Pois eu ando me requintando. Aí, vêm os espinhentos dobrando-se e se enroscando de rir, para dizer que requintes não combinam comigo. Dizem que não combina comigo esse dizer que é não dizer. Dizem que requintar-se é andar etiquetada. Pois eu digo que não é, nunca gostei de rótulos. Requinte é outra coisa, é até parecido com pudor, é uma coisa íntima, pessoal.
A estrela oculta
2 de fevereiro de 2011 às 20:12 | Comentar“O nada era sem dúvida mais cômodo. Como é difícil dissolver-se no ser.”
E.M. Cioran
- A grande verdade lhe será revelada. Para isso, basta obedecer. O caminho seguro será seu. Para isso, basta concordar. Mas, o que é a verdade? Mas, o que é o caminho? O que é a vida?
Coisa que endoidece: buraco negro. Endoidece porque encobre. O que encobre? Verdades? A verdade não existe, nem as verdades. Tudo é Maya, ilusão.
Da natureza dos versos
7 de janeiro de 2011 às 8:35 | 3 ComentáriosComo um poema muitas vezes fustigado, e todo poema sofre de açoites, também eu limei as unhas e os sentidos, aparei as arestas de mim, arranquei adornos e rompi com a segurança de ser correta. Também eu fui à intempérie com gosto e gás, desidratei, finquei amor em pedra.
A parte fosca da poesia
22 de dezembro de 2010 às 15:21 | 3 ComentáriosPrefiro da poesia a sua parte fosca, pois é pura vida em estado de palavra. Pura palavra em estado de vida.
A parte fosca da poesia está embebida em cânfora. Ela me pega pelo olfato. Ela me aclimata. Qualquer espécie de fim me dá ânsias de desespero, mesmo os fins que se afiguram transitórios. Um fim transitório é uma contradição dos diabos. A parte fosca da poesia é o símbolo; não tem fim, ao contrário, o símbolo é a origem da poesia.
Orquidário ou relicário?
5 de dezembro de 2010 às 20:01 | 1 ComentárioAs orquídeas nunca foram o meu forte. Enquanto a minha Joana cultivava rosas, jasmins e lírios, eu cultuava cactos. Eu era caatingas e descampados e em mim a vegetação chegava a agonizar, só voltando a rebentar graças à sua natureza de fênix. Desde sempre cumpri ritos de secura, aprontei-me toda para a inevitável aridez. Aprendi palavras esturricadas para tecer fala e escrita. A sina das minhas palavras foi e é (cada vez mais) o esforço de romper.
Eu vi a cara da morte
17 de novembro de 2010 às 11:37 | 2 Comentários
Amarguei-me do amargor das velas e da ladainha das carpideiras. Aquela morte ia ser o vigamento da minha alma, mas eu ainda não sabia. A primeira morte que eu via, morte de cuja defunta eu também vira o rosto, ainda vivo, arfando sob lençóis brancos. Ali eu descobrira a palavra estertores e a palavra agonia, defronte àquela morte caseira, que atraía os passantes. Eu também era passante, e era colegial, dois adjetivos paralelos naquele tempo, porque, saída do colégio, eu ficava a zanzar pela cidade. Eu era passante atraída pela morte exposta, acuada pelo desconhecido, emboscada pela curiosidade. Vi-me no meio da sala, entre mortalha preta, velas, flores, carpideiras e uma filha copiosa: inerências da morte me explicitando a morte.
Invocação dos lares
24 de outubro de 2010 às 18:39 | ComentarDesde a tenra idade, acostumei-me à existência dele. Para nós, da raça dos que amam imagens, os deuses lares não morrem, viram objetos de culto; eu fui criando intimidade com ele, por costume. Ter um costume é bom. Não estar acostumada assusta, apavora, e ter o costume apazigua. Ter um costume pode ser redentor, às vezes. Eu tenho o costume de saber que ele existiu, e se lançou ao mar numa jangada por acreditar na liberdade. Trouxe de Fortaleza para o Rio Grande do Norte um alvará de soltura, libertando cem escravos presos por arbitrariedade das autoridades policiais e políticas de Macau, no longínquo ano de 1888. Eu tenho o costume de amá-lo por liberdades: a liberdade de admirá-lo profundamente, a liberdade de acreditar nas suas crenças, a liberdade de celebrá-lo como um cara que rasgou limites, a liberdade paradoxal de pensá-lo com um pensamento de posse: meu. Meu bisavô. Ele foi o máximo! Eu tenho o costume de pensar nele como uma proximidade, uma intimidade, muito mais do que uma mecha de cabelos num fecho de ouro.
A falta
9 de outubro de 2010 às 8:21 | 2 ComentáriosA FALTA (QUE AMA) E AS FALTAS
Contra a falta, há armas turbulentas: facões, granadas, tirsos e minas. Revólveres, estacas, bombas de gás lacrimogêneo. Contra a falta, há defesas: muros, escudos, cercas, armaduras. Trancas, presilhas, fugas.
Mas a falta não ataca. Como se defender daquilo que não ataca? Como se proteger do que não combate? A falta é imóvel, impassível. É falta, e não há desespero que a renda. A falta continua, permanece, é perene. É silêncio, claro, pois que falta poderia ensurdecer? É profundo silêncio, a falta.
Palafitas
19 de setembro de 2010 às 21:54 | 1 ComentárioEla habitava uma casa de palafita. Ocupava-se de consistências. A consistência da madeira, que sustentava a habitação. A consistência da água, que conspirava contra a consistência da madeira, apodrecendo-a lentamente. A consistência do vento, que atiçava água na madeira.
Yin e Yang
31 de agosto de 2010 às 8:39 | 1 ComentárioA rainha, antes de suicidar-se, declara: “Minha Resolução já foi tomada e nada mais tenho de mulher em mim. Agora, da cabeça aos pés, estou firme como mármore. Agora a inconstante lua não é mais o meu planeta.” Nesse instante, na peça “Antonio e Cleópatra”, de Shakespeare, entram um guarda e um campônio trazendo uma cesta.
Palavras que sabem a silêncio
14 de agosto de 2010 às 18:34 | 1 ComentárioQuando é preciso calar? Quando, apesar das falas, não há comunicação. Emissão e recepção se interrogam uma à outra: quem sois? Quando não se consegue dizer, pois, para dizer, é preciso compreensão. Escutar é pouco, muito pouco para o ato de dizer.
Não é sempre, mas acontece
22 de julho de 2010 às 14:59 | 2 ComentáriosEscrevi acima um dos versos que mais gosto de lembrar. É de Eugenio Montale. Gosto desse verso, ele fala das coisas raras e eu gosto das coisas raras, elas me dão uma sensação de sagrado. As coisas que não acontecem sempre, mas acontecem, sem “cerimônia ou maravilha”, e podem acontecer a qualquer momento. Poemas, por exemplo. Às vezes, os poemas acontecem, e não é sempre.
Às vezes eu faço poemas. Quero dizer, os poemas me fazem. Não é sempre, mas com eles aprendi algumas coisas. A proteger a sutileza com garras, portas e escuridões, mas nunca perdê-la. Os poemas têm um respeito espantado pelas coisas do mundo. Com eles aprendi a reverenciar o assombro.
Nem tudo é Montanha
8 de julho de 2010 às 22:15 | 3 Comentários
… Já o despojamento é uma coisa bem mais difícil. Agora mesmo preciso me despojar de um bocado de cansaço para escrever este escrito. A noite às vezes me quer alerta, e eu não tenho nenhuma ingerência sobre as decisões da noite. Mas no dia seguinte, neste dia seguinte, o resultado é desastroso. Meço cansaço em quilômetros. Enfim, despojar-se é custoso, que o diga o meu São João da Cruz, que se despojou todo, se desanuviou todo, para encontrar-se em Deus.
Afinidades Eletivas
24 de junho de 2010 às 13:37 | ComentarERIC, NORTON, OSCAR E AS AFINIDADES ELETIVAS
Da primeira vez em que prestei atenção em Eric Clapton, ele não cantava, nem tocava guitarra e, portanto, naquele momento, Clapton não era Deus. Estava bem humano, dando uma entrevista e falando do centro de recuperação Crossroads, para tratamento de pessoas com problemas no consumo de drogas e álcool, o qual ele fundara em Antigua, ilha caribenha. Falava também das tragédias de sua vida, desde a perda do filho Connor à dependência de álcool e heroína. No final, a repórter perguntou-lhe sobre a vida, apesar das tragédias. Eric respondeu-lhe: a vida não é o que ela nos dá, mas o que podemos dar para ela. Foi essa frase que me prendeu a Eric. Antes eu gostava de algumas das suas músicas, sem nunca ter sido fã, nem saber de sua trajetória. Agora, li avidamente sua autobiografia e uma coisa reafirmo: elegi-o, de algum modo.
(Des)esperança
9 de junho de 2010 às 14:56 | 7 Comentários
“… tive a vantagem de conhecer pessoas que se mostraram capazes de me tirar a ingenuidade, de me fazer corar pelas minhas ilusões; foram essas pessoas que realmente me educaram.” E.M.Cioran
Finalmente me encontro face a face contigo, desesperança. Descanso, enfim! Enfim eu te possuo, inteira e estirada, aberta e escassa como eu mesmo. São palavras do anjo.
A primeira vez que o anjo tomou consciência daquela palavra foi quando leu um texto de Clarice Lispector, um trecho de “Água Viva”. Claro que já sabia o que era desesperança, mas naquele dia leu a palavra com apetite, sentiu a força dela: “…inquieta e áspera e desesperançada…” Daí para cá o anjo cada vez mais constata a semelhança da palavra desesperança com a palavra liberdade. São irmãs siamesas. Desesperançar-se, perder a esperança de… É libertar-se da angústia de não poder, de não ter, de não conseguir.
Relembranças
25 de maio de 2010 às 18:40 | 2 Comentários
Apesar do medo e do cansaço, a vida segue. Tem horas de tanto cansaço, de ele ser tão intenso, que dá medo de entronizar o senhor cansaço. Não gosto de me dar o direito de cansar. Como um poema muitas vezes fustigado, também eu limei as unhas, aparei arestas, arranquei adornos e rompi com a segurança do politicamente correto. Como um poema sem acolhida, fiquei à intempérie. Como um poema perjuro, e todo poema é perjuro, neguei a ti três mil vezes, fragilidade. Não te dei nome, porque não se nomeia o pecado. O pecado fica, oleoso e amorfo, dentro. Não tem nome. Mas, como uma rêmora, eu me apeguei a ti, aproveito os teus restos, as tuas involuntárias doações.
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O menino que me guarda
28 de abril de 2010 às 17:49 | 3 Comentários
“…‘A benção, senhor’. Isto, nada mais.
Profundamente forte é a vida.”
Salvatore Quasimodo
Ilustração: “Meninos Soltando Pipas”, de Cândido Portinari
Desde o nascimento, um menino me guarda. Nasceu da minha barriga, do cordão umbilical e da placenta colada que minha mãe guardou por horas. Nasceu da minha primeira respiração e do meu primeiro choro; nasceu quando nasci, porque antes de mim ele não existia. O menino grande me ganhou, para o seu avesso. Mas se não fosse eu o seu avesso, o menino que me guarda seria incompleto.
Ele não teria escuridões, se não me guardasse. Seria Apolo com carência dionisíaca.
Diante da sua retidão épica eu sou apenas garatuja. Meu menino tem um aguçado senso de justiça, uma compaixão instintiva e orgânica. Mesmo quando quer, mesmo quando em fúria, mesmo quando erra, nunca consegue fugir à própria bondade. É da raça dos que são bons, por condenação.
Deusa da Temperança
9 de abril de 2010 às 16:08 | Comentar
Uma moça brincando em campos floridos é tragada de repente para baixo da terra, pela força de um homem que a leva em seu cavalo negro: o mito grego desse rapto; a jovem Perséfone, filha da deusa Deméter, pelo deus Hades, senhor do Averno; tem fascinado por séculos os que se miram em mitologias. Somos muitos estes mirantes e encantados que somos com os arquétipos do homem grego, tentamos há séculos dissecar seus mitos, em nós entranhados. Na ciência, na política, na psicologia, nas religiões, os mitos gregos renascem, ressurgem, adquirem mil significados, e permanecem. Dão-se às mais diversas interpretações. Perséfone não é diferente. A filha da semeadora da vida, tornada rainha do mundo dos mortos, encarna significações as mais diversas, pondo-se à mercê da nossa criatividade e também da nossa perplexidade diante do paradoxo que representa.
Musa, eu? obrigada pela gentileza, Jarbas. Eu acho que Angicos é que é a musa das musas, a terra das terras, você não acha? Quanto a mim, atualmente estou mais para um poema de Anna Akhmatova, no qual ela fala das dificuldades da vinda da musa inspiradora. Ou talvez para Sylvia Plath, esperando a improvável presença do anjo. Também ando a chamá-la, a musa, essa difícil presença. Bom saber notícias suas, Jarbas. Apareça mais por aqui.
Um abraço conterrâneo.
Disse tudo
24 de março de 2010 às 21:40 | ComentarTácito, sou cada vez mais sua fã. Esse texto sobre a liberdade está ótimo. Disse o que eu também diria, se tivesse sabido dizer. Tudo.







