﻿<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Substantivo Plural &#187; Carmen Vasconcelos</title>
	<atom:link href="http://www.substantivoplural.com.br/author/carmen-vasconcelos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.substantivoplural.com.br</link>
	<description>Cultura, Idéias e Informação</description>
	<lastBuildDate>Sat, 31 Jul 2010 02:03:13 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>Não é sempre, mas acontece</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/nao-e-sempre-mas-acontece/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/nao-e-sempre-mas-acontece/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 17:59:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Montale]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=20095</guid>
		<description><![CDATA[NÃO É SEMPRE, MAS ACONTECE
Escrevi acima um dos versos que mais gosto de lembrar. É de Eugenio Montale. Gosto desse verso, ele fala das coisas raras e eu gosto das coisas raras, elas me dão uma sensação de sagrado. As coisas que não acontecem sempre, mas acontecem, sem “cerimônia ou maravilha”, e podem acontecer a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/07/montale.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-20099" title="montale" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/07/montale.jpg" alt="" width="183" height="196" /></a>NÃO É SEMPRE, MAS ACONTECE</p>
<p>Escrevi acima um dos versos que mais gosto de lembrar. É de Eugenio Montale. Gosto desse verso, ele fala das coisas raras e eu gosto das coisas raras, elas me dão uma sensação de sagrado. As coisas que não acontecem sempre, mas acontecem, sem “cerimônia ou maravilha”, e podem acontecer a qualquer momento. Poemas, por exemplo. Às vezes, os poemas acontecem, e não é sempre.</p>
<p>Às vezes eu faço poemas. Quero dizer, os poemas me fazem. Não é sempre, mas com eles aprendi algumas coisas. A proteger a sutileza com garras, portas e escuridões, mas nunca perdê-la. Os poemas têm um respeito espantado pelas coisas do mundo. Com eles aprendi a reverenciar o assombro.</p>
<p><span id="more-20095"></span>Com os poemas aprendi a não temer (muito) esgarçar-me, puir-me. Aprendi a perder palavras para o mundo, sem estridência. Aprendi a não fazer incisivas afirmações, a não declarar nada de modo irreversível. Os poemas não prescindem de voltas e recomeços. Um poema de verdade se renova a cada leitura que fazemos dele.</p>
<p>Gostaria de fazer poemas como esses que se renovam a cada leitura. Como “A Gralha Negra em Tempo de Chuva”, de Sylvia Plath. Eu já li vezes sem conta, mas ultimamente tenho descoberto cada vez mais coisas nele. Esse poema tem sido a minha leitura mais desconcertante desafiante surpreendente.</p>
<p>Peço-vos, então, licença para transcrever “A Gralha Negra&#8230;” e desejo a vocês uma leitura tão assombrosa quanto a que faço cada vez que o encontro na “paisagem no interior dos meus olhos”:</p>
<p>“Lá no alto, num ramo firme/arqueia-se uma gralha negra toda molhada/arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva./Não espero qualquer milagre/nem nada/que venha lançar fogo à paisagem/no interior dos meus olhos, nem procuro/mais no tempo inconstante qualquer desígnio/mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,/sem cerimônia ou maravilha./Embora – admito-o – deseje/ocasionalmente alguma resposta/do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:/uma certa luz pode ainda/surgir incandescente/da mesa da cozinha ou da cadeira/como se um fogo celestial tornasse/seu, de um instante para outro, os mais estranhos objetos,/assim consagrando um intervalo/de outro modo inconseqüente/por nos dar grandeza e glória/ou até amor. De qualquer modo, caminho agora/atenta (pois isso poderia acontecer/mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,/mas astuta, ignorante/de que um anjo se decida a resplandecer/repentinamente a meu lado./Apenas sei que uma gralha/ordenando suas penas negras pode brilhar/de tal maneira que prenda a minha atenção, erga/as minhas pálpebras, e conceda/um breve repouso com medo/da neutralidade total. Com sorte/viajando teimosamente por esta estação/de fadiga, acabarei/por juntar um conjunto/de coisas. Os milagres acontecem/se gostares de invocar aqueles espasmódicos/gestos de luminosos milagres. A espera começou de novo,/a longa espera pelo anjo,/por essa rara, fortuita visita.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/nao-e-sempre-mas-acontece/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Nem tudo é Montanha</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/nem-tudo-e-montanha/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/nem-tudo-e-montanha/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 01:15:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Personas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=19638</guid>
		<description><![CDATA[ &#8230; Já o despojamento é uma coisa bem mais difícil. Agora mesmo preciso me despojar de um bocado de cansaço para escrever este escrito. A noite às vezes me quer alerta, e eu não tenho nenhuma ingerência sobre as decisões da noite. Mas no dia seguinte, neste dia seguinte, o resultado é desastroso. Meço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/07/PERSONAS-ALADAS.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-19640" title="PERSONAS ALADAS" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/07/PERSONAS-ALADAS-238x300.jpg" alt="" width="125" height="159" /></a> &#8230; Já o despojamento é uma coisa bem mais difícil. Agora mesmo preciso me despojar de um bocado de cansaço para escrever este escrito. A noite às vezes me quer alerta, e eu não tenho nenhuma ingerência sobre as decisões da noite. Mas no dia seguinte, neste dia seguinte, o resultado é desastroso. Meço cansaço em quilômetros. Enfim, despojar-se é custoso, que o diga o meu São João da Cruz, que se despojou todo, se desanuviou todo, para encontrar-se em Deus.</p>
<p><span id="more-19638"></span>Às vezes, na ânsia de ser, a gente acaba assumindo personas demais, papéis demais e não consegue dar conta deles. As personas tomam conta da gente, mesmo quando não dão certo, mesmo não se realizam como queríamos. Podem até virar obsessões. A gente fica dependente delas, de tal modo crente nelas, de tal modo inundado delas, que não consegue nem imaginar a salvação no despojamento. Pois a salvação existe, está no despojamento difícil e saudável. Quando a gente se despoja de um monte de auto-enganos, sempre sobra alguma coisa e essa alguma coisa somos nós. O despojamento (valei-me São João da Cruz) é uma subida. Acredite, é um monte bem alto, a se escalar em noites escuras da alma.</p>
<p>O nós às vezes se esconde por trás das personas lindas e cheias de glamour que sonhamos, às vezes é engolido por elas. Mas tem uma hora que a gente descobre nas personas apenas véus de maia, ilusões. E a gente tem de tirar o nós lá da neblina. Não vale a pena jogar fora aquilo que somos pelo apego ao que não somos.</p>
<p>O melhor é admitir-se. Era muito bom sermos perfeitamente amados, tremendamente lindos, bem sucedidos, bem resolvidos, muito talentosos, totalmente saudáveis, com filhos ainda mais tudo isso e por aí vai. Não somos, pelo menos, não somos todos assim. Uma ínfima parte da população pode até ser e quem o for, goze das suas personas. Quem não for tudo isso, despoje-se de seus fingimentos, principalmente para si mesmo, faça-se esse favor. Não negue os seus desejos, mas também não seja escravo do impossível, principalmente se aquilo que você deseja depende da vontade alheia. É válido correr atrás dos sonhos, mas também tem validade despojar-se deles. Tudo depende do momento e do discernimento.</p>
<p>É preciso coragem para tudo nesta vida, até para desistir. É preciso um monte de coragem para despojar-se. São João da Cruz, co-fundador da ordem carmelita descalça, é o santo do despojamento, despojamento esse que, para ele, tornou-se a senda mística, a subida espiritual do Monte Carmelo, o encontro de Deus.<br />
Já o despojamento do qual falo não é místico, mas racional. Não busca Deus, mas a humanidade em nós. São João da Cruz é uma inspiração, porém a minha devoção por ele é literária, não mística. Já está de bom tamanho encarar-se, esse despojamento é tão difícil quanto o outro e, se não proporciona um encontro com Deus, seguramente, às vezes, esconjura demônios. Em suas obras, São João da Cruz mostra os passos do despojamento místico. Nós, os que querem despojar-se para nos recuperar a nós mesmos, não sabemos às vezes por onde começar. Mas é bom que comecemos logo, antes que as personas nos engolfem.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/nem-tudo-e-montanha/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Afinidades Eletivas</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/afinidades-eletivas/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/afinidades-eletivas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 24 Jun 2010 16:37:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=19234</guid>
		<description><![CDATA[
ERIC, NORTON, OSCAR E AS AFINIDADES ELETIVAS
Da primeira vez em que prestei atenção em Eric Clapton, ele não cantava, nem tocava guitarra e, portanto, naquele momento, Clapton não era Deus. Estava bem humano, dando uma entrevista e falando do centro de recuperação Crossroads, para tratamento de pessoas com problemas no consumo de drogas e álcool, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/clapton.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-19240" title="DR1014_Eric_CLAPTON 79942" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/clapton-510x344.jpg" alt="" width="510" height="344" /></a></p>
<p>ERIC, NORTON, OSCAR E AS AFINIDADES ELETIVAS</p>
<p>Da primeira vez em que prestei atenção em Eric Clapton, ele não cantava, nem tocava guitarra e, portanto, naquele momento, Clapton não era Deus. Estava bem humano, dando uma entrevista e falando do centro de recuperação Crossroads, para tratamento de pessoas com problemas no consumo de drogas e álcool, o qual ele fundara em Antigua, ilha caribenha. Falava também das tragédias de sua vida, desde a perda do filho Connor à dependência de álcool e heroína. No final, a repórter perguntou-lhe sobre a vida, apesar das tragédias. Eric respondeu-lhe: a vida não é o que ela nos dá, mas o que podemos dar para ela. Foi essa frase que me prendeu a Eric. Antes eu gostava de algumas das suas músicas, sem nunca ter sido fã, nem saber de sua trajetória. Agora, li avidamente sua autobiografia e uma coisa reafirmo: elegi-o, de algum modo.</p>
<p><span id="more-19234"></span>Nunca sei explicar as minhas afinidades eletivas, sempre penso que elas têm mais de eleição do que de afinidade mesmo. Eric é um sobrevivente e eu tenho simpatia pelos sobreviventes, eles semeiam sensatez. Penso sempre nos sobreviventes quando o desespero me ronda. Penso nos que experimentaram extremos quando tendo a atribuir aos meus melodramas pessoais a dimensão da tragédia. E penso que todos devem cultivar um modo qualquer de aproximar-se dos sobreviventes, um modo feito de simpatia e respeito. Tempo haverá, tempo haverá para que a lembrança das sobrevivências seja uma salvação.</p>
<p>Norton Nascimento eu achei lindo quando o vi pela primeira vez, nas telas. Era mais lindo pessoalmente e tinha um carisma de anjo. Uma vez, eu e uma amiga estávamos querendo alguma coisa para fazer no Rio de Janeiro. Queríamos também encontrar um amigo que morava para os lados da Barra da Tijuca e descobrimos que, em um bar temático, com nome e decoração inspirados na arte cinematográfica, a meio caminho entre nós e o nosso amigo, haveria um Pocket Show do ator Norton Nascimento, que cantaria sucessos da Soul Music. Para mim, uma oportunidade de apreciar mais esse talento de Norton. O show seria para ajudar Cassiano, mestre da Soul Music no Brasil, à época sofrendo de alguma doença crônica, se não me engano, nos rins. Norton falou com muita meiguice de Cassiano e eu, se já era fã de Norton, reelegi-o ali, naquela noite. Depois, acompanhei com apreensão o transplante de coração a que ele foi submetido, comemorei a sua sobrevivência, agora perecida. Tenho simpatia e cultivo uma espécie de aproximação dos sobreviventes. Às vezes, uma aproximação silenciosa, até parece distância, de tão discreta. Mas, se aprendo com eles, isso é aproximação.</p>
<p>Quando penso em Oscar Niemeyer, a palavra sobrevivência veste outro significado. Oscar está sobre a vida, acima da vida, ele é muito maior do que a própria vida. Essa é a sua sobrevivência grandiosa. Ele é história pura e o fato de estar vivo me dá a impressão de poder atravessar uma dimensão, de viajar no tempo. Dele escutei outro dia que fica da vida a nossa contribuição para ela. Clapton o disse, e também Norton, quando defendia a doação de órgãos. A vida é o que podemos dar para a vida.</p>
<p>Clapton não é Deus, ao contrário do refrão escrito no metrô londrino, nos anos sessenta. Nem Norton, que tão cedo perdeu a sobrevivência, o era. Tampouco Oscar, com seus cem anos de história na carne, é Deus. Às vezes, a humanidade é muito grande, muito, mesmo. Tão grande, que assusta. E comove.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/afinidades-eletivas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>(Des)esperança</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/desesperanca/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/desesperanca/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 17:56:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Anjos]]></category>
		<category><![CDATA[Cioran]]></category>
		<category><![CDATA[Esperança]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=18717</guid>
		<description><![CDATA[“&#8230; tive a vantagem de conhecer pessoas que se mostraram capazes       de me tirar a ingenuidade, de me fazer corar pelas minhas ilusões; foram essas pessoas que realmente me educaram.” E.M.Cioran
 Finalmente me encontro face a face contigo, desesperança. Descanso, enfim! Enfim eu te possuo, inteira e estirada, aberta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/anjo-2.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-18721" title="anjo 2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/anjo-2-225x300.jpg" alt="" width="204" height="263" /></a>“&#8230; tive a vantagem de conhecer pessoas que se mostraram capazes       de me tirar a ingenuidade, de me fazer corar pelas minhas ilusões; foram essas pessoas que realmente me educaram.” <strong>E.M.Cioran</strong></em></p>
<p><em> </em>Finalmente me encontro face a face contigo, desesperança. Descanso, enfim! Enfim eu te possuo, inteira e estirada, aberta e escassa como eu mesmo. São palavras do anjo.</p>
<p>A primeira vez que o anjo tomou consciência daquela palavra foi quando leu um texto de Clarice Lispector, um trecho de “Água Viva”. Claro que já sabia o que era desesperança, mas naquele dia leu a palavra com apetite, sentiu a força dela: “&#8230;inquieta e áspera e desesperançada&#8230;” Daí para cá o anjo cada vez mais constata a semelhança da palavra desesperança com a palavra liberdade. São irmãs siamesas. Desesperançar-se, perder a esperança de&#8230; É libertar-se da angústia de não poder, de não ter, de não conseguir.</p>
<p><span id="more-18717"></span>A esperança é, em certa medida, uma prisão. Diante do impossível, o melhor é perdê-la. Não foi à toa que Machado de Assis referiu-se a ela como um demônio. O demônio da esperança é mesmo um demônio obsedante, o último a morrer nos campos de batalha, nos hospitais e nas camas moribundas. O que não larga a vida, mesmo que a vida não valha a pena de viver.</p>
<p>Quando a caixa de Pandora foi aberta, deixando escapar os males para o mundo, percebeu-se uma luzinha no fundo: era a esperança. Ela estava na mesma caixinha dos tormentos. E que diabos fazia ela por lá? Ora, “diga-me com quem andas e te direi quem és”.<br />
O desespero é sádico e cruel, mas a desesperança é balsâmica. O desespero é irracional, a desesperança vê o mundo com uma clareza a toda prova. O desespero dá medo, a desesperança dá calma. O desespero é dor, a desesperança é cura.</p>
<p>Quando quer muito alguma coisa, o anjo põe a esperança de lado. Sai desguardado, vai à luta. Não fica esperando deus nem Chico Buarque darem bom tempo. Mas se a coisa está no terreno dos impossíveis, não faz cerimônia, bate as asas e comete a desesperança. Com a cara e a coragem de dar a cara à tapa para a turma da auto-ajuda que nada tem de auto e muito menos de ajuda.</p>
<p>E se recupera. O anjo é humano, quando se trata de ser pródigo em regenerações. Não é só o rabo da lagartixa que cresce de novo não. Há um visgo de libido que nos adere à vida e ele é muito mais forte que a esperança. Sabe-o o anjo. Para experimentar algumas vivências, é preciso desesperançar-se daquelas que não nos foi dado viver.</p>
<p>Soube disso desde que leu “Água Viva” e vivenciou a palavra desesperança. Desesperançou-se muitas vezes então, com gosto, com apetite. Mas outras vezes não consegue desesperançar-se. É muito mais fácil sucumbir à esperança do que livrar-se dela. A esperança é um demônio poderoso. Difícil de ignorar, como um canto de sereia. É a penúltima que morre. Depois dela, só as baratas.<br />
Mas o anjo sabe, vez ou outra é preciso experimentar a salvação da desesperança.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/desesperanca/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Relembranças</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/relembrancas/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/relembrancas/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 25 May 2010 21:40:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=18162</guid>
		<description><![CDATA[ Apesar do medo e do cansaço, a vida segue. Tem horas de tanto cansaço, de ele ser tão intenso, que dá medo de entronizar o senhor cansaço. Não gosto de me dar o direito de cansar. Como um poema muitas vezes fustigado, também eu limei as unhas, aparei arestas, arranquei adornos e rompi com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/lixar-unhas.jpg"><img class="size-medium wp-image-18164 alignleft" title="lixar unhas" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/lixar-unhas-300x204.jpg" alt="" width="215" height="147" /></a> Apesar do medo e do cansaço, a vida segue. Tem horas de tanto cansaço, de ele ser tão intenso, que dá medo de entronizar o senhor cansaço. Não gosto de me dar o direito de cansar. Como um poema muitas vezes fustigado, também eu limei as unhas, aparei arestas, arranquei adornos e rompi com a segurança do politicamente correto. Como um poema sem acolhida, fiquei à intempérie. Como um poema perjuro, e todo poema é perjuro, neguei a ti três mil vezes, fragilidade. Não te dei nome, porque não se nomeia o pecado. O pecado fica, oleoso e amorfo, dentro. Não tem nome. Mas, como uma rêmora, eu me apeguei a ti, aproveito os teus restos, as tuas involuntárias doações.<br />
<span id="more-18162"></span> Ah, fragilidade&#8230; Neste momento há um filho chorando a morte de sua mãe, e isso, que é tão grande, não é nada diante da mãe chorando a morte do seu filho. E neste instante, chora uma mãe a morte de seu filho. És tão grande, fragilidade!<br />
Hoje eu abri todas as portas, mas não como Fernando Pessoa. Não por força eu haveria de passar*. Eu as abri por necessidade alheia, havia pessoas na casa que precisavam passar coisas por elas; porém no dia em que abri as portas, percebi uma proximidade maior nas pessoas da rua. É como se uma espécie de intimidade se formasse repentinamente, embora a intimidade tenha natureza demorada.<br />
O carroceiro passou, olhando o movimento de móveis e gente. O carteiro fez mais: veio varanda adentro, veio à sombra, seu sorriso pedindo licença para abrigar-se um minuto. O entregador de marmitas também colocou a moto na garagem.<br />
No geral, tenho medo de estranhos e de assaltos. Por isso, não abro portas, a não ser quando chega alguém e se identifica. Mas nesse dia de portas abertas, deu-me uma saudade de outros dias, quando não havia medo nenhum de abrir as portas.<br />
Há muitos anos minha casa era outra e era aberta constantemente e constantemente inundada de sol e de gente. Entravam pessoas o tempo todo e tão acostumados estavam a entrar sem bater que até pareciam moradores. Frequentadores diários, faziam parte da rotina da casa. Ajudavam a manter a personalidade coletiva do meu lar, doce lar.<br />
Havia os ajudantes e os agregados dos ajudantes. Havia os vizinhos. Havia os amigos dos meninos. Havia também a vendedora de tudo. Essa arranjava coisas para vender e vinha à nossa casa. Não é que precisássemos dos seus produtos, mas ela precisava vender, então, inventávamos alguma necessidade. Uma vez veio vender limões, dentro de saco que tinha de ser esvaziado para ela colocar mais produtos. No momento, não havia vasilhas à vista e ela não contou conversa: deu de garra do cesto de papéis do banheiro, que no momento estava vazio, e se não fosse a agilidade de mamãe, os limões seriam jogados lá dentro. E ainda justificou: o cesto estava lavadinho.<br />
Havia o vizinho que todos os dias, às cinco da manhã, vinha tomar o café coado por mamãe. Muito pouca gente batia à porta, naquele tempo e naquela casa. A maioria entrava, e só víamos quando estava dentro, já bem acomodada em cadeiras e corredores.<br />
Hoje, deu-me uma saudade do impensável. Deixar portas abertas, para que gente entrasse, de um jeito farto, como só o sol pode.</p>
<p><em>* O poema a que aludi é “Saudação a Walt Whitmann”, da “pessoa” Álvaro de Campos. </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/relembrancas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O menino que me guarda</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-menino-que-me-guarda/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/o-menino-que-me-guarda/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 28 Apr 2010 20:49:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=17053</guid>
		<description><![CDATA[“&#8230;‘A benção, senhor’. Isto, nada mais.
Profundamente forte é a vida.”
 Salvatore Quasimodo
Ilustração: “Meninos Soltando Pipas”, de Cândido Portinari
 Desde o nascimento, um menino me guarda. Nasceu da minha barriga, do cordão umbilical e da placenta colada que minha mãe guardou por horas. Nasceu da minha primeira respiração e do meu primeiro choro; nasceu quando nasci, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/04/portinari-meninos-pipa.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17057" title="portinari - meninos - pipa" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/04/portinari-meninos-pipa.jpg" alt="" width="198" height="281" /></a>“&#8230;‘A benção, senhor’. Isto, nada mais.<br />
Profundamente forte é a vida.”<br />
<em><strong> Salvatore Quasimodo</strong></em></p>
<p><em>Ilustração: “Meninos Soltando Pipas”, de Cândido Portinari</em></p>
<p><em> </em>Desde o nascimento, um menino me guarda. Nasceu da minha barriga, do cordão umbilical e da placenta colada que minha mãe guardou por horas. Nasceu da minha primeira respiração e do meu primeiro choro; nasceu quando nasci, porque antes de mim ele não existia. O menino grande me ganhou, para o seu avesso. Mas se não fosse eu o seu avesso, o menino que me guarda seria incompleto.</p>
<p>Ele não teria escuridões, se não me guardasse. Seria Apolo com carência dionisíaca.</p>
<p>Diante da sua retidão épica eu sou apenas garatuja. Meu menino tem um aguçado senso de justiça, uma compaixão instintiva e orgânica. Mesmo quando quer, mesmo quando em fúria, mesmo quando erra, nunca consegue fugir à própria bondade. É da raça dos que são bons, por condenação.</p>
<p><span id="more-17053"></span>O menino que me guarda e que amamentou os meus primeiros porquês tem um olhar de fazer perguntas profundas, às quais quase sempre me furto a responder (aos seus porquês eu não respondo, porque aos que nos guardam, nunca sabemos dizer nada). E, mesmo assim, mesmo com o meu olhar de murmúrio, sei que ele sabe de mim.</p>
<p>Num tempo mais antigo que o tempo, meu menino maior que o dia me preparava mingaus e sopas quando eu gritava fomes no seu ouvido, meu menino maior que a noite dedicava suas noites à minha insônia invertida, meu menino maior que o tempo me entregava seu melhor tempo. Sob a horta de estrelas e os pés de angico, levava-me em uma mão e trazia minha mãe sob seu outro braço. Eu era então apenas um pedaço da mãe e nem aos demônios, nem aos buracos-negros naquelas horas temíamos.</p>
<p>Muitas vezes precisei me perder do meu menino e até negá-lo, para poder delinear os nossos limites, decifrar as nossas fronteiras. Muitas distâncias tomei, do menino que me guarda, mas em mim sua guarda nunca arrefeceu. Quanto mais longe dele, quanto mais separada, quanto mais dissidente, mais as suas palavras e seus atos se acendiam no meu sangue. Que é que eu estava pensando? Para o meu governo, o menino é farol e fogo vivo.</p>
<p>Tenho carregado seu nome, impronunciável, pois não se pronuncia o nome da criação. Impronunciável, mas ardente sarça. Tenho feito força para segui-lo, um pouco mais além da inveja, admiração e tentativas. Eu talvez não seja digna, mas em sua morada, sou eu a entrar para proteger-me, mesmo sem dizer palavra. Porque sei, enquanto houver sua morada, haverá aconchego, acolhida. Enquanto ele me guardar, as dores que o mundo me dá não me despojarão de mim mesma. Enquanto ele houver, o meu avesso será sempre iluminado e nenhum buraco-negro me tornará o nada.</p>
<p>Aos pés desse menino sem paciência, sem idade e com a clarividência dos que vislumbram as auras, deposito estas palavras, como um adorno. Deposito ainda outra, um substantivo incomum – pai – palavra que é, sozinha, uma oração.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/o-menino-que-me-guarda/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Deusa da Temperança</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/deusa-da-temperanca/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/deusa-da-temperanca/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 09 Apr 2010 19:08:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Deméter]]></category>
		<category><![CDATA[Hades]]></category>
		<category><![CDATA[Perséfone]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=16463</guid>
		<description><![CDATA[
Uma moça brincando em campos floridos é tragada de repente para baixo da terra, pela força de um homem que a leva em seu cavalo negro: o mito grego desse rapto; a jovem Perséfone, filha da deusa Deméter, pelo deus Hades, senhor do Averno; tem fascinado por séculos os que se miram em mitologias. Somos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-16465" title="persefone" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/04/persefone-510x345.jpg" alt="" width="510" height="345" /></p>
<p>Uma moça brincando em campos floridos é tragada de repente para baixo da terra, pela força de um homem que a leva em seu cavalo negro: o mito grego desse rapto; a jovem Perséfone, filha da deusa Deméter, pelo deus Hades, senhor do Averno; tem fascinado por séculos os que se miram em mitologias. Somos muitos estes mirantes e encantados que somos com os arquétipos do homem grego, tentamos há séculos dissecar seus mitos, em nós entranhados. Na ciência, na política, na psicologia, nas religiões, os mitos gregos renascem, ressurgem, adquirem mil significados, e permanecem. Dão-se às mais diversas interpretações. Perséfone não é diferente. A filha da semeadora da vida, tornada rainha do mundo dos mortos, encarna significações as mais diversas, pondo-se à mercê da nossa criatividade e também da nossa perplexidade diante do paradoxo que representa.</p>
<p><span id="more-16463"></span>Alguns preferem simplificar o mito de Perséfone. Li outro dia que sua mais perfeita tradução é a de uma jovem passiva, tola, enganada pelo deus Hades, que a fez comer sementes de romã do inferno, para que assim ela ficasse para sempre ligada ao seu reino (lembro que o inferno grego não é um lugar apenas para os maus, mas para todos os mortos, bons e maus). Com isso, mesmo voltando para a sua mãe e para os domínios da luz, Perséfone deveria passar um terço do ano no reino dos mortos, período em que a terra ficaria estéril, pois Deméter estaria saudosa da filha. Perséfone seria então uma deusa passiva, disputada entre Hades e Deméter, deuses do panteão grego principal.</p>
<p>No entanto, não me parece que Perséfone seja de tão singela explicação. Deméter era a deusa da semeadura e o que sua filha comeu foram sementes. Quando vem à terra, Perséfone transporta sementes, necessárias ao ciclo vida-morte-renascimento. Toda vez que Perséfone sobe à terra, ela volta a dar flores, frutos, vida. Não me parece que a jovem tenha sido simplesmente ludibriada pelo deus Hades, que se tornou seu marido. Ela comeu as sementes porque quis, e as comeu com prazer. Ela não é simplesmente uma coisa, disputada entre o marido e a mãe, essa que foi à luta para recuperá-la, encarnando a mulher forte e batalhadora (Deméter proibiu a terra de florescer, enquanto sua filha não voltasse). Perséfone é aquela que se alimenta dos inícios. E que doa inícios. É a que deflagra.<br />
Como “objeto disputado” pela mãe e pelo esposo, ela se situa no lugar-comum da mulher, esse é o motivo pelo qual Perséfone é vista como a jovem passiva e somente conduzida. Porém, ela se conduz, transita entre dois mundos, e é isso a sua grande força, uma força surgida da passividade. A passividade em Perséfone não é nem de longe fraqueza. O fato de se alimentar do mundo escuro deu a Perséfone, além das sementes do renascimento, a representação da virtude mais perfeita de todas: a temperança.</p>
<p>Os deuses gregos estão sempre nos extremos, nenhum tem a temperança, a não ser Perséfone. Sua aceitação do mundo é consciente, ela compreende e acata a dualidade. Como rainha do reino dos mortos, recebia todas as almas, e também os pouquíssimos vivos que pisaram, sem morrer, o inferno, como Orfeu, Ulisses e Hércules. E nunca faltou, mesmo durante o tempo em que permanecia com a mãe, fazendo supor que tinha também onipresença. Com a sua divindade dupla, Perséfone é tudo, menos uma deusa simples. Nenhum deus é simples, e não nos cabe simplificá-los.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/deusa-da-temperanca/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>De musas</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/de-musas/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/de-musas/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 26 Mar 2010 19:49:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Anna Akhmatova]]></category>
		<category><![CDATA[musa]]></category>
		<category><![CDATA[sylvia plath]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=15900</guid>
		<description><![CDATA[Musa, eu? obrigada pela gentileza, Jarbas. Eu acho que Angicos é que é a musa das musas, a terra das terras, você não acha? Quanto a mim, atualmente estou mais para um poema de Anna Akhmatova, no qual ela fala das dificuldades da vinda da musa inspiradora. Ou talvez para Sylvia Plath, esperando a improvável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Musa, eu? obrigada pela gentileza, Jarbas. Eu acho que Angicos é que é a musa das musas, a terra das terras, você não acha? Quanto a mim, atualmente estou mais para um poema de Anna Akhmatova, no qual ela fala das dificuldades da vinda da musa inspiradora. Ou talvez para Sylvia Plath, esperando a improvável presença do anjo. Também ando a chamá-la, a musa, essa difícil presença. Bom saber notícias suas, Jarbas. Apareça mais por aqui.</p>
<p>Um abraço conterrâneo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/de-musas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Disse tudo</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/disse-tudo/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/disse-tudo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 00:40:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=15796</guid>
		<description><![CDATA[Tácito, sou cada vez mais sua fã. Esse texto sobre a liberdade está ótimo. Disse o que eu também diria, se tivesse sabido dizer. Tudo.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tácito, sou cada vez mais sua fã. Esse texto sobre a liberdade está ótimo. Disse o que eu também diria, se tivesse sabido dizer. Tudo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/disse-tudo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Caminhos de dentro</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos-de-dentro/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos-de-dentro/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 00:40:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[rosseau]]></category>
		<category><![CDATA[sibila]]></category>
		<category><![CDATA[thoreau]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=15795</guid>
		<description><![CDATA[
Sibila da Líbia, arte de Michelangelo na Capela Sistina, Vaticano
Percorrer uma pessoa não é percorrer uma pessoa. É sempre somente uma tentativa. Um poema chamado “Desejo”, escrito em dia de treva, eu o encontrei entrecortado por outras minúcias. “Uma portinhola obriga-me/a amoldar o ato/de percorrer-te./Tua solidão ofega, ensombra./Mas te passo te adentro/agarro escuros em ti/espalho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-15798" title="sibila" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/03/sibila.jpg" alt="" width="400" height="276" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Sibila da Líbia, arte de Michelangelo na Capela Sistina, Vaticano</em></p>
<p>Percorrer uma pessoa não é percorrer uma pessoa. É sempre somente uma tentativa. Um poema chamado “Desejo”, escrito em dia de treva, eu o encontrei entrecortado por outras minúcias. “Uma portinhola obriga-me/a amoldar o ato/de percorrer-te./Tua solidão ofega, ensombra./Mas te passo te adentro/agarro escuros em ti/espalho a unção de mim/afogueada e tonta./És antro, não refúgio, constato./Mas acato. Aceito perder-me.”</p>
<p><span id="more-15795"></span>Só assim se tenta percorrer alguém: aceitando perder-se nas muitas formas de percorrer alguém. Caminho nunca findo, toda pessoa é labirinto, é um sem fim de corredores. E toda pessoa tem cantos aonde ninguém vai. Nem mesmo a própria pessoa.</p>
<p>Melhor então percorrer a si mesmo, explorando a solidão, nossa condição mais nua? Tentar encontrar-se é menos perigoso? Melhor entremear-se por florestas, que não são senão nós mesmos, como o fizeram Rousseau e Thoreau?</p>
<p>Retirar-se de alguém, fazer o caminho de volta? Quando se trata de pessoa, ter caminhado uma parte não garante o conhecimento do retorno. É a natureza do labirinto e não há princesa que nos presenteie com seu fio. Voltar pode ser muito, muito doloroso. Quase sempre o é, porque os retornos não têm precisão.</p>
<p>Nem sempre nos labirintos pessoais há os monstros que pensamos encontrar, mas haverá sempre alguns outros ou muitos outros. Toda pessoa tem minotauros, górgonas, esfinges, quimeras e hidras dentro de si. Pedras que se chocam e esmagam os passantes. Turbilhões que fazem naufragar os mais intrépidos navegantes. Porões enormes e escombros que nos podem surpreender agudamente. Percorrer alguém, mesmo sendo só tentativa, é capaz de envenenar o resto das nossas vidas.</p>
<p>E não haverá Sibila, nem poeta, nem um pai cuidadoso que nos guie. Percorrer uma pessoa é um ato solitário, quase tanto quanto percorrer a si mesmo. Mas há uma diferença gritante. Quando nos percorremos estamos nus, mas, para caminhar os outros, recorremos aos panos, aos couros e às vezes até às armaduras de metal e aos coletes à prova de bala. Percorremos os outros, quase sempre, munidos de escudos.</p>
<p>Talvez o contato com os recônditos alheios fique ainda mais difícil por causa das nossas defesas. Por causa do nosso apego insistente ao nosso modo de ver as coisas. Talvez as nossas vestes nos pesem, as nossas defesas nos enganem. Quem sabe até a nossa vontade de que o outro seja quem pensamos impeça-nos de entendê-lo um pouco mais como ele realmente é.</p>
<p>A portinhola. Talvez as pessoas todas devessem preservar as portinholas. Se quero entrar em ti, tenho de amoldar-me. Tenho de largar as vestes, as armaduras, os coletes, as burcas, os lenços. Devo entrar em ti nuamente, como se em mim entrasse, para me encontrar. Devo entrar em ti de mãos dadas contigo, e não solitariamente. Devo entrar em ti com a tua permissão, nunca antes de ela me ser dada. Para conhecer-te um pouco, devo abster-me de violar-te.</p>
<p>Mas&#8230; Como é difícil, não?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos-de-dentro/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A minha Joana</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/a-minha-joana/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/a-minha-joana/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 17:58:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=15387</guid>
		<description><![CDATA[A minha Joana era feita de melancolia. Asas não tinha. Quando cantava, fazia questão de não ouvir que cantava, porque era dos que guardam a esquisitice de se apavorar com a própria alegria.
A minha Joana era bela, a seu modo gordo de escavar baús, de se espichar na cadeira de palhinha e deixar a criançada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A minha Joana era feita de melancolia. Asas não tinha. Quando cantava, fazia questão de não ouvir que cantava, porque era dos que guardam a esquisitice de se apavorar com a própria alegria.</p>
<p><span id="more-15387"></span>A minha Joana era bela, a seu modo gordo de escavar baús, de se espichar na cadeira de palhinha e deixar a criançada se espichar no seu gordo corpo. A minha Joana me dizia que saudade não é substantivo, que saudadear é um verbo anômalo, sem desinências, nem desistências, que só em português se conjuga. O meu medo de ter saudades dela era imenso, eu pensava não saber conjugar. Depois de tanto amedrontar-me com a saudade anunciada, eu soube que saudade não se premedita, não é sofrer sabendo a dor, saudades são repentes, rompantes com gosto de pão-de-ló e cheiro de café no meio da tarde. Saudade é coisa crocante, como pão francês derretendo manteiga.</p>
<p>Numa tarde molhada, ela me deu o arco-íris como quem entrega uma pátria e um caminho. E era. A pátria dos meus olhares encantados e o caminho dos sonhos então inúmeros. A minha Joana era sacerdotisa de Ceres, a deusa grega da semeadura e da colheita, e era também seguidora de Hermes, o deus dos mistérios. Mas se dizia e se pensava cristã. Temente a Deus e a Cristo (eu temente a ela), me ensinou, no entanto, a adorar todos os livros: “nossas estantes são altares”.</p>
<p>“A carne é triste” e nossas estantes são altares. A minha Joana preparou a dádiva de sua ausência longa e vaga, foi delicada sua forma de morrer. Não, que digo? Toda morte é brutal, por mais mansa e vagarosa que venha. Toda morte é lâmina, silício. Mas ela ensinou-me a entender distâncias inesperadas, a perceber a valentia silenciosa que há em partir ou deixar partir. Com ela aprendi que perdão não é coisa de oferecer, mas de entregar sem perguntas e tem de ser ácido o bastante para dissolver o visgo da mágoa. Não sei se consegui perdoá-la por ter morrido. Meu aprendizado é lento, não sei se finda. Mas não é por isso que preservo a memória da amada. Ela ainda vive em mim, porque substância não se acaba: tende a ser onda e duração.</p>
<p>A minha Joana escondia suas dores no silêncio da noite pelada, dos longos corredores, do aposento íntimo. Ela não queria deixar as dores como herança, mas dor não se doma. Os que adiam a verdade estacamos ao seu redor, ela já escurecida. E a minha insônia dela arde tanto que talvez eu nem morra.</p>
<p>Talvez eu não morra. A morte não existe na insônia, a morte não tem lugar. Nossas estantes são altares aos pés dos quais nos ajoelhamos nas horas altas, quando o deus voador, &#8220;sonso e ladrão&#8221;, nos restitui à rota dos instintos. Quando ele nos mostra palimpsestos, pergaminhos. O deus ou ela? Nessas horas de silêncio, a minha Joana desmembra estrelas, doma agouros, como a mãe fazia nos antes. Na insônia, a minha Joana dita versos, impõe o vício em palavras, esses mistérios sumarentos que escorregam da boca, das mãos, da pele.</p>
<p>Dos versos que escrevi para a minha Joana, escorregou esta prosa vagarosa e, por mais palavras que contenha, calada.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/a-minha-joana/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Grata, Charles M. Phelan</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/grata-charles-m-phelan/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/grata-charles-m-phelan/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 01:30:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=14592</guid>
		<description><![CDATA[Agradeço as palavras gentis de Chales Phelan, agradeço sua leitura. Vindas de um escritor que respeito, tais palavras só poderiam me deixar para lá de contente.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agradeço as palavras gentis de Chales Phelan, agradeço sua leitura. Vindas de um escritor que respeito, tais palavras só poderiam me deixar para lá de contente.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/grata-charles-m-phelan/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da vida, da rua e das palavras</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/da-vida-da-rua-e-das-palavras/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/da-vida-da-rua-e-das-palavras/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 18:20:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=14532</guid>
		<description><![CDATA[“Me llaman Calle,/me llaman Calle…
calle sufrida/calle tristeza/de tanto amar.”
(Manu Chao)
- Se calhar, vou desdobrar palavras aos jurados. Pronto. Avisar, avisei. Ele não me quis ouvir. E daí, se eu sou mulher da vida? Se ele não queria pagar, não ia ter. Sem paga, só faço com gosto, com o gosto de quem quero. Prometi-lhe a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-14534 alignright" title="sangue" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/02/sangue.jpg" alt="" width="183" height="136" /><em>“Me llaman Calle,/me llaman Calle…<br />
calle sufrida/calle tristeza/de tanto amar.”<br />
<strong>(Manu Chao)</strong></em></p>
<p>- Se calhar, vou desdobrar palavras aos jurados. Pronto. Avisar, avisei. Ele não me quis ouvir. E daí, se eu sou mulher da vida? Se ele não queria pagar, não ia ter. Sem paga, só faço com gosto, com o gosto de quem quero. Prometi-lhe a ponta de uma faca afiada, ele não acreditou. Ele nem bêbado estava. Eu disse, vou arranjar uma faca para lhe sangrar. Não vou matar de tiro não, que agora você só está me pegando porque não tenho como me defender. Você vai ver só, vai virar defunto quando menos esperar.</p>
<p><span id="more-14532"></span>Foi assim que ela começou a falar, aos soldados que a buscaram para o julgamento. O crime foi a morte a facadas o borracheiro daquele reino de ao pé do mar. Ou seria de ao pé do rio? Não importa a quantidade de água, importa agora é o sangue que foi derramado. E tinha sido muito. Poço das águas, era o nome da cidade. O nome do borracheiro, eu esqueci. O dela? Ah, o dela era rua, vida, dama, perdida, princesa. E otros más.</p>
<p>Ela fora estuprada. Antes, ele vivia olhando para ela, com olhar de melaço de cana, mas não queria pagar. Aquela lá, ele sabia, dava para um monte de gente sem receber dinheiro. Por que não para ele? Por que não? O borracheiro fazia do olhar esconderijo para sua raiva. Aquela pervertida! Por que não “havera” de ir com ele?</p>
<p>“Noite alta, céu risonho”, princesa desprevenida. Foi há muitos e muitos anos já. A cidade dormia e quem não dormisse não se importaria com os gritos de uma puta. Ele a estuprou em frente à borracharia, do lado da igreja. Mas o gozo e os dias do borracheiro, a partir dali, estavam contados. 	Uma faca-peixeira, dessas com que se corta carne no mercado. Peças enormes, lados inteiros de bois pendurados de manhã, para serem vendidos. Bois, carneiros, galinhas no mercado madrugador.</p>
<p>Ela também o pegou desprevenido, mas talvez nem precisasse. Ele era pequeno e era grande a força do ódio da mulher violada. Em pouco tempo, o homem ficou pronto. Não teve gozo de vingança, o assassinato foi um cumprimento. Desde que tinha sido estuprada, fora tomada por uma espécie de missão, a qual ela mesma se impusera. Esperara um tempo. E o tempo, o que é? Ela não sabia o que era tempo. Só conhecia do tempo as esperas. Então, cumprira.</p>
<p>- Foi ele quem quis, eu avisei. O corpo é meu e eu dou a quem quiser. Fui desonrada, sim, ou vocês acham que honra é uma palavra tão pequena que só cabe na moral de vocês? Estou desdobrando a palavra honra, mas não é porque devo explicação. Ele também matou o meu sim e o meu não, o meu querer. É pouco o querer de uma mulher?</p>
<p>Mas os bens em confronto não se podiam comparar. Eram a vida de um homem e o corpo de uma mulher, escudado apenas pelo querer dela mesma O querer de uma mulher-dama, um querer por si mesmo fragmentado. A sociedade, representada por sete jurados, todos homens, condenou-a. “Foi há muitos e muitos anos já. Num reino de ao pé do mar.”</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/da-vida-da-rua-e-das-palavras/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Delírio com coisas reais</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/delirio-com-coisas-reais/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/delirio-com-coisas-reais/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 01:34:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=13323</guid>
		<description><![CDATA[As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos quase inatingíveis. Um dia, quando crianças, o algodão-doce só era visto, tocado e comido uma vez por ano. Quando vinha a festa do padroeiro, o parque de diversões e o homem do algodão-doce com a sua máquina rodopiante. E nós, avoantes e avoados, ficávamos horas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-13325" title="algodão doce" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/01/algodão-doce.jpg" alt="" width="197" height="131" />As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos quase inatingíveis. Um dia, quando crianças, o algodão-doce só era visto, tocado e comido uma vez por ano. Quando vinha a festa do padroeiro, o parque de diversões e o homem do algodão-doce com a sua máquina rodopiante. E nós, avoantes e avoados, ficávamos horas “curiando” o homem e a sua máquina. Ele punha o algodão-doce num papel de embrulho e saíamos felizes a comer aquela coisa deliciosa e difícil. Aí, a gente cresce, o algodão-doce existe “a dar com pau”, dentro de sacos com uma bola de encher ao fundo. Quando crescemos, ficamos enjoados do algodão-doce que, a toda hora, nos gritam da rua.</p>
<p><span id="more-13323"></span>As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos únicas. Quando éramos crianças, o atávico camaleão, mais antigo que a morte, só aparecia quando lhe dava na telha aparecer. Fascinados, esperávamos por ele entre as folhas de bananeira. Delirávamos à mais rápida visão do bicho adorado. Com cabeça de dinossauro, escamas reluzentes de peixe abissal e corpo colorido de serpente gorda, ele se estendia um pouco ao sol e desaparecia, deixando-nos com a melancolia da sua essencialidade.</p>
<p>As coisas inacreditavelmente banais são os lugares que pensamos muito distantes. Alguns brinquedos, quando éramos crianças, acumulavam-se em lugares que não existiam perto de nós e muito pouco visitávamos. Gangorras, balanços, escorregos, pedalinhos. Uma vez a cada tempo incalculável, brincávamos lá naquelas lonjuras. Então exultávamos de felicidade com o que, quando crescemos, às vezes entedia.</p>
<p>A caixinha de música com a bailarina rodando em cima era o objeto mais raro existente na face da terra. Todos os sonhos de consumo se conduziam para ela. Toda a capacidade de fascinação se concentrava na música mal tocada por uma geringonça incompreensível. Toda a beleza do mundo estava na caixinha que, quando nos tornamos adultos, se multiplica nas vitrines que olhamos sem interesse.</p>
<p>Delírios cumprem a lei da relatividade, no tempo e no espaço. Uns só deliram com coisas mirabolantes ou, pelo menos, com o que imaginam ser coisas mirabolantes. E aí é que está: mirabolante, delirante, é aquilo que acreditamos ser capaz de nos fazer delirar. Inclusive, as coisas reais e até as coisas banais. Canta Belchior, na música “Alucinação”: “A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E o meu delírio é a experiência com coisas reais.”<br />
Desejávamos ardentemente algo, para depois senti-lo tornar-se banal, inacreditavelmente banal. Às vezes até indesejável. O algodão-doce, os brinquedos das lonjuras, a caixinha de música, nada disso fascina mais. De todos os desejos, restou a espera pela visão fugaz do camaleão entre as folhas. Esse que se mantém inalcançável. Intenso, atávico, súbito, como esses desejos intensos e atávicos que, inacreditavelmente se desfazem num relâmpago&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/delirio-com-coisas-reais/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cores que não sei o nome</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/cores-que-nao-sei-o-nome/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/cores-que-nao-sei-o-nome/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 20:26:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=12441</guid>
		<description><![CDATA[
Tenho cores de outros. Sempre foi assim com as minhas cores. Sou mosaico, colcha de retalhos, entalhes: “cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo&#8230;”, dos “Esquadros” de Adriana Calcanhoto. Cores de Manu Chao, porque escuto sem parar “La Radiolina” e tenho a sensação de sons de notas tocando cores num sagrado aboio. Cores da Espanha, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-12446" title="frida kahlo" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/01/frida-kahlo1-510x438.jpg" alt="" width="510" height="438" /></p>
<p>Tenho cores de outros. Sempre foi assim com as minhas cores. Sou mosaico, colcha de retalhos, entalhes: “cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo&#8230;”, dos “Esquadros” de Adriana Calcanhoto. Cores de Manu Chao, porque escuto sem parar “La Radiolina” e tenho a sensação de sons de notas tocando cores num sagrado aboio. Cores da Espanha, cores de Barcelona. Cores do México, cores de suas máscaras. Cores rubro-negras do Flamengo e do “Maná” em “Amar is Combatir” que também ando a escutar sem cansaço. Sou daqueles que, quando gostam de uma música, ou de um álbum, escutam à exaustão. Uma, duas, dez vezes mais&#8230;</p>
<p><span id="more-12441"></span>No mês da primavera, manadas de cores me cercam. Alcatéias de nuances disparam-me. Lembro da cor da minha infância: “Flicts.” Com esse livro de Ziraldo, me identifiquei assim que o li.  Com a cor Flicts, ainda a minha cor, a minha metáfora. A cor dos que tarde encontram suas pertinências. Seus pertencimentos. Flicts é a cor dos que bem cedo descobrem o significado da palavra estranhamento. A essa raça pertenço.<br />
Pertenço às cores das minhas sensações: Frida e Dalí. Às esfumaçadas cores renascentistas. A Goya. Às cores vivas da África. Às cores das máscaras venezianas. Tudo o que é cor me apanha no seu feitiço.</p>
<p>Ainda mais por setembro, mês da primavera e mês das cores. O meu mês, posso assim tomá-lo para mim. Foi em um setembro que eu me incendiei de cores e me reconciliei com o “demônio da esperança”, exorcizando assim um dito de Machado de Assis com o qual vinha convivendo há tempos: “o demônio da esperança instalou-se outra vez no meu coração”. Foi num setembro que pude, enfim, reconhecer na esperança uma divindade benfazeja ao invés de apenas enxergá-la como um diabinho enxerido feito de ludíbrio e decepção. A esperança, num setembro, cumpriu todas as promessas de trazer uma explosão de cores. Em vez de ser o deus enganador, “sonso e ladrão”, cumpriu as próprias profecias.</p>
<p>Comemoro a primavera escutando Manu Chao e suas cores, não vistas, mas intensamente ouvidas. Comemoro lendo suas letras mais líricas, procurando-me e procurando nelas as pessoas que me fizeram mosaico. Encontro Joana, a mais preciosa. “A minha Joana era feita de melancolia/Asas não tinha. Quando cantava,/fazia questão de não ouvir que cantava,/porque era dos que guardam a esquisitice/de se apavorar com a própria alegria&#8230;” Escondia dos mais as cores intensas que tinha, mas foi ela quem, numa tarde molhada, entregou-me o arco-íris, apontando o céu sobre o pico do Cabugi, aquele enorme peito do qual antes de ser gente eu já sugava leite de todas as cores. “Mama cuchara ayudame esta lloviendo y yo tengo frio”. Dá-me, mama, uma colher de cores. Pelas graças de ter a minha Joana, o arco-íris foi, desde então, a minha pátria e o meu caminho, mesmo sendo eu também guardadora de Flicts, a cor do estranhamento, que o Ziraldo me ensinou ser a cor da lua.</p>
<p>A minha Joana se foi, mas não suas cores escondidas nos baús. Não, nem ela se foi, pois é substância: tende a ser onda e duração&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/cores-que-nao-sei-o-nome/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>La cubana en la Habana</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/la-cubana-en-la-habana/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/la-cubana-en-la-habana/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 15 Dec 2009 19:34:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=11085</guid>
		<description><![CDATA[Ela parecia guardar o mundo nas ancas. Era enorme, uma mulher enorme, daquelas que metem medo nos homens – mãe enorme parindo ao contrário, com jeito de engolir. Mas dançava com a desenvoltura de uma sílfide, dançava com a liberdade de uma salamandra, escorregava balançando como uma ondina.
Eu a conheci num longínquo dezembro, mais precisamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela parecia guardar o mundo nas ancas. Era enorme, uma mulher enorme, daquelas que metem medo nos homens – mãe enorme parindo ao contrário, com jeito de engolir. Mas dançava com a desenvoltura de uma sílfide, dançava com a liberdade de uma salamandra, escorregava balançando como uma ondina.</p>
<p><span id="more-11085"></span>Eu a conheci num longínquo dezembro, mais precisamente em 31 de dezembro de 1998. Longínquo não é o tempo, vós o sabeis, mui longínqua é a nostalgia. Por isso, a cubana dançante de Havana é longínqua.</p>
<p>Ali, em Havana, onde as ruas encompridam os nossos olhos, de noite e de dia. E não só os olhos. Tudo se encomprida em Havana. Comprida é a praia, sobre a qual contemplei lua cheia mais-bonita-não-há, da janela alta do hotel luxuoso. Os hotéis para turistas e tudo para turistas é muito luxuoso em Havana. A revolução se encompridava já, fazia quarenta anos. Encompridei-me corpo e alma pelas ruas do centro da cidade, inclusive olhando os prédios ocupados pelo povo no tempo da revolução. O povo, cujas gerações se encompridam nos antigos edifícios do governo, feitos cortiço, sem manutenção, descascados, vexados pelo tempo. Lá em Havana, onde os policiais em cada esquina nos impediam de chegar mais perto dos moradores daqueles prédios. Nós, os turistas, a quem era destinado luxo e aparência.</p>
<p>Tínhamos muito pouco tempo. Não nos estreitamos com o povo, nós que líamos antigos livros de poesia cubana vendidos nas praças, fumávamos charutos andando nas ruas, tomávamos sorvete na Coppelia, daiquiri no Floridita e táxi em longínquos automóveis. Nós que não amávamos a revolução e achávamos bizarrice Che Guevara pregado numa cruz à moda de Cristo. Não, não nos estreitamos com os que nos pedíamos confeitos, batom e creme dental, coisas que carregávamos para eles mesmos. Não nos estreitamos com quem nos pedia roupas e brinquedos. Nem quando singramos o rio para visitar a Santeria e a Nossa Senhora Negra de Havana.</p>
<p>Mas não é preciso estreitar-se para arder de paixão. Digam o que disserem, diga eu o que disser, Havana apaixona perdidamente. Havana não é um sítio para se pensar. Não é um lugar de racionalidades. É um lugar para se sentir. Adentrar a feira e comprar uma cubana imensa, uma cubana feita de barro guardando o mundo nas ancas.</p>
<p>Uma dessas, mas de carne, eu a conheci dançando no ano novo de 1999. Ela tinha a força e a cor da terra. Dançava com todos os homens do lugar, no pátio em frente à igreja. Eles, se magros e pequenos, desapareciam engolidos pelas carnes voluptuosas. E todos eles, diante da grande-mãe, pareciam pequenos e magros. A grande-mãe, semeadora da vida, dançava, enquanto, um a um, eles iam cansando. Ali, em Havana, o ano novo prenunciava o bom futuro, num ritual de fertilidade.</p>
<p>Na longínqua Havana, houve a lua cheia e a grande-mãe, tudo mulher. Por isso, a gente se encomprida por lá, mulher é coisa de encompridar. Havana é uma imensa mulher, engolidora, como aquela aparição de ano novo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/la-cubana-en-la-habana/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Caminhos</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2009 20:21:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=9398</guid>
		<description><![CDATA[O SIMBOLISMO NOS CAMINHOS
“&#8230;O caminho agonizava, morria sozinho&#8230; Eu vi&#8230; Porque 					são os passos que fazem os caminhos!”
Mario Quintana
 A primeira obra escrita é sobre travessia. Mesmo à época em que os seres humanos ainda não dominavam a linguagem escrita, já se guiavam pelo simbolismo dos caminhos. Da “Epopéia de Gilgamesh” à saga de “Matrix”, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2009/11/matrix.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-9400" title="matrix" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2009/11/matrix-197x300.jpg" alt="matrix" width="197" height="300" /></a>O SIMBOLISMO NOS CAMINHOS</p>
<p><em>“&#8230;O caminho agonizava, morria sozinho&#8230; Eu vi&#8230; Porque 					são os passos que fazem os caminhos!”<br />
</em><strong>Mario Quintana</strong></p>
<p><strong> </strong>A primeira obra escrita é sobre travessia. Mesmo à época em que os seres humanos ainda não dominavam a linguagem escrita, já se guiavam pelo simbolismo dos caminhos. Da “Epopéia de Gilgamesh” à saga de “Matrix”, tudo é viagem. Seja material ou espiritual, o ser humano tem uma necessidade intrínseca de passagens.</p>
<p>Não é à toa que o caminho de Santiago, na Espanha, vem atraindo peregrinos há séculos. Quem já o caminhou fala de descobertas espirituais em uma senda mística e bela. Tiago era um pescador que virou apóstolo e depois santo, porque morreu defendendo a causa cristã. Seus restos mortais foram levados à Espanha e o caminho que leva hoje a seu túmulo, desenhado pelas peregrinações, tem cerca de oitocentos quilômetros.<br />
Para se chegar a qualquer conhecimento, há que se atravessar algum caminho. Guimarães Rosa eternizou a travessia na literatura brasileira, com as veredas do Grande Sertão. Sua travessia do liso do Sussuarão tem, no dizer dos entendidos, vasta simbologia mística e literária, que desemboca numa epifania.</p>
<p>A lenda celta-cristã do Graal é centrada na procura de “Parsifal”, cavaleiro do ciclo arturiano, de algo para salvar o rei-pescador, com uma ferida incurável. A inocência do herói é, nesse mito, fundamental para a conquista do símbolo e a cura do rei.</p>
<p>São João da Cruz, o santo de palavras mais lindas que já existiu, fala também de um atravessar pela “Noite Escura da Alma” e de um subir espiritual rumo a Deus. “A Subida do Monte Carmelo” é um caminho de despojamento que leva ao tudo. Essas duas obras, a noite escura e a subida se completam. Os poemas que as compõem são muito semelhantes ao “caminho do meio” do budismo, aquele que leva à iluminação.<br />
A saga da trilogia “Matrix” é imersa em símbolos, utiliza-se das idéias cristãs, gnósticas e budistas. No momento em uma só simbologia me deterei: a simbologia da jornada. Se você quer saber, se você quer descobrir, então siga. Vá. O que é a Matrix? A verdade está no caminho. O protagonista Neo empreende uma odisséia entre sonho e realidade para conhecer e vencer a Matrix. Sua nave chama-se Logos. Logos é a razão para os gregos. Mas seu significado primitivo é verbo – palavra. A razão se ergue da palavra. Para os gregos ele tem significado de conceito. Para a teologia cristã, logos é o verbo e, portanto, é Deus. Na mitologia da Grécia, a palavra das musas cantantes deu origem a tudo mais, inclusive aos deuses – os próprios criadores de tudo.</p>
<p>Se logos é o conhecimento através do conceito ou da palavra, voltamos à passagem, voltamos ao caminho. E o caminho é precisamente a palavra. É assim a poesia. Não estou certa se a poesia é a realidade, ou se ela é uma imensa Matrix – Maya – a ilusão. Mas sei que é o lugar onde as travessias se fazem pelas palavras: caminhos inóspitos, às vezes desesperadores que nos levam ao conhecer de nós mesmos. Nós que também somos, talvez, só Maya, ilusão.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/caminhos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Um café com Dandara</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/um-cafe-com-dandara/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/um-cafe-com-dandara/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2009 19:40:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=7749</guid>
		<description><![CDATA[Lá estava Dandara sentada num café, ensimesmada até me ver, mas depois, toda derramada em abraços e beijos, chamando-me para sentar-se com ela.
Há quem ame perdidamente. O amor de perdição é o mesmo amor de salvação, sem tirar, nem pôr, dizia Dandara. Não sei se salvar-se depende de nós, não sei se é possível escolher [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lá estava Dandara sentada num café, ensimesmada até me ver, mas depois, toda derramada em abraços e beijos, chamando-me para sentar-se com ela.</p>
<p>Há quem ame perdidamente. O amor de perdição é o mesmo amor de salvação, sem tirar, nem pôr, dizia Dandara. Não sei se salvar-se depende de nós, não sei se é possível escolher entre as duas coisas, se “tão contrário a si é o mesmo amor”. Às vezes, a gente escolhe, ponderei. A vida escolhe por nós, disse a profusão de nome Dandara. Transbordando de tanta escassez, de tanta necessidade de amor, desse amor demais dentro dela, platônica e atávica como ela só. Não quero mais passar tanto tempo sem vê-la!</p>
<p>E “tão contrário a si é o mesmo amor.” O amor é o mesmo, e nosso, nós é que o projetamos nos outros. E eu entreguei o meu ouvir à voz roliça dela, e entreguei o meu olhar aos seus acesos olhos: amei perdidamente uma pessoa, você sabe, não? Amava tanto que nem percebia quão pouco vinha em retorno. Passei anos nisso, lembra? Pois é, e aí um belo dia, porque o coração dele desocupado estava, arranjou ocupação. Ocupadinho de outra, chegava a transbordar, que nem o meu de sofrer por ele. E você sabe o quanto eu sofri, o quanto passei a detestar aquela que me surrupiara a felicidade imaginária na qual eu vivia. Eu digo imaginária porque era uma felicidade pelo meio, minguada, feita só de amor meu, com um tempero forte de angústia. Você se lembra de todas essas coisas.</p>
<p>Eu lembrava. Ela amou perdidamente certa pessoa e não foi correspondida. O rapaz andou de namorico com ela enquanto não tinha algo mais interessante para fazer, e depois, deixou Dandara à perdição. Fazia uns anos, já. Dandara, 44 anos. Não digo a idade para explicar a mulher, nem sua história, que poderia ter acontecido aos 15, 20, 30, 50 e demais. Digo é só para me ajudar a descrever Dandara, contemporânea da minha primeira faculdade e pertencente à raça dos que amam demais.</p>
<p>O amor de perdição é o mesmo amor de salvação. A intensa Dandara está de novo apaixonada e, desta vez, feliz. Correspondência eleita pelo destino, ou pelo acaso, ou seja que nome se queira dar a esse bicho que arruma as coincidências. O outro amor, aquele acabara, como uma libertação. Mas libertação mesmo, diziam os acesos olhos da minha amiga junto com a fala roliça dela, fora deixar de odiar a antiga rival. Porque acabar um amor na gente, dizia ela muito dizendo, é também perder sentimentos bons desperdiçados. Alivia, mas dá uma nostalgia também. Já quando a gente acaba a raiva, só desaparece coisa ruim, que fazia mal para nós, unicamente para nós, porque a outra estava lá, feliz, vivendo sua muita história.</p>
<p>Eu só não concordei com isso de nostalgia por sentimentos bons desperdiçados. Desperdiçados eles eram quando direcionados para o alguém errado. Como disse ela mesma, o sentimento é nosso e nós o projetamos. Livramo-nos, então, somente do erro de direção. Daí para a frente, é acertar o arco. “Não quero saber de Lirismo que não é libertação”*. Quanto ao mais, Dandara, gosto de ouvir você dizer que o porquê da sua vida é “ir além”. Gosto mais ainda de saber que o significado desse “ir além” só os deuses e você conhecem. Só você e os deuses ditam.</p>
<p>*verso de Manoel Bandeira</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/um-cafe-com-dandara/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Voltas sem volta no tempo</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/voltas-sem-volta-no-tempo/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/voltas-sem-volta-no-tempo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 14:11:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=6990</guid>
		<description><![CDATA[“Nosso futuro é tão irrevogável quanto o rígido ontem”
Jorge Luis Borges
Foi o astrônomo na televisão: “olhamos no céu o passado. Essas luzes ocorreram há milhares de anos (ou anos-luz, como queiram) e só agora estão chegando até nós”. E eu pensava no céu como futuro&#8230; Não, como eternidade. Eu aprendi isto: a olhar para o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Nosso futuro é tão irrevogável quanto o rígido ontem”<br />
</em><strong>Jorge Luis Borges</strong></p>
<p>Foi o astrônomo na televisão: “olhamos no céu o passado. Essas luzes ocorreram há milhares de anos (ou anos-luz, como queiram) e só agora estão chegando até nós”. E eu pensava no céu como futuro&#8230; Não, como eternidade. Eu aprendi isto: a olhar para o céu e enxergar o porvir. Já o Italo Calvino, nas suas “Cidades Invisíveis”, dizia: o passado, podemos modificá-lo, mudando a nossa visão dele.</p>
<p>Deve ser por essas coisas que a teoria da relatividade de Einstein nos fascina tanto, nos assombra tão além do seu valor científico. Gostamos de pensar num tempo rotativo, circular, como o nosso mais íntimo desejo de eternidade.</p>
<p>Desejamos a eternidade na forma de um céu estrelado. E no entanto&#8230; Somos escancaradamente finitos. De circular temos apenas que as nossas escolhas passadas sempre voltam, de um modo ou de outro. Elas são o nosso futuro, acontecendo agora. Isso é o nosso tempo. Temos de lidar com as nossas escolhas passadas durante todo o nosso tempo. Mudá-las, podemos, mudando a nossa relação com elas, como queria Calvino. Podemos também afirmá-las e reafirmá-las, ou porque elas foram frutos de grandes acertos, ou então porque perdemos a chance de acertar.</p>
<p>Só que o tempo, linear ou circular, ele se rompe na finitude, quando menos esperamos. Somos finitos, sim. E escandalosamente frágeis. É a nossa fragilidade o que temos de irrevogável, Jorge Luis. A tua, a minha, a de todos a quem pensamos eternos. Há pessoas que, parece, não se acabarão nunca. Há pessoas que, quando morrem, nos espantam, até nos agridem com essa exposição de finitude. E essa sensação não tem a ver com o grau de proximidade ou com o sentimento que nutrimos por elas. Podemos amá-las muito, ou amá-las pouco, ou detestá-las, ou apenas conviver com a sua existência. Essa sensação, concretizada com o choque, tem a ver com o não esperar. Não esperamos nunca certas mortes.</p>
<p>Existem mortes inacreditáveis para cada um de nós. E essas, só o tempo fará com que acreditemos que elas existiram. E, no entanto, elas ocorreram há anos-luz do momento no qual as admitimos. Quando conseguimos contemplá-las, encará-las, aceitá-las, elas são já passadas, feito as luzes do astrônomo que tirou a minha ilusão de pensar no céu como futuro e eternidade. Podemos mudá-las, mudar as mortes, Calvino? O passado pode ser mudado, mas&#8230; E a morte? Mudando nosso pensamento sobre ela, podemos mudá-la, ou é ela a encarnação (ou o desencarnar) do rígido e irrevogável ontem de que fala Borges?</p>
<p>Só temos a posse do presente, e quando a temos. Por isso, eu, uma pessoa ardorosamente crente nessa entidade chamada destino, tenho para mim um pensamento, que repasso a vocês “como princípio e também como fim de toda metafísica”*: façamos de um tudo para ser íntimos do nosso destino, tão íntimos, a ponto de nos confundirmos com ele, porque a morte, num piscar de olhos, dele nos separa.</p>
<p><em>* verso de Walt Whitman</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/voltas-sem-volta-no-tempo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Asas aprisionadas</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/asas-aprisionadas/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/asas-aprisionadas/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 25 Sep 2009 00:18:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=6036</guid>
		<description><![CDATA[
Encontrei-o no além-mar outro dia. O professor ainda tem o mesmo cabelo enorme e o mesmo jeito irreverente de quando era adepto da luta armada, nos anos setenta. Comunista ferrenho, não iria ver a sonhada derrocada da burguesia. Ao contrário, hoje contempla o auge do capitalismo individualista, com globanalização e desmatamentos.
As meninas burguesas da época [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2009/09/passaros1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-6043" title="passaros" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2009/09/passaros1-300x221.jpg" alt="passaros" width="300" height="221" /></a></p>
<p>Encontrei-o no além-mar outro dia. O professor ainda tem o mesmo cabelo enorme e o mesmo jeito irreverente de quando era adepto da luta armada, nos anos setenta. Comunista ferrenho, não iria ver a sonhada derrocada da burguesia. Ao contrário, hoje contempla o auge do capitalismo individualista, com globanalização e desmatamentos.</p>
<p>As meninas burguesas da época se apaixonavam todas por ele. Mal caíam no laço (ou cama, como queiram), ele começava a pregação marxista. Era bom nas duas coisas: na cama e no doutrinamento. Em três tempos, ele convencia as meninas de que o rímel nos  olhos delas era o vilão abominável responsável pela exploração do proletariado. Para terem o status de namorada do revolucionário, trocavam o vestido de seda pelas roupas de saco e o Chanel nº. cinco pelo sabonete barato. Rompiam com as amigas consumistas, com os pais retrógrados, com a família careta. Passavam a ler apenas literatura engajada. Uma ou outra adotava o baseado, hábito indispensável dele. O relacionamento era aberto, claro, mas só ele aproveitava essa tal abertura, porque as meninas, de tão apaixonadas, não tinham olhos para mais ninguém. E quando ficavam com outro, era só para chamar a atenção do ídolo.</p>
<p>Na sucessão de namoradas, a abandonada ficava péssima. Algumas delas fingiam não estar nem aí, eram afinal mulheres liberadas e coisa e tal&#8230; Continuavam engajadas no projeto revolucionário, lado a lado com o novo casal, certas de que mudariam o mundo. Outras caíam na real, encaravam o sofrimento, desmistificavam o cara, recuperavam a auto-estima (que ele era craque em arremessar no chão) e iam cuidar da própria vida. Ah, e voltavam a usar o Chanel nº. cinco.</p>
<p>Ele, a certa altura da vida, desiludido com a luta armada, comprou um sítio no meio-norte do país, onde continuou a pregar Marx, Engels e Cia. ilimitada. Mas, e como em tudo há paradoxos, além de comuna, o sítio era um lugar repleto de gaiolas de passarinhos. Eram incontáveis. Nesse lugar, reunia-se a nata da intelectualidade de esquerda local.</p>
<p>Pois um dia, um jovem professor, colega desse nosso personagem, no meio de uma falação do mestre revolucionário, pediu um tempo. É, fez um T com as mãos, aquele gesto característico de toda reunião chata. O mestre, contrariado por ser interrompido quando fazia uma preleção mais que perfeita sobre a libertação da classe oprimida, pensou ser de bom tom conceder o tempo. Aí o jovem, do alto da coragem que o fizera assumir recentemente a homossexualidade por muito tempo reprimida, perguntou-lhe pela libertação dos pássaros ao redor. O outro ficou vermelho, engasgou. É que ele nunca havia pensado nessa coisa tão básica: liberdade verdadeira é para tudo e todos. Nunca havia pensado se os passarinhos gostavam ou não daquelas gaiolas apertadas. Ele, simplesmente, gostava dos passarinhos nelas, e pronto. Como também gostava das meninas eternamente deslumbradas por ele, presas ao seu encanto, alimentando a sua vaidade.</p>
<p>Tanto não soube se explicar para o jovem, que foi no pescoço dele. Sentiu-se desmoralizado? Sentiu-se desnudado, até para ele mesmo. Os dois foram às vias de fato e teriam se engalfinhado se a turma do deixa disso não os tivesse apartado.</p>
<p>Falso libertário ou só um ser contraditório, como todos nós? Só sei que, pássaros ou pessoas, são tantos que a gente prende sem nem perguntar se eles estão gostando&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/asas-aprisionadas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>link do texto sobre Antígona e Zuzu</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/link-do-texto-sobre-antigona-e-zuzu/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/link-do-texto-sobre-antigona-e-zuzu/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 08 Sep 2009 01:06:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=5174</guid>
		<description><![CDATA[A leitora Elianne Diz lembrou que eu deveria ter dado os créditos do texto ao qual aludi no escrito sobre Antígona e Zuzu. Peço desculpas pela falha que, embora não corrija, espero amenizar fazendo o que ela sugeriu, ou seja, passando o link que ela encontrou na internet: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10125
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A leitora Elianne Diz lembrou que eu deveria ter dado os créditos do texto ao qual aludi no escrito sobre Antígona e Zuzu. Peço desculpas pela falha que, embora não corrija, espero amenizar fazendo o que ela sugeriu, ou seja, passando o link que ela encontrou na internet: <a href="http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10125" target="_blank">http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10125</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/link-do-texto-sobre-antigona-e-zuzu/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>No entanto, ela se move</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/no-entanto-ela-se-move/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/no-entanto-ela-se-move/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 11:30:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=4970</guid>
		<description><![CDATA[Encontrei na web um texto que achou identidade entre duas mulheres separadas por épocas históricas, espaços geográficos e até pela realidade, porque uma delas é somente ficção.  Antígona e Zuzu Angel. Antígona é uma mulher lendária, personagem-título da tragédia grega de Sófocles, é a moça que enfrentou o Rei de Tebas, Creonte, pelo direito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Encontrei na web um texto que achou identidade entre duas mulheres separadas por épocas históricas, espaços geográficos e até pela realidade, porque uma delas é somente ficção.  Antígona e Zuzu Angel. Antígona é uma mulher lendária, personagem-título da tragédia grega de Sófocles, é a moça que enfrentou o Rei de Tebas, Creonte, pelo direito de enterrar o irmão, o qual morrera lutando contra Tebas. Pela Lei de Creonte, inimigos não podiam ser enterrados, mas pelas leis dos deuses, o enterro era um direito sagrado. Antígona foi enterrada viva numa caverna, por determinação de Creonte, pelo fato de tê-lo enfrentado e de ter questionado suas leis, contrapondo a elas aquele direito sagrado.<br />
Zuleika Angel era mãe de Stuart, torturado e morto nos porões da ditadura. Porões aqui uso em sentido figurado, porque Stuart foi morto a céu aberto, arrastado por um carro com a boca presa a seu cano de escape, uma das mortes mais horrendas daquele período. Seu corpo nunca foi encontrado, dizia-se à época que havia sido jogado ao mar. Zuzu, sua mãe, invocando o sagrado direito de enterrar o filho, protestou contra a ditadura, através do seu trabalho. Ela era estilista e sua marca registrada eram as estampas de anjos, que, depois da morte de Stuart, se tornaram feridos, ensangüentados, atacados e machucados. Em 1976, Zuzu sofreu um acidente de trânsito fatal e muito suspeito, em um túnel no Rio de Janeiro.<br />
Curioso Antígona e Zuzu terem ambas morrido em cavernas. O túnel carioca repetiu a função da caverna grega, a função simbólica da ocultação. Porque precisam ser ocultadas, o que tinham, uma e outra, para ameaçar os poderes que as massacraram?<br />
E o que possuía Galileu, além da razão, para dizer que a terra se movia, embora o poder da Igreja dissesse o contrário? Galileu desdisse a sua afirmação, mas, mesmo assim, foi mantido recluso até a sua morte. Escondido, oculto. Se insistisse em falar contra os dogmas da época, seria destinado à tortura e morte no calabouço.<br />
Antígona e Zuzu, preferiram falar dos seus direitos considerados sagrados. Também Joana d’Arc o fez, sendo morta na fogueira da inquisição pela defesa ardente de suas convicções e de suas visões, tidas como bruxarias e apostasias.<br />
Se pode tanto o poder, porque calar a impotência? O que pode a impotência? Geralmente, essa impotência só possui uma coisa: a razão. E brande sua razão contra a insanidade do poder. Por isso, a relação do poder com a impotência é perpassada pelo medo que o primeiro tem da segunda. Um paradoxo que sempre conduz a tristes tragédias. No livro, “O Deus das Pequenas Coisas”, da indiana Arundhati Roy, há uma cena de tortura e assassinato, que leva o narrador a uma digressão sobre esse medo. O personagem morto havia sido despojado de tudo, de todo e qualquer direito. Aliás, já nascera despojado, pelo sistema de castas da sociedade indiana. Mas, para o poder, encarnado no livro por policiais torturadores, era preciso que se despojasse de si mesmo.<br />
Ou morrer, ou negar-se a si mesmo, como fez Galileu. Mas, a despeito dos podres poderes e tiranias de qualquer tempo e lugar, “ela se move” e continuará se movendo. Move-se, ainda quando só tem espaço para incomodar as disfarçadas tiranias do dia-a-dia, mais terríveis do que aparentam, mesmo sem matar.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/no-entanto-ela-se-move/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Decadência com elegância</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/decadencia-com-elegancia/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/decadencia-com-elegancia/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2009 21:35:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=4270</guid>
		<description><![CDATA[Se o poeta grego Konstantinos Kavafis houvesse escrito apenas o poema “Ítaca”, já seria um grande poeta. Se houvesse apenas escrito “Ítaca”, já teria feito versos possuidores de algo de nossas vidas. Mas ele não escreveu apenas “Ítaca”. Embora tenha feito poucos poemas – escrevia e reescrevia até a exaustão da estética – seus versos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se o poeta grego Konstantinos Kavafis houvesse escrito apenas o poema “Ítaca”, já seria um grande poeta. Se houvesse apenas escrito “Ítaca”, já teria feito versos possuidores de algo de nossas vidas. Mas ele não escreveu apenas “Ítaca”. Embora tenha feito poucos poemas – escrevia e reescrevia até a exaustão da estética – seus versos estão entre os mais fortes já escritos.</p>
<p>Foi ele mesmo quem disparou o conselho: “que seus versos sejam escritos de sorte/que contenham&#8230; algo de nossas vidas dentro deles”.</p>
<p>E sejam assim, ou não sejam versos. Que só se escreva o que se pode dilatar para abarcar os outros. Que só se faça poesia se houver poesia a se fazer. Que se seja sério, compenetrado, amante reverente da língua com a qual se escreve.<br />
Kavafis nasceu em Alexandria, em 1863. Aprendeu o grego, língua de seus versos e de sua paixão. Escreveu poucos poemas, cerca de cento e cinqüenta e quatro, mas muito disse da vida e do mundo no qual viveu.</p>
<p>Cantava um decadentismo exalado de tradições pagãs e cristãs, não o que era corrente na Europa. Era decadente e elegante, como soem ser aqueles a quem a vida distribui impossibilidades, e que acolhem com estoicismo tais presentes dessa vida. Sendo homossexual, cantou o homossexualismo quase sempre a partir de lindos corpos inalcançáveis.</p>
<p>Escreveu “Ítaca”, poema do qual já falei antes aqui. Falei de “Ítaca” reportando-me ao tempo do ócio. Mas falaria igualmente se quisesse dizer de coragem ou de sabedoria. Ou se falasse de ideais ou de compreensão das coisas insondáveis. Os versos de “Ítaca” contêm muito de nossas vidas. Mas, não só. Em todos os poemas de Kafavis há algo de nossas vidas esplendendo ou se escondendo na sombra.</p>
<p>Entre o paganismo e o cristianismo, Kavafis ficou com os dois. Sorte a dele, pois a ambigüidade lhe era necessária à liberdade para escrever. Em literatura, quase sempre a liberdade tem, não só duas, mas infinitas cabeças que, como a Hidra de Lerna*, renascem e se fortalecem quando atacadas.</p>
<p>No ocaso da civilização romana, Kavafis encontrou o objeto do seu poema “À Espera dos Bárbaros”. Uma cidade espera os bárbaros, prepara-se toda para defender-se deles. Se os bárbaros não vêm, quê fazer? Então quem somos nós? Se não há bárbaros, em que consiste a civilização? Ah, meus caros, os bárbaros são o parâmetro e, se não os há, contentem-se em contemplar a solidão da decadência. Sem contrários. Própria, irrestrita.</p>
<p>Além de pouco escrever, Kavafis nunca publicou livro em vida. Publicou alguns poemas esparsos em revistas, mas sua maior preocupação sempre foi aperfeiçoá-los. Afinal, embora não haja impedimento, mudar um poema depois de publicado é estranho ao próprio escritor. Para Kavafis, fundamental era mesmo a perfeição e ele manteve a maior parte de seus poemas consigo, até que a morte os separou.</p>
<p>* <em>A Hidra de Lerna era um monstro de inúmeras cabeças de serpente, que se regeneravam quando mortas. Uma das cabeças era imortal. Derrotá-la foi um dos doze trabalhos de Hércules. </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/decadencia-com-elegancia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica para uma saudade</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/cronica-para-uma-saudade/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/cronica-para-uma-saudade/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2009 18:42:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=3397</guid>
		<description><![CDATA[Ele era tão antigo que dava até para praticar medicina sem ser médico, nem ser preso. Não era bioquímico, tampouco. Mas fabricava remédios, com água de chuva, em objetos tão antigos quanto ele. E curava doentes, aliviava dores. Jornalista&#8230; Bem, algumas vezes inventou de escrever e imprimir jornais. Uma vez, um desses jornais foi empastelado, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele era tão antigo que dava até para praticar medicina sem ser médico, nem ser preso. Não era bioquímico, tampouco. Mas fabricava remédios, com água de chuva, em objetos tão antigos quanto ele. E curava doentes, aliviava dores. Jornalista&#8230; Bem, algumas vezes inventou de escrever e imprimir jornais. Uma vez, um desses jornais foi empastelado, outra vez ele foi preso, isso em 1932, quando o chefe de polícia era Café Filho. Depois, virou conservador, ficou do lado do governo na época da ditadura, o pior momento da história para se ficar do lado de algum governo.</p>
<p>Era padrinho de uma procissão de afilhados. Penso que quando eu vivia ao lado dele, a palavra que mais se escutava em casa era benção. Sua benção, sua benção, sua benção. Ele tinha abençoado muitos com saúde, por causa dessa história de ser médico, mesmo sem ser. Naquelas eras de desamparo, a cura representava muitas vezes um quase milagre e os herdeiros dos pajés, como ele, eram reverenciados.</p>
<p>Ele tinha uns tantos desafetos, porque, além dessas atividades, inventou de ser político. Mas faço questão de dizer que era honesto, ora se faço. Antigamente, tinha uns políticos que ficavam mais pobres depois da ilusão da politicagem. Meninos, ele chegou a perder um imóvel. Eu vi!</p>
<p>Mas não quero dizer que era santo. Anjo, ele virou depois. Em vida, era alguém com alguns defeitos e insuperáveis qualidades. Para mim, naquela era antiqüíssima, ele era um paletó com gravata borboleta de bolinhas, dois bolsos cheios de confeitos que eu alcançava erguendo os braços e um colosso que brincava comigo.</p>
<p>Foi a primeira pessoa amada que eu vi morrer e porque senti eu mesma o bafo da morte essa semana, aferrei-me à lembrança dele. Hoje eu poderia estar morta, porque fiz o que ninguém jamais deve fazer: reagi a um assalto. Quando se faz isso sem querer (a reação foi absolutamente involuntária), a sensação posterior de horror é algo indescritível. A noite gótica desperta todos os temores, a quase morte amedronta os ossos. Para acalmar os pavores, eu busquei em mim a lembrança desse anjo.</p>
<p>Enquanto escrevo, ele me olha por trás dos óculos. E pensar que já se vão quase trinta anos sem ele&#8230; Nos seus últimos dias, passava o tempo a bordo de um pijama, deitado numa rede, entre balanço e pigarros. Queria talvez uma morte cultuada e prolixa, vivia a se despedir de toda a sua linhagem, dos que haviam passado e dos que passariam. Mas a morte, a dona das trapaças, uma noite meteu-se no sono dele e lhe arrastou a consciência. Ele não teve tempo nem lucidez para dizer adeus. Durante anos, arrastei uma mágoa por ele não me ter reconhecido no meio do ataque súbito da fatalidade. Olhou-me e não me viu. Agonizava, já, eu não sabia.</p>
<p>Foi a primeira pessoa amada que eu vi descer à terra e até hoje acredito que essa visão desencadeie um ritual de passagem. Um instinto com natureza de repentes nos dá a dor dilacerante quando alguém amado desce à terra. Outro instinto sem controle nos faz reagir sem querer a um assalto, por exemplo. Enquanto eu cá vivo na primariedade dos instintos, ele conquistou a natureza dos anjos. Dos anjos da guarda, para a minha sorte.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/cronica-para-uma-saudade/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da natureza dos muros</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/da-natureza-dos-muros/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/da-natureza-dos-muros/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 18:38:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=2641</guid>
		<description><![CDATA[Oscar Wilde e Chico Buarque perceberam o muro. Para Oscar Wilde, o muro fora erguido pelo “Gigante Egoísta”, para que as crianças não fossem brincar no seu jardim. Só que, sem crianças, o jardim do gigante também não era mais visitado pela primavera e, entrava ano, saía ano, a única estação que por ali pousava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Oscar Wilde e Chico Buarque perceberam o muro. Para Oscar Wilde, o muro fora erguido pelo “Gigante Egoísta”, para que as crianças não fossem brincar no seu jardim. Só que, sem crianças, o jardim do gigante também não era mais visitado pela primavera e, entrava ano, saía ano, a única estação que por ali pousava era o inverno: neve, geada e granizo. Um dia, o gigante percebeu a natureza do muro, derrubou-o e chamou as crianças de volta. A partir daí, seu jardim se encheu de flores.</p>
<p>O muro que Chico Buarque cantou era um e eram dois: um cercava o bosque junto à rua, onde a felicidade morava, mas o dono do bosque não via. O outro muro separava o eu lírico da música “Até Pensei” e a sua amada. Ambos os muros proibiam a aventura.</p>
<p>O Conto “O Gigante Egoísta” e a canção “Até Pensei” falam de impossibilidades e impedimentos que estão além das vontades do eu lírico da música e das crianças do conto. Já Fernando Pessoa nos aconselha: “Cerca de grandes muros quem te sonhas.” No poema “Conselho” é o próprio eu lírico que impede que lhe vejam como é. Diz o Pessoa que somente onde ninguém nos vê, podemos deixar “as ervas naturais medrar”.</p>
<p>E é assim: erguemos muros entre nós e os outros, por egoísmo, por auto-suficiência ou por medo. Ou porque chega um tempo de pensar que não vale a pena nos mostrarmos como realmente somos.</p>
<p>Quando erguemos muros por egoísmo ou por auto-suficiência, somos como o gigante de Oscar Wilde, que não entende porque a primavera não visita o seu jardim. Ficamos nessa inconsciência de não saber que, com o ruído alheio, vem também a floração de nós mesmos. Mas quando nossos muros são erguidos por medo ou desencanto, aí nós já compreendemos o significado dessa floração.  Sabemos o motivo pelo qual estamos nos cercando de “grandes muros”. Então, dissociamos ser e aparência. No entanto, se essa dissociação se aprofunda, a aparência vira caricatura. Não é difícil nos defrontarmos com pessoas tão artificiais, tão artificiais, que sequer sua aparência é crível. O ser fica tão dissolvido que essas pessoas acabam por acreditar que só a sua aparência existe. Existe, mas não convence. Sabem a sensação de conversar com uma mentira?</p>
<p>Falei outro dia de partes de nós que para sempre permanecerão secretas para os outros, isso é da nossa natureza, pois algo de nós até para nós permanecerá segredo. Porém, esconder por inteiro é da natureza dos muros, não da nossa. Mesmo que nos protejamos de vez em quando, mesmo que cultivemos a cautela, não pendamos aos radicalismos. Também é preciso deixar que os outros vejam “as flores que vêm do chão crescer”, tão mais reais do que os canteiros cuidadosamente podados.</p>
<p>Seria maravilhoso intuir sempre quais são os outros a quem nos podemos mostrar, quais são os outros que podem chafurdar nos nossos jardins, bosques e ternuras. Mas não é assim. A intuição nem sempre é exata e sem dúvida nos machucaremos de vez em quando pela falta do muro. Mas, e a primavera?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.substantivoplural.com.br/da-natureza-dos-muros/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
