se, mas não conseguiu deixar de admirar a forma física do sexo oposto. Então, dedicou-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/pigmaleão-2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-33388" title="pigmaleão 2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/pigmaleão-2.jpg" alt="" width="261" height="400" /></a></p>
<p>Pigmalião e Galatéia (1886), de Ernest Normand</p>
<p>Pigmalião, reza o mito, era rei de Chipre, sacerdote e um maravilhoso escultor. Além disso, era um homem que via nas mulheres seres belos, mas cheios de defeitos morais e atitudes condenáveis. Decidiu não casar-se, mas não conseguiu deixar de admirar a forma física do sexo oposto. Então, dedicou-se a criar uma estátua que fosse a mais bela de todas essas formas admiradas. Sendo estátua, ela não teria o comportamento abominável das outras mulheres. Pigmalião criou sua estátua de marfim, à qual chamou Galatéia. Aquela matéria inanimada era mesmo a forma feminina mais bela já vista. Imóvel, Galatéia era perfeita. Não errava, não discordava, não saía do seu pedestal.</p>
<p><span id="more-33383"></span> O escultor estava cada vez mais apaixonado. Começou a desejar que sua criação virasse uma mulher viva, a quem ele pudesse amar com carnalidade. Afrodite, deusa do amor e da beleza, prestou atenção às suas súplicas. Ao voltar de um festival em homenagem à deusa, Pigmalião foi abraçar a estátua e notou que ela lhe correspondia. À antiga frieza do marfim se contrapôs uma cálida carne de ardentes vontades.</p>
<p>Pigmalião e Galatéia casaram-se sob as bênçãos da protetora Afrodite e, segundo a maioria das versões do mito, foram felizes para sempre e tiveram um filho. Há, porém, uma versão do mito que sustenta não se conhecer o destino dos dois depois da boda.<br />
Escudados nessa versão, devaneemos. O devaneio é a melhor parte do mito, é a função dele. Pois, pois. Após o casamento, Pigmalião passou a conviver com uma mulher real, não mais com uma estátua. Isso poderia ter causado no marido um estranhamento que resultasse em uma ruptura irreversível, pela decepção com a humanidade agora constatada na esposa. Por mais que tenha sido moldada pelo escultor, há nuances em uma mulher que o homem não pode lapidar. Ao tornar-se mulher, Galatéia se expõe às vicissitudes do mundo, vai adquirir seus próprios pontos de vista. Junto com o corpo de carne, ela também ganha o que jamais Pigmalião saberia ter criado: uma alma.</p>
<p>O começo do sentimento amoroso é sempre uma imitação do ato de Pigmalião. Ignoramos o real, moldamos a pessoa amada à nossa imagem, imaginação e semelhança. Só que, mesmo sem a intervenção de Afrodite, mais dia, menos dia, Galatéia descerá do pedestal. Ela se mostrará como é, com tudo de humano que pode estranhar um outro humano. Uns chamam esse momento de transição. Dizem que, a partir daí, ou a paixão (que era até então o sentimento dominante) se transforma em amor, ou então a decepção tira do coração qualquer sentimento e os dois amantes acabam se separando.</p>
<p>Tirante essa história de transformação de sentimento, cuja discussão demandaria outro escrito, é certo existir um momento, na relação amorosa, em que o amante descobre no amado, não a pessoa por ele projetada, mas a pessoa que o amado de fato é. E nessa hora, ou o amor se confirma e o amante se apaixona pela pessoa real, ou então vence a estátua e o amante levará a vida a lamentar a transformação do amado em carne.</p>
<p>Uma nova pessoa surge diante de quem a ama. Não moldada, nem imaginada, humana pela própria natureza, com imperfeições humanas antes escamoteadas pela projeção amorosa, que lhe dera nuances divinas. Se então será criada uma nova condição de amor, nem o sabe o amante, tampouco o amado. Talvez nem Afrodite o saiba.</p>
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		<title>Tenho fases, como a lua&#8230;</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/tenho-fases-como-a-lua/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Jul 2011 20:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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“uma parte de mim é permanente&#8230;”
Ferreira Gullar
 Por que esperar outras vidas para ter outras existências, se eu as tive tantas nesta vida mesma e tantas outras me acenam, querendo acontecer? Aconteci tantas vezes que já perdi a conta, mas estou pronta para outras. Sou da raça dos que gostam de brotar. E quando não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/lua.libela.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-33048" title="lua.libela" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/07/lua.libela.jpg" alt="" width="272" height="308" /></a></p>
<p>“uma parte de mim é permanente&#8230;”<br />
<strong>Ferreira Gullar</strong></p>
<p><strong> </strong>Por que esperar outras vidas para ter outras existências, se eu as tive tantas nesta vida mesma e tantas outras me acenam, querendo acontecer? Aconteci tantas vezes que já perdi a conta, mas estou pronta para outras. Sou da raça dos que gostam de brotar. E quando não aconteço, eu me sonho. Nessas horas em que é o mundo que acontece, não eu; nessas horas em que me apassivo, eu fico me sonhando, muda e eterna, como se fosse feita de deus.</p>
<p><span id="more-33043"></span>Chamamos de fases as nossas muitas existências. Há fases que perduram por muito tempo e outras que passam rápido. A gente vai existindo aos bocados. Um bocado de mim tem generosidade, outro não. Um bocado é ridículo e tento ocultar este eu ridículo, embora seja o meu ridículo irmão dos outros ridículos. Um bocado de mim é perplexo, eu acho muito fina essa existência de espanto. Diz o poeta que a gente fica “posto em espanto”. Essa expressão é mágica. É quando tudo nos ensina, tudo nos faz ficar atentos. Mas já outra existência passa ao largo, não quer saber dos arredores. Outra nem quer saber de si mesma.</p>
<p>Um bocado de mim tem medo. Outra vez estou arrojada, desmedida em coragem. Uma é alegria às escâncaras. Outra é a tristeza arrastando-se pelas escuridões de mim. Um bocado de mim seduz e outro repugna. Há uma existência de solidão que melhor conta de mim do que qualquer história que eu narrasse. Entro na solidão e um prazer se alastra. Outra hora eu quero gentes, quero mistura de sentir e de pensar. Quero ouvir vozes que não as minhas. É assim que me refaço continuamente, e por isso, sou muitas existências.<br />
Numa existência, eu fui uma cidade. A única cidade, porque as outras são reflexo dela. Era uma cidade que não se encontra mais, por muito que se procure. Eu procurei muitas vezes essa cidade, mas, no lugar dela, há outras edificações, outra gente, outro jeito. Só que, como eu fui aquela cidade, ela ainda vive em mim. É só assim que entendo essa existência não aparente para os outros. Quando alguém me olha, vislumbra uma cidade perdida, mas não sabe.</p>
<p>Também eu era um livro empoeirado. Um livro cujo papel se desmanchava quando era tocado. Transformei-me em palavras para reter o livro do passado. Nenhum livro é aquele livro. E eu também não o sou mais.</p>
<p>Um bocado de mim é planta e um bocado é bicho. Um bocado se aquieta e outro vive em estado de alerta. Um bocado não pára nunca, nem quando dorme. Um se deixa levar, outro arrasta e arrebata quem chega perto de si. Uma vez sou nuvem, outra vez pedra. Uma fase de mim é água, existo líquida. Outra é feita de combustão.</p>
<p>Não pensem que me vêem quando olham para mim ou lêem o que escrevo. Nunca estou onde me pensam, muito menos num papel. O papel e as palavras estão em mim, mas eu não estou, nunca estarei neles.</p>
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		<title>Partícula apassivadora</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/particula-apassivadora/</link>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 17:34:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ela era antiga de raiz. Era antiga até no nome, tinha nome de avó, mas era um nome sem pompas. Era discreta, só brilhava mesmo porque o brilho saía dela sem ela querer. Era ainda uma menina, ou quase, com os claros cabelos escorridos pelos ombros. Quando era criança, ela dizia, tinham dito a ela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela era antiga de raiz. Era antiga até no nome, tinha nome de avó, mas era um nome sem pompas. Era discreta, só brilhava mesmo porque o brilho saía dela sem ela querer. Era ainda uma menina, ou quase, com os claros cabelos escorridos pelos ombros. Quando era criança, ela dizia, tinham dito a ela que água de maravilha curava tudo, desencardia até amor, como se fosse alvejante. Ela acreditava em água de maravilha e assombrações, mas, olhando para ela, não tinha quem desconfiasse de sua herdada antiguidade. No amor, acreditava, para um dia, talvez.</p>
<p><span id="more-32707"></span>Ele era casado e tinha olheiras. As olheiras eram de estudar até altas horas, não eram por causa de os olhos se abuticarem toda vez que ela surgia na sala de aula, se bem que os olhos dele se abuticavam, sim. Ele era um desses de quem se diz tardio. Já tinha mulher e filho, mas não estabilidade financeira.</p>
<p>Entre os dois, um desejo, e a idade média com sua inquisição e seus crucifixos. Não. Entre eles, só desejo, sem vontade. Entre os dois, não havia o se, a partícula da vontade. Por isso, o desejo era velado. Recíproco, mas inadmissível. Fizeram-se colegas inseparáveis, já era bastante para apassivar aquela atração cuja natureza era negada e renegada. Todas as noites, os dois conversavam muito sobre estudos, sobre trabalho, e conversavam muito pouco sobre a vida, essa coisa intocável, intransponível.</p>
<p>Acontece que às vezes se tem projetos e às vezes se sonha. Ele tinha um projeto e, para realizá-lo, era imprescindível não saber que sonhava. Ela era o sonho dele, mas ele não sabia disso, nem ela tampouco. Só eu sabia, porque eu tinha olhos para ver, só eu guardava o segredo dos dois. Eu achava lúdico guardar um segredo alheio, desconhecido pelos seus donos, achava leve e lindo proteger aquele segredo.</p>
<p>O projeto dele consolidou-se na real. As coisas aconteceram como planejadas. O casamento dela, anos depois, teve pompa, circunstância, pais e avós, primos e amigos, flores, fotos, música, lua-de-mel, bem-casados, teve até eu, mas não teve ele. Os dois tinham perdido o contato depois da faculdade. Ela ouvia falar dele, de vez em quando. Ele ficara mais ou menos famoso. Ela teve filhos, dois. O dele cresceu um pouco. Ele não ouvia falar dela, talvez nem a identificasse nas notinhas em colunas sociais. Para o mundo, ela trocara o nome da avó pelo sobrenome do marido. Perdera um pouco da antiguidade, e com a antiguidade perdida, eu percebia, tinha ido um pouco do brilho também. Os cabelos dela foram cortados.</p>
<p>Essa história foi ficando pequena aqui no papel. Tão pequena, que nem dá mais vontade de contar. Mas os dois não se apequenaram, foram vivendo, cada um por si, e viver é muito. A vida não é coisa pequena e, além do mais, até onde sei, eles continuaram com a mesma mania de ter opinião.</p>
<p>E se&#8230; Eu sempre me perguntei o que teria acontecido se eles tivessem experimentado a latência. Se eles tivessem vivido em estado de pêndulo, se tivessem sabido o que era um ser de vida oscilante, um ser cujo corpo se apropria da temperatura do meio. Mas o se é sempre uma hipótese, pela qual nem todas as pessoas se deixam levar. Eles, creio eu, permaneceram apassivados porque se mantiveram longe do se.</p>
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		<title>Existências, as outras</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jun 2011 18:22:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Como outras existências, mas em uma vida só. Assim espero as outras que serei, às vezes. Só às vezes dou de esperar. É quando não entendo. Aí, espero, para entender ou só para aceitar, sem precisar entendimento. Aceitar faz parte deste apego à existência, deste aferrar-se. Mas mesmo obstinando-me em existir, às vezes careço de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/labirinto.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-32206" title="labirinto" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/labirinto.jpg" alt="" width="372" height="284" /></a></p>
<p>Como outras existências, mas em uma vida só. Assim espero as outras que serei, às vezes. Só às vezes dou de esperar. É quando não entendo. Aí, espero, para entender ou só para aceitar, sem precisar entendimento. Aceitar faz parte deste apego à existência, deste aferrar-se. Mas mesmo obstinando-me em existir, às vezes careço de respostas. “Não há portas, e te achas dentro”, disse um poeta. Pois é, o labirinto. As pessoas que serei atravessam labirintos, sempre. E dentro do labirinto, outras pessoas que também são eu metem-me medo. Ameaçam, talvez não a mim, mas a pessoa que quero ser. A pessoa que quero ser, essa é a mais esperada, a pessoa desejada. Quando conseguirá sair do labirinto, quando conseguirá percorrer-me?</p>
<p><span id="more-32200"></span>Quem é essa pessoa, quem é a esperada? Por que a espero? Ela será capaz de me apaziguar? Ou será apassivadora de mim? As perguntas ficam doendo dores de parto. Eu me contraio, o labirinto também. Ele, o labirinto, é feito de paredes que se apertam e se alargam, é feito de sístole e diástole. Pronto! O labirinto é um coração. O meu coração é um labirinto. É por ele que as pessoas trafegam, as outras que serei. Eu mesma também me penduro nele, feito pêndulo.</p>
<p>O Pêndulo é a espera. Esperar, esperar, às vezes a gente se angustia por não ir a lado nenhum, mesmo indo a todos os lados. Isso não trará redenções, nem epifanias. Acabará se resolvendo no humano, demasiado humano.</p>
<p>E humanos, somos fragmentados demais, como se algum deus um dia nos despedaçara e jogara nossos pedaços dentro de um rio. Pois a vida é a procura de juntar esses pedaços, uma procura vã, porque jamais os acharemos todos. Jamais haverá a completude tão desejada. Mesmo assim, haverá a espera. O desejo pela pessoa que virá a mim e que sou eu. Quero esperar acordada, estar de olhos bem abertos quando tiver de reconhecer-me.</p>
<p>É, mas pode ser que eu não me reconheça, nem sempre é fácil estar diante de si mesmo. Se eu não for a pessoa radiante, a pessoa esperada, cairei na tentação de fugir de mim? Fugirei daquilo que há tanto espero? Mas esta não era a esperada, nem a desejada. Esta sou eu, uma de mim, justamente aquela com quem eu não queria me encontrar por enquanto. “Não há portas, e te achas dentro.” De quem? De ti mesmo. É dentro de nós que nos achamos, e isso é dizer o óbvio, mas, nem sempre nos permitimos encontrar-nos. Estamos perto demais de nós mesmos, para sermos reconhecidos, perto demais para sermos alcançados.</p>
<p>Mas saídas, sempre as há, correntezas. Temos em nós o masculino e o feminino. O masculino é o corpo despedaçado pelo deus. O feminino é a alma que procura os fragmentos do seu corpo, ao longo do rio onde foram jogados. Ela junta quase todos os pedaços e transforma o corpo em outro que, de qualquer maneira, é ele, o antigo: um novo masculino, vindo à luz por arte feminina.</p>
<p>E a nós mesmos, ao que fomos, ao que somos, nos apegamos. À existência nos apegamos. Entendemos? Aceitamos.</p>
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		<title>A paz impaciente</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 18:46:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Para Márcio
A paz que conheço e sei que a um só tempo me espreita e está dentro de mim é uma paz masculina e espaçosa. Não tem timidez, nem limites, ela avança entre sombras e desvãos, subverte esconderijos. É de uma alegria indecente a paz que chamo de minha. Tem uma língua afiada, me diz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/mandala.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31840" title="mandala" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/mandala.jpg" alt="" width="320" height="320" /></a></p>
<p>Para Márcio</p>
<p>A paz que conheço e sei que a um só tempo me espreita e está dentro de mim é uma paz masculina e espaçosa. Não tem timidez, nem limites, ela avança entre sombras e desvãos, subverte esconderijos. É de uma alegria indecente a paz que chamo de minha. Tem uma língua afiada, me diz verdades, as verdades dela. As minhas, ela as ouve e entende. É uma paz compreensiva e acolhedora e do muito que me dá, só uma coisa me pede: quer ser vivida. Tento contentar a minha paz contente. Tento fazê-lo assim, com palavras que se vão despindo, feito a mesma paz que lhes despe.</p>
<p><span id="more-31838"></span>A minha paz tem um tanto de placidez, mas não é tanto assim. Tem algo de chuvosa, a minha paz é chuva, são pingos, gotas que me revolvem. Quer o seu lugar ao sol e o seu lugar no escuro, quer ser luz de candeeiro. É candeia. É o seu próprio combustível. Pois, pois, a paz queima também, quem o diria?</p>
<p>Quando menos espero, vem a paz e amacia o meu ser ambíguo, o meu ser movido a esperas e outras faltas. Ela tem gosto de desamparo, de descampado, de intempérie. É que, desta paz, a gente não se apazigua sem antes sentir o gosto das coisas aflitas. Mas eu me apaziguo toda, eu me aninho nesta paz matreira. Eu me amplio, me alargo, me extremo nos infinitos, “não peço delícia melhor. Mergulho nisso como num mar”.</p>
<p>E porque existe esse tipo de paz, a gente às vezes aceita o risco e até a dor. Não tem de haver dor, mas a gente aceita a possibilidade dela, só para ganhar essa paz aguda, que nos tira do sério e nos faz gargalhar. Invade-nos o coração, o destino, “ como se o vento de um tufão/Arrancasse meus pés do chão”.  É essa paz invasiva o alimento dos teimosos, dos que pelejam pelo deus escorregadio chamado felicidade. Por isso, a paz só podia ser peleja, mesmo sendo a peleja o oposto da paz.</p>
<p>Buscar a serenidade e fazer-se recipiente dela, agarrar a serenidade e deixar-se tomar por ela, é essa a arte de serenar-se. Uma arte tão fina quanto as outras, para a qual também são precisos talento, apetite e vontade. Serenada eu só fico quando muito me apuro, e é bom apurar-se, sentir as próprias destilações.</p>
<p>A paz me amacia, mas também me aguça. A minha suavidade, bem o sei, é pontiaguda. Meus sentidos, todos os muitos, atentos na calma, tornam verdadeiro o meu estar no mundo. Ser-me e estar-me aqui, em mim, sentindo, isso me guia por veredas e escolhas. Disto me faço: sentidos. Para ser feita, preciso de serenidade.</p>
<p>Para ser feita, preciso do homem que é a minha paz. Eu o chamo namorado, marido, amor. A paz dele vira a noite comigo e me prefere, entre as coisas. Escolho e sou escolhida, feito quem aceita destinos, feito uma noiva. “Enfrentei furacões com meus vestidos claros”, com meus vestidos cor de rosa e carvão. Mas, como noiva imperfeita da calma, não visto o branco, antes me dispo para a paz, pois a cor da serenidade é a cor da nudez.</p>
<p><span style="color: #3366ff;">Este texto contém citações de Walt Whitman, Gilberto Gil e Iracema Macedo. Contém também o título de um disco de Marisa Monte. </span></p>
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		<title>Truques para escrever mal</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 14:32:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Luís Antônio Giron
Aprenda a melhor técnica para levar vantagem na literatura, na academia e até na vida.
aqui
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Luís Antônio Giron</strong></p>
<p>Aprenda a melhor técnica para levar vantagem na literatura, na academia e até na vida.</p>
<p><a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI237446-15230,00-TRUQUES+PARA+ESCREVER+MAL.html" target="_blank">aqui</a></p>
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		<title>O perdão, essa liberdade</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-perdao-essa-liberdade/</link>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 20:55:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
&#8220;Sun and Life&#8221;, Frida Kahlo (1947)
Foi de uma amiga que ouvi pela primeira vez há uns bons anos: só quando você perdoar, vai se livrar da dor. Lenta, passei um tempo entendendo, precisando perdoar. É preciso livrar-se da necessidade de perdoar. E para isso, só tem um jeito, é como a história da tentação: ceder, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/fridakahlo3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31246" title="fridakahlo3" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/fridakahlo3.jpg" alt="" width="446" height="354" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #3366ff;">&#8220;Sun and Life&#8221;, Frida Kahlo (1947)</span></p>
<p>Foi de uma amiga que ouvi pela primeira vez há uns bons anos: só quando você perdoar, vai se livrar da dor. Lenta, passei um tempo entendendo, precisando perdoar. É preciso livrar-se da necessidade de perdoar. E para isso, só tem um jeito, é como a história da tentação: ceder, sucumbir ao perdão. Só assim nos livraremos dele, e também da mágoa, da dor e do veneno que guardamos enquanto não conseguimos perdoar. Ceda ao perdão, sempre que puder. Nem sempre se pode, mas a falta de perdão só faz mal a uma pessoa: a quem não o dá.</p>
<p><span id="more-31244"></span> O perdão não é uma atitude generosa, mas necessária ao seu bem estar. E perdoar não significa que você vá passar a andar de mãos dadas com quem lhe ofendeu. Significa apenas que você vai livrar-se. Da dor, da mágoa, do veneno e&#8230; Por que não da pessoa que, querendo ou não, lhe causou esse processo nefasto?</p>
<p>Perdoar é coisa difícil. No mais das vezes mentimos quando dizemos ter perdoado rapidamente uma ofensa sofrida. O perdão é um processo, um processo de perder-se um pouco, deixar sair de si sentimentos como orgulho, vaidade, egocentrismo que, afinal, são um pouco (ou um muito) de nós. O perdão, disse alguém, é uma perda grande. É. É assim que deve ser considerado. Dependendo da mágoa, perdoar dura dias, meses, anos. Quando se completa, liberta esplendorosamente. É uma epifania esse tal de perdoar.</p>
<p>Mas não se pode mentir, fingir que perdoou. Senão a mágoa fica dentro de nós, intocada e intocável, já que fingimos sua inexistência. E mesmo intocada, ela nos munirá de farpas, as quais distribuiremos aos outros, não necessariamente (apenas) a quem nos magoou.  E aí, acontece o terrível, o verdadeira e dolorosamente terrível: a amargura.</p>
<p>Nem sempre as pessoas magoam as outras por querer. Aliás, penso que na maior parte das vezes magoamos e somos magoados não de forma voluntária, mas porque há um movimento do mundo e da vida, um movimento cósmico que nos dispõe perante os outros, de modo a fazê-los felizes ou infelizes, mesmo sem dependência de nossa vontade. Na maior parte do tempo, cuidamos da nossa vida, e esse cuidar acaba machucando uma terceira pessoa, que não tem nada a ver com a nossa história. Não nos direcionamos a magoar outrem, mas, às vezes, magoamos.</p>
<p>O perdão fica mais fácil quando a gente sabe que alguém nos magoou sem querer? Não creio. O perdão depende da fundura da dor. E às vezes, mesmo sem querer, magoamos muito. Sem querer não significa sem saber. Às vezes, no cuidar da nossa vida, sabemos que vamos magoar alguém, embora as nossas ações não tenham absolutamente nada a ver com aquela pessoa. E às vezes, para não magoar outrem, optamos por nos machucar. Mas o nosso instinto de sobrevivência e a nossa preferência por nós mesmos, pela nossa preservação, tornam essa situação raríssima.</p>
<p>Acontece também de a gente magoar quem está perto, quem amamos. E esse magoar é inevitavelmente duplo. É impossível ferir que amamos sem nos ferir. Por essas e outras, perdoar-se, aprender a dar-se perdão, é um bom começo de cura.</p>
<p>Perdão é epifania. É felicidade profunda, libertação. Perdoar é doar, mas tem algo de receber também. Não é generosidade. É precisão da gente.</p>
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		<title>Escrita e conforto</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Apr 2011 21:25:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Escrever não me dá conforto. Dá-me um bocado de outras coisas, mas conforto, não. Agora mesmo estou escrevendo e tem coisas gritando. Escrevo e organizo os gritos, mas às vezes organizo mal. Eu não posso gritar quando estou escrevendo. Tenho de escrever compassada. De compasso e régua, se preferem. Incontáveis vezes não dou conta disso. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/04/hieroglifos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-30355" title="hieroglifos" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/04/hieroglifos.jpg" alt="" width="400" height="267" /></a></p>
<p>Escrever não me dá conforto. Dá-me um bocado de outras coisas, mas conforto, não. Agora mesmo estou escrevendo e tem coisas gritando. Escrevo e organizo os gritos, mas às vezes organizo mal. Eu não posso gritar quando estou escrevendo. Tenho de escrever compassada. De compasso e régua, se preferem. Incontáveis vezes não dou conta disso. Embora digam que a literatura é uma arte apolínea, eu não sinto assim. Acho escrever dionisíaco e, num sentido grego, infernal. Escrever é o meu inferno (no sentido grego, repito). Um inferno do qual já provei, comi a romã, portanto, não posso sair. Alguns textos me dão euforia, mas é passageira. Não me dão satisfação nunca. Sinto sempre que poderiam ser melhores.</p>
<p><span id="more-30352"></span> Se eu lidasse com o texto de olhos fechados, ficaria satisfeita com ele. “A vida é fácil de olhos fechados”, disseram os Beatles. Mas eu olho para eles de olhos bem abertos. Olho com olhos de absurdidade. E eles estão recheados de reticências nas entrelinhas. As reticências me inquietam. Era para me acalmarem, mas me inquietam e me dão uma sensação de vazio.</p>
<p>O que quero? Que o texto embriague. Que as palavras tornem pântano o que é seco e seguro. O que quero? Que o texto abisme. Que me acosse e me expulse de si. Que não me queira com ele. Que se livre de mim. Aí, eu teria conforto. Para mim, um texto só tem sentido por ele mesmo, e sozinho.</p>
<p>Eu quero ser separada do texto por uma ruptura, por um corte na raiz. Sair do texto completamente não é negá-lo, nem negar-se. Ao contrário. Sair do texto é fazer com que ele exista. Por isso, não me sinto confortável enquanto o texto está em mim e eu nele. Escrever é romper, e nenhum rompimento se faz sem dor. Preciso renunciar a retê-lo (o texto), fazer isso com palavras. Porque o texto tem uma independência que precisa ser reconhecida. Se não a reconheço, o texto trava. Acho sempre que o texto trava. Acho sempre que estou atrelada a ele.</p>
<p>O que mais poderia me contentar num texto seria a distância entre mim e ele. Seria o estranhamento que as palavras deslizantes poderiam trazer. É bem verdade que já houve textos assim. Poucos, de total desligamento. É nestes que me inspiro, não para imitar a mim mesma, mas para enveredar-me por uma escolha. Fixo seus suportes, externos aos meus. Posso mirá-los, arrisco dizer, até aprender com eles.</p>
<p>Eles vêm a mim como visitantes, não como filhos pródigos voltando à casa. Posso revê-los quase sem culpa de tê-los escrito, digo quase porque culpa é uma coisa que me é inerente, portanto sempre há um bocadinho dela em qualquer coisa que eu tenha feito. Mesmo separados de mim, quando os revejo tenho ímpetos de refazê-los. Mas esses independentes impedem-me. Quanto à maioria, submeto-os às mudanças pelas quais passo. Não são poucas, nem espaçadas.</p>
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		<title>Estas, as coisas:</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Mar 2011 15:04:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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aqui (imagem/Google)
Esta, a coisa: o ânimo. E se a gente se enreda na teia da palavra&#8230; Ânimo, ânima, alma. É isso o que falta, às vezes, quando a gente sabe o certo do fazer, mas não faz. É o ânimo que não chega. Sem ele, a gente é só corpo cansado, mesmo com a mente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Coisas-0.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-28920" title="Coisas-0" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Coisas-0.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p><a href="http://tormentoprive.blogspot.com/2009/01/as-coisas-tem-fim.html" target="_blank">aqui</a> (imagem/Google)</p>
<p>Esta, a coisa: o ânimo. E se a gente se enreda na teia da palavra&#8230; Ânimo, ânima, alma. É isso o que falta, às vezes, quando a gente sabe o certo do fazer, mas não faz. É o ânimo que não chega. Sem ele, a gente é só corpo cansado, mesmo com a mente e o espírito em ebulição. Falta o ato. Como Hamlet, falta a ação. E as coisas vão transcorrendo, sem contribuição nossa. Mas a nossa não contribuição é uma contribuição grande! Ação e omissão são irmãs siamesas.</p>
<p><span id="more-28910"></span> Da lista de coisas a fazer, escolhem-se as mais fáceis. Às vezes não se faz nem essas. Vai-se deixando. Vai-se vivendo suspenso. Mas as coisas começam a dar errado. Alguma luz acende, um alerta, não se dá atenção. O tempo passa, e mais avisos. Não se liga, não nos ligamos. Um belo dia a falta de ânimo para agir acaba nos encurralando. Agora, faça.<br />
Mas, tudo está perdido. Passada a hora de ser feito. O leite entornou e borbulha pelas superfícies, escorrendo como tempo fugidio. Foi.<br />
&#8230;<br />
Esta, a coisa: o tempo. Não se tem tempo para nada. Eu queria que o dia tivesse&#8230; Oitenta e duas horas. Quero tudo hoje e já. Mas não há tempo. Estou com a corda toda. Mas as horas relampejam. Ao mesmo tempo, tudo não dá. Mas não tenho mente para escolhas. Faço tudo mal feito, então. Tudo alinhavado, tudo sem sentir direito o gosto.  Tenho toda a energia do mundo.<br />
Só não tenho tempo para sentir. Porque sentir é coisa para vagares. Coisa para descanso, para desfrutes. Coisa que me rouba o tempo é o sentir as coisas.<br />
&#8230;<br />
Esta, a coisa: o sentir. A coisa perigosa, inidônea. A coisa assaltante, súbita, mas permanente. Sentir é feito destino. Tem de ter aceitação. Senão fica doendo, e só se sente é dor. E sentir não é só dor. Tem sentir outras coisas. Esperança é um sentir-se prolongado. Paixão é um sentir-se urgente, ansioso. Compaixão é um sentir-se irmanado.<br />
Há perdulários de sentir, espalham o sentir para todo lado. Sentem tudo, se envolvem com todos, absorvem alegrias e mágoas. Chegam às outras pessoas pelo lado de dentro, íntimos.<br />
&#8230;<br />
Esta, a coisa: intimidade. Os muito íntimos que me perdoem, mas um tanto de reserva é fundamental, até para preservar a própria intimidade, que é uma coisa precisando de tempo. Intimidade é vagarosa. A alma tem de ser astuta para pressentir quando a intimidade vale. E aí, fazer valer. Sei que ser astuto é uma coisa rápida, mas só às vezes, não nesse caso. Tem até de ter avareza com os bocados, no começo. O inteiramente precisa tempo. Intimidade de supetão violenta os mistérios. Os gozosos e os gloriosos.<br />
&#8230;<br />
Esta a coisa: ânimo de sentir-se íntimo do tempo.</p>
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		<title>A parte elástica da alma</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/a-parte-elastica-da-alma/</link>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2011 12:05:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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RESILIÊNCIA OU A PARTE ELÁSTICA DA ALMA
Há pessoas que têm a capacidade de suportar traumas violentos e, mesmo assim, refazer-se de modo a continuar suas vidas normalmente, passados tais choques. Diz-se que têm resiliência, palavra cuja definição migrou da física para a psicologia, e da psicologia para a vida, dando conta dessa elasticidade presente em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/03/resilience.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-27823" title="resilience" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/03/resilience.jpg" alt="" width="392" height="271" /></a></p>
<p>RESILIÊNCIA OU A PARTE ELÁSTICA DA ALMA</p>
<p>Há pessoas que têm a capacidade de suportar traumas violentos e, mesmo assim, refazer-se de modo a continuar suas vidas normalmente, passados tais choques. Diz-se que têm resiliência, palavra cuja definição migrou da física para a psicologia, e da psicologia para a vida, dando conta dessa elasticidade presente em alguns espíritos, que os faz voltar ao estado natural após o sofrimento, e seguir.</p>
<p><span id="more-27814"></span>Eu acho resiliência uma palavra linda. Aquilo que evoca também é admirável. Afinal, as pessoas mais preparadas para viver bem são justamente aquelas que lançam mão de sua maleabilidade para absorver os choques, e colhem das dores lições para encaminhar melhor suas vidas.</p>
<p>Claro que a elasticidade não é absoluta e também na física há um ponto máximo após o qual ocorre a ruptura. Há situações na vida de algumas pessoas em que o limite do suportável é rompido, e não há recuperação possível. Há outras situações nas quais, embora a vida continue, uma parte dela terminou por causa do sofrimento experimentado. Falo de situações muitíssimo violentas, como a perda de um filho, por exemplo.</p>
<p>A resiliência, porém, está presente nas pessoas, em maior ou menor grau. Há pessoas que não conseguem enfrentar choques, os quais, no entanto, outras pessoas superam facilmente. Somos diferentes, os humanos. E tudo que nos compõe é distribuído entre nós em porções desiguais. Uns choram à toa, com cena de novela. Outros nunca derramam lágrimas. Nossas suscetibilidades são ímpares, como nós mesmos.</p>
<p>Quem possui resiliência parte com vantagem pelas veredas do mundo. Suportar e, principalmente, superar os traumas com que a vida nos chicoteia nos faz mais fortes para as próximas adversidades. Conheço pessoas cuja vida é difícil, cheia de acontecimentos desagradáveis, e, no entanto, vão bordando seu aprendizado no tecido das próprias superações. E entre esses, há uns que colorem o mundo com seu otimismo.</p>
<p>Conheço também pessoas que têm depressão por causa de um pneu furado. Se a TV tem um problema, sentem-se os mais infelizes do mundo. Nada de pior lhes poderia acontecer. E há outros que chamam para si todas as desgraças das proximidades, como se eles fossem os protagonistas. Outros podem até agonizar, mas eles é que precisam de cuidados. Nada suportam, tudo lhes parece pesado demais. Eles próprios são a imagem da rigidez. Se sofrem, quebram-se.<br />
Navegadores antigos diziam frases gloriosas: “vão-se os anéis, ficam os dedos”, “deus dá o frio conforme o cobertor”. Essa última é até engraçada: parece que o seu destino depende de sua resiliência, que só lhe acontecerá o que você possa suportar.</p>
<p>Não é assim: as coisas acontecem e, dependendo da nossa resiliência, vamos suportando, aprendendo e superando, ou não. Às vezes rompemos, nos desfazemos de vez; às vezes os próprios traumas nos ensinam a superá-los. Nesse aprendizado, um ser feliz é a ostra, cuja superação tem o nome de pérola. Taí: pérola é uma palavra mais bonita que resiliência. Há mesmo, creio eu, uma evolução entre resiliência e pérola, uma evolução entre espécies diferentes.</p>
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		<title>Do amor e de requintes</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Feb 2011 20:17:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pois eu ando me requintando. Aí, vêm os espinhentos dobrando-se e se enroscando de rir, para dizer que requintes não combinam comigo. Dizem que não combina comigo esse dizer que é não dizer. Dizem que requintar-se é andar etiquetada. Pois eu digo que não é, nunca gostei de rótulos. Requinte é outra coisa, é até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pois eu ando me requintando. Aí, vêm os espinhentos dobrando-se e se enroscando de rir, para dizer que requintes não combinam comigo. Dizem que não combina comigo esse dizer que é não dizer. Dizem que requintar-se é andar etiquetada. Pois eu digo que não é, nunca gostei de rótulos. Requinte é outra coisa, é até parecido com pudor, é uma coisa íntima, pessoal.</p>
<p><span id="more-27258"></span>Mas não é intimidade. É uma coisa árvore, crescendo e dando folhas, mas dentro. É uma coisa paralela ao convívio, e se encontra com ele no infinito.</p>
<p>Dos meus requintes entende o amor. O amor é o único que me olha por dentro, surpreende vilanias, revela incorreções, matérias-primas dos requintes. É o único a perceber que em mim a felicidade tem um efeito estranho: ela me deixa descampada.<br />
Antes do requinte, experimenta-se intensa náusea. O amor pressente os meus engulhos diante das ordenações do mundo. O amor enlaça os meus sussurros.</p>
<p>Para uma pessoa cuja definição bem poderia ser feita com uma só palavra, o adjetivo tardia, não é de surpreender que o requinte me chegasse tarde. Todas as coisas para mim chegam sempre depois, mas vêm. Por essas coisas da vida, sempre me senti tardia, demorada. E se isso já alguma vez me angustiou, com o tempo concluí que, graças às demoras, posso esperar muitas vindas. Ainda e sempre.</p>
<p>O amor também me chegou tarde, abrasando-me como uma revoada de sóis. Por suas demoras, entende-se com os meus requintes tardios. Entende-se com os meus revolvimentos, com as reticências cultivadas, e até com receios. Aliás, sempre foi do amor esse entender-se com receios.</p>
<p>O amor me faz melhor, mas isso não acontece da noite para o dia. Para o amor, querer ser melhor é só um dos começos. Para o amor tento requintes. Sabem quais são os requintes para o amor? Algo “para enfeitar a noite do meu bem”, esse bem demorado para quem toda a ternura foi guardada no olhar.</p>
<p>Requintes não são coisas de se gritar aos quatro ventos, mas em versos. “Cerca de grandes muros quem te sonhas”, disse o fingidor, fingindo completamente. Não há requintes ostensivos, ostentam-se apenas arremedos de requintes. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir e coração para sentir, saberá dos requintes.</p>
<p>Requintar-se é um não deixar-se absorver pelas rotinas, um não deixar-se sugar pelo sorvedouro do lugar comum. Um não ir com os outros, sem mais nem menos. É um sentir a realidade com o corpo, um compreender o sentido. “&#8230;E comer um fruto é saber-lhe o sentido”. Todos comem os frutos, poucos lhe sabem os sentidos. Mas se me requinto é porque pus um sentido no próprio requintar-se: melhorar o texto e a vida.</p>
<p>Pois estou me requintando, repito. Não riam, estou sonhando requintar-me. “E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões&#8230;”. Assim como o requinte, o sonho é uma coisa íntima, mas não é a intimidade. Pode até ser revelado, mas só o sonhador sabe o quanto o sonho lhe atravessa a realidade. E só o sonhador e o amor sabem como o requinte vai bordando a alma.</p>
<p><span style="color: #3366ff;">(Citações: Dolores Duran e Fernando Pessoa) </span></p>
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		<title>A estrela oculta</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Feb 2011 23:12:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“O nada era sem dúvida mais cômodo. Como é difícil dissolver-se no ser.”
E.M. Cioran

- A grande verdade lhe será revelada. Para isso, basta obedecer. O caminho seguro será seu. Para isso, basta concordar. Mas, o que é a verdade? Mas, o que é o caminho? O que é a vida?
Coisa que endoidece: buraco negro. Endoidece [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“O nada era sem dúvida mais cômodo. Como é difícil dissolver-se no ser.”<br />
E.M. Cioran</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/02/maya.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-26722" title="maya" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/02/maya-520x383.jpg" alt="" width="520" height="383" /></a></p>
<p>- A grande verdade lhe será revelada. Para isso, basta obedecer. O caminho seguro será seu. Para isso, basta concordar. Mas, o que é a verdade? Mas, o que é o caminho? O que é a vida?</p>
<p>Coisa que endoidece: buraco negro. Endoidece porque encobre. O que encobre? Verdades? A verdade não existe, nem as verdades. Tudo é Maya, ilusão.</p>
<p><span id="more-26718"></span>Tudo é Maya. A força desmedida do nada absorvendo tudo. O nada não tem comedimentos. Para ele escrevi versos que agora se dissolverão em prosa, como se tivessem sido tragados: vem vindo o vento do nada/bebendo as almas no céu/não vi o dentro do nada/nem vi o nada de mim/mas sei que o guardo, grave, sedento/bebendo os claros que penso/vem vindo o vento faminto/por sobre a horta de estrelas/talvez outros nadas comporte/como as bonecas russas/têm a seqüência de si/só sei que irrompe vontades/ronda cerca impõe avança/o nada é o avesso do medo&#8230; Trará em si enfim a inatingível calma,/a explicação do sombrio assombro/que nos desola e abandona e no entanto/para sempre pediremos tanto?<br />
Se o nada respondesse à pergunta que fermenta os nossos nadas, bailaríamos então,felizes fumaças?</p>
<p>Quem, alguma vez na vida (nem que tenha sido uma só), não desejou estar face a face com um buraco negro? Ver é pouco. Quem não teve vontade de entrar em um deles, ser engolido, testar se o negócio desintegra mesmo tudo o que dele se aproxima? Testar o nada absoluto e insondável? Talvez, como da morte, não pudéssemos voltar, para contar os segredos que desvendaríamos. Mas, quem se interessaria por nossos segredos, além de nós?</p>
<p>E se as cidades continuassem, dentro dos negros buracos, com seus botecos, cinemas, chatices, hipocrisias, embates, soberbas? Tudo como costuma ser, só que no centro da gravidade invisível? E se a gente encontrasse aqueles mortos antigos, aqueles por quem os nossos sinos nunca deixaram de dobrar? Estariam todos eles reunidos, em torno de uma mesa, em um ágape pelo qual vivemos só para esperar? E se nós continuássemos?</p>
<p>E se pudéssemos tudo, já que o tudo estaria no nada, e nós com ele? Se tudo pudéssemos, desejaríamos não poder? Diante de toda potência, enjoaríamos?</p>
<p>Para nós, para nós que nada somos, além de presas fáceis dos nossos próprios dilúvios, toda resposta possível está no escuro. No buraco-negro, na estrela oculta. A estrela cujo brilho é para dentro. Toda resposta está em Maya, a deusa do véu, aquela que tudo encobre, aquela que o nada revela.</p>
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		<title>Da natureza dos versos</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Jan 2011 11:35:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como um poema muitas vezes fustigado, e todo poema sofre de açoites, também eu limei as unhas e os sentidos, aparei as arestas de mim, arranquei adornos e rompi com a segurança de ser correta. Também eu fui à intempérie com gosto e gás, desidratei, finquei amor em pedra.
Como um poema à procura do extravio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como um poema muitas vezes fustigado, e todo poema sofre de açoites, também eu limei as unhas e os sentidos, aparei as arestas de mim, arranquei adornos e rompi com a segurança de ser correta. Também eu fui à intempérie com gosto e gás, desidratei, finquei amor em pedra.</p>
<p><span id="more-25816"></span>Como um poema à procura do extravio, e todo poema busca extravio (qualquer que seja), também eu escapei da melodia, também eu fui delituosa com o ritmo. La Traviata. Um poema transviado escrevi.</p>
<p>Como um poema que não é paliativo, e nenhum poema palia, eu também esconjurei mentiras, desnudei verdades. A coisa veio nua e crua, exposta, nervo puro, o poema com versos em pulsação.<br />
Fui como um poema: espiando-me por dentro, expiando-me. Fui como um poema, sim. Poemas são ex-votos. Imitei a minha alma em gesso. Imitei sua forma com palavras: poema, promessa, penitência, redenção.</p>
<p>Como um poema andante eu caminhei por veredas santas: Jesus alegria dos homens, caminho de Santiago, encruzilhadas dos deuses trapaceiros, Cronos: o poema engolindo a si mesmo, engolindo-me.</p>
<p>Que fazer para tornar-me distinta e sem angústia como um poema cerebral? Não sei fazer sequer um desses poemas, que dirá&#8230; Tornar-me um deles. Andei noites de água terra fogo e ar para chegar-me&#8230; Ao poema. Distinta e sem angústia&#8230; Hum, hum. Quem me diria uma dama? Ora, vamos. Vamos?</p>
<p>Como um poema cantante voando em bando, fugi de baladeiras, de espingardas. Aqui, acolá, fui atingida e caí, pronta para ser dissecada. Pronta para ser consumida. Mas fui revolvida na terra, e só. A morte bastava aos matadores, mas não a mim. Só a ressurreição me interessava, como as palavras virando versos.</p>
<p>Esquivei-me, todo poema é esquivo. Todo homem, toda mulher tem um dia na vida para esquivar-se de si mesmo, diz um poema não escrito. Jurei escrever esse poema esquivo, esse poema com versos de fuga, e o farei um dia. Como todo poema, faço promessas vãs, porque a vida, que é a vida, também é vã.</p>
<p>A natureza dos versos, qual é a natureza dos versos? A suavidade? A parca permeabilidade das palavras em estado de soltura? A fúria? O fervor? A doçura? A morte? Nada disso é da natureza dos versos e tudo isso o é. A natureza dos versos é a natureza do mundo, as naturezas do mundo, pois não?  A minha e a tua naturezas.</p>
<p>Luz e sombra, morte e vida. Todo poema é contradição. Perjuro, todo poema é perjuro como os homens o são quase sempre. Todo poema peca, como eu e tu. Todo poema é pecado, quando cometido, escrito.</p>
<p>Todo poema é desmanche, eu também me desmanchei em palavras para ser verso. E reverso.</p>
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		<title>A parte fosca da poesia</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/a-parte-fosca-da-poesia/</link>
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		<pubDate>Wed, 22 Dec 2010 18:21:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Prefiro da poesia a sua parte fosca, pois é pura vida em estado de palavra. Pura palavra em estado de vida.
A parte fosca da poesia está embebida em cânfora. Ela me pega pelo olfato. Ela me aclimata. Qualquer espécie de fim me dá ânsias de desespero, mesmo os fins que se afiguram transitórios. Um fim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prefiro da poesia a sua parte fosca, pois é pura vida em estado de palavra. Pura palavra em estado de vida.</p>
<p>A parte fosca da poesia está embebida em cânfora. Ela me pega pelo olfato. Ela me aclimata. Qualquer espécie de fim me dá ânsias de desespero, mesmo os fins que se afiguram transitórios. Um fim transitório é uma contradição dos diabos. A parte fosca da poesia é o símbolo; não tem fim, ao contrário, o símbolo é a origem da poesia.</p>
<p><span id="more-25385"></span>A parte fosca da poesia é um corpo deitado de costas, e um corpo deitado de costas pode estar morto, mas sonha. Todo sonho é fosco, água baldeada molhando pernoites.</p>
<p>Quando a felicidade nos trai com seus fardos de culpa (e a felicidade sempre nos trai com seus fardos de culpa), é melhor procurar refúgio na parte fosca da poesia. Ou no futuro, porque você e o futuro, é certo que se encontrarão. Se você irá ao seu encontro ou ele virá até você, depende mais de você do que dele. O futuro é fosco.</p>
<p>Pois é, o fosco é o incerto, às vezes o imponderável. A incerteza impulsiona e estimula e, por isso, dei de gostar do fosco de tudo. Porque sou alguém desejante, muito, desmesurada em desejar, e sei do perigo da dor. Quanto mais se deseja, mais se está perigando, exposto à dor. O fosco é a incerteza, aquilo que chama você à lembrança da relatividade. Não para você deixar de desejar, mas para cuidar das satisfações. As satisfações são a parte fosca, o amor é satisfação e é fosco. O amor é sempre incerto, imponderável, carente de cuidados.</p>
<p>De tudo o que é fosco, gosto. Alguns me dizem que ficam acometidos de uma tal melancolia inexplicável que lhes chega sempre nos finais das tardes de domingo. Compreendo-lhes a melancolia, não pelos domingos, mas pelos fins. Compreendo a infinda tristeza dos fins, de qualquer fim, até dos fins de tarde. Mas tento me acometer das próprias tardes a terminar, que também são foscas. Aí atravesso a melancolia, caio na noite.</p>
<p>À noite, quando há lua clara, desce a deusa Hécate, a senhora lua. Dizem que ela guia demônios e essas noites de lua clara podem ser aterradoras, mas, eu, por mim, prefiro (“os caminhos que levam às valas/cheias de mato onde em lamaçais/já meio secos meninos apanham/ alguma esquálida enguia&#8230;”) pensar que ela é fosca, pois a lua, mesmo clara, nunca deixa de ser fosca. A parte fosca da vida é uma mulher desejando limpar o mundo. Limpar é o desejo mais incerto, o lixo se multiplica pelas ruas, pelas coisas, pelas almas. A poeira “redemunha”. Hécate revive na mulher que limpa o mundo e depois dorme ao relento, à intempérie. Essa mulher é fosca, as mulheres são foscas. Como tudo o que é vigiado e não compreendido, andam as mulheres a inventar artimanhas de esquiva. Limpar o mundo é uma artimanha e Hécate é deusa de artimanhas, no que se irmana com o “três vezes grande” Hermes Trimegisto. E eu penso na deusa como uma condutora de almas, uma fosca condutora de almas nas noites foscas das quais descende a poesia.</p>
<p>P.S. Os versos entre parênteses são de Eugenio Montale.</p>
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		<title>Orquidário ou relicário?</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/orquidario-ou-relicario/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Dec 2010 23:01:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
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As orquídeas nunca foram o meu forte. Enquanto a minha Joana cultivava rosas, jasmins e lírios, eu cultuava cactos. Eu era caatingas e descampados e em mim a vegetação chegava a agonizar, só voltando a rebentar graças à sua natureza de fênix. Desde sempre cumpri ritos de secura, aprontei-me toda para a inevitável aridez. Aprendi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/12/XIQUE-XIQUE.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-24748" title="XIQUE XIQUE" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/12/XIQUE-XIQUE.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>As orquídeas nunca foram o meu forte. Enquanto a minha Joana cultivava rosas, jasmins e lírios, eu cultuava cactos. Eu era caatingas e descampados e em mim a vegetação chegava a agonizar, só voltando a rebentar graças à sua natureza de fênix. Desde sempre cumpri ritos de secura, aprontei-me toda para a inevitável aridez. Aprendi palavras esturricadas para tecer fala e escrita. A sina das minhas palavras foi e é (cada vez mais) o esforço de romper.</p>
<p><span id="more-24747"></span>As orquídeas eu conheci no mais tarde. E olhava sua beleza sem aproximar-me, sem ter vontade delas. As orquídeas e o seu veludo eram infensos às minhas mãos e às minhas palavras e eu também não ouvia suas vozes. Eram quiçá as tais “Vozes veladas, veludosas vozes,/Volúpia de violões, vozes veladas&#8230;”. Vagavam, talvez, “nos velhos vórtices velozes/dos ventos,vivas, vãs, vulcanizadas.” Ah, mas se Cruz e Souza é pura água e seus versos banham a madrugada, não deixarei hoje de regar as orquídeas.</p>
<p>Essas flores me arrancavam menos suspiros do que os versos de Cruz e Souza, até que, um dia, uma delas entrou na minha vida subitamente, pelas mãos do semeador. Uma florada orquídea branca na ponta de um caule arqueado que, só de estar nas mãos dele, já me fazia olhá-la duas mil vezes e reverenciá-la, pois ela possuía as mãos do homem, o lugar do qual eu queria me apossar. Meu primeiro sentimento real por uma orquídea foi a inveja. E a flor era para mim. O semeador entregou-me uma não-palavra: a orquídea branca. Minha e dele, a orquídea branca era uma não-palavra compartilhada, uma não-palavra em comunhão com as minhas palavras esturricadas. E eu, que estivera pronta para toda aridez, vi-me ali, pasmada diante da floração. Aflorando também, aprendendo que o silêncio demora, que a espera pela floração do silêncio é uma lapidação da alma.</p>
<p>A paixão é de todos os sentimentos o mais indigente. Ai, como é pedinte!  A paixão é filha da penúria, mas também é neta da astúcia e, portanto, a paixão é mulheril. Pois feita de paixão eu pedi e ganhei umas não-palavras amadurecidas nos estendedouros da alma: quem ama extasia os sentidos de quem é amado. De paixão pedi as não-palavras atávicas: na tua pele a minha se depura. De paixão eu quis sentir as não-palavras levedadas: em ti se expande o insondável.</p>
<p>Eu não sou orquídea, nem sou silêncio, mas conheci nas não-palavras que me foram dadas um modo a mais de ter pátria, de percorrer funduras e planícies. Conheci nas não-palavras um modo de floração. As orquídeas afloraram nos meus escritos, entrelinhas silenciosas sem as quais o escrito vira deserto, contrapontos que equilibram as minhas esturricadas palavras. As orquídeas são o silêncio, esta pátria que me livra do degredo.</p>
<p>Sim, eu cultuo ainda cactos armazenadores de memórias e delicadezas obscuras, cactos armazenadores de palavras, mas as orquídeas adoçam a minha boca porque são o mel do semeador. Palavras as orquídeas não são, nem retém palavras, mas (que o diga o príncipe da Dinamarca); palavras, palavras, palavras: úmidas ou esturricadas, nem sempre a gente precisa delas.</p>
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