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	<title>Substantivo Plural &#187; fernando monteiro</title>
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	<description>CULTURA + IDÉIAS + INFORMAÇÕES</description>
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		<title>Camille Paglia, em entrevista recente</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 17:14:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Hoje não há mais nenhum artista importante no mundo. Em literatura também. O que acontece é que desde que a web foi globalizada, há um vazio. Os jovens que cresceram nesse mundo da web. O tipo de imagens que vêem na tela não têm a mesma qualidade das imagens da história da arte, imagens a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/paglia.jpeg"><img class="alignright size-medium wp-image-40590" title="paglia" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/paglia-309x300.jpg" alt="" width="185" height="180" /></a>&#8220;Hoje não há mais nenhum artista importante no mundo. Em literatura também. O que acontece é que desde que a web foi globalizada, há um vazio. Os jovens que cresceram nesse mundo da web. O tipo de imagens que vêem na tela não têm a mesma qualidade das imagens da história da arte, imagens a óleo.</p>
<p>Predomina a técnica do photoshop, da arte digital. E as cores também. As cores do mundo digital são como de quadrinhos. Os jovens só vêem cores de quadrinhos. Mas quando você vê uma grande obra de pintura a óleo, a gradação é incrível. Como nos impressionistas, como Monet, Renoir. Num bosque pode haver 30 tons diferentes de verde&#8230;</p>
<p>Os jovens nunca viram isso. Acho terrível que sutilezas, as sombras na pintura, não sejam apreciadas como um dia já foram. Hoje, com as técnicas de photoshop, meus estudantes de fotografia sempre me dizem que é trágico. Que as habilidades de usar câmeras e de tratar de uma fotografia, trabalhando num laboratório, estão perdidas agora por causa do digital. Porque se pode fazer todo o tipo de modificação artificial&#8221;&#8230;</p>
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		<title>As asas da noite que surgem (1)</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 20:32:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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Arte: Francisco Brennand
Da noite longa e já animada desde o fim do expediente nos dias do verão levando a tarde até o limite do ar noturno: um frisson na sombra, um acender de luzes nas latadas, sob letreiros (alguns) ainda escritos à mão, longe do estardalhaço padronizado das McDonalds freqüentada pelos jovens – estranhos como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/mulher-com-chão-vermelho....jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-40385" title="mulher com chão vermelho..." src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/02/mulher-com-chão-vermelho...-447x500.jpg" alt="" width="447" height="500" /></a></p>
<p><strong>Arte: Francisco Brennand</strong></p>
<p>Da noite longa e já animada desde o fim do expediente nos dias do verão levando a tarde até o limite do ar noturno: um frisson na sombra, um acender de luzes nas latadas, sob letreiros (alguns) ainda escritos à mão, longe do estardalhaço padronizado das McDonalds freqüentada pelos jovens – estranhos como marcianos, na verdade.</p>
<p>Pelo menos para mim, que caminhava por ruas onde havia o &#8220;Lumidis&#8221;, o café dos literatos, o &#8220;Zakaratu&#8221;, vizinho do Parlamento, o &#8220;Hellenizon&#8221; dos gerânios dos tempos de Kazantzakis, o Kolonaki das trepadeiras enrolando-se nas colunas fingindo de “cretenses” de um jeito menos desajeitado do que aquelas de Evans, no palácio de Knossos restaurado com o mal gosto &#8220;fin-de-siècle&#8221; de um diletante endinheirado.</p>
<p>E não, eu não ouvia a vulgaridade cinematográfica do sirtaki de Zorba como uma decalcomania grosseira colada nos meus ouvidos, mas a soprano Bidú Sayão cantando a “Melodia Sentimenal” – tão pungente – com uma tristeza lacustre de fim de tarde brasileira que casava com o meu desespero.</p>
<p><span id="more-40383"></span>Compreendam: eu não estava na mata amazônica, mas na Atenas moderna, esperando pelos sinais fechados na praça Sintagma iluminada para o caminho da praça até o fervilhar de turismo nos becos de Plaka (mais do que no velho Pireu quase deixado em paz, agora, pelos idiotas “sentindo-se na Grécia” dos pratos quebrados para eles, os turistas), de maneira que aquilo – ouvir imaginariamente a longínqua Bidú, os versos sobre “a noite escura”, “a lua que fulge tão bela e branca” –, era mais do que absurdo e nada tinha a ver com&#8230;</p>
<p>Bem, voltemos ao quarto, quando a porta se fechou e G. foi delicada, não bateu, teve o cuidado de não ser brusca, a lingüeta se encaixando na ranhura à medida que o trinco era solto (o que evita o som martelado de uma porta “que bate”) – e eu já sabia que não iria receber carta nenhuma. Era só uma metáfora para adeus, um selo de despedida: “eu lhe escrevo de Berlim”. Ah, sim.<br />
Não quero falar sobre isso, realmente. Quero caminhar em desacordo com o cenário em ainda maior desacordo com a canção “sentimental” que soa em minha cabeça, agônica quando quer ser feliz sob uma lua latina do tamanho da máscara de ouro “talvez” de Agamenon.</p>
<p>Jornalistas, escritores e artistas também freqüentavam a &#8220;Lycovrisi&#8221; – a Colombo de Atenas –, não a maior nem a melhor pastelaria da cidade de paladar tão aguçado para doces e discussões amenas, mas o lugar escolhido para argumentos elegantes, lançados como as coberturas daquelas coisas maravilhosas que se chamavam &#8220;Nikké&#8221; talvez porque lembrassem alguma alva fatia de perna de moça lavada pela luz da lua sobre os mármores soterrados aos pés de um espelho (o Egeu de certas praias onde moças antigas se banhavam como brancas aparições arcaicas).<br />
Agora, não havia mais a lua de reflexos, nem existia mais essa Grécia dos banhos noturnos, não havia mais G., nem mais nada para mim – só a voz de Bidú cantando na minha mente tentando urgentemente se ocupar de outros assuntos&#8230;<br />
“São de se recordar também aqueles pequenos cafés da Omonia, igualmente desaparecidos”. E os outros – meio &#8220;ouzeries&#8221;, meio cantinas – onde se podia beber tanto a bebida como café ao gosto turco, ouvindo a confusa história sobre a herança de algum comerciante que havia morrido e deixado viúva ainda jovem.</p>
<p>Você ouviu alguma dessas histórias? O mais curioso é que as viúvas de fato arranjavam, mais tarde, um marido ou um amante que arruinavam o seu patrimônio – como no caso, dos mais notórios, de um importador de bebidas que tinha vindo de Thera, ainda menino, sem um dracma no bolso. Era, pelo menos, o que se dizia sobre ele: que havia trabalhado, anos e anos, para um turco de Chipre, dia e noite, sem descanso, até tornar-se sócio do sujeito no negócio onde tomara para si a tarefa de vender o vinho espesso da sua ilha sempre objeto de disputas. O que o levara a conseguir exclusividade no comércio do vinho tinto um pouco áspero (embora o cipriota não apreciasse vinhos de Santorini ou de outra origem grega qualquer, porém soubesse vendê-los como ninguém).</p>
<p>São águas passadas. Os poetas estão mortos. Os cafés foram substituídos por drugstores, e eu não sou guia turístico de um mundo tão recentemente enterrado. Falo de um passado tão novo que&#8230;</p>
<p>Levantei-me para vê-la chegando à calçada – após o tempo de descer quatro lances de escada (o elevador não estava funcionando, mais uma vez).</p>
<p>Eu via a sua cabeça, os óculos sobre a testa, o elástico que amarrava o cabelo num rabo de cavalo juvenil, embora ela não fosse tão jovem. O penteado combinava com as sardas delicadamente pintalgadas (um pouco na face e nos ombros), sendo que sabia tornar engraçada aquela história de que estava sempre se quebrando – desde muito nova – numa perna, num braço, no pulso fino, na mão desenhada por mim (somente a mão) pousada sobre o púbis sem sombra de pêlo, conforme se revelara no hotel da Jordânia.<br />
Jordânia? Você não estava na Grécia?</p>
<p>Estava. Estou. Estive, quando era Atenas, ainda, a cidade de “ar balcânico” que Sandro Kostas recordava. E que via perdida: “Atenas deu adeus à sua face levantina”. (Como discordar dele?)</p>
<p>A cidade de hoje tem o rosto desgastado de uma cidade qualquer do seu lado da Europa consumista, cheia de coisas novas e sem personalidade, no lugar das “velhas coisas gentis” que se acabaram. Faz diferença só a Acrópole, iluminada à noite, empoeirada como uma gaiola de colunas que cedem um tantinho mais, a cada ano. O monumento toma injeções de concreto nas veias de pedra, todos os dias, como um doente terminal da arquitetura. Um dia, talvez vá desaparecer como os modos de alguns garçons dos cafés perdidos que Kostas ainda gosta de rememorar (alguns sumiam da vista dos clientes pobres, para evitar intimidá-los com as toalhas usadas para limpar o nada daquelas mesas que ainda não houvessem feito nenhuma despesa).</p>
<p>Alguns letreiros e marquises impediam que eu visse a evolução completa do seu caminhar (que eu quase perdera, e no momento gracioso de por os óculos escuros) sob o sol tão minucioso, sendo que o passo do seu tênis não era rápido nem preguiçoso, na claridade  que retalhava as silhuetas nas pedras, no asfalto quase branco – que agora lembrava o maiô de cal sobre a carne pálida. Ela havia explicado: “estou gorda demais para o biquini na bolsa” (o que não era verdade). Lembrei disso, e não me lembrei de ter dito que não era verdade, não é engraçado?</p>
<p>E então a desejei com um desespero tão fundo que doeu no corpo debruçado sobre uma janela aberta de Atenas, “o melhor lugar para despedidas” (não é mais!) dizia a canção não traduzida para os turistas (os gregos os desprezam e os bajulam, em igual medida)&#8230;</p>
<p>Em sua tristeza, para Sandro é importante que quem o escute possa entender isso: um dia, houve uma Atenas realmente branca, de casario baixo “a um passo do mar aonde todos iam se banhar”&#8230;</p>
<p>Levantava-se a vista, e as altas colinas ecoavam os nomes longínquos, decorados para as provas dos liceus romanos (Sandro é da Emília dos castelli de além Appia), com os bustos de atenienses antigos, os olhos vazados nos corredores que as férias lustravam de quietude.</p>
<p>&#8220;I resti dell&#8217;antica Grecia avrebbero avuto quello stupendo risalto se tutt&#8217;attorno ci fosse stata una citta con le massicce, pretenziose architetture europee dell&#8217;Ottocento e primo Novecento?&#8221;</p>
<p>E o Partenon – prodígio que sucumbe – invadia o quarto dos hotéis mais altos, pela janela aberta para a noite pressagiada pelo cinza do crepúsculo espetacular entre as colunas, onde ainda podia acontecer de se estar sozinho, na parte mais vazia do templo, antes do turismo de massa. Quem sabe, um milagre talvez pudesse se dar (como só se dão os milagres com os quais já não se conta), nos jardins de acesso ao velho emblema corrompido da cidade, onde fizesse se ouvir algum pássaro mitológico entre as flores extenuadas?</p>
<p>“Desde a colina ao pé do templo até o jarro de alabastro que jaz agora neste quarto, testemunha dos verões gregos e das perólas na fronte pura, porejada de nervosismo, da ninfa no seu encontro primeiro”&#8230;</p>
<p>Ninfa? Há aqui algum engano – ou qualquer tom elegíaco que soa desmesurado para o vulgar amor num quarto de hotel barato, a moto que alugamos lá embaixo, estacionada, e a “ninfa” se examinando ao espelho colocado como penteador acima da mesa com o vaso de alabastro da cor do corpo desnudo, depilado e mal protegido pela gaze da cortina leve de luzes da rua apagada da memória.</p>
<p>Que nome tinha o hotel onde a irmã de Byron, diziam, havia se hospedado nos “seus dias de glória”? (Aquele nosso hotel nunca os tivera, certamente.)</p>
<p>“Ela via o Partenon&#8230;” – canta Elytis, num poema inédito, e que deslizou para debaixo da cama da literatura (G. sabia dessas coisas da maneira mais misteriosa, não perguntem como nem porquê; o importante é que fixem a janela que dá para a Acrópole, o monumento como sempre suspenso, “maciço e etéreo”, por sobre a ruína da realidade.)</p>
<p>Na falta de outro assunto, o poema trata do casal mais tarde separado, ela diante da mesma visão – “o grande templo quase ao nível dos olhos” –, em face daquelas janelas que dão para a “eternidade do peristilo” (todos os guias de turismo são enfáticos, em Atenas como em Botucatu).<br />
O sol o queimou o dia inteiro, tornando clara a ligeira inclinação progressiva cujo cálculo é a suprema sutileza do monumento levantado quando, já no século V, se retardava o declínio da “sagrada colina à beira do abismo”:<br />
&#8220;La grazia di Atene…</p>
<p>Quando a vi partir (e ela verdade que ela estava indo embora), compreendi que estava sozinho de um modo novo – diante da onipresença, quase, de uma ruína que já havia desaparecido de si mesma. Isso parece idiota, mas é como G. havia anotado no meu caderno cheio de desenhos amadorísticos, alguns jeitosos (o da mão), outros simplesmente canhestros (o das falsas fachadas): “a Acrópole é uma miragem que não merecemos e que deixamos de compreender”.</p>
<p>Depois, eu iria encontrar a frase, sublinhada, no livro do professor grego, que ela não “tivera tempo de devolver” – e eu, por meu lado, não quisera remeter para o seu endereço de Berlim, pelo correio, assim me separando daquela letra gordinha que assinalara partes do texto bilíngüe e desenhara até mesmo um engraçado chinês zarolho na última página de guarda.</p>
<p>Por que estou condenado a seguir lembrando essas coisas, com uma atenção tão concentrada? Há uma doença qualquer nisso, um dente cariado que se acarinha com a língua voluptuosa, um modo de misturar, perversamente, a realidade presente e a realidade lembrada: duas cargas diferentes, dois pesos demasiados. E Bidú Sayão soprando na minha mente os versos de Dora Vasconcelos que – ninguém se lembra – escreveu o libreto para Villa-Lobos: “Acorda, vem ver a lua/ que dorme na noite escura,/ que fulge tão bela e branca/ derramando doçura./Clara chama silente/ ardendo o meu sonhar./As asas da noite que surgem/ e correm no espaço profundo./ Ó doce amada, desperta!/ Vem dar teu calor ao luar”&#8230;</p>
<p>G. foi embora. Está um vazio na Atenas inteira, na Patagônia e na minha mão: lembro dos seus dedos entrelaçados nos meus, por estas mesmas ruas. Lembro dos seus lenços, dos seus tênis debaixo da cama, virados. “Dá azar” (qualquer sapato virado), e eu desvirava – resignado com a superstição que lhe arrancava apenas um sorriso.</p>
<p>Recordo outros detalhes: um pijama que ela usou, infantil como as roupas compradas na Disney, e que poderia me irritar se não lhe houvesse dado o ar folgazão de uma adolescente que fazia a sua primeira viagem ao exterior, na companhia de colegas rindo no quarto de hotéis suspeitos onde há sempre vagas, mesmo no pico da temporada. O modo como as adolescentes riem (e nunca mais rirão). Seus pés rosados, que o mar lavou (o mar piedosamente interessado?)&#8230;</p>
<p>E por que dói a recordação? Todas as pequenas recordações sem lugar na futura conversação (sendo, então, obrigatório silenciar sobre esses nadas, essas sobras boiando sobre a água do banho que foi para alguma dobra úmida da minúscula eternidade de luz esgazeada – porque você olha bem de frente para o sol entre as colunas).</p>
<p>Atenas, a graça de Atenas, não estava li, mas no conserto da sua sandália – se é que me entendem. Uma pessoa pode enlouquecer porque os outros não compreendem o quanto ela concentra, numa miniatura lateral, o todo da graça imortal de um monumento arruinado.  A moça se debruça sobre uma torneira do antigo hipódromo (onde agora Santa Sophia se ergue, entre jardins mal cuidados), e isto é Istambul num frasco de água-mineral de novo cheio, até a borda, de água das fontes de ablução ou das cisternas afundadas, de maneira que a mão, a sua branca mão – branca como a lua – colhe a água potável enquanto eu também fazia o mesmo, pela primeira vez, e pensava nas mulheres bizantinas que haviam morrido, “aquelas damas romanas com seus espelhos de cobre e ungüentos de beleza, à luz vacilante da barbárie” – literatura! –, quando tudo que havia realmente para ver era a revoada dos pombos, no ar resfriado pelo Bósforo descoberto de nuvens, tudo cortado à faca, e mais: facilitando o recorte dos palácios gradeados do cais de gaivotas suspensas enquanto os bares se acendiam como pirilampos, na margem asiática, e havia ainda a promessa de quietude final no apartamento do hotel da ruazinha de jasmins agora dolorosos, perto da velha Gálata&#8230;</p>
<p>Gálata? Meu deus, a Turquia no lugar da Grécia, depois das primeiras brigas por qualquer coisa. As imagens, por um momento, se trocando como quando alguém chega e se deita, exausto, na cama arrumada pela camareira que nunca é vista. Ficamos na cidade poucos dias – mas agora eu parto no encalço delas, como quem refaz um retrato embaciado pela fuligem da memória. As recordações são confusas.</p>
<p><strong>(CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO DO &#8220;RASCUNHO&#8221;)</strong></p>
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		<title>“Deveria haver um prêmio nacional de literatura anualmente oferecido a”&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Dec 2011 21:27:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Texto de Fernando Monteiro que sairá no jornal literário Rascunho, com circulação prevista para a primeira semana de janeiro de 2012 e que ele antecipou para o SP por motivo de viagem. TC
********
O começo de um romance abandonado:
“Deixei o Facebook. Deixei?
Ainda não sei se deixei. Parece incrível ter deixado – e parece incrível ter entrado, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Texto de Fernando Monteiro que sairá no jornal literário Rascunho, com circulação prevista para a primeira semana de janeiro de 2012 e que ele antecipou para o SP por motivo de viagem. <strong>TC</strong></p>
<p>********</p>
<p>O começo de um romance abandonado:</p>
<p>“Deixei o Facebook. Deixei?</p>
<p>Ainda não sei se deixei. Parece incrível ter deixado – e parece incrível ter entrado, ter suportado aquilo, ter vivido umas coisas que&#8230;</p>
<p>A primeira vez que ouvi falar em &#8216;rede social&#8217;, tive uma antipatia instintiva. Uma mulher me disse que agora tudo era em &#8216;rede&#8217;, e ela só faltava ter uma rede no cabelo, me metendo na rede de um filme que eu não queria fazer e terminei não fazendo. Isso é outra história.</p>
<p><span id="more-38721"></span>Dela, foi que ouvi falar primeiro em rede, parecendo uma conspiração sussurrada, uma espécie de segredo consistindo em dizer a expressão &#8216;rede social&#8217; como quem dissesse: ou dá ou desce.</p>
<p>Desci da rede. Subi quando? Quando foi que entrei na rede de Zuckerberg sem ter participado, nunca, de Orkult, Twitter, essas merdas – não que o ‘Feicebuque’&#8230;</p>
<p>Lá, eu só chamava de &#8216;feicebuque&#8217;, e, às vezes, &#8216;feicebuíque&#8217;, dizendo que era em suassunês legítimo, porque&#8230; eu vou explicar a piada? É uma merda explicar piada: Buíque, sertão, armorialismo, o pavor que Ariano tem do inglês se metendo na língua portuguesa, frescuras dele (no meio de algumas coisas que não são frescas). O resto, é. Mas, deixa Ariano lá com as coisas arianas dele. O tema, aqui, são as mulheres que me destroçaram a vida no Face, Feice, Foice – agora que foi-se, sim, para mim, porque matei uma moça.”<br />
&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</p>
<p>O título definitivo talvez pudesse ser MULHERES DO FACEBOOK. Não cheguei a decidir se seria mesmo esse – mas, enfim, pelo menos podem relaxar as meninas que faziam parte da minha antiga “rede”, lá: o romance foi abandonado há um ano, não para evitar encrenca etc, mas unicamente porque, na área do romance, já não se trata de fazer literatura. Do que se trata, não sei exatamente – nem quero saber.</p>
<p>Não estou mais nesse jogo. Pulei fora, de volta para o território de abandono preferencial dos editores (a poesia – deixada em paz, “quéta” no seu canto), enquanto o sábio Gay Talese adverte a nós todos (ou quase todos):</p>
<p>“Não, você não está sofrendo de ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando seu bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo – não escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muito deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio nacional de literatura anualmente  oferecido a certos escritores por não escrever”. Gay Talese [em "Vida de Escritor"]</p>
<p>Seja como for, por ora chega de romances, pelo menos para mim. Aos noviços, aos que estão aportando, agora, nesse cais menos de sombras do que de certas e determinadas manobras, a certeza (que deveriam ter) de que escrevem para uma quase totalidade de zombies entorpecidos pelos maus romances à venda nas mega-livrarias brilhosas como catarro em parede.</p>
<p>Aliás, eu não adentro nenhuma sem o sentimento de algo perdido. Melhor dizendo: com sentidos alertas para o modelo não ampliado das velhas – e quase misteriosas – livrarias de estantes meio empoeiradas (por que não?), mas de um novo “formato” assimilado dos centros de compras, dos shoppings só por acaso ofertando livros – best-sellers ou títulos apadrinhados pelos variados interesses de Mercado –, nas gôndolas, como holografias sob holofotes brancos. Se é que me entendem os que já saudavelmente espirraram em alguma quieta livraria de Trastevere (ou de Ipanema mesmo).</p>
<p>Estendendo um pouco esta digressão de gosto puramente pessoal – e talvez um tanto antiquado, girls –: eu não me sinto propriamente numa livraria, nesses espaços luxuosamente monumentais, com livros cativos de apresentações suntuosas e capas envernizadas, mocinhas e rapazes também meio zombies/fãs de Caetano/Woody e Almodóvar , dedicados ao mister de (tentar) vendar obras que nunca irão ler, os títulos como que disfarçados sob o clima de consumo de cultura ao som de música ambiente e mastigação de pão de queijo com capuccino na café-cultural-diversional das ditas cujas super-hiper-megas ou &#8220;lojas&#8221; de livros (assim as chamam os proprietários orgulhosos dos metros quadrados) etc.</p>
<p>O &#8220;pattern&#8221; triunfante vindo dos Shoppings, isso tem pouco a ver com livros fora de moda – e, brevemente, fora das “lojas” de livros impressos&#8230; com os dias contados. Aqueles volumes antes acomodados nos pequenos espaços de silêncio acolhedor, sem música, café e &#8220;área educativa&#8221; para crianças brincarem com livros como objetos descartáveis na forma de elefantes, leões e hipopótamos supostamente simpáticos&#8230;</p>
<p>Comprei quase todos os meus livros – depois de muito procurar ou escolher – no ambiente livrarias que foram fechadas e até mesmo demolidas, para existirem só na memória do tato, dos dedos que examinavam às vezes volumes numerados e assinados, não escapando o leitor compulsivo de aspirar o cheiro das páginas de edições portuguesas, espanholas e francesas de folhas à espera das espátulas aposentadas.</p>
<p>Havia um ritual com o livro, uma cerimônia secreta no manuseio desse &#8220;produto&#8221; venerável e mais digno de ser embrulhado do que ser entregue num saco plástico com propaganda de croissants gordurosos e outras parcerias das novas livrarias guinchando o leitor para a compra do acessório – porque o Livro talvez seja um estranho no ninho das novas livrarias de espelhos, luz e vazio como uma casa de milionários num antigo filme de Antonioni sobre o eclipse do humano na noite da incomunicabilidade.</p>
<p>A minha vista (míope, sim – pois quero estar fora do moloch suicidamente cultuado do Mercado) educou-se na luz discreta sobre as lombadas, sou do tempo de estantes até envidraçadas, onde os livros do estoque semelhavam as estantes de uma biblioteca particular, enquanto os lançamentos estavam nas bancadas acessíveis, sob a luz amarela de lâmpadas antecipando o tom dourado da tarde suavizando as coisas lá fora, quando o crepúsculo na Rua da Imperatriz vinha por sua cor na sombra das árvores curvadas sobre o rio cortando a cidade.</p>
<p>Num tempo em que tudo virou Mercado, eu sei que o livro – um dos &#8220;objetos&#8221; mais antigos do mundo – encontraria a sua vez de ser tratado como produto (neste momento, em vertiginosa mutação kindleriana e outras) em dezenas de telas de terminais de computadores que amputaram o prazer de descobrir um título apertado nas estantes das livrarias de outrora, antes do admirável mundo novo do e-book e do livro on-line, entregue pelos fantasmas sem mãos da virtualidade.</p>
<p>&#8220;Imperatriz&#8221;, &#8220;tom dourado&#8221;, &#8220;fantasmas&#8221; – essas são palavras propositadamente  deslocadas para tratar do tema das livrarias espetaculares no lugar das livrarias ricas de modéstia e calma, expondo Suave é noite como um mistério a ser decifrado. No lugar disso, agora entramos numa livraria-monstro do gosto desta época (será mesmo?) e todas as luzes violentas do comércio se acendem sobre capas gritando nos ouvidos dos meus olhos: compre, compre, compre!</p>
<p>A leitura não é – nem nunca será – estimulada por impactos. A grandiosidade equivocada (também de “bienais” e outras febres não de ratos de bibliotecas) não tem o que fazer em favor de livros de verdadeira qualidade, pelos quais o tempo vela e que, mais cedo ou mais tarde, você descobrirá secretamente penetrados no seu espírito de leitor à espera de encontrar o título à espera da sua alma – e não por anúncios e resenhas encomendadas.<br />
&#8220;Alma&#8221;? Desculpem pela palavra (este é um texto de gosto démodé).</p>
<p>Ia eu dizendo que não se conquista (nem sequer os pequenos leitores) pelo aliciamento para o reino demolido das palavras, tipo &#8220;aqui, temos um espaço para vândalos-mirins brincarem com livros como se fossem bonecos sempre-em-pé como uma bola quadrada; aqui, você ouve música, aprende-se karatê e a fazer sushi de sobras de papel de ikebana. De quebra, vende-se livros com sabor de literatura de plástico para o namorado que não esteja sabendo o que dar para a namorada – essas coisas.</p>
<p>Em defesa das mega-livrarias, deve-se dizer que elas podem ser boas ao menos para marcar encontros: ninguém deixa de se ver uma dessas grandes &#8220;lojas&#8221; de livros do tamanho de estacionamentos verticais, estonteantes de ofertas de 200, 300 mil títulos como que resguardados da leitura – e nenhuma obra de salvação que possa evitar o suicídio de um jovem autor inédito desesperado (poeta, sem dúvida, Dona Luciana!)&#8230;</p>
<p>O velho Livro vem do enrugado pergaminho e do silêncio de claustro das universidades medievais empoeiradas. Debaixo do pó, elas preservaram o mundo da antiguidade clássica no meio do ambiente da seita perdida que o imperador Constantino salvou ao torná-la religião do Estado (att: há obras sobre isso, lacradas sob liso papel celofane, na seção de livros de arte das completas, maravilhosas, incríveis &#8220;MacBooks&#8221; que nem são mais livrarias, ou não mais apenas isso, essa palavra que lembra alfarrábio, manuscrito, sebo, vela, pena, papel de arroz, percalina, douradura, encardenações inglesas, gravuras e lembranças da margem esquerda do Sena transferida, afinal, para a direita do capitalismo triunfante do final do século 20).</p>
<p>E uma livraria da nova cultura é mesmo uma coisa do 21, do jogo fartamente iluminado para admirar e comprar (e ler? [*(&amp;$?? sinais de dúvida]) os livros entregues em sacolas de plástico reciclável, colorido e artificialmente aromatizado&#8230;</p>
<p>Por que procurar um livro obscuro, para que comprar o &#8220;Judas&#8221;, numa imensa livraria cheia de estudantes comemorando o novo Dia de Matar o Índio? Numa velha livraria, pequena e cheia de pó, se você não achava o livro já-não-lido de Thomas Hardy, terminava levando another, algum outro livrinho que você não buscava e que se revelava capaz de (oh!) mudar a sua vida, debaixo da luz fraca, no meio da relativa calma do antigo lugar dominado por uma porta de guizos.</p>
<p>Mas, quem quer calma? E quem ainda quer ouvir guizos, címbalos, sistros, quando todos parecem preferir percussão metalizada, sintetizada e aumentada entre as escadas que dão acesso ao telão instalado no andar de cima, o andar eletrônico das benesses do Mercado (&#8220;que recupera tudo&#8221;)?</p>
<p>Numa antiga livraria demolida você poderia encontrar até um livro desconhecido de George C. Katsimbalis – aquele que gritava para os galos da Ática – e, talvez, quem sabe também o grande amor da sua vida, calçada com galochas, num sábado de chuva (&#8220;ela entrou, sob o som delicado da porta, e você a viu sob a luz coada, a fronte molhada dos pingos na franja um tanto juvenil”)&#8230;</p>
<p>Poesia! Pra que serve a poesia – numa grande e dispersa livraria sem estantes para o gênero morto? O tempo ruge, a calculadora urge, a época é fria e ninguém mais usa galochas – mesmo nos sábados antigos dos novos romances com gosto de pão de queijo frio. E o velho poeta argentino Juan Gelman (gigante ainda vivo, enquanto o verdadeiro gigante da ficção portenha – Ernesto Sábato, e não o ceguinho Borges – faleceu faz um ano) traz “para dentro” o fundo da irônica recusa que este texto começou celebrando em ritmo de rede-cultura:</p>
<p>EL JUEGO EN QUE ANDAMOS</p>
<p>Si me dieran a elegir, yo elegiría<br />
esta salud de saber que estamos<br />
muy enfermos,<br />
esta dicha de andar tan infelices.<br />
Si me dieran a elegir, yo elegiría<br />
esta inocencia de no ser un inocente,<br />
esta pureza en que ando por impuro.<br />
Si me dieran a elegir, yo elegiría<br />
este amor con que odio,<br />
esta esperanza que come<br />
panes desesperados.<br />
Aquí pasa, señores,<br />
que me juego la muerte.</p>
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		<title>Claves para un fracaso literário</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Dec 2011 17:24:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[{Artigo publicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP. Faz referência a texto anterior, também publicado no SP: aqui}
Aqui na nossa página (“Fora de sequência”), mês passado, vocês ficaram sabendo das dez “Chaves para um êxito literário”, segundo o receituário sabiamente preconizado na edição de julho/agosto da revista de bordo da Ibéria, a Ronda.
Quem aproveitou, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>{Artigo publicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP. Faz referência a texto anterior, também publicado no SP: <a href="http://www.substantivoplural.com.br/claves-para-un-exito-literario/" target="_blank">aqui</a>}</p>
<p>Aqui na nossa página (“Fora de sequência”), mês passado, vocês ficaram sabendo das dez “Chaves para um êxito literário”, segundo o receituário sabiamente preconizado na edição de julho/agosto da revista de bordo da Ibéria, a Ronda.</p>
<p>Quem aproveitou, aproveitou. Quem não leu as dicas da vistosa publicação espanhola, poderá tentar encher o saco de Rogério Pereira, atrás da edição nº 139, em busca das dicas do texto “CLAVES PARA UN ÉXITO LITERARIO”, oferecido – por velhas aeromoças – a viajantes comuns e, oh, a escritores &amp; escribas sentados na poltrona do êxito ao alcance dos novos talentos, a dez mil metros de altura.</p>
<p><span id="more-37989"></span>Bueno, agora é a vez de oferecer o outro lado da Lua, na carta celeste da Literatura a golpes de tapas (sevilhanas, malagueñas, cordobezas etc): como, ou de que maneira, alcançar mais rapidamente El Fracaso Literário.<br />
Antes do mais, creio que eu deva ser honesto e logo avisar que, é claro, o sucesso e/ou o êxito, é muito mais fácil do que o fracasso, em literatura.</p>
<p>Dito isto, vamos lá. Primeiro, eleja a poesia como seu gênero, sua preferência e sua fidelidade maior. E nunca a traia. Mesmo atraindo a ira da Dona Luciana Villas-Boas, que recomenda:</p>
<p>“POESIA, nevermore!, ó jovens escritores que almejem os(as) Record(es) do suce$$o”..</p>
<p>Segundo ela – e tantos outros – poesia NÃO VENDE.</p>
<p>O que é poesia?</p>
<p>“Uma coisa que os editores brasileiros não sabem vender” – responde Juquinha, sentado na primeira fila da classe.</p>
<p>Certo, ele. Porém, tem mais: talvez nós só possamos dizer – como de Deus – o que a poesia não é. E uma coisa que ninguém sabe o que é, logicamente não interessa a editores que mandar destacar o aviso – com fundo amarelo – nos seus sites: “NÃO ACEITAMOS ORIGINAIS DE POESIA”.</p>
<p>Eles poderiam acrescentar as palavras bukowisckianas: “gatos têm estilo. Nós e cães, não o temos – nem gostamos de quem o revele nesse gênero literário maldito para o qual são necessários os seguintes pré-requisitos simplesmente ridículos:</p>
<p>l. Olhar.<br />
2. Olhar e esquecer (em seguida) o que viu.<br />
3. E lembrar &#8211; algum dia.<br />
4. Nesse meio tempo, ter pescado, ou ter visto pescar (e não pretender escrever poesia sobre isso).<br />
5. Compreender que os gatos procuram restringir os gestos a uma elegância total-e-mínima ao mesmo tempo.<br />
6. Pensar.<br />
7. E esquecer, é claro, o que pensou. Nenhuma premeditação fria.<br />
8. Mas compreender o mais possível o mar, a solidão dos animais e das estrelas – sem adocicar o espírito com sentimentalismo (sobre isso ou sobre qualquer outra coisa, pois poesia não vem do que “sentimos”)&#8230;<br />
9. Ter lápis &amp; papel (ou um graveto, ao menos, para escrever na areia).<br />
10. Não ter sequer lápis &amp; papel, nem graveto, mas possuir a própria alma – para com ela trabalhar em silêncio, sem orgulho maior do que o do carpinteiro, ao dar por terminada uma sólida e bem torneada cadeira.”</p>
<p>CONTRA A POESIA E O CONTO</p>
<p>Bem, editores brasucas não gostam de peidar em bem torneadas cadeiras. Então, é natural (e até justo) que eles, nas suas poltronas amolfadadas, odeiem poesia, não saibam vendê-la e detestem até os repentistas que vendem – ainda – milhares de folhetos de poesia de cordel nas feiras das cidades do Nordeste que ainda não se abateram debaixo da Sky, o céu que não nos protege. Também os livros de contos, os editores – os grandes – canibais cá de Pindorama, não os querem nos seus catálogos de romances, romances e romances destinados a conquistar a propaganda gratuita dos maiores prêmio$ da atualidade pindoramesca, que são para livros de ficção, com destaque para o Romance – como o prêmio São Paulo de Literatura de Itu.</p>
<p>E tu, Bruto, ainda vais escrever poesia e/ou contos – mesmo depois de saber que não há futuro (comercial) nessas duras, secas, cearenses searas?&#8230;</p>
<p>Aí está nossa primeira recomendação rumo ao mais retumbante fracasso literário: ESCREVE POEMAS, DESGRAÇADO! PERPETRA CONTOS E MAIS CONTOS, INFELIZ! Terás o céu do insucesso ao teu dispor – embora existam quase 20 mil poetas brasileiros vivos, num site de coleta dos nomes de poetas brasileiros ainda respirando (ver Leila Miccolis – “Poetas brasileiros quantos somos” – no Google) etc.</p>
<p>Contistas, ainda devem somar muito mais. Os tarados do Conto não param de escrever histórias curtas – que os editores execram. Ao fazê-lo, tais criaturas ofendem o gosto, o olfato, o paladar e (a falta d) o tato dos nossos presidentes de companhias de letras, palavras, frases e páginas longas como as de &#8220;A Pedra do Reino&#8221; e outros livros que, em colocados de pé, eretos ficam, pois são grossos e fazem a alegria das matures&#8230;</p>
<p>(Já notaram como livros de poesia são fininhos, em geral, e logo caem, esmorecem, brocham na estante onde um romance talhado nas 700 páginas fica em pé como um pau?)</p>
<p>Recapitulando: o $uce$$o pede a romances. E o fracasso é certo, com poesia &amp; conto.</p>
<p>De modo que, se quiseres caminhar rumo à espuma do nada, a segunda alternativa é a certa: façam um “X” nela, e adeus. Estarão mortos – para alívio das tropas SS dos nossos mais bem capitalizados editores.</p>
<p>Entretanto, há perigos rondando a empreitada de escrever para nada – comercialmente falando.<br />
Por exemplo, você, incautamente, decide ir contra os moinhos de vento e&#8230; tan-tan-tan-tan!: escreve poemas e/ou contos sem alma, inspiração (essa velha palavra que muita “oficina literária” tenta demolir) sem talento, garra, força, domínio do idioma, sentido musical para palavras etc etc&#8230; e a coisa dá certo! Ao contrário do fracasso que vosmicê tão arduamente buscava, vem o tal “êssito” espanholesco, o triunfo, a vitória, as páginas epocais da VEJA como se faz uma péssima revista.</p>
<p>Meu Deus! Você acaba de fracassar, na busca do fracasso. Ao invés do inçuçeço, veio o $u$$e$$o para usted. Teu livro de contos – ou, pior, de poesia! – vendeu milhares, milhões de exemplares. Jô Soares quer te entrevistar, depois de bater no bongô com aquelas mãozinhas da falta de senso do ridículo. Marília GabiGabriela fará caras &amp; bocas &amp; óculos ao te perguntar coisas como: “qual a cor de tua cueca, neste momento?” (Diga-se, en passant, que a cor da cueca de um escritor de sucesso – na sociedade do espetáculo, pelo menos – é muito mais importante do que, por exemplo, todas as influências literárias que infletiram sobre o espírito encuecado do entrevistado até por Hebe e Datena)&#8230;</p>
<p>Desastre. Veio o que tu num queria – em mau português de padaria. Ou seja, o ÊXITO. Mau, porque estavas em busca de despontar para o anonimato.</p>
<p>NÃO HÁ UMA SITUAÇÃO TÃO RUIM QUE NÃO FIQUE PIOR</p>
<p>Bem, não é um caso de todo perdido, ainda. Quem persevera no caminho do fracasso, precisa apenas confiar na qualidade, no apuro e naquela medida flaubertiana (que nos faltou, no século XIX), para garantir sua meta de insucesso como preferência absoluto: nas listas dos mais vendidos nunca entrarás e das gôndolas das livrarias Cultura teu livro de capa mole nunca será retirado pelas mãos dos mauricinhos e das patricinhas do ambiente cultural que reverenciam Bolaño num ano e outra bola da vez, no outro.</p>
<p>Se tentas com afinco, o teu próximo livro pode vir a ser escrito com as “qualidades” invertidas – completamente – do receituário da melhor literatura brasileira, e feito a à medida da quase perfeição do Dom Casmurro (reconhecida até por Harold Bloom) e a desordem de catedral sertaneja de Os Sertões (reconhecida por Lúcio Graumann)&#8230; e, aí, quem sabe, fracassas retumbantemente, por fim!</p>
<p>Afinal, não se trata de uma piada, mas aconteceu de fato e veramente: alguém pegou uma obra das menos conhecidas de Machado de Assis, deu-se ao trabalho de digitá-la e enviar para o diretor de uma conhecida “grande casa” editorial tupiniquim. Não deu outra: esse original “inédito” foi devolvido ao “autor”, com a explicação de que ele ainda estava muito verde para penetrar nos felizes campos de caça do cifrão do mercado de obras de literatura obradas no país de Paul Rabitt e outros medalhões da Academia Brasileira de Sopa de Letras.<br />
Quem me contou, pediu para não revelar seu nome – e esta história de fracasso and sucess entrou por uma perna de pinto e saiu por uma perna de parto.</p>
<p>FUI. Bom Natal para maus e bons, sejam bem sucedidos ou fracassados vocacionais em busca de alcançar as suas (deles) metas urgentes e diversas. Há lugar para todos, enfim, e quem fracassa alcança aquela espécie de glória que sempre horrorizará o Mercado hoje Todo-Poderoso. Nunca escreva contra ele, lembre-se!, se você pretende que, um dia, sua obra venha a se tornar somente um especial da Globo. Enfim, para isso é que – parece – foi inventada a literatura, numa tarde de chuva na qual, também parece, não havia nada melhor para se fazer (evidentemente)&#8230;</p>
<p>NB:<br />
A favor da poesia, radicalmente, o ano termina (aqui nesta página) com uma nova poeta pernambucana – Camila Ribeiro – de quem divulgo o poema abaixo (“Saltos em cavalos selvagens”) como afirmação de crença no verso, contra toda a covardia editorial brasileira no que diz respeito a abrir espaço para a lírica, nos catálogos de quase todas as grandes casas, com raríssimas exceções. Nascida em 1979, Camila pertence a uma nova geração recifense indiferente à indiferença das editoras. Por isso, o seu belo poema conclui esta pagina de dezembro, com votos de felicidades para todos, em 2012.</p>
<p>SALTOS EM CAVALOS SELVAGENS</p>
<p><strong>Camila Ribeiro</strong></p>
<p>Há três grandes cavalos:<br />
um a calejar-me as mãos,<br />
outro triste e revolvido;<br />
um a forçar-me a língua,<br />
outro  a vomitar ciência<br />
e ainda um outro rijo.</p>
<p>Górgonas nascidas em boa hora,<br />
um cavalo para um olho (e outro que não chora)<br />
torturam o que sobra de meu ocidente.<br />
Presos no quarto de Jade,<br />
o mais selvagem me engolirá a soberba<br />
e, diminuída, seremos duas cabeças.</p>
<p><strong>[Jornal RASCUNHO - edição nº 140 - Dezembro de 2011]</strong></p>
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		<title>Rota da Música do Cinema</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2011 11:11:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Defendo (sempre defendi) que a música composta para o cinema, as trilhas sonoras feitas para filmes (portanto, sob encomenda) provavelmente respondem pela “grande música” – no mínimo da metade do século 20 para cá.
Estamos no mês em que se comemoram cem anos de nascimento de um dos maiores autores de trilhas da história da chamada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/nino-rota1.png"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37906" title="nino-rota" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/nino-rota1-340x216.png" alt="" width="314" height="199" /></a></p>
<p>Defendo (sempre defendi) que a música composta para o cinema, as trilhas sonoras feitas para filmes (portanto, sob encomenda) provavelmente respondem pela “grande música” – no mínimo da metade do século 20 para cá.</p>
<p>Estamos no mês em que se comemoram cem anos de nascimento de um dos maiores autores de trilhas da história da chamada &#8220;sétima arte&#8221;: Nino Rota (<strong>foto</strong>), italiano de Milão, nascido numa família de músicos como qualquer Google da vida poderá informar. Foi aluno de Casella, no conservatório de Santa Cecília (Roma), e, obtendo bolsa de estudos no Curtis Institute of Philadelphia, ouviu aulas de composição de Rosario Scalero e, de orquestração, pelo então professor no CIP, Fritz Reiner, maestro húngaro radicado nos EUA.</p>
<p><span id="more-37899"></span>Rota ficou conhecido como o músico de Federico Fellini por excelência. Compôs trilhas para outros realizadores italianos – Renato Castellani, Mario Monicelli, Franco Zeffirelli e Eduardo de Filippo –, além de compor partituras para longas-metragens do francês René Clément e de King Vidor e Francis Ford Coppola, dois diretores americanos de gerações distanciadas no tempo. Foi, entretanto, o seu trabalho para o grande Fellini que levou Nino a se tornar inclusive &#8220;popular&#8221;, no sentido pop da cultura de massa – muito próximo daquela solidez que &#8220;se desmancha no ar&#8221;, para lembrar o título de um livro que foi moda e todo mundo já praticamente esqueceu.</p>
<p>Não importa. Nino Rota jamais estará entre nomes esquecidos. Houve uma “impregnação” da sua música naquelas imagens criadas pelo cineasta de &#8220;La Dolce Vita&#8221;, e vice-versa. Talvez até mais vice do que versa: alguma das suas músicas, de repente ouvida num bar, num elevador com som-ambiente ou num quarto de motel de bom gosto, lembrará Fellini e, de imediato, fará o transporte para o clima onírico ou (diria Orson Welles, com algum veneno) mais ou menos “suburbano”, à la Itália, daquelas fábulas fílmicas fellinianas que o músico milanês ajudou a tornar ainda mais evocativas.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/cena-de-amarcord-de-federico-fellini-1319843134951_560x400.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37907" title="cena-de-amarcord-de-federico-fellini-1319843134951_560x400" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/cena-de-amarcord-de-federico-fellini-1319843134951_560x400-340x242.jpg" alt="" width="340" height="242" /></a></p>
<p><strong>Cena de Amarcord, de Federico Fellini: trilha de Rota</strong></p>
<p>O que busca um diretor de cinema quando pede que um profissional componha a trilha de determinada obra cinematográfica? Ora, ele pede muito mais do que um mero “acompanhamento” tipo o daqueles pianistas que, ao vivo, musicalmente comentavam a ação dos velhos filmes mudos, nos “cine-poeira” que desapareceram. Desde essa época, a música foi se tornando parte intrínseca, um elemento indispensável, uma das dimensões artísticas essenciais ao que é capaz de expressar a linguagem por imagens vinte e quatro vezes por segundo.</p>
<p>Essa música pode ser composta diretamente para a obra cinematográfica nova ou pode ser aproveitada do acervo de um compositor de outra época, como fez Stanley Kubrick – cumprimentos também para o supervisor musical H. L. Bird – ao “escalar” um trecho de Richard Strauss (1864-1949) para a abertura de &#8220;2001: uma Odisséia no Espaço&#8221;.</p>
<p>A abertura em questão – &#8220;Also sprach Zaratustra&#8221;, de Strauss – tinha existência própria, anterior ao filme de ficção-científica de 1968, porém isso se “apagou”, em parte, e ela se tornou, para muitos, a “música de 2001”. Isso porque houve a tal impregnação, aconteceu o processo de imantação de uma pelo outro (a música pelo filme, este pela música), e estamos conversados. Em tempo: esta conversa aqui escrita será bem “desconceitual”, com aspas, sobre a música do cinema como a Grande Música do século passado, sobre Nino Rota e outros fundamentais compositores e arranjadores do cinema, você começando talvez até a assoviar algum pedaço de trilha sonora que também impregnou o seu ouvido&#8230;</p>
<p>PRIMÓRDIOS DA CINE-MÚSICA</p>
<p>Curiosamente, Claude Debussy chegou a comentar que Richard Strauss era uma “compositor cinematográfico”, naqueles primórdios da invenção dos irmãos Lumière, porque a obra de Strauss sugeria uma “fonte de imaginação cinemática”, ou seja, faria pensar numa cadeia de imagens articuladas pelo som de uma grande orquestra.</p>
<p>Antes do cinema – pela via aproximada da ópera, é claro –, o alemão Richard Wagner (1813-1883) também seria já “cinematográfico” nos seus dramas musicais – Lohengrin, Tannhauser, Tristão e Isolda, o ciclo do Anel dos Nibelungos e outros – guiando-se pelo leitmotiv, narrativamente, e sendo a “idéia-base” (ou argumento, no cinema) o motivo condutor tanto do trabalho wagneriano típico quanto das sinfonias programáticas de um Berlioz, nas quais determinados personagens possuem um subtema musical e tudo o mais. Isso foi aproveitado e desenvolvido pelo evoluir da música “para cinema”.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Schoenberg350.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-37908" title="Schoenberg350" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Schoenberg350-225x300.jpg" alt="" width="198" height="263" /></a>Ela atraiu, por sinal, aqueles músicos um tanto mais conservadores (digamos assim) cujo gosto pela sinfonia havia se tornado mais ou menos deslocado no mundo da música erudita, pela vigência do sistema harmônico baseado no atonalismo – destacando-se Arnold Schoenberg &#8211; <strong>foto</strong> (1874-1951), com propostas dodecafônicas buscando dissonâncias, juntando acordes fora da hierarquia, e, vale dizer, aproveitando os sons mais inesperados numa sala de concertos.</p>
<p>Ora, nas trilhas das narrativas cinematográficas tudo continuava, entretanto, correspondendo a princípio, meio e fim (mesmo que “não necessariamente nessa ordem”, conforme costumava lembrar o irônico Jean-Luc Godard), e o “antigo” compositor sinfônico podia, nelas, voltar a dispor de um corpus narrativo para o seu trabalho.</p>
<p>Foi o que Nino Rota encontrou nos filmes de um Fellini olhando para trás, para Rimini ou para Roma, poeta reminiscente daqueles “boas-vidas” que não gostariam de se separar das suas infâncias, ou, então, jornalista errante se atirando na longa jornada noite adentro, em torno de si mesmo (e da Fontana di Trevi), acompanhando estrelas e anônimos da Roma tão velha que, ainda agora, pode fazer acontecer qualquer coisa, na notte brava&#8230;</p>
<p>Material bom para Nino – rota segura (esse &#8220;trocatrilho&#8221; era incontornável) para o maestro cuja jornada pessoal terminou em abril de 1979, entre vinhos e rosas, aos 67 anos. Bem cedo, portanto. Ficaram as suas trilhas emocionadas e cheias de uma melancolia que tem, na verdade, mais dois mil anos de história no inconsciente coletivo italiano.</p>
<p>PELAS TRILHAS DA “TRILHA”</p>
<p>Onde – e como – pode a música ajudar um filme?</p>
<p>Foi essa a pergunta que Rota ajudou a responder, indicando que a trilha jamais poderia ser apenas um elemento decorativo, por exemplo. Ele e outros grandes compositores do cinema viram a música ser usada como foco narrativo (nos filmes musicais, por exemplo) e com função climática, duplicando a força das imagens em cada sequência ou cena planejada para ser “sublinhada” por temas carregados de intenções específicas. Trataremos disso aqui – deixando os chamados “musicais”, propriamente ditos, para outra ocasião.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/charles_chaplin.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-37909" title="charles_chaplin" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/charles_chaplin-340x255.jpg" alt="" width="235" height="176" /></a>Charles Chaplin (<strong>foto</strong>) deu um grande impulso à concepção da trilha essencialmente “cinematográfica”, até porque o seu ouvido era o de um gênio que teria o que dizer em qualquer campo: cinema, teatro, circo, literatura, pintura, quase tudo. As trilhas dos filmes de Carlitos foram compostas pelo célebre diretor e produtor de si mesmo (“Smile” tornou-se um hit internacional, sem prazo para sair do gosto popular), sendo o Vagabundo um eterno apaixonado pelo lamento daqueles violinos “ciganos” dos anônimos músicos de rua, notas marcantes na sua infância quase de David Copperfield – o personagem de Charles Dickens, não o mágico milionário.</p>
<p>A força da música, nas produções de Chaplin, é tão incisiva que, na última delas (e a mais fraca: A condessa de Hong-Kong, de 1967), só restou mesmo uma bela composição recordando tristezas dos fugitivos ou emigrados do novecento que o substrato de comédia medíocre do roteiro da “Condessa” homenageia da forma mais pífia – enquanto o diretor envelhecido tentava dirigir Sophia Loren e Marlon Brando aparentemente sem perceber que o seu tempo havia passado.</p>
<p>Não importa quanto o tempo passe, o Max Steiner que compôs a trilha de “E o vento levou” (1939) sempre estará associado ao destino cinematográfico da indomável Scarlet O’Hara. A música desse clássico de Hollywood é impregnada daquele romantismo típico do Sul, mas também lembra um pouco o fio melódico da trilha sonora de “O morro dos ventos uivantes” (igualmente de 1939) – o filme dirigido por mestre William Wyler, e não as anêmicas versões mais recentes, coloridas e novelescas no reforçar de um romance literariamente já forte etc. Ninguém precisa fazer mais do que Wyler fez com as urzes dobradas pelo vento tangendo dois fantasmas condenados a prosseguir abraçados como demônios enfrentando o céu e preferindo recordar o inferno do seu amor “selvagem” nas charnecas. É isso o que a trilha do filme também expressa,   assinada pelo inspirado Alfred Newman (1901-1970).</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/casablanca01.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37910" title="casablanca01" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/casablanca01-340x258.jpg" alt="" width="340" height="258" /></a></p>
<p>Trilhas felizes – em termos de inspiração de maestros contratados para duplicar a força das imagens – fazem isso (e sempre o farão): ficam nos nossos ouvidos, nem que seja pela música-tema de um “Casablanca” (<strong>foto</strong>) que se assovia, ainda hoje, ao encontro de namoradas nos subúrbios do mundo: &#8220;You must remember this / A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh&#8221;&#8230;<br />
Foi Herman Hupfeld o autor dessa letra, assim como do tema tocado ao piano e cantado por Dooley Wilson, contra a vontade de “Rick”, o proprietário ranzinza do clube noturno de uma Casablanca de papelão em que ninguém presta atenção – todo mundo fascinado pelo clima romântico (à antiga) que o score ajudou a criar, junto com o preto-e-branco e a química entre Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, no filme de 1942.</p>
<p>Esse tema é tão hipnótico – musicalmente falando – quanto o composto por David Raksin para “Laura”, filme-noir de 1944, dirigido por Otto Preminger, baseado na novela policial homônima (escrita pela pequena bruxa Vera Caspary).<br />
Leitores, eu poderia me estender por várias menções de músicas de filmes clássicos preferidos de mães e tias – mas não se trata exatamente do foco deste texto, essas músicas “inolvidáveis”, premiadas com Oscar ou não: “Anastácia”, “Suplício de uma saudade”, “Lara” (sem “u”), a moderna “Alfie”..</p>
<p>Não. Aqui, estamos tratando das partituras de grande música – num conjunto sinfônico – composto por nomes como Rota, George Auric, Henry Mancini, Leonard Bernstein, Dmitri Tiomkin, Jerry Fielding, Jerry Goldsmith, John Williams, Michel Legrand e outros mestres das trilhas para filmes fáceis ou difíceis, românticos ou menos românicos. Todos trabalharam com o melhor de si e criaram obras quase autônomas – inclusive o nosso Heitor Villas-Lobos –, as quais “colaram” nas respectivas imagens cinematográficas, sim, porém também se emancipando, às vezes, como criação musical seguindo toda uma tradição sinfônica e fazendo o século passado, principalmente na sua segunda metade, possuir compositores de respiro mais largo do que os John Cage da vida (com todo respeito ao músico dos estertores da música).</p>
<p>MÚSICA DO ESPLENDOR, AINDA</p>
<p>A tese  – foi dito logo de início – é que as trilhas sonoras foram (e são) grande Música continuada por temperamentos fundamentalmente românticos, no sentido da frase de Tzvetan Todorov: “toda grande arte é de índole romântica”.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/alexander-nevsky-800-75.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-37911" title="alexander-nevsky-800-75" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/alexander-nevsky-800-75-300x300.jpg" alt="" width="195" height="195" /></a> Dois gigantes da composição erudita – Prokofiev e Shostakovich – foram convocados pelo seminal Eisenstein para criar trilhas originais para filmes (&#8220;Alexander Nevsky&#8221; (<strong>foto</strong>), &#8220;Outubro&#8221;, &#8220;Ivan, o Terrível&#8221; etc) que o cineasta russo conseguiu realizar, apesar do clima opressivo criado por “Comissários do Povo” devotados a abalroar a obra de gênios autênticos como Sergei, na União Soviética sob a mão de ferro de Stálin.</p>
<p>Depois do grande cineasta russo, foi alguém bem diferente – Walt Disney, por incrível que pareça – que, em 1939 (um ano rico para a música do cinema, já se vê), teve a ideia de forrar com as melhores partituras o seu renovador &#8220;Fantasia&#8221;.</p>
<p>“Forrar?” O verbo não é bem esse. Pelo contrário, nesse clássico do desenho animado é a música que domina a ação dos personagens retirados do mundo disneyano, em peripécias imaginadas a partir da &#8220;Toccata e fuga em ré menor&#8221;, de Bach, a &#8220;Ave Maria&#8221; de Schubert, &#8220;A Noite no Monte Calvo&#8221;, de Mussorgsky, a &#8220;Sinfonia Pastoral&#8221; de Beethoven, &#8220;O Aprendiz de Feiticeiro&#8221;, de Paul Dukas, e de música para balés (a suíte &#8220;Quebra-nozes&#8221; de Tchaikovsky, &#8220;A sagração da primavera&#8221; de Stravinsky e a &#8220;Dança das Horas&#8221;, de Ponchielli), tudo inovadoramente “recoreografado” em termos de desenho cinematográfico concebido como obra de arte, sob a supervisão do maestro Leopold Stokowski.</p>
<p>Músicos da mesma alta linhagem de Stokowski trabalharam em Hollywood – mais do que em outros lugares. O austríaco naturalizado americano Billy Wilder convocou seu conterrâneo Franz Waxman (1906-1967) para compor a trilha do filme que “biografou” a Meca do cinema, o comovente e ao mesmo tempo dramático &#8220;Crepúsculo dos Deuses&#8221; (1950). A música estava lá, para ajudar o mito da película   essencial do prolífico Wilder.</p>
<p>Aqui já citado, Dmitri Tiomkin, russo de São Peterburgo (onde nasceu em 1894), criou a música para “Horizonte Perdido”, um dos filmes mais emblemáticos do americaníssimo Frank Capra, o cineasta do New Deal. Tiomki seguiu trabalhando – sempre com brilho pessoal – para outros diretores famosos, até falecer em 1979.</p>
<p>Não foram poucos os &#8220;westerns&#8221; que se beneficiaram de belas trilhas criadas por compositores americanos compondo na esteira do erudito Aaron Copland, como foi o caso de Victor Young (1900-1956) e Elmer Bernstein (n.1922). No setor do filme policial, não se pode esquecer Bernard Herrmann (1911-1975), músico preferido de Alfred Hitchcock. Ambiguidade, incerteza, dúvidas e suspeitas estavam também nos temas musicais inquietantes desse colaborador fundamental do “mestre do suspense”.</p>
<p>Filmes épicos contaram com o senso de grandiosidade – e o refinamento – de um Miklos Rozsa (1907-1995), autor da premiada trilha do &#8220;Ben-Hur&#8221; de Wyler, e também com o alto talento de um Mario Nascimbene, criador do score de “Barrabás” (1961), de Frankin Shaffner, uma trilha que antecipou muito do que o avançado Peter Gabriel viria a fazer para “A última tentação” (1988), de Martin Scorcese.</p>
<p>Maurice Jarre compôs do único modo possível para o caso de um superespetáculo de caráter curiosamente “intimista”, como foi o &#8220;Lawrence da Arábia&#8221;, produzido e dirigido por Sir David Lean, em 1962, vencedor de sete Oscar (incluindo para a música de Jarre, que chegou ao requinte de utilizar instrumentos exóticos, no seu arranjo final).</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/01deuseodiabonaterradosol24082010.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37912" title="01deuseodiabonaterradosol24082010" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/01deuseodiabonaterradosol24082010-340x247.jpg" alt="" width="340" height="247" /></a></p>
<p>Dez anos depois, Astor Piazolla deu uma espécie de tom essencial para “O último tango em Paris”, filme de Bernardo Bertolucci lançado no meio de escândalo que pouco teve a ver com a seriedade do roteiro construído em torno do tema da angústia existencial, assunto perfeitamente repercutido pelo tango moderno do filme. A música do brasileiro Sérgio Ricardo para &#8220;Deus e o Diabo na Terra do Sol&#8221; &#8211; <strong>foto</strong> (1964) foi responsável por parte do impacto da obra de Glauber Rocha, que ainda hoje se faz sentir, quando são ouvidas as músicas cantadas na trilha, já clássica, pela voz de taquara rachada do compositor do violão lançado contra a plateia de um festival daqueles anos memoráveis&#8230;</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/morricone.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37913" title="morricone" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/morricone-340x228.jpg" alt="" width="340" height="228" /></a></p>
<p>Foi mais ou menos na época em que a primeira produção da série 007 nos apresentou uma “marca” musical praticamente indissociável do respectivo “produto”  fílmico: o som do maestro John Barry (falecido em janeiro deste ano) costurando as aventuras de James Bond, com Dame Shirley Bassey imprimindo suas fortes interpretações gritadas em pelo menos duas ou três músicas que vinham do mundo da guerra fria diretamente para os ouvidos de espectadores das províncias mais distantes da espionagem. Naquela época, Ennio Morricone (<strong>foto</strong>) também estourava, com hits provenientes do faroeste-spaghetti, e o setor da composição musical para a tela nunca mais seria o mesmo, depois desses dois nomes capazes de tornar o trabalho dos autores de trilhas uma parte comercialmente considerável do projeto de uma grande produção como “Era uma vez na América” – um dos melhores exemplos da arte de Morricone, ainda vivo e incorporado, como autor, ao repertório de muitas orquestras eruditas que querem se aproximar do público não só pela chamada “grande música&#8221;.</p>
<p>Enfim, deveria ser reivindicado esse mesmo estatuto para as trilhas do cinema, sim – num século que viu as pautas sinfônicas entrarem quase em becos sem saída, desde o dodecafonismo difícil para as plateias mais amplas. São elas que mandam, hoje, em termos da cultura de Mercado. No escurinho dos cinemas, isso significa quase que o único refúgio para arranjadores e compositores como Nino Rota – pelo menos enquanto dure, ainda, o prazer de usufruir da beleza sonora impregnada da força imagética de bons filmes realizados não só segundo estritas regras de oferta-e-procura, em salas nas quais ruídos estrondosos nas caixas de som não prevaleçam, por exemplo, sobre músicas como a de &#8220;Shane&#8221; (de Victor Young) sumindo na “elegante melancolia do crepúsculo”, conforme diria Charles Chaplin.</p>
<p><strong>[Revista CONTINENTE - nº 132 - Dezembro de 2011] </strong></p>
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		<title>&#8220;Claves para un éxito literario&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 12:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Publicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP.

“Chaves para um êxito literário”&#8230;
Quem voou pela Ibéria em agosto passado (e fosse, por acaso, escritor), contava com esta surpresa: a oferta de dicas para o “êxito literário”, na revista de bordo – RONDA – das aeronaves da empresa aérea espanhola.
Surpresa. As revistas de bordo brasileiras costumam ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Publicado simultaneamente no jornal Rascunho e neste SP.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/placido_domingo.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-37031" title="placido_domingo" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/placido_domingo-248x300.jpg" alt="" width="248" height="300" /></a></p>
<p>“Chaves para um êxito literário”&#8230;</p>
<p>Quem voou pela Ibéria em agosto passado (e fosse, por acaso, escritor), contava com esta surpresa: a oferta de dicas para o “êxito literário”, na revista de bordo – RONDA – das aeronaves da empresa aérea espanhola.</p>
<p>Surpresa. As revistas de bordo brasileiras costumam ser uma merda, eu apenas passo a vista, vejo quase todas enfiadas junto com o saco de vômitos, na frente das poltronas apertadíssimas etc. Mas essa, ibérica, a cara de mamão do simpático Plácido Domingo na capa, teria algo a dizer a um escriba sentado&#8230;</p>
<p><span id="more-37029"></span>Fiquei animado, é claro. Rumo à Espanha, esperando ver talvez as últimas touradas, não imaginava receber alto incentivo profissional, lá nas nuvens, ao meu métier de matador provinciano na arena de areia das palavras.</p>
<p>Olé!, vinha me dizer a &#8220;Ronda&#8221; com Domingo na capa – porque um dos aviões deles havia sido batizado com o nome do tenor remanescente dos três &#8220;terrores&#8221;&#8230;</p>
<p>Deixa pra lá a música lírica “popularizada” (?) na tapa. Não é a minha área. Não quero brigar com ninguém que ache que o falecido Pavarotti, o gordão Plácido e o insosso Carreras muito fizeram pela divulgação de óperas em fragmentos e canções napolitanas cantadas de modo a agradar mordomos de chefes da Máfia, os “Santiagos” de hoje, cantando no banheiro com dó-de-peito de torna a Sorrento sole mio funiculi-funiculá. Tem que goste. Digressão encerrada.</p>
<p>O assunto aqui neste jornal é livros, não se sabe (ainda) se os derradeiros da literatura – ou os primeiros de uma novíssima Terrível Idade Nova Admirável.</p>
<p>“Admirável”?</p>
<p>A aeromoça – velha – sob forte maquilagem, veio perguntar se eu queria vinho ou coca (Cola, gente!), e eu nem respondi, nos ares, a atenção toda concentrada no artigo salvador, no promissor texto de ensino a 10.000 metros, as dicas de graça no espaço, uma quase oficina literária (tem tantas!) suspensa no éter:</p>
<p>“CLAVES PARA UN ÉXITO (diga “êssito”, em bom castelhano) LITERARIO” – sem o acento, sem poltrona, a literatura de avião, promessa de romances de sucesso, Recordes dos bons e das boas villas Boas! Perspectivas de conquistas, avanços, glórias, paulocoelhadas de milhares de dólares. Me vi me vendo a anunciar: “Veja a VEJA, a ÉPOCA da minha reportagem, as matérias sobre livros meus escritos – oh! – a partir de agora totalmente de acordo com as recomendações, as sugestões, as regrinhas da Ronda”&#8230;</p>
<p>Eu nem devia estar aqui, a divulgá-las. Deveria ficar com o texto só para mim, Rogério Pereira. Afinal, é um tesouro, um achado, uma “botija” encontrada no céu de agosto, entre Recife e Madri, vôo 666. (Minto: vôo 669, que é um número mais animador, com a boca na botija mesmo – e a botija na boca da)&#8230;</p>
<p>Bom, vamos parar. Vamos voltar para a vaca fria da literatura: o artigo da revista de bordo da Ibéria se propondo ensinar as “chaves para um êxito literário”!!</p>
<p>Quem não acredita numa revista internacional, com o plácido Plácido na capa?</p>
<p>Quem ousa desconfiar de dicas espanholas – quando tantos romancistas da terra de Cervantes são hoje lançados pela Alfaguara e outras casa editoriais de Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha, Ronda?&#8230;</p>
<p>Era eu um escritor de sorte: havia voado na hora certa, pela companhia da melhor companhia: uma revista – gratuita – ensinando como chegar ao Olimpo das Letra$, tornando-me um $uce$$o&#8230;</p>
<p>Rogério: cobre mais caro por esta edição do valoroso “Rasca”. A presente edição de novembro de 2011 vale mais. Vaidosamente afirmo isso, garanto, insisto: o seu jornal, por mis generosas manos, está trazendo, neste penúltimo mês do ano, o ensinamento espanhol sobre como chegar LÁ, diretamente para os ouvidos/olhos dos nossos caros colegas.<br />
Ruffato, você já é um êxito, eu sei, mas preste atenção nas dicas da revista estrangeira – que eu divulgo logo em seguida –, e vosmicê poderá alcançar um êxito ainda maior, o qual lhe permitirá construir um superclube de lazer, com cem piscinas e cinquenta campos de peladas, além de trinta churrasqueiras, tudo para todos os subproletariados “deste país” (em estilo metalúrgico).</p>
<p>Homero Fonseca, leia o que vai divulgado algumas linhas mais adiante, e sua Roliúde, sua múmia de Ava Gardner, estarão no papo&#8230;</p>
<p>Elvira Vigna, venha cá, minha filha!, e anote, aprenda, saiba como tener el éxito próxima, via a ajuda ibérica dos ares das letras, pois logo em seguida estarei resolvendo TODOS os nossos problemas, estaremos pagando todas as dívidas, comprando todos os apartamentos, carros e casacos de vison que você elviramente detesta&#8230;</p>
<p>ESCRITORES! Isto é, ROMANCISTAS! Ficaremos ricos!! Luís Pellanda, larga a crônica, abandona o conto (atende ao reclamo de Dona Luciana, contista empedernido!), passa para o romance, rapaz, e, de acordo com o que vai traduzido aqui, pega a “chanche” [uma única vez na vida, veja bem!] de ser o Dez, o Vinte, chegar ao topo do topo do Topo Gigio&#8230;</p>
<p>Sem mais rascunhíssimas delongas, EIS O QUE DEVEREMOS TODOS SEGUIR, A PARTIR DE HOJE – ISTO É, PELO MENOS AQUELES, DENTRE NÓS, QUE QUEIRAM ALCANÇAR O ÊXITO LITERÁRIO, dois pontos (passo a traduzir ahora, ó Homero Gomes, estas recomendações pelas quais esperastes durante toda a tua curitibana primeira juventude)&#8230;<br />
As “chaves” são numeradas de um até dez, e vinham, na gentil Ronda, também em inglês (Keys to literary success), porque a revista é bilíngüe, e, eu, o suficientemente besta para estar aqui compartilhando o bookface com yours, conforme diriam Zuckerberg, Ariano Suassuna e Fernando Affonso Collor de Mello [o mais novo membro da Academia Alagoana de Letras, é verdade e dou fé]:</p>
<p>Aspas:</p>
<p>“1.- Gênero: como o mercado editorial tem predileção pelo romance, o livro deve ser um romance.”<br />
Entenderam? Isso aí é bem claro: ROMANCE! Nada, a não ser romance romanesco apostólico romanamente romanceado!!</p>
<p>2.- Argumento: o romance tem que conseguir fazer o leitor passar boas horas às voltas com um argumento que distraia, mas isso de forma cuidadosamente dosada.”</p>
<p>Sacaram? Tem que distrair, certo? Não sejam burros de fazer mais nada – a não ser distrair da distração da vida distraída&#8230;</p>
<p>3.- Contéudo: pensar pelo leitor. Isso implica em conclusões obtidas através dos personagens ou mesmo diretamente estampadas num lugar aparte. Ser completamente explícito com o que ocorre na história e não deixar nada para a imaginação.</p>
<p>Juro que estava escrito isso, lá! Assim mesmo. E a “Ronda” não tem culpa. É a roda deste nosso tempo, garotos e garotas. “Não deixar nada para a imaginação”. (Também não é ironia; o texto da revista não tem nada de irônico, em momento algum.)</p>
<p>4.- Personagens: é melhor que o personagem do romance não seja demasiadamente complexo no seu caráter, a fim de que o leitor possa se imaginar, facilmente, no seu lugar. Exemplos: uma heroína forte e rebelde com algo de mais ou menos ‘familiar’, um vilão conservador e sovina com traços humanizadores etc&#8230;</p>
<p>Não esqueçam isso: os vilões jamais devem ser tão vilões tão horríveis quanto o autor, por exemplo, de Marifogos de Bunda – por sinal bigodudo membro das Academias Maranhense e Brasileira de Letras, cheias de velhinhos romancistas que não têm mais idade para aproveitarem estas preciosas regrinhas. Elas ainda podem ser – infelizmente – de algum modo úteis apenas para o “mascote” da ABL, o Paul Rabitt, coelhinho de estimação da casa de Machado de Assis (este solene idiota carioca que escreveu uma vasta obra com pouca – ou nenhuma – convergência com estas prudentes recomendações ibéricas de hoy).</p>
<p>5. – Tamanho: os capítulos não devem ter mais do que 15 páginas, cada um.</p>
<p>O romance inteiro deve ter um mínimo de sessenta mil palavras, se é para crianças e adolescentes, e cem mil se é para adultos.</p>
<p>Os números estão aí. Se vocês farraparem, e passarem de tais limites etc, arquem com a consequência do insucesso e tudo o mais que fará a Folha de São Paulo ignorar vocês – mesmo que algum romance enorme de vossas autorias tenha sido elogiado por Harold Bloom, nos EUA decadentes de Barack Obama.</p>
<p>6. – Linguagem: utilizar a linguagem mais simples possível, a fim de que os leitores não tenham que recorrer ao dicionárioa toda hora – e venham, por isso, a abandonar la lectura. Não se deve permitir ao leitor nem uma “refrescada” ou pausa para respirar. À medida que os personagens resolvam um problema, aparece outro, e isso é que leva o leitor a passar, ansiosamente, para a página seguinte.</p>
<p>Joyces brasileiros – vocês estão fora do caminho do êxito! (Craro&#8230;)</p>
<p>7. &#8211; Ritmo: cada capítulo deve terminar, de preferência, com um “gancho”: uma ação não resolvida que suponha um problema sério ou, melhor ainda, algum perigo para os personagens principais – coisas que serão solucionadas no capítulo seguinte.</p>
<p>“Gancho” tá bem explicado aí, não é? Mas não abuse da figura do Capitão Gancho, no seu romance, ó Peter Pan Eterno que me lê e que aguarda o êxito na Terra do Nunca, a partir de 31 de fevereiro próximo&#8230;</p>
<p>8.- Marketing: procurem se aconselhar com bons profissionais que trabalham para editoras que conseguem vender gato por lebre, criando algo como uma lenda para cada autor do seu catálogo (bem fotografado, elegante, não-fumante, frequentador de academias de ginástica, essas coisas).</p>
<p>Achei meio esquisita a oitava regrinha. Aqui, na terra do Coelho, o pulo do gato literário transforma saguins em macacos pregos do jogo do bicho da floresta da literatura transformada em espetáculo de circo de animais amestrados nas bienais&#8230; Seja como for, eu não quis omitir esta oitava pérola.</p>
<p>9. &#8211; Serialização: ter pronta uma continuação da trama, ou algo aproximado, para quando estoure o boom.  Um livro levará para outro do mesmo autor, e isso faz os editor muito felizes; consequentemente, eles até lhe convidarão para um final de semana nas suas (deles) casas de campo&#8230;</p>
<p>Quem já esteve na casa de campo do Serginho Machado? E também do&#8230;. Bom, deixa pra lá.</p>
<p>10. &#8211; Hollywood: preparar um final que coincida com os cânones hollywoodianos. Se você fugir disso, terá dificuldades de se acertar com um produtor que poderia realizar o sonho de qualquer jovem romancista que se preze: ter os direitos dos seus livros adquiridos por cineastas. Esse desejo é tão profundo que muitos romancistas divulgam que isso “aconteceu” – sem ter ainda acontecido.</p>
<p>Bem, a minha parte está feita. Agora cabe a vocês mudarem radicalmente as suas vidas de romancistas da Nova Literatura Bra$ileira, entrando na onda do $uce$$o  na companhia das letra$ bem $ucedida$ etc etc.</p>
<p>Mão$ à obra$ bem obrada$! O CEO é o limite – Ibéria abajo &amp; arriba rumo inclusive à consagradora$ entrevista$ de cinco minuto$ no Programa do JÔ!</p>
<p>VALE!</p>
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		<title>&#8220;O Arquiteto da sua Mitologia&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 12:57:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Schneider Carpeggiani, do &#8220;Jornal do Commercio&#8221;, fez uma bela entrevista com Francisco Brennand -  &#8220;O Arquiteto da sua Mitologia&#8221; -, publicada domingo último, no jornal recifense. Aqui, um fragmento do texto que buscou flagrar a intimidade do grande artista (84 anos), na intimidade da sua famosa Oficina:
&#8220;Nossa conversa com Brennand aconteceu durante a tarde da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/brennand2.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-36756" title="brennand" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/11/brennand2-340x226.jpg" alt="" width="340" height="226" /></a></p>
<p>Schneider Carpeggiani, do &#8220;Jornal do Commercio&#8221;, fez uma bela entrevista com Francisco Brennand -  &#8220;O Arquiteto da sua Mitologia&#8221; -, publicada domingo último, no jornal recifense. Aqui, um fragmento do texto que buscou flagrar a intimidade do grande artista (84 anos), na intimidade da sua famosa Oficina:</p>
<p>&#8220;Nossa conversa com Brennand aconteceu durante a tarde da última quinta, em seu escritório, na Oficina. Na porta, apenas a inscrição “pintor”, seis letras que lutam para dar conta de um homem que ergueu um mundo salvar suas lembranças.</p>
<p>Brennand conversa diante de uma mesa cercada por livros em processo de leitura ou releitura. &#8216;Os livros que estão aqui, ao meu lado, são os que estou lendo”. Lá de longe na estante, nos observa a obra completa de Jorge Luis Borges. O tigre está na biblioteca. Ao lado do pintor, lutam por espaço romances de Fernando Monteiro e alguns de Roberto Bolaño (“Ainda não tive coragem de começar 2666. Por isso ele está ali, na estante&#8217;). Brennand mostra trechos grifados de Alvo noturno, última novela do argentino Ricardo Piglia. A passagem que despertou seu interesse passa a impressão de ser um tratado estético: &#8216;As coisas que parecem diferentes na verdade são a mesma coisa (…) Enquanto estou interessado em demonstrar que as coisas que parecem a mesma coisa na verdade são diferentes&#8217;. Brennand diz que é da literatura que parte suas obras. É a pulsão inicial.&#8221;</p>
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		<title>UMA CONFISSÃO&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Oct 2011 15:05:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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Cena do filme A Rede Social, sobre o Facebook
Gente, eu me rendo. Ou melhor, estou prevendo que, ao fim e ao cabo (da Nenhuma Esperança), eu vou terminar sendo obrigado a também chorar pela morte desse empresário [criativo, sim] do ramo da Informática, diante do mundo inteiro ainda se descabelando pela triste notícia, em toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/redesocial_4.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-35992" title="redesocial_4" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/10/redesocial_4-340x192.jpg" alt="" width="340" height="192" /></a></p>
<p>Cena do filme A Rede Social, sobre o Facebook</p>
<p>Gente, eu me rendo. Ou melhor, estou prevendo que, ao fim e ao cabo (da Nenhuma Esperança), eu vou terminar sendo obrigado a também chorar pela morte desse empresário [criativo, sim] do ramo da Informática, diante do mundo inteiro ainda se descabelando pela triste notícia, em toda parte.</p>
<p>Quando Zuckerberg morrer então (e não estou agourando o Nerd)!, acho que todo mundo vai ter que sair desfilando de pijama preto, robe idem e chinelos de pregos de ponta fina pelos vales do silício afora&#8230;</p>
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		<title>DUAS FRASES</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Oct 2011 19:28:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Vamos inventar o amanhã e parar de nos preocupar com o passado&#8221;. STEVE JOBS
&#8220;Aqueles que não conseguem se lembrar dos erros do passado estão condenados a repeti-los.&#8221; GEORGE SANTAYANNA
OBS:
As duas frases não estão simplesmente justapostas, AQUI.
A primeira é tão só uma &#8220;coisinha&#8221; de inspiração otimista-meio-sem-sentido-americano-à-la-Casa-Branca etc etc, dita por alguém superestimado [morreu, eu lamento, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Vamos inventar o amanhã e parar de nos preocupar com o passado&#8221;. STEVE JOBS</p>
<p>&#8220;Aqueles que não conseguem se lembrar dos erros do passado estão condenados a repeti-los.&#8221; GEORGE SANTAYANNA</p>
<p>OBS:<br />
As duas frases não estão simplesmente justapostas, AQUI.</p>
<p>A primeira é tão só uma &#8220;coisinha&#8221; de inspiração otimista-meio-sem-sentido-americano-à-la-Casa-Branca etc etc, dita por alguém superestimado [morreu, eu lamento, mas é preciso dizer a verdade de vez em quando].</p>
<p>A segunda frase&#8230; Bem, já essa é VERDADEIRA sabedoria &#8212; de um filósofo esquecido, porque Filosofia não está na moda, porém Informática está.</p>
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		<title>TENHO SAUDADE DAS BANDAS DE ROCK PORTUGUESAS (em tempos de Rock-in-Rio)</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 18:10:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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Eu vivi uns tempos em Portugal, e, por incrível que pareça, tenho saudade das formalidades deles – pelo menos de algumas, melhor dizendo – e, pincipalmente, das bandas de rock portuguesas (que existem, sim)&#8230;
O país da floresta encantada de Sintra e daquele formal &#8220;da parte de&#8221; (nada, na terra de Camões – como dizem os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/galo_emiliarocha_medio.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-35733" title="galo_emiliarocha_medio" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/galo_emiliarocha_medio-520x568.jpg" alt="" width="359" height="392" /></a></p>
<p>Eu vivi uns tempos em Portugal, e, por incrível que pareça, tenho saudade das formalidades deles – pelo menos de algumas, melhor dizendo – e, pincipalmente, das bandas de rock portuguesas (que existem, sim)&#8230;<br />
O país da floresta encantada de Sintra e daquele formal &#8220;da parte de&#8221; (nada, na terra de Camões – como dizem os acadêmicos nos dircursos de laudas e mais lauudas das academias de letras ensonadas – funcionava sem ser &#8220;da parte de&#8221;)&#8230; o cartão da parte do raio de quem for que circula, a apresentaire, a pedire, e, enfim, andando de mão em mão.<br />
<span id="more-35731"></span>O cartão, o velho cartão, faz parte da alma lusa, é o tamanco da lusa mente, apóia todas as AÇÕES portuguesas, e, vindo da &#8220;parte&#8221; de quem venha, pode anulá-las também.<br />
O cartão de apresentação é (ou era) &#8220;O&#8221; Cartão, em Portugal – porém essa nação, é verdade, não teria sido a mesma sem ele, e muita gente já veio me dizer que, na terra do Raul Solnado, até o tal cartão não é mais aquele, num Portugal mudado onde cartão &amp; merda é a mesma coisa e, pior, sumiram aquelas bandas de rock que eu vi e ouvi não existem mais.<br />
Não sei se chegou até o Brasil a fama, por exemplo, de &#8220;Os Cus Virados&#8221; – que os jornais lusos mais pudicos grafavam &#8220;Os C&#8230;s Virados&#8221;. Os rapazes ficaram irados, mandavam cortar os calções na área da bunda e, muitas vezes, cantavam de &#8220;face&#8221; posterior para o público, e a urrarem: &#8220;os cus!, os cus!, os cus!&#8221;&#8230;<br />
Um amigo neófito que visitava Portugal naquela época, e que eu levei a Cascais a ver os Cus, pensou que o nome da banda fosse Cuscuz, o que seria muito africano (e inocente) para uma banda da pesada que era mais do que uma banda &#8220;gira&#8221;, em termos de gíria portuguesa “d’antanho” (para homenagear Eça de Queiroz).<br />
Os nomes das bandas de rock portuguesas exprimem, de certo modo, a nação apertada contra o mar: havia a &#8220;Nazaré dos Putos&#8221;, por exemplo. Nazaré é uma aldeiazinha de pescadores, não muito distante de Lisboa, que parece um cartão postal de falsa aldeiazinha de pescadores onde todo mundo começa a trançar redes e anunciar peixes frescos logo que o primeiro ônibus de turismo chega com aquelas pessoas de óculos e máquinas (hoje digitais) saídas de hotéis no clima de uma das poucas boas descrições já feitas pelo americano Don DeLillo:<br />
“Turismo é a marcha da estupidez. Espera-se que sejamos estúpidos. Todo o mecanismo do país anfitrião é engrenado para viajantes agindo estupidamente. Confusos, circulamos pelos lugares apertando os olhos sobre mapas desdobrados. Não sabemos como falar com as pessoas, como chegar a qualquer parte, qual é o valor do dinheiro, que horas são, onde e o que comer. Ser estúpido é o padrão, o nível e a norma. Podemos viver nesse nível semanas e meses, sem censuras ou consequências tenebrosas. Juntamente com milhares de outros, a nós são concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de imbecis, vestidos com poliésteres vistosos, empoleirados em camelos, tirando retratos uns dos outros, abatidos, disentéricos, sedentos. Não há nada em que pensar a não ser no próximo evento amorfo etc”.<br />
Mas o assunto, aqui, é mesmo o extraordinário batismo das bandas de rock lusas: há coisa mais simples (e eficiente) do &#8220;Roque e o Rock&#8221;? Claro que o líder da banda se chamava Roque – Roque Carvalhal – e ele vinha da boa &#8220;Armando os Rojões&#8221;, onde o roqueiro Armando Pedro ocupava todo o espaço para soltar os tais dos &#8220;rojões&#8221;&#8230;<br />
O verbo soltar me lembra um dos nomes mais francos daquelas bandas: &#8220;Não Há Cu Que Não Dê Traques&#8221;, autora do sucesso &#8220;Peste &amp; Sida&#8221;, segundo garante José Teles, jornalista pernambucano também fascinado pelos nomes daquelas bandas. A lista de Teles é maior e melhor do que a minha. Ela inclui supresas como a banda &#8220;Agricultor Debaixo do Trator&#8221;, uma banda de Setúbal especialista em letras maoístas, e que fez muito sucesso logo depois do “25 de abril”.<br />
A banda &#8220;25 Barra 4&#8243; era óbvia demais. Nunca gostei dela – nem o Teles, fã de outra banda de filhos de camponeses revoltados: &#8220;A Máquina do Pequeno-Almoço Dá Pancada&#8221;. Não tive a sorte de vê-la, acordando tão tarde quanto eu acordava, nos tempos em que&#8230; Bom, deixa pra lá.<br />
José Teles garante ter existido uma certa banda &#8220;Alucina Eugênio&#8221;, além da aparentemente óbvia (também) &#8220;LSD&#8221;. Os meninos da LSD, entretanto, diziam que a L&#8230; (os jornais conservadores – mais uma vez – faziam suas elipses censórias, mais que desnecessárias) nada tinha a ver com o mundo das drogas, uma vez que, para eles, eram iniciais de Louvado Seja Deus.<br />
Há notícias de outras ousadias batismais das bandas alfacinhas. Enquanto eu só descobri a misteriosa, a minimalista &#8220;ObraNisso&#8221; –banda de &#8220;nisseis&#8221; do Algarve –, um outro amigo descobriu uma tal &#8220;Cebo Anal&#8221; e, outra, esse prodígio de trocatrilho &#8220;Poker Alho&#8221; (que mais tarde mais ou menos se amansou em &#8220;Punk-Kecas&#8221;, veio ainda a se chamar &#8220;Cárie Mental&#8221; e, afinal, desapareceu como &#8220;Os Nomes Metem Nojo&#8221;).<br />
Uma lista hard-peninsular ainda contaria com o sombrio caso da banda &#8220;Criança Carbonizada&#8221; – uma espécie de versão lusa da nossa Mamonas Assassinas (o melhor nome de banda brasileira) –e que também morreu, toda, naquele horrível desastre aéreo no fundo de Trás-os-Montes, acidente que igualmente comoveu os bons portugueses ainda hoje a se dirigirem, em romaria, ao local do infausto acontecimento.<br />
&#8220;Criança Carbonizada&#8221; teria sido um nome premonitório? O jornal &#8220;A Bola&#8221; confiou uma pesquisa sobre isso, aos cuidados do jornalista pernambucano Duda Guennes (então radicado em Lisboa).<br />
Bandas, bandas. Bandas lusas até à medula. Isso não é o nome de uma delas; é uma pausa para chegar na minha preferida: &#8220;Friedrich Que Se Lixe&#8221;, banda meio anti-neo-nazista.<br />
Outro grupo na mesma linha era a &#8220;Deus-Pai, Pá, Não Morreu&#8221; –  que consta ter desaparecido muito cedo, banda que tinha Portugal inteiro para percorrer, em turnê de três horas e meia. Porque dá, sim: o país é pequeno (a alma, não).<br />
Por fim, não se pode esquecer a banda de port-pop &#8220;Não Gostamos do Pai Natal&#8221;, nem a &#8220;Zé Manel Suicida&#8221; (esta, mais metaleira – desde o primeiro momento) nem, ainda, a &#8220;Virgens Debaixo da Cama&#8221;, que confessava ter sofrido influência da musiquinha brasuca, lá por aquelas bandas cheias de bandas (ao contrário do que se pensa)&#8230;<br />
Quanto a mim, eu ainda prefiro aquela que foi lançada em show memorável no restaurante Martinho das Arcadas – ali onde a Praça do Commércio abre para o &#8220;vôo atlântico das gaivotas&#8221;, segundo uma letra da única banda de rock romântico de Portugal, a &#8220;Sintra o Vento&#8221;&#8230;<br />
Refiro-me, é claro, à banda de rock portuguesa de maior sucesso, até hoje: a &#8220;Fernando Pessoa Limpava-se Aqui&#8221;.</p>
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		<title>Western na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Sep 2011 17:14:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[De hoje até o dia 02 do próximo mês, a VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco acontece com força, no Recife (no Centro de Convenções local).
Na segunda-feira 26, a programação inclui o painel “Cinema e Cidadania: o caso do Western”, a partir das 19 horas, conduzido por Fernando Monteiro e com a participação de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De hoje até o dia 02 do próximo mês, a VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco acontece com força, no Recife (no Centro de Convenções local).<br />
Na segunda-feira 26, a programação inclui o painel “Cinema e Cidadania: o caso do Western”, a partir das 19 horas, conduzido por Fernando Monteiro e com a participação de José Carlos Targino, no espaço &#8220;Círculo das Ideias&#8221;.<br />
Ver aqui <a href="http://www.bienalpernambuco.com/" target="_blank">http://www.bienalpernambuco.com/</a></p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/WESTERN.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-35505" title="WESTERN" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/WESTERN.jpg" alt="" width="500" height="374" /></a></p>
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		<title>Esta vai para o Diógenes</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 16:29:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta vai para Diógenes da Cunha Lima: http://www.imcbr.org.br/011set19.html
PS: Neste momento (11:13), é notícia de cinco horas atrás, sobre baobás, no site do Instituto Maximiano Campos, que realiza a Flip de Porto de Galinhas em Olinda, além de outras iniciativas. Como diz aquela musiquinha infantil sobre elefantes etc, um baobá chateia muita gente, dois baobás&#8230; etc [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta vai para Diógenes da Cunha Lima: <a href="http://www.imcbr.org.br/011set19.html" target="_blank">http://www.imcbr.org.br/011set19.html</a></p>
<p>PS: Neste momento (11:13), é notícia de cinco horas atrás, sobre baobás, no site do Instituto Maximiano Campos, que realiza a Flip de Porto de Galinhas em Olinda, além de outras iniciativas. Como diz aquela musiquinha infantil sobre elefantes etc, um baobá chateia muita gente, dois baobás&#8230; etc etc.<br />
PS do PS: Imagina o monte que tem por aqui, segundo o vetusto IMC.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>MOLOCH DA MÍDIA &#8211; do Cidadão Kane a Rupert Murdoch</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Sep 2011 22:49:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cidadão Kane]]></category>

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Não há problema: é só consultar Wikipédia, para ficar sabendo que Moloch – ou Moloque – “é, conforme os textos bíblicos, o nome do deus dos amonitas ao qual eram sacrificados recém-nascidos, jogando-os em uma fogueira. Também é o nome de um demônio da tradição cristã e cabalística. A aparência de Moloch era de corpo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizen-2.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-34869" title="citizen 2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizen-2-520x407.jpg" alt="" width="520" height="407" /></a></p>
<p>Não há problema: é só consultar Wikipédia, para ficar sabendo que Moloch – ou Moloque – “é, conforme os textos bíblicos, o nome do deus dos amonitas ao qual eram sacrificados recém-nascidos, jogando-os em uma fogueira. Também é o nome de um demônio da tradição cristã e cabalística. A aparência de Moloch era de corpo humano com a cabeça de boi ou leão” etc.</p>
<p><span id="more-34866"></span>Se quisermos &#8220;atualizar&#8221; o enciclopedismo rasteiro deste século 21 (que é Wikipédia), basta mudar a aparência do velho Moloch: continua o “corpo humano” e a cabeça também se faz a de um homem. Ou seja, o velho Moloch poderia exibir o aspecto de um magnata da imprensa chamado Charles Foster Kane, personagem do revolucionário filme de Orson Welles, lançado em setembro de 1941, na América do então jovem diretor, gênio cooptado por Hollywood como raramente foram contratados gênios autênticos, no chamado star system dos grandes estúdios.</p>
<p>E se setenta anos é muito tempo, então a cabeça de Moloch pode ser substituída pela feia cabeça do contemporaníssimo Rupert Murdoch, australiano que é o maior empresário do ramo da comunicação no planeta, atualmente às voltas com a justiça inglesa para explicar os grampos telefônicos e outros crimes que seu tipo de imprensa “marrom” – a mesma de Kane – estaria cometendo, há tempos, sem que ninguém se mexesse na Inglaterra, para investigar o conglomerado jornalistico (News Corps) de Murdoch à sério, até o escândalo bater à porta da intimidade do ex-Primeiro Ministro Gordon Brown.</p>
<p>Esse cheiro de rato morto no sovaco dos magnatas da imprensa não só de língua inglesa, tem – justificadamente – o batismo de um nome duplo, no cinema: Kane/Hearst. Explica-se: o filme realizado pelo rapaz de “brilhante futuro nas artes” (há sete décadas) foi, pioneiramente, para o olho do furacão do assunto da falta de escrúpulo na mídia, ao se basear, em parte, na trajetória real de William Randolph Hearst, lendário dono de cadeia americana de jornais, na primeira metade do século 20. É um homem como ele que vira o objeto do quebra-cabeça cinematográfico ao qual Welles se dedicou como se remontasse um vitral partido, revolucionando a narrativa, no cinema, ao usar linguagem de máxima potência para tratar de um “Moloch” típico.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizenk-1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-34870" title="citizenk 1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizenk-1.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>A LENDA DE UM FILME</p>
<p>Welles foi um verdadeiro gênio – num século cheio de falsos gênios – e “Cidadão Kane” é a obra mais importante não só na sua filmografia como diretor (ele era também ator, mágico amador, jogador inveterado e moleque, digamos, nas horas vagas de atirar pianos nas piscinas dos hotéis, como fez no Copacabana Palace). Longa-metragem que está sempre na topo das listas dos melhores filme de todos os tempos, Citizen Kane – como muitas obras-primas – foi uma realização controversa desde seu começo na cabeça de Orson ajudado por John Houseman (segundo este primeiro colaborador importante de Welles, no teatro e no rádio). Houseman foi uma das amizades firmes do carismático moço vindo da pequena Kenosha, no Wisconsin onde George Orson Welles nasceu no dia 6 de maio de 1915. Duas décadas depois, ele chegava naquela Nova Iorque da luz no fundo do túnel da Depressão econômica, disposto a conquistar a grande cidade com alto talento e um carisma de derrubar avião.</p>
<p>Para começo de conversa, Welles fez descer do céu não as aeronaves comuns, movidas a combustível vulgar e tudo o mais, porém nada menos que discos voadores pilotados por marcianos em aventura de invasão da Terra. Tratava-se da primeira grande façanha com a marca OW, na história das artes da comunicação. Nessa época, Welles produzia o “Mercury Theatre no ar”, um programa radiofônico no qual teatralizava, digamos assim, obras literárias do seu gosto, com inteira liberdade de escolha e estilo (sorte dele, que não conseguia funcionar senão assim, livre para voar)&#8230;</p>
<p>Às oito horas da noite de 30 de outubro de 1938, exatamente no dia das Bruxas, o “Mercury” levou ao ar uma adaptação da ficção-científica A guerra dos mundos, novela de autoria do seu quase homônimo H. G. Wells, e o fez em forma de reportagem de rua, como se os microfones estivessem nas mãos de repórteres presenciando um ataque de UFOS ao nosso planeta. O truque ficou tão real que instaurou imediato e autêntico pânico entre milhares de pessoas que pegaram o programa pela metade e pensaram que se tratava de uma invasão real. Muitos desses ouvintes fugiram das suas casas, outros sofreram forte comoção e todo mundo ficou sabendo da existência do rapaz que produzia para o rádio, fazia reportagens especiais e atuava no teatro como ator, diretor e, bem, como Orson-Welles-mesmo, pois ele era uma espécie de personagem de si próprio, tão convicto do seu gênio quanto o James Joyce de 18 anos que, barrado na portaria de um teatro aonde pretendia entrar seu pagar ingresso, simplesmente olhou de alto a abaixo para o funcionário à porta da casa de espetáculos e o informou: “Mas eu sou James Joyce!”, do alto de sua juventude mundialmente desconhecidos, naquela altura.<br />
“Eu sou Welles!” – foi assim que “funcionou” aquela transmissão radiofônica, ouvida de costa à costa da então América do sonho ainda de pé, um lugar em que virtualmente poderia acontecer de tudo (hoje, está longe disso, ou pelo menos o sonho acabou e ela está caminhando para a decadência rápida – nas artes principalmente).</p>
<p>Fascinado pela idéia de ir para Hollywood, Orson conseguiu o interesse da RKO como sócia e distribuidora do que ele pretendesse levar para as telas. Foi assim que, com um orçamento razoável, o ex-garoto precoce afortunado partiu para escrever o roteiro de “Cidadão Kane” – com a ajuda não-creditada de Houseman e, depois, com a definitiva colaboração de Herman Mankiewicz (um dos melhores roteiristas à disposição, no perímetro de Los Angeles). Além de roteirista, Orson atuou frente às câmeras como protagonista principal e, acima de tudo, diretor de uma obra autoral até à medula ianque.</p>
<p>O grande estúdio que se associou ao garoto brilhante do “eu, eu e mais eu”, não se importava muito com o que ele estava fazendo lá no set. Os produtores só sabiam que era alguma coisa relacionada com a biografia de um homem poderoso, porém o deixaram trabalhar em paz (isto é, em guerra: guerra para criar uma verdadeira obra-prima).</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizem-3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-34871" title="citizem 3" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/09/citizem-3.jpg" alt="" width="383" height="281" /></a></p>
<p>POLÊMICO DESDE A ESTREIA</p>
<p>&#8220;Citizen Kane&#8221; estreou em setembro de 1941 numa América ainda livre da guerra e deslumbrada por faroestes, melodramas, comédias, musicais e histórias de gangsteres. A segunda experiência de Orson Welles no cinema – a primeira havia sido um curta-metragem, The Hearts of Age, de 1934 – apresentava aos apreciadores dos produtos da próspera indústria cinematográfica, uma espécie de mistura desses gêneros todos (excetuando musicais, claro), em sintaxe nunca antes intentada naquele país, segundo Lula destacaria. Charles Foster Kane funcionava como um herói-vilão montado no cavalo da imprensa num melodrama que começava com um enigma (a palavra “Rosebud”) para  explicar a trajetória de um influente dono de império jornalístico que pretendia moldar os acontecimentos de acordo com os seus interesses e gostos, manias, fraquezas e eventuais grandezas perdidas no meio do caminho.</p>
<p>Mas Kane seria isso mesmo? Quem era ele? Ninguém sabe – um tanto à maneira do romance O grande Gatsby (de F. Scott Fitzgerald). Ou melhor, todo mundo pensa saber – e não sabe, na verdade. Todos têm, entretanto, alguma coisa para dizer sobre Kane, porém essa “coisa” ou soa incompleto ou soa errada e, de qualquer maneira, parece apenas o fragmento de um fragmento da vida controversa e estranha de um homem que queria dominar o mundo embora não dominasse os próprios pesadelos, sonhando com “Rosebud” (o que era?), enquanto chorava dormindo e, de manhã, acordava disposto a esquecer palavras, pensamentos e obras que, dias antes, havia afirmado apoiar com entusiasmo.</p>
<p>Cada novo dia de Kane é um dia inventado na tumultuosa mente do criador de um conglomerado como o dos tempos de hoje, de Rupert Murdoch – só que Kane não tem a cara de Rupert (de um amanuense de óculos?). Era ele um belo homem, que falava com perfeita entonação shakespeareanea e olhava nos olhos das pessoas, talvez a fim de retirar delas tudo que tinham de bom&#8230;<br />
Verdade? Mentira?</p>
<p>Para não precisar responder à essa pergunta, o gênio de Orson Welles criou o unanimemente considerado “melhor filme da história do cinema”, contando a história que não termina e usando uma linguagem nova, auxiliado pelo extraordinário talento do diretor de fotografia Gregg Toland e pelo ritmo da montagem nas mãos de Robert Wise, futuro diretor hollywoodiano dos mais aclamados. Com ângulos de câmera inusitados (uso de plonglée e contra-plongée etc) e exploração do fundo de campo, entre outras novidades, Kane é uma obra que não envelheceu, depois de sete décadas e mais a forte influência sobre a “sétima arte”. Welles ajudou a articulá-la como mais do que essa síntese das seis outras, ao realizar um filme tão importante como “A Paixão de Joana D’Arc” (de Dreyer) e “O encouraçado Potemkim” (de Eisenstein) e outras que compõem as listas das dez maiores realizações cinematográficas produzidas até esta data. Só que Citizen Kane geralmente encabeça quase todas as listas, seja ou não seja a “biografia” de homens como W. R. Hearst.</p>
<p>Até morrer – vítima de um fulminante ataque cardíaco, em 10 de outubro de 1985 –, Orson jamais reconheceu que o magnata americano fosse a principal fonte inspiradora de “Cidadão Kane”. Ao se ver perseguido por Hearst, o cineasta usou de suas artes mais ou menos charlatanescamente hábeis etc, tentando se desviar da mira do Murdoch daqueles tempos, através de advogados e outros meios mais indiretos.</p>
<p>Quando Welles passou aqui pelo Recife, em março de 1942 (logo após ter concluído Kane, na viagem ao Brasil que teria sido o “começo do fim da carreira em Hollywood”, nas palavras do próprio diretor), o único dos três rapazes que, naquela altura, participaram de uma “farra” na sua companhia, e que sabia perfeitamente quem era Orson, chamava-se Tomás Seixas (os outros dois foram o fotógrafo Benício Dias e o jornalista Caio de Souza Leão).</p>
<p>O poeta Seixas foi meu amigo, e uma vez eu lhe perguntei se a já velha controvérsia em torno de Kane/Hearst havia sido abordada na rodada de uísque à beira do cais, naquele Recife nervosamente em blackout. Tomás pensou um pouco, antes de responder afirmativamente, e acrescentar:<br />
“Ele falava de várias coisas ao mesmo tempo. Para mim, mais do que para os outros, talvez porque eu fosse o único fluente em inglês (Benício falava muito bem o francês). Um dínamo, o Welles. De repente, podia estar cantarolando a ‘Marselhesa’, por exemplo, e então parava para responder a uma pergunta feita quinze minutos atrás. No caso da minha, Orson voltou mais uma vez para mim aquela cara de belo menino gordo e respondeu: Charles Foster Kane c’est moi. Et Hearst et le diable et Dieu (Charles Foster Kane sou eu. E Hearst e o diabo e Deus).”</p>
<p>Precisaria dizer mais sobre moloques da mídia e “moleques” de gênio?&#8230;<br />
Em tempo: a palavra &#8220;Rosebud&#8221;, o filme termina explicando como sendo apenas o nome de um trenó que Charles Foster Kane possuíra, na perdida infância.</p>
<p><span style="color: #3366ff;">[FERNANDO MONTEIRO - Especial para a Revista "CONTINENTE" nº 129/Setembro/2011 -, homenageando os 70 anos do lançamento de "Citizen Kane" nos cinemas americanos, em 5 de setembro de 1941] </span></p>
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		<title>O Diário de Nohara (2)</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-diario-de-nohara-2/</link>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 16:48:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
Texto do escritor Fernando Monteiro, publicado simultaneamente no jornal Rascunho, de Curitiba, e neste SP.
aqui
Leia aqui a Parte 1.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/NOARA-2-Foto-de-estúdio-da-atriz-alemã-Lil-Dagover-circa-1935.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-34252" title="NOARA 2 - Foto de estúdio da atriz alemã Lil Dagover  - circa 1935" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/NOARA-2-Foto-de-estúdio-da-atriz-alemã-Lil-Dagover-circa-1935-357x700.jpg" alt="" width="256" height="502" /></a></p>
<p>Texto do escritor <strong>Fernando Monteiro</strong>, publicado simultaneamente no jornal Rascunho, de Curitiba, e neste SP.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/O-Diário-de-Nohara-2.pdf">aqui</a></p>
<p>Leia <a href="http://www.substantivoplural.com.br/o-diario-de-nohara-1/" target="_blank">aqui</a> a Parte 1.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>NAVIOS DO OCASO</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Aug 2011 11:05:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[
A náiade de uma tarde
colhendo agulhas e tempestades,
curvada como os anos curvarão
a lembrança do sabor de sal
da intimidade do banho.
A náiade nada sabe dos navios do ocaso,
enquanto espalha uma beleza tão grave
que é como se acabasse
de chegar da Idade de antes
dos desastres,
quando sorriam os deuses
para homens sem maldade.
Eu, que a vejo,
e que prendo a respiração [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/After-the-bath-large.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-34031" title="After the bath large" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/08/After-the-bath-large.jpg" alt="" width="211" height="429" /></a></p>
<p>A náiade de uma tarde<br />
colhendo agulhas e tempestades,<br />
curvada como os anos curvarão<br />
a lembrança do sabor de sal<br />
da intimidade do banho.</p>
<p>A náiade nada sabe dos navios do ocaso,<br />
enquanto espalha uma beleza tão grave<br />
que é como se acabasse<br />
de chegar da Idade de antes<br />
dos desastres,<br />
quando sorriam os deuses<br />
para homens sem maldade.</p>
<p>Eu, que a vejo,<br />
e que prendo a respiração desde<br />
os dois dedos do seu pé molhado<br />
(ligeiramente levantados),<br />
sei que vou morrer<br />
por conta do fim da tempestade,<br />
do começo dos desastres<br />
e também por culpa<br />
dessa visão de uma tarde<br />
por sobre a fumaça<br />
de um mar de esmeralda.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Grande escritor pensador universal intergaláctico na FLIPORTO</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/grande-escritor-pensador-universal-intergalactico-na-fliporto/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/grande-escritor-pensador-universal-intergalactico-na-fliporto/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 18:26:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Deepak Chopra]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=32109</guid>
		<description><![CDATA[
&#8220;Deepak Chopra na Fliporto 2011! &#8220;MAIS de 25 livros escritos!&#8221;
&#8220;MAIS de 10 milhões de livros vendidos!&#8221;&#8230;
Acabo de receber isso, por e-mail.
Deepak Chopra? Aquele?
É.
E essa &#8220;Fliporto&#8221; não é uma feira, um festival [sei lá!...] de LITERATURA?
Sim, mas&#8230; Agora, as coisas são assim. Mudaram [as coisas mudam!].
É&#8230; Pensando bem, talvez faça todo sentido: &#8220;Mais de 25 livros&#8230; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/deepak-chopra.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-32111" title="deepak-chopra" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/deepak-chopra-340x212.jpg" alt="" width="340" height="212" /></a></p>
<p>&#8220;Deepak Chopra na Fliporto 2011! &#8220;MAIS de 25 livros escritos!&#8221;<br />
&#8220;MAIS de 10 milhões de livros vendidos!&#8221;&#8230;<br />
Acabo de receber isso, por e-mail.<br />
Deepak Chopra? Aquele?<br />
É.<br />
E essa &#8220;Fliporto&#8221; não é uma feira, um festival [sei lá!...] de LITERATURA?<br />
Sim, mas&#8230; Agora, as coisas são assim. Mudaram [as coisas mudam!].<br />
É&#8230; Pensando bem, talvez faça todo sentido: &#8220;Mais de 25 livros&#8230; Mais de 10 milhões&#8221;&#8230;<br />
Deepak $$$$$$$$$ Choprinha, então! E o grande &#8220;escritor&#8221;<br />
especialmente convidado etc, trará para a Flip pernambucana seus biscoitos de sabedoria para degustação na festa de &#8220;Literatura&#8221; (?). Um exemplo:</p>
<p>&#8220;Seja qual for o relacionamento que você atraiu para dentro de sua vida, numa determinada época, ele foi aquilo de que você precisava naquele momento&#8221;.</p>
<p>Se pensam que estou de brincadeira, confiram ESSA entre as muitas &#8220;pérolas&#8221; de Chopra chopradas aqui: <a href="http://pensador.uol.com.br/autor/deepak_chopra/biografia/" target="_blank">http://pensador.uol.com.br/autor/deepak_chopra/biografia/</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>O Adeus ao Último dos Renascentistas</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-adeus-ao-ultimo-dos-renascentistas/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/o-adeus-ao-ultimo-dos-renascentistas/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 00:39:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Ernesto Sábato]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=31819</guid>
		<description><![CDATA[
Sabato entregando a Raul Alfonsín o célebre Relatório final sobre os Desaparecidos
Ernesto Sabato quase chega aos 100 anos. Glória da literatura argentina, o décimo dos 11 filhos varões de um casal oriundo da Calábria (com sangue albanês misturado nas veias de emigrantes), ele veio ao mundo em Rojas, província de Buenos Aires, no dia 24 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/sabato-1.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-31821" title="sabato 1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/sabato-1-520x377.jpg" alt="" width="465" height="337" /></a></p>
<blockquote><p>Sabato entregando a Raul Alfonsín o célebre Relatório final sobre os Desaparecidos</p></blockquote>
<p>Ernesto Sabato quase chega aos 100 anos. Glória da literatura argentina, o décimo dos 11 filhos varões de um casal oriundo da Calábria (com sangue albanês misturado nas veias de emigrantes), ele veio ao mundo em Rojas, província de Buenos Aires, no dia 24 de junho de 1911.</p>
<p>O lugar passou a constar do mapa literário internacional, como cenário da infância do escritor e pintor da perplexidade em face das dores humanas e do inconformismo perante as injustiças que agravam o “desconforto de existir”, o tema central da sua obra.</p>
<p><span id="more-31819"></span>A trajetória do artista e do homem se confunde, em Sabato, com a história – politicamente conturbada – da Argentina ainda buscando a si mesma, entre golpes e crises que parecem fazer parte de algum tango com passos de dança forçados por populistas e generais de opereta. No campo artístico (considerando-se a literatura e o cinema, por exemplo), o país é pródigo de altos talentos: Borges, Torre Nilsson, Sabato. Para muitos, este é um escritor mais vital do que Jorge Luis Borges ao menos para se compreender o que los hermanos viveram desde o “justicialismo” de Perón até a corte de militares que lhes impuseram uma das mais cruéis ditaduras da América Latina.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Borges_y_Sabato_-_1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-31823" title="Borges_y_Sabato_-_1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Borges_y_Sabato_-_1-213x300.jpg" alt="" width="213" height="300" /></a>Nesse sentido, podemos dizer que o escritor foi uma consciência sobrevivente de si própria e das circunstâncias. Mais do que nunca solitário após a morte da mulher – Matilde, falecida em 1998 – depois de ter perdido o filho mais velho, Jorge, em acidente de carro três anos antes, Sabato viu aumentarem as sombras em torno dos seus fantasmas, na mesmíssima casa de Santos Lugares apontada como a residência de uma espécie de herói. Explica-se: Sabato foi o presidente da já legendária Comissão Nacional sobre Pessoas Desaparecidas – Conadep – criada por decreto do presidente Raúl Alfonsín, no dia 15 de dezembro de 1983. E o “herói” da denúncia dos militares que sequestraram e mataram adultos e até crianças, é também o autor de pelo menos duas obras-primas indiscutíveis: O túnel (1948) e Sobre heróis e tumbas (1961).<br />
Seja logo dito: quem “ama” Borges, tem menos empatia com a arte do comunista anti-stalinista (de primeira hora) que é este escritor bem distante das fantasias borgeanas imersas no universo de bibliotecas reais e imaginárias.</p>
<p>“Comunista”? Sim, ninguém foi mais comunista, na juventude, do que o ancião que se declarou “anarco-cristão”, com a plena consciência do que lhe custa ser uma consciência alheia às ideologias de rebanho: “O pessoal de direita me atacava como a um esquerdista e a turma da esquerda me chamava de servo do imperialismo. Eu sou o que sou e deixo bem claro como me sentia: nem comunista de salão nem complacente com o stalinismo e o que ele representava.”</p>
<p>AS SOLIDÕES</p>
<p>Homem que sempre se sentiu metafisicamente só, Sabato escreveu ficções e ensaios de acordo com essa arraigada noção de que nascemos e morremos sozinhos com o nosso destino (möira) imerso em mistério, no sentido mais antigo da velha palavra.</p>
<p>Quando era um promissor cientista com doutorado em Física pela Universidade de la Plata, o inquieto Sabato abandonou a ciência para se refugiar em Pantanillo, nas serras de Córdoba. Recém-casado com a Matilde, “mulher forte como as mulheres fortes da Bíblia”, ele abandonava o altiplano científico – para espanto de todos os seus colegas de pesquisas – a fim de se dedicar exclusivamente à literatura.</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Ernesto_Sabato.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-31824" title="Ernesto_Sabato" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Ernesto_Sabato-340x246.jpg" alt="" width="222" height="160" /></a>“Literatura?” O doutor Enrique Gaviola, físico notável (com quem Ernesto trabalhava no Planetário platense), foi um dos mais inconformados com a súbita decisão do seu brilhante assistente. Anos mais tarde, depois da leitura de Sobre heróis e tumbas, Gaviola reconhecerá que a ciência perdeu um talento, porém as letras ganharam um gênio cuja estreia se assinalara já com romance de primeira grandeza: O túnel.</p>
<p>Em Heteredoxia, o autor fala sobre ele: “Enquanto eu escrevia esse romance, arrastado por sentimentos confusos e impulsos inconscientes, muitas vezes me detinha, perplexo, para avaliar o que estava saindo, tão diferente do que havia previsto. E, sobretudo, me intrigava a importância crescente que iam assumindo o ciúme e o problema da posse física. Minha ideia inicial era escrever um conto, o relato de um pintor que enlouquecia ao não conseguir comunicar-se com ninguém, nem mesmo com a mulher que parecia tê-lo entendido por intermédio de sua pintura. Ao acompanhar o personagem, porém, constatei que ele se distanciava consideravelmente desse tema metafísico para ‘descer’ a problemas quase triviais de sexo, ciúmes e crimes. [...] Mais tarde compreendi a origem do fenômeno. É que os seres de carne e osso não podem jamais representar as angústias metafísicas sob o estado de ideias puras: fazem-no sempre encarnando essas ideias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões. Os seres carnais são essencialmente misteriosos e se movem em impulsos imprevisíveis, mesmo para o próprio escritor que serve de intermediário entre esse estranho mundo da ficção, irreal mas verdadeiro, e o leitor, que acompanha seus dramas. As ideias metafísicas se transformam, assim, em problemas psicológicos, a solidão metafísica passa a ser o isolamento de um homem concreto numa cidade concreta, o desespero metafísico se transforma em ciúme, e a história que parecia destinada a ilustrar um problema metafísico se transforma em romance de paixão e ciúme. Castel procura apoderar-se da realidade-mulher por intermédio do sexo. Mas esse é um empenho tão vão!”&#8230;</p>
<p>Castel é o pintor cujo “eu” enclausurado assume a nervosa voz narrativa de O túnel, fazendo ecoar as interpolações que vão desenhando o interior do personagem e o entorno magnificamente compostos das mesmas tumultuosas impressões que dão ao livro a carnadura viva de um túnel de sangue, de uma veia aberta para misturar plasma e literatura, material algo biográfico e invenção em grau superlativo. Desde as primeiras linhas, o leitor se sente atraído para um tipo de “confissão” direta e sem truques: “Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne; suponho que o processo está na lembrança de todos e que não serão necessárias maiores explicações&#8230;”</p>
<p>Neste momento em que se ensinam tantas tolices – principalmente nas “oficinas” de criação literária que começam por duvidar da eficácia do narrador na primeira pessoa –, Ernesto Sabato dá sua lição de romancista-mestre: “Adotei a narrativa na primeira pessoa em O Túnel, depois de muitas tentativas, porque era a única técnica que me permitia passar a sensação da realidade externa tal como a vemos cotidianamente, a partir de um coração e de uma cabeça, a partir de uma subjetividade total&#8230;” (É preciso dizer mais?).</p>
<p>Autor que se examina com a lente do cientista, o romancista argentino seguiria no caminho do aprimoramento da sua arte durante os anos de elaboração do épico Sobre heróis e tumbas, narrativa construída sobre três planos que se interpenetram e logram transmitir tanto os “impasses” tipicamente sabatonianos quanto o substrato do passado de uma nação que se plasmou a partir do zero do pampa, com a ajuda – fundamental – dos emigrantes cuja melancolia, para Sabato, estaria na raiz do tango (“coisa de italianos”, para o Borges que sempre preferiu a milonga):</p>
<p>“Aqui, nós não tivemos civilizações indígenas, como no Peru e no México. A Argentina foi levantada sobre o pampa, essa metáfora do nada. Olhem para Buenos Aires: ela atraiu milhões de emigrantes, em poucas décadas. A cidade passou dos 200 mil habitantes do fim do século 19 para se tornar este monstro contemporâneo. Ninguém pode viver sem pátria, sem terra a que fixar-se e a que amar. Os que vieram para cá buscavam algo sólido a que se agarrarem, ou seja, necessitavam de uma pátria com urgência. E naquele crepúsculo da passagem do novecento, chegaram a estas praias de lama multidões de gentes corroídas pela miséria das aldeias italianas, espanholas, polacas, russas, alemães, libanesas&#8230; Eles vinham alentados pela esperança. A maior parte encontrou outro gênero de pobreza, agravada pela solidão. Haviam deixado mães, noivas, irmãos. Como não teria que nascer, de toda essa melancolia, a dramaticidade do tango?”</p>
<p>CIDADÃO</p>
<p>Este escritor foi também um cidadão que jamais renunciou a se posicionar politicamente – numa quase vida paralela à do artista consagrado. Tal exercício vigilante dos deveres cívicos ele se impôs muito cedo, ou seja, desde a “descoberta” dos males sociais, quando ainda era um ginasiano. Na ideologia, Sabato encontrou o bálsamo para as dores precoces do ser consciente, como típico rapaz, imensamente sério, de uma época na qual ainda ecoavam os nomes dourados da Verdade e da Justiça como Beleza (para lembrar os versos da juventude madura de John Keats), e vice-versa.</p>
<p>Deixemos que mais uma vez fale o próprio protagonista de um tempo diferente deste atual, no qual “é difícil ser Homem” (tomando-se essa investidura também como o compromisso com o Outro):</p>
<p>“Na escola secundária, me vi diante de uma encruzilhada, de ordem social, já não pessoal, ao tomar súbita consciência da injustiça que rege nossa sociedade. Refiro-me a um lapso de cinco anos, entre 1924 e 1929. Para mim foi como dar entrada num recinto e maravilhoso; nós nos sentíamos como eleitos, falávamos com entusiasmo durante horas e líamos folhetos que transmitiam a boa nova; participávamos de manifestações de rua a favor de Sandino, de Sacco e Vanzetti, e em geral terminávamos correndo da polícia em nosso encalço.”</p>
<p>O jovem Ernesto chegou a ser secretário da Federação Juvenil Comunista, e foi preciso ir a Paris, viajando na clandestinidade, para ver ruir a sua primeira confiança na ideologia, ao tomar conhecimento dos crimes stalinistas ignorados pela orientação do partido. O passo seguinte do militante foi endossar o clamor de denúncia desses crimes que a fidelidade canina a Moscou evitava enxergar. Divulgá-los era, já, “traição” – aos olhos do segmento estudantil do PC cuja ortodoxia, de imediato, fez cobrar a Sabato o preço pago pelo exercício da liberdade de pensamento.</p>
<p>Mais tarde, outros lhe cobrarão da mesma maneira, na Era Perón: como professor de escola pública, será demitido por haver assinado documento de repúdio à violência policial contra estudantes dispostos a comemorar a vitória das Forças Aliadas sobre o nazi-fascismo. E as contradições não pararão aí. Quando cai o regime de Juan Domingo e Sabato fica sabendo que muitos peronistas (das antigas hostes inimigas) estão sendo torturados em nome do movimento “libertador” etc, o escritor sem medo assume o ônus de condenar a prática da violência contra os ex-violentos. Será preciso dizer mais sobre as imposições da consciência a este “homem que luta só”?</p>
<p>O poeta e jornalista Franco Mogni – um dos jovens escritores dos quais Sabato jamais se apartou, ao longo do tempo – lhe fez justiça, nesta apresentação de entrevista para a revista Che, nos anos de 1970:</p>
<p>“Está sentado num dos últimos cafés de ar verdadeiramente portenho, com uma camisa azul escura que reforça o seu ar de monge e de anarquista ao mesmo tempo. Ernesto Sabato é o último dos moicanos da retidão que não nega encarar os dilemas. Ele os vê com os olhos ziguezagueantes atrás dos óculos grossos, num rosto que mescla traços de Chestov e Kierkegaard. E nos diz: ‘Se o homem é mortal em qualquer parte do mundo, aqui é muito mais mortal’. Quanto termina as frases – às quais não falta uma ponta de ironia –, tira os óculos e sorri meio de lado, acentuando as linhas do rosto sofrido. Vê-se, então, que é um homem só. O último dos moicanos.”</p>
<p>Perto dos 100 anos e da morte – e certamente mais solitário do que nunca – esse último dos moicanos descendente de calabreses (e albaneses irredutíveis), chegou a uma idade bem longeva para um quase suicida. Já havia posto o ponto final num livro de memórias intitulado Antes do fim (já traduzido no Brasil). Em mais de uma oportunidade, o homem que lutou contra si mesmo pensou em acabar com a vida ameaçada pela dúvida, pela precariedade financeira e pela angústia sem nome que clama contra Deus – e o resto. Dessas lutas, ele saiu na verdade vitorioso, como o último dos renascentistas, no seu périplo amplo desde o terreno das ciências exatas (em que contribuiu com pesquisas sobre a física quântica e a Relatividade) até o território movediço das artes, como humanista, pintor de talento e escritor mundialmente reconhecido.</p>
<p>Nos últimos 15 anos, os pincéis substituíram a caneta na mão do autor de Notícia sobre cegos. Não apareceu mais nenhum inédito do autor de Abaddón, o Exterminador, e, desde 2005, os vizinhos não mais avistaram o viúvo que avisou não poder sobreviver à morte de sua Matilde (“devo tudo à minha esposa; ela sempre foi a minha primeira leitora e meu melhor editor”). Seja como for, agora Sabato agora pertence ao mais seleto lugar da literatura: aquele que garante a imortalidade artística como luz no fundo do túnel.</p>
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		<title>Morte pela merda</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jun 2011 14:50:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Guimarães Rosa]]></category>

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Um pequeno ajuste nas suas informações, caro Marcos Silva: não tenho bem certeza se poderá ser dito, rigorosamente, que Guimarães Rosa &#8220;esteve&#8221; na Academia Brasileira de Letras, pelo menos no sentido de frequentá-la &#8211; como um Nelson Pereira dos Santos a frequenta (suponho eu, pelas fotos que vejo), e, sem dúvida, um Lêdo-e-Ivo engano o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/guimarães-rosa.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-31811" title="guimarães rosa" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/guimarães-rosa-520x286.jpg" alt="" width="520" height="286" /></a></p>
<p>Um pequeno ajuste nas suas informações, caro Marcos Silva: não tenho bem certeza se poderá ser dito, rigorosamente, que Guimarães Rosa &#8220;esteve&#8221; na Academia Brasileira de Letras, pelo menos no sentido de frequentá-la &#8211; como um Nelson Pereira dos Santos a frequenta (suponho eu, pelas fotos que vejo), e, sem dúvida, um Lêdo-e-Ivo engano o faz, quase todos os dias, e, sem nenhuma falta, nas quntas-feiras mornas das empadas e dos bolinhos de aipim etc.</p>
<p>Isso porque o autor de &#8220;Grande Sertão: veredas&#8221; infelizmente faleceu apenas alguns dias depois de pronunciar o discurso, na noite &#8220;fardônica&#8221; da sua posse. Consta que o mal súbito &#8211; e fatal &#8211; do Rosa teria tido origem direta na emoção nele causada por estar entrando na ABL, versão que até hoje eu reluto acatar, apesar de ser uma opinião médica e também dos familiares então mais próximos do escritor mineiro.<br />
[UM GUIMARÃES ROSA!, "emocionado" até a morte, por estar tomando posse naquela merda?...]</p>
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		<title>Assim TAMBÉM falou o poeta Auden</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 00:27:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Auden]]></category>

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A pedidos (verdade!), eu fui cascavilhar em mais anotações deixadas por W. H. Auden, o poeta inglês (1907-1973) situado entre os mais importantes e influentes do século 20, cujas observações são de extrema agudeza e pertinência, neste momento e, principalmente, neste &#8220;Pindorama&#8221; não apenas do segmento literário que é um cantinho obscuro de rutilantes vaidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/auden-2.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-31714" title="auden 2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/06/auden-2-221x300.jpg" alt="" width="221" height="300" /></a></p>
<p>A pedidos (verdade!), eu fui cascavilhar em mais anotações deixadas por W. H. Auden, o poeta inglês (1907-1973) situado entre os mais importantes e influentes do século 20, cujas observações são de extrema agudeza e pertinência, neste momento e, principalmente, neste &#8220;Pindorama&#8221; não apenas do segmento literário que é um cantinho obscuro de rutilantes vaidades &amp; solenes enganos, no vasto mar de tudo o que acontece (e nos espanta, às vezes).</p>
<p>Façamos mais uma rodada de &#8220;Auderianas&#8221;, infelizmente nos despedindo da sabedoria do grande poeta espalhada aqui no &#8220;Substantivo Plural&#8221; e no FACEBOOK:</p>
<p>&#8220;Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, no sentido de que o pior vinho do Porto é preferível à água destilada.&#8221;</p>
<p>Nota: São os nulos, os vazios, os sem-alma que viciam e estragam a literatura. Auden certamente defenderia Marcelo Mirisola – que não é exatamente “vulgar” (e que nunca irão eleger para a Academia Brasileira de Letras) – contra quem? Por exemplo, contra o honorável membro da ABL que atende pelo nome de Paulo Coelho, o qual não é vulgar (conforme muitos pensam), mas é simplesmente nulo, como escritor, em português ou em qualquer língua na qual ainda reste por aparecer a sua “obra” de nulidade literária recebida – todas as tardes das quintas-feiras, a partir das quinze horas – no vetusto edifício da nossa Academia, no centro do Rio de Janeiro. Ali, Paul Rabitt pasta, no chá morno do Trianon, ao lado dos velhinhos e dos nem-tão-velhinhos que o elegeram – como também um dia elevaram à honra acadêmica o “caudilho” Getúlio Vargas, o general Aurélio de Lyra Tavares (vulgo “Adelita”), o senador e ex-vice-Presidente Marco Maciel e outros também notáveis escritores brasileiros&#8230;</p>
<p><span id="more-31711"></span>&#8220;Se eu tentasse escrever o nome de todos os poetas e novelistas cujas obras são merecedoras do meu mais grato afeto e admiração, por terem enriquecido minhas horas de leitura e (através delas) a minha vida, a lista ocuparia várias páginas. Mas quando tento pensar nos críticos com os quais estou realmente em dívida, anoto parcimoniosamente trinta e quatro nomes. Destes, doze são alemães e apenas dois franceses.</p>
<p>Nota: [...]</p>
<p>&#8220;Uma das razões que fazem os bons críticos mais raros do que os bons novelistas ou poetas, é a natureza do egoísmo humano. O poeta ou o novelista deve aprender a ser humilde diante de seu tema, que é a vida em geral. Mas o tema do crítico, aquele diante do qual deve aprender a ser humilde, compõe-se de autores, isto é, de indivíduos humanos, e este tipo de humildade é muito menos freqüente&#8230;&#8221;</p>
<p>Nota: [!]</p>
<p>&#8220;Há pessoas inteligentes demais para tornarem-se autores, mas que nunca chegam a serem críticos.&#8221;</p>
<p>Nota: Também tenho uma lista enorme de obras de poetas e novelistas aos quais agradeço pelo mesmo enriquecimento mencionado por Auden (com a diferença de que enriquecer o grande espírito de W. H. Auden é uma honra bem diversa daquela de ter “enriquecido” a cachola de Fernando Monteiro). E este senhor não tem trinta e quatro nomes de críticos perante os quais se sinta em dívida etc. Aliás, não tem nem vinte. Pensado bem, nem dez. Coçando o seu cocuruto já ralo de cabelos, ele constata que está em dívida&#8230; para com nem uma mão completa de cinco críticos brasileiros. Na verdade, só reconhece dívida intelectual para com um.</p>
<p>&#8220;Para manter os erros reduzidos ao mínimo, o Censor interior ao qual o poeta deve apresentar sua obra deveria ser, na realidade, um Censorato formado por: um filho único sensível, uma governanta, um lógico, um monge, um bufão irreverente e, talvez, odiado por todos, e – correspondendo a esse ódio – um órfico e estúpido sargento de manobras para quem toda poesia é um desperdício.&#8221;</p>
<p>Nota: Aqui, o único momento no qual ouso fazer um pequeno reparo a Auden: “meu velho poeta, sargentos órficos e estúpidos podem chegar ao generalato e até obterem votos na Academia de Paulo Coelho. Em Pindorama, foi o que aconteceu com Adelita”&#8230;</p>
<p>&#8220;Em literatura, como na vida, a afetação – assumida com paixão e honestamente conservada – é uma das formas de autodisciplina que serviram à humanidade para elevar-se, levantando-se por suas próprias orelhas.&#8221;</p>
<p>Nota: Como não concordar?</p>
<p>&#8220;Um estilo maneirista como o de Góngora ou de Henry James, é como uma roupa excêntrica: poucos são os escritores que conseguem se sair honradamente da prova, mas a exceção nos fascina.&#8221;</p>
<p>Nota: Estou preocupado. Acaba de estacionar na minha rua um carro suspeito, com um sujeito forte, com cara de sargento, acolitado por um baixinho, com cara de acadêmico. Sei lá! Por vias das dúvidas, cala-te boca!&#8230;</p>
<p>&#8220;Sem dúvida, a sinceridade – em seu correto significado de autenticidade – é, ou deveria ser, a principal preocupação de um escritor. Não há escritor que possa julgar a qualidade exata de uma obra, mas o que sempre pode fazer (senão de imediato, ao menos mais tarde) é ver se o que escreveu é realmente autêntico ou uma falsificação.&#8221;</p>
<p>Nota: E a preocupação com os sargentos e os acadêmicos? Aqui, Auden, já tivemos até um General (já disse) entronizado na Academia Brasileira de Letras&#8230;</p>
<p>&#8220;A experiência mais dolorosa que pode viver um poeta é descobrir que uma das suas falsificações teve êxito junto ao público e entrou em todas as antologias.&#8221;</p>
<p>Nota: As antologias estão cheias de falsificações e&#8230; (Bem, o carro continua lá.)</p>
<p>&#8220;Muitos autores confundem a autenticidade que devem buscar sempre, com a originalidade que nunca deveria preocupá-los. Há pessoas tão dominadas pela necessidade de serem estimadas por sua individualidade, que vivem em permanente demonstração dela aos que os cercam, afetando uma conduta insuportável. O que tal pessoa diz ou faz deve ser admirado não por ser intrinsecamente admirável, mas porque se trata de seu comentário ou obra sua. Não explica isto, grande parte da arte dita de vanguarda?&#8221;</p>
<p>Nota: Explica, sim.</p>
<p>&#8220;Li uma frase de Karl Kraus que nunca mais saiu da minha cabeça: “Minha linguagem é a meretriz universal que tenho que converter em uma virgem. [...] Ora, a virtude e a miséria da poesia residem no fato de que seu meio  de expressão não é propriedade privada sua, e em que um poeta não pode inventar suas palavras, nem as palavras do poeta são produtos naturais, mas sociais, e utilizados para executar mil funções diferentes. Nas sociedades modernas, onde a linguagem se vê incessantemente corrompida e privada de seu significado, o poeta corre o risco de inutilizar o ouvido – perigo do qual a propriedade privada de seus meios de expressão isenta o músico e o pintor. Sem dúvida, o poeta está mais protegido do que eles de um outro perigo moderno: o da subjetividade solipsista; não importa quanto esotérico possa ser um poema, o fato de que suas palavras possam ser consultadas num dicionário, converte-o em testemunha da existência de outras pessoas. Inclusive Joyce, não criou ex nihilo a linguagem de Finnegans Wake; um mundo verbal puramente privado não é possível.&#8221;</p>
<p>Nota: Pensem nisso hoje, amanhã e depois de amanhã. Na próxima semana e no próximo mês, pensem também. E levem este resto de 2011 pensando nisso, até chegar 2012, e não conseguir apagar esse pensamento de Auden no qual ficamos pensando durante tanto tempo&#8230;</p>
<p>&#8220;A definição de Robert Frost sobre poesia (&#8216;o elemento intraduzível da linguagem&#8217;) parece plausível à primeira vista, porém olhada atentamente, não funciona. Em primeiro lugar, até a poesia mais pessoal tem alguns elementos traduzíveis. Os sons das palavras, suas relações rítmicas e todos os significados e associações de significados que dependem do aspecto sonoro (como as rimas e os jogos de palavras), são, sem dúvida, intraduzíveis; mas o que diferencia a música da poesia, é que esta última não é som puro. Todos os elementos poéticos que não estão baseados na experiência verbal, são, até certo ponto, traduzíveis para outra língua; penso nas imagens, nas analogias e metáforas que derivam da experiência sensorial. Além disto,<br />
uma característica de todos os homens, qualquer que seja sua cultura, é a sua individualidade; a visão de mundo que um autor possui, sobrevive à tradução.&#8221;</p>
<p>Nota: Eu gostaria de, por volta de 1956, ter vivido na Inglaterra, de preferência jovem ainda, com vinte e poucos anos; teria tentado uma vaga como aluno de Poética de W. H. Auden, e – milagre! – teria sido aceito, numa tarde de maio, em Oxford. Quem sabe, isso teria mudado a minha vida? Agora, é tarde.</p>
<p>&#8220;A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar e desintoxicar.&#8221;</p>
<p>Nota: Poetas jovens! Ouçam isso, salvem-se – e salvem a poesia que vocês ainda podem escrever não apenas para ter chances de conquistar mesmo o maior dos prêmios (em dotação monetária). Escrevam para dilatar as consciências, e não para ajudar a adormecê-las sobre travesseiros de penas de ganso. Não levem em consideração as &#8220;recomendações&#8221; em contrário de Lucianas Villas Boas e outras más.</p>
<p>&#8220;A expressão &#8216;os anônimos legisladores do mundo&#8217; serve para descrever a polícia secreta, não os poetas.&#8221;</p>
<p>Nota: Por sinal, o carro suspeito – como o sargentão e o academicão disfarçados – já foram embora. Parece que ficaram com medo não de mim, mas das verdades de Auden, que finaliza com o melhor deste acréscimo ao primeiro &#8220;Assim falou o poeta Auden&#8221;:</p>
<p>&#8220;Só um talento menor pode ser um perfeito cavalheiro. Um talento maior sempre é um pouco mais que malcriado. Daí, a importância dos escritores menores: são mestres de bons modos&#8230;&#8221;</p>
<p>Nota: Sem comentário. Fim.</p>
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		<title>NOSSO PENDOR (Our Bias)</title>
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		<pubDate>Fri, 20 May 2011 01:36:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[POEMA DE AUDEN &#8211; via CHICO GUEDES
Nota: Este poema de W. H. Auden &#8212; em tradução de J. P. Paes &#8212; foi pinçado pelo erudito e atento Chico Guedes (nosso melhor especialista magiar, junto com o Nelson Ascher), em homenagem ao grande poeta anglo-americano. Nosso pendor é um poema de 1939, da &#8220;primeira safra americana [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>POEMA DE AUDEN &#8211; via CHICO GUEDES</p>
<p>Nota: Este poema de W. H. Auden &#8212; em tradução de J. P. Paes &#8212; foi pinçado pelo erudito e atento Chico Guedes (nosso melhor especialista magiar, junto com o Nelson Ascher), em homenagem ao grande poeta anglo-americano. Nosso pendor é um poema de 1939, da &#8220;primeira safra americana de Auden&#8221;, explica Guedes. [FM]</p>
<p><strong>NOSSO PENDOR (Our Bias)</strong></p>
<p>A ampulheta sussurra ao rugido do leão.<br />
Diz o relógio da torre ao jardim ali perto,<br />
Que, sendo o Tempo paciente com os erros, quão<br />
Errados ele estão de estarem sempre certos.</p>
<p>O Tempo, no entanto, quer badale grave ou alto,<br />
Por veloz que se despenque em torrente raivosa,<br />
Nunca de leão algum logrou deter o salto<br />
Nem abalar jamais a firmeza de uma rosa.</p>
<p>Para ambos, só o sucesso importa, pelo jeito:<br />
Enquanto escolhemos as palavras pelo som<br />
E julgamos um problema pelo seu desajeito.</p>
<p>O tempo sempre nos traz divertimento, e bom:<br />
Quem não prefere dar umas voltas, fazer hora,<br />
Em vez de vir direto para onde está agora</p>
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		<title>Assim falou o poeta Auden</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 19:44:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Auden]]></category>

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		<description><![CDATA[{DO EDITOR: REPUBLICADO COM CORREÇÕES}

Ele foi um dos mais importantes e influentes poetas do século 20, na opinião unânine da crítica e no acolhimento por parte dos leitores de poesia (que já foram muitos).
Wystan Hugh Auden nasceu em 1907, em York, e foi aluno em Oxford, universidade na qual se tornou a principal figura daquele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>{DO EDITOR: REPUBLICADO COM CORREÇÕES}</p>
<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/auden-225x3001.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-31241" title="auden-225x300" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/auden-225x3001.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a></p>
<blockquote><p>Ele foi um dos mais importantes e influentes poetas do século 20, na opinião unânine da crítica e no acolhimento por parte dos leitores de poesia (que já foram muitos).</p></blockquote>
<p>Wystan Hugh Auden nasceu em 1907, em York, e foi aluno em Oxford, universidade na qual se tornou a principal figura daquele grupo de poetas – todos jovens e idealistas – que professavam pungente fé no pensamento marxista, nos anos de 1930. E se é para recordar uma generosa cabeça pensando no que fazer – mais do que encher páginas e páginas de versos comovidos pela situação dos humilhados e ofendidos, e contra a opressão das classes abastadas apoiadas pelos poderes sem poesia –, andemos sete anos, desde 30, e procuremos, nas ambulâncias republicanas conduzindo corpos despedaçados na dramática Guerra Civil espanhola, um jovem inglês de vasta cabeleira, arriscando a vida por entre tiros e bombas (e amando rapazes que iriam morrer, talvez, no dia seguinte). É ele, Auden.</p>
<p><span id="more-31239"></span>Wystan escreveu, naquela época, o poema “Spain” – e ficou famoso quase da noite para o dia, na medida em que um poeta podia ficar mais famoso, naquela época, do que alguma Bruna Surfistinha destes dias que correm (e como correm!)…</p>
<p>Voltemos ao poema Spain: “é uma das grandes afirmações poéticas em favor de uma visão esquerdista e liberal”, na opinião de Jorge de Sena (esse esquecido poeta e agitador cultural, em Portugal – sem rima e sem as homenagens devidas não só lá, na sua terrinha).</p>
<p>Em 1938, ele se estabeleceu nos Estados Unidos. Ali, os rapazes pareciam menos “incucados” do que na velha e querida Inglaterra, entre outros motivos. Foi mais longe, o inglês Hugh: solicitou a cidadania americana, e viria até a marchar, do seu agnosticismo de estudante, para o anglo-catolicismo que professaria pelo resto da vida. Em 1956, foi feito professor de “Poética”, em Oxford, sem abandonar o seu apartamento de Nova York. Já pensou? Ser aluno de “Poética”, de Auden!, entre as velhíssimas paredes de Oxford?</p>
<p>Antes de morrer, ele voltaria – de vez – para a Inglaterra. De lá, viajava para ler seus poemas e fazer conferências, até morrer, em 1973, num hotel de Viena.</p>
<p>Aqui, algumas coisas ditas por esse poeta enorme e ser homem íntegro, sincero e corajoso. Auden deveria ser escutado, ouvido e re-ouvido, nas suas lições de inteligência, sutileza e penetração nas coisas. Tento ajudar nisso, nesta hora agônica de tanta confusão de valores e até mesmo loucura (que passa por sanidade), pinçando algumas das suas anotações mais sábias:</p>
<p>“O escritor, ou ao menos o poeta, vive constantemente enfrentando pessoas que lhe perguntam: ‘Para quem você escreve?’. Obviamente, trata-se de uma pergunta muito tola, para a qual posso dar ao menos uma resposta singular. De vez em quando sinto que um livro foi escrito especialmente para mim, só para mim. Como um amante zeloso, quero evitar que o mundo conheça sua existência. Sem dúvida o sonho de um autor é ter um milhão desse tipo de leitores, que o leiam com paixão e desconheçam a existência dos outros apaixonados.</p>
<p>Nota de FM: Isso aí precisaria ser meditada por todos que pensam que literatura pode se transformar numa coisa de massa, igual a qualquer evento do mundo pop/rock. Não é assim. Literatura é outra coisa.</p>
<p>“Atacar os maus livros não é só uma perda de tempo, mas também um perigo para o caráter. Se um livro me parece realmente ruim, o único interesse que posso ter para escrever sobre ele é a exibição de minha inteligência, minha capacidade e malícia. É impossível alguém descrever um livro ruim sem pavonear-se.”</p>
<p>Nota: Pensemos nessa lição segura e tranqüila, de um velho poeta sem pressa, à beira do rio veloz da vida.</p>
<p>“Entretanto, há um mal literário que nunca se deve deixar passar em silêncio, mas ser atacado continuamente, e esse é a corrupção da linguagem. Já que os escritores não podem inventar sua própria linguagem e dependem da que herdam, conclui-se que a corrupção desta implica tacitamente na daqueles.”</p>
<p>Nota: Porque tinha o espírito assim atento, é que Auden foi – realmente – grande.</p>
<p>“Sem dúvida, podemos censurar, nos críticos, o hábito de colar etiquetas e rótulos sobre a cabeça dos autores. No princípio, classificavam os autores como ‘Antigos’, isto é, gregos e latinos, e ‘Modernos’, quer dizer, pós-clássicos. Mais tarde, por épocas: Augustinianos, Vitorianos etc. Agora os classificam por décadas: escritores dos anos 30, dos 40 e por aí vai. Tudo indica que, logo, os autores serão rotulados por anos, como os automóveis.”</p>
<p>Nota: Kekekekekekeke.</p>
<p>“O oráculo profetizava e dava bons conselhos sobre o futuro, e nunca pretendeu dar um recital de poesia. Se os poemas fossem criados em transe e sem a participação consciente do poeta, a poesia seria uma operação tão tediosa que apenas uma sólida recompensa econômica e social animaria um homem a praticá-la.”</p>
<p>Nota: […]</p>
<p>“A Musa é uma jovem ardente que foge tanto dos seguidores vis como dos estúpidos. Aprecia o cavalheirismo e os bons modos, mas despreza os que demonstram não estar à sua altura e se diverte ditando-lhes necessidades e mentiras que eles, obedientemente, anotam como verdade inspirada…”</p>
<p>Nota: Verdadeiro. E inspirado.</p>
<p>“As opiniões críticas de um escritor devem sempre ser tomadas como um imenso grão de sal. Geralmente, são manifestações da polêmica que leva consigo mesmo sobre o que deve continuar fazendo e o que deve evitar.”</p>
<p>Nota: Velho Auden!, os que escrevem te saúdam: é isso mesmo.</p>
<p>“Os interesses do escritor e os dos seus leitores nunca coincidem, e, quando isso acontece, não é senão um feliz acidente.”</p>
<p>Nota: Fiquei pensando nisso. E Auden complementa:</p>
<p>“Ler é traduzir, pois não há duas pessoas que compartilhem as mesmas experiências. Um mau leitor é como um tradutor ruim: interpreta literalmente quando deveria parafrasear e parafraseia quando deveria interpretar literalmente. No aprendizado da literatura, a educação apurada é sem dúvida menos importante que o instinto. Grandes eruditos foram péssimos tradutores…”</p>
<p>Nota: Wystan, Wystan, fale mais sobre isso…</p>
<p>“Apesar de uma obra literária consentir várias leituras, o número destas é finito e pode ser ordenado hierarquicamente; claro que algumas leituras serão ‘mais certas’ do que outras. E algumas serão duvidosas, e algumas certamente falsas, enquanto outras – como a leitura de uma novela do fim para o começo – absurdas. É por isso que, para uma ilha deserta, alguém poderia escolher um dicionário em vez de uma perfeita obra-prima, pois a passividade do dicionário junto aos leitores o converte em temas de infinitas leituras.”</p>
<p>Nota: Sugestão de temas gerais para os Flips, Flops e Flups (e suas diversas “variações”): discutir os dicionários como “obras-primas” em potencial, virtuais e portáteis, em princípio (se não forem muito pesados), para se carregar, na sunga, rumo a qualquer praia, qualquer ilha, qualquer lugar longe o bastante da multidão de vozes que não parecem ter um pingo da sabedoria sensata – no melhor sentido – do poeta Wystan Hugh Auden.</p>
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		<title>Assim falou o poeta Auden</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 11:37:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Auden]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ele foi um dos mais importantes e influentes poetas do século 20, na opinião unânine da crítica e no acolhimento por parte dos leitores de poesia (que já foram muitos).
Wystan Hugh Auden nasceu em 1907, em York, e foi aluno em Oxford, universidade na qual se tornou a principal figura daquele grupo de poetas – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/auden.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-31218" title="auden" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/auden-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a></p>
<p>Ele foi um dos mais importantes e influentes poetas do século 20, na opinião unânine da crítica e no acolhimento por parte dos leitores de poesia (que já foram muitos).</p>
<p>Wystan Hugh Auden nasceu em 1907, em York, e foi aluno em Oxford, universidade na qual se tornou a principal figura daquele grupo de poetas – todos jovens e idealistas – que professavam pungente fé no pensamento marxista, nos anos de 1930. E se é para recordar uma generosa cabeça pensando no que fazer – mais do que encher páginas e páginas de versos comovidos pela situação dos humilhados e ofendidos, e contra a opressão das classes abastadas apoiadas pelos poderes sem poesia –, andemos sete anos, desde 30, e procuremos, nas ambulâncias republicanas conduzindo corpos despedaçados na dramática Guerra Civil espanhola, um jovem inglês de vasta cabeleira, arriscando a vida por entre tiros e bombas (e amando rapazes que iriam morrer, talvez, no dia seguinte). É ele, Auden.</p>
<p><span id="more-31212"></span>Wystan escreveu, naquela época, o poema &#8220;Spain&#8221; – e ficou famoso quase da noite para o dia, na medida em que um poeta podia ficar mais famoso, naquela época, do que alguma Bruna Surfistinha destes dias que correm (e como correm!)&#8230;</p>
<p>Voltemos ao poema Spain: “é uma das grandes afirmações poéticas em favor de uma visão esquerdista e liberal”, na opinião de Jorge de Sena (esse esquecido poeta e agitador cultural, em Portugal – sem rima e sem as homenagens devidas não só lá, na sua terrinha).</p>
<p>Em 1938, ele se estabeleceu nos Estados Unidos. Ali, os rapazes pareciam menos “incucados” do que na velha e querida Inglaterra, entre outros motivos. Foi mais longe, o inglês Hugh: solicitou a cidadania americana, e viria até a marchar, do seu agnosticismo de estudante, para o anglo-catolicismo que professaria pelo resto da vida. Em 1956, foi feito professor de &#8220;Poética&#8221;, em Oxford, sem abandonar o seu apartamento de Nova York. Já pensou? Ser aluno de &#8220;Poética&#8221;, de Auden!, entre as velhíssimas paredes de Oxford?</p>
<p>Antes de morrer, ele voltaria – de vez – para a Inglaterra. De lá, viajava para ler seus poemas e fazer conferências, até morrer, em 1973, num hotel de Viena.</p>
<p>Aqui, algumas coisas ditas por esse poeta enorme e ser homem íntegro, sincero e corajoso. Auden deveria ser escutado, ouvido e re-ouvido, nas suas lições de inteligência, sutileza e penetração nas coisas. Tento ajudar nisso, nesta hora agônica de tanta confusão de valores e até mesmo loucura (que passa por sanidade), pinçando algumas das suas anotações mais sábias:</p>
<p>&#8220;O escritor, ou ao menos o poeta, vive constantemente enfrentando pessoas que lhe perguntam: &#8216;Para quem você escreve?&#8217;. Obviamente, trata-se de uma pergunta muito tola, para a qual posso dar ao menos uma resposta singular. De vez em quando sinto que um livro foi escrito especialmente para mim, só para mim. Como um amante zeloso, quero evitar que o mundo conheça sua existência. Sem dúvida o sonho de um autor é ter um milhão desse tipo de leitores, que o leiam com paixão e desconheçam a existência dos outros apaixonados.</p>
<p>Nota de FM: Isso aí precisaria ser meditada por todos que pensam que literatura pode se transformar numa coisa de massa, igual a qualquer evento do mundo pop/rock. Não é assim. Literatura é outra coisa.</p>
<p>&#8220;Atacar os maus livros não é só uma perda de tempo, mas também um perigo para o caráter. Se um livro me parece realmente ruim, o único interesse que posso ter para escrever sobre ele é a exibição de minha inteligência, minha capacidade e malícia. É impossível alguém descrever um livro ruim sem pavonear-se.&#8221;</p>
<p>Nota: Pensemos nessa lição segura e tranqüila, de um velho poeta sem pressa, à beira do rio veloz da vida.</p>
<p>&#8220;Entretanto, há um mal literário que nunca se deve deixar passar em silêncio, mas ser atacado continuamente, e esse é a corrupção da linguagem. Já que os escritores não podem inventar sua própria linguagem e dependem da que herdam, conclui-se que a corrupção desta implica tacitamente na daqueles.&#8221;</p>
<p>Nota: Porque tinha o espírito assim atento, é que Auden foi – realmente – grande.</p>
<p>&#8220;Sem dúvida, podemos censurar, nos críticos, o hábito de colar etiquetas e rótulos sobre a cabeça dos autores. No princípio, classificavam os autores como &#8216;Antigos&#8217;, isto é, gregos e latinos, e &#8216;Modernos&#8217;, quer dizer, pós-clássicos. Mais tarde, por épocas: Augustinianos, Vitorianos etc. Agora os classificam por décadas: escritores dos anos 30, dos 40 e por aí vai. Tudo indica que, logo, os autores serão rotulados por anos, como os automóveis.&#8221;</p>
<p>Nota: Kekekekekekeke.</p>
<p>&#8220;O oráculo profetizava e dava bons conselhos sobre o futuro, e nunca pretendeu dar um recital de poesia. Se os poemas fossem criados em transe e sem a participação consciente do poeta, a poesia seria uma operação tão tediosa que apenas uma sólida recompensa econômica e social animaria um homem a praticá-la.&#8221;</p>
<p>Nota: &#8230;</p>
<p>&#8220;A Musa é uma jovem ardente que foge tanto dos seguidores vis como dos estúpidos. Aprecia o cavalheirismo e os bons modos, mas despreza os que demonstram não estar à sua altura e se diverte ditando-lhes necessidades e mentiras que eles, obedientemente, anotam como verdade inspirada&#8230;&#8221;</p>
<p>Nota: Verdadeiro. E inspirado.</p>
<p>&#8220;As opiniões críticas de um escritor devem sempre ser tomadas como um imenso grão de sal. Geralmente, são manifestações da polêmica que leva consigo mesmo sobre o que deve continuar fazendo e o que deve evitar.&#8221;</p>
<p>Nota: Velho Auden!, os que escrevem te saúdam: é isso mesmo.</p>
<p>&#8220;Os interesses do escritor e os dos seus leitores nunca coincidem, e, quando isso acontece, não é senão um feliz acidente.&#8221;</p>
<p>Nota: Fiquei pensando nisso. E Auden complementa:</p>
<p>&#8220;Ler é traduzir, pois não há duas pessoas que compartilhem as mesmas experiências. Um mau leitor é como um tradutor ruim: interpreta literalmente quando deveria parafrasear e parafraseia quando deveria interpretar literalmente. No aprendizado da literatura, a educação apurada é sem dúvida menos importante que o instinto. Grandes eruditos foram péssimos tradutores&#8230;&#8221;</p>
<p>Nota: Wystan, Wystan, fale mais sobre isso&#8230;</p>
<p>&#8220;Apesar de uma obra literária consentir várias leituras, o número destas é finito e pode ser ordenado hierarquicamente; claro que algumas leituras serão &#8216;mais certas&#8217; do que outras. E algumas serão duvidosas, e algumas certamente falsas, enquanto outras – como a leitura de uma novela do fim para o começo – absurdas. É por isso que, para uma ilha deserta, alguém poderia escolher um dicionário em vez de uma perfeita obra-prima, pois a passividade do dicionário junto aos leitores o converte em temas de infinitas leituras.&#8221;</p>
<p>Nota: Sugestão de temas gerais para os Flips, Flops e Flups (e suas diversas  &#8220;variações&#8221;): discutir os dicionários como “obras-primas” em potencial, virtuais e portáteis, em princípio (se não forem muito pesados), para se carregar, na sunga, rumo a qualquer praia, qualquer ilha, qualquer lugar longe o bastante da multidão de vozes que não parecem ter um pingo da sabedoria sensata – no melhor sentido – do poeta Wystan Hugh Auden.</p>
<p>Wystan Hugh Auden nasceu em 1907, em York, e foi aluno em Oxford, universidade na qual se tornou a principal figura daquele grupo de poetas – todos jovens e idealistas – que professavam pungente fé no pensamento marxista, nos anos de 1930. E se é para recordar uma generosa cabeça pensando no que fazer – mais do que encher páginas e páginas de versos comovidos pela situação dos humilhados e ofendidos, e contra a opressão das classes abastadas apoiadas pelos poderes sem poesia –, andemos sete anos, desde 30, e procuremos, nas ambulâncias republicanas conduzindo corpos despedaçados na dramática Guerra Civil espanhola, um jovem inglês de vasta cabeleira, arriscando a vida por entre tiros e bombas (e amando rapazes que iriam morrer, talvez, no dia seguinte). É ele, Auden.</p>
<p>Wystan escreveu, naquela época, o poema Spain – e ficou famoso quase da “noite para o dia”, na medida em que um poeta podia ficar mais famoso, naquela época, do que a Bruna Surfistinha, hoje (27 de setembro) brilhando na festa literária pernambucana chamada de Fliporto, realizada em Porto de Galinhas (terá sido um trocatrilho dos organizadores do sub-Flip? Se foi, a minha mais sincera solidariedade com a menina, diante da piada de mau gosto deles; se não foi, fica sem comentário)&#8230; ]</p>
<p>Voltemos ao poema Spain: “é uma das grandes afirmações poéticas em favor de uma visão esquerdista e liberal”, na opinião de Jorge de Sena (esse esquecido poeta e agitador cultural, em Portugal – sem rima e sem as homenagens devidas não só lá, na sua terrinha).</p>
<p>Pelo andar da carruagem, entre as surfistas e o Sena, vai demorar até que eu chegue ao fim desta mini-biografia que antecede (ela é apenas para isso) uma seleção de pensamentos de W. H. Auden, oportunos como as manobras dos que estão tentando “espetacularizar” a literatura (nos Flips e Flops, entre outros). Mas, Auden é sério, grande poeta e, por isso, merece ser ouvido, sempre.</p>
<p>Vamos lá. Em 1938, ele se estabeleceu nos Estados Unidos. Ali, os rapazes pareciam menos “incucados” do que na velha e querida Inglaterra, entre outros motivos. Foi mais longe, o inglês Hugh: solicitou a cidadania americana, e viria até a marchar, do seu agnosticismo de estudante etc, para o anglo-catolicismo que professaria pelo resto da vida.</p>
<p>Em 1956, foi feito professor de Poética, em Oxford, sem abandonar o seu apartamento de Nova York. Já pensou? Ser aluno de Poética, de Auden!, entre as velhíssimas paredes de Oxford?</p>
<p>Nota: Inveja retrospectiva, saudade do que não foi – nem poderia ter sido (nasci em 1949).</p>
<p>Antes de morrer, ele voltou – de vez – para a Inglaterra. De lá, viajava para ler seus poemas e fazer conferências, até morrer num hotel de Viena, em 1973, autor de uma obra que merecia o prêmio Nobel daqueles velhinhos da academia sueca (mais de um milhão de dólares) que, ano passado, premiaram um romancista turco medíocre. Quanto a brasileiros, até agora só houve um (o gaúcho Lúcio Graumann) escolhido para receber a láurea em Estocolmo. Infelizmente, Graumann veio a falecer, não de emoção (como João Guimarães Rosa, depois da posse na ABL, imaginem!), num hospital aqui do Recife, um mês antes de embarcar para a Suécia.</p>
<p>Isso não tem nada ver com W. H. Auden, é claro. E o que ele falou? Tanta coisa! Tanta coisa dita por um poeta enorme, um homem íntegro e um ser sincero e corajoso. Auden deveria ser escutado, ouvido e re-ouvido, nas suas lições de inteligência, sutileza e penetração nas coisas. Tento ajudar nisso, nesta hora agônica de tanta confusão de valores e até mesmo loucura (que passa por sanidade), pinçando o que ele disse, sábio como Zaratustra:</p>
<p>O escritor, ou ao menos o poeta, vive constantemente enfrentando pessoas que lhe perguntam: “Para quem você escreve?”. Obviamente, trata-se de uma pergunta muito tola, para a qual posso dar ao menos uma resposta singular. De vez em quando sinto que um livro foi escrito especialmente para mim, só para mim. Como um amante zeloso, quero evitar que o mundo conheça sua existência. Sem dúvida o sonho de um autor é ter um milhão desse tipo de leitores, que o leiam com paixão e desconheçam a existência dos outros apaixonados.</p>
<p>Nota: Isso aí precisaria ser meditada por todos que pensam que literatura pode se transformar numa coisa de massa, igual a qualquer evento do mundo pop/rock. Não é assim. Literatura é outra coisa.</p>
<p>Atacar os maus livros não é só uma perda de tempo, mas também um perigo para o caráter. Se um livro me parece realmente ruim, o único interesse que posso ter para escrever sobre ele é a exibição de minha inteligência, minha capacidade e malícia. É impossível alguém descrever um livro ruim sem pavonear-se.</p>
<p>Nota: Eu, nós, o Rascunho, suplementos e revistas de cultura, todo mundo: pensemos nessa lição segura e tranqüila, de um velho poeta sem pressa, à beira do rio veloz da vida.</p>
<p>Entretanto, há um mal literário que nunca se deve deixar passar em silêncio, mas ser atacado continuamente, e esse é a corrupção da linguagem. Já que os escritores não podem inventar sua própria linguagem e dependem da que herdam, conclui-se que a corrupção desta implica tacitamente na daqueles.</p>
<p>Nota: Porque tinha o espírito assim atento, é que Auden foi – realmente – grande.</p>
<p>Sem dúvida, podemos censurar, nos críticos, o hábito de colar etiquetas e rótulos sobre a cabeça dos autores. No princípio, classificavam os autores como “Antigos”, isto é, gregos e latinos, e “Modernos”, quer dizer, pós-clássicos. Mais tarde, por épocas: Augustinianos, Vitorianos etc. Agora os classificam por décadas: escritores dos anos 30, dos 40 e por aí vai. Tudo indica que, logo, os autores serão rotulados por anos, como os automóveis.</p>
<p>Nota: Ah, ah, ah.</p>
<p>O oráculo profetizava e dava bons conselhos sobre o futuro, e nunca pretendeu dar um recital de poesia. Se os poemas fossem criados em transe e sem a participação consciente do poeta, a poesia seria uma operação tão tediosa que apenas uma sólida recompensa econômica e social animaria um homem a praticá-la.</p>
<p>A Musa é uma jovem ardente que foge tanto dos seguidores vis como dos estúpidos. Aprecia o cavalheirismo e os bons modos, mas despreza os que demonstram não estar à sua altura e se diverte ditando-lhes necessidades e mentiras que eles, obedientemente, anotam como verdade “inspirada”.</p>
<p>Nota: Verdadeiro. E inspirado.</p>
<p>As opiniões críticas de um escritor devem sempre ser tomadas como um imenso grão de sal. Geralmente, são manifestações da polêmica que leva consigo mesmo sobre o que deve continuar fazendo e o que deve evitar.</p>
<p>Nota: Velho Auden!, os que escrevem te saúdam: é isso mesmo.</p>
<p>Os interesses do escritor e os dos seus leitores nunca coincidem, e, quando isso acontece, não é senão um feliz acidente.</p>
<p>Nota. Fiquei pensando nisso. E Auden complementa:</p>
<p>Ler é traduzir, pois não há duas pessoas que compartilhem as mesmas experiências. Um mau leitor é como um tradutor ruim: interpreta literalmente quando deveria parafrasear e parafraseia quando deveria interpretar literalmente. No aprendizado da literatura, a educação apurada é sem dúvida menos importante que o instinto. Grandes eruditos foram péssimos tradutores&#8230;</p>
<p>Nota. Wystan, Wystan, fale mais sobre isso.</p>
<p>Apesar de uma obra literária consentir várias leituras, o número destas é finito e pode ser ordenado hierarquicamente; claro que algumas leituras serão “mais certas” do que outras. E algumas serão duvidosas, e algumas certamente falsas, enquanto outras – como a leitura de uma novela do fim para o começo – absurdas. É por isso que, para uma ilha deserta, alguém poderia escolher um dicionário em vez de uma perfeita obra-prima, pois a passividade do dicionário junto aos leitores o converte em temas de infinitas leituras.</p>
<p>Nota. Sugestão de temas gerais para os próximos Flip e Flip-cover (o Fliporto): discutir os dicionários como “obras-primas” em potencial, virtuais e portáteis, em princípio (se não forem muito pesados), para se carregar, na sunga, rumo a qualquer praia, qualquer ilha, qualquer lugar longe o bastante da multidão de vozes que não parecem ter um pingo da sabedoria sensata – no melhor sentido – do poeta Wystan Hugh Auden.</p>
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		<title>GEODÉSICA DO OLIMPO</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2011 19:25:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[
Fernando Monteiro
Olhar que o sol não confundiu,
o vento não mordeu e a chuva
fez nublar só de lágrimas emprestadas,
ontem sonhei com a sombra revelada
da estátua de um titã,
as órbitas vazadas
enquanto contemplava
o perfeito abismo a boiar
na branca ausência de espanto
de um mármore tombado.
Sob o céu sem prega de suavidade,
a mesma indiferença de cariátide,
feita de beleza extrema e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Headoftitan-athens.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-30877" title="Headoftitan-athens" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Headoftitan-athens.jpg" alt="" width="276" height="403" /></a></p>
<p><strong>Fernando Monteiro</strong></p>
<p>Olhar que o sol não confundiu,<br />
o vento não mordeu e a chuva<br />
fez nublar só de lágrimas emprestadas,<br />
ontem sonhei com a sombra revelada<br />
da estátua de um titã,<br />
as órbitas vazadas<br />
enquanto contemplava<br />
o perfeito abismo a boiar<br />
na branca ausência de espanto<br />
de um mármore tombado.</p>
<p>Sob o céu sem prega de suavidade,<br />
a mesma indiferença de cariátide,<br />
feita de beleza extrema e cálculo<br />
para uma arquitrave.</p>
<p>Não, não servia já para isso<br />
e para mais nada de útil<br />
neste século de inutilidades;<br />
apenas naufragava no sonho,<br />
o rosto cinzelado na piscina<br />
do espaço que devolvia<br />
o mirar de ruína<br />
com a pura vaga de mormaço.</p>
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		<title>&#8220;Odeio a Prepotência&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 07 May 2011 19:17:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[
[Por Paloma Jorge Amado*]
Era 1998, estavamos em Paris, papai já bem doente participara da Feira do Livro de Paris e recebera o doutoramento na Sorbonne, o que o deixou muito feliz.
De repente, uma imensa crise de saúde se abateu sobre ele, foram muitas noites sem dormir, só mamãe e eu com ele. Uma pequena melhora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Jorge-Amado-Salvador-1978.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-30805" title="Jorge-Amado-Salvador-1978" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Jorge-Amado-Salvador-1978-520x349.jpg" alt="" width="440" height="295" /></a></p>
<p><strong>[Por Paloma Jorge Amado*]</strong></p>
<blockquote><p>Era 1998, estavamos em Paris, papai já bem doente participara da Feira do Livro de Paris e recebera o doutoramento na Sorbonne, o que o deixou muito feliz.</p></blockquote>
<p>De repente, uma imensa crise de saúde se abateu sobre ele, foram muitas noites sem dormir, só mamãe e eu com ele. Uma pequena melhora e fomos tomar o aviao da Varig (que saudades) para Salvador.</p>
<p><span id="more-30803"></span>Mamãe juntou tudo que mais gostavam no apartamento onde não mais voltaria e colocou em malas. Empurrando a cadeira de rodas de papai, ela o levou para uma sala reservada. E eu, com dois carrinhos, somando mais de 10 malas, entrava na fila da primeira classe. Em seguida chegou um casal que eu logo reconheci, era um politico do Sul (nao lembro se na época era senador ou governador, já foi tantas vezes os dois, que fica dificil lembrar). A mulher parecia uma arvore de Natal, cheia de saltos, cordões de ouros e berloques (Calá, com sua graça, diria: o jegue da festa do Bonfim). É claro que eu estava de jeans e tênis, absolutamente exausta. De repente, a senhora bate no meu ombro e diz: Moça, esta fila é da primeira classe, a de turistas é aquela ao fundo. Me armei de paciência e respondi: Sim, senhora, eu sei. Queria ter dito que eu pagara minha passagem enquanto a dela o povo pagara, mas nao disse. Ficou por isso. De repente, o senhor disse à mulher, bem alto para que eu escutasse: até parece que vai de mudança, como os retirantes nordestinos. Eu só sorri. Terminei o check in e fui encontrar meus pais.</p>
<p>Pouco depois bateram à porta, era o casal querendo cumprimentar o escritor. Não mandei a putaquepariu, apesar de desejar fazê-lo, educadamente disse não. Hoje, quando vi na tv o Senador dizendo que foi agredido por um repórter, por isso tomou seu gravador, apagou seu chip, eteceteraetal, fiquei muito arretada, me deu uma crise de mariasampaismo e resolvi contar este triste episódio pelo qual passei. Só eu e o gerente da Varig fomos testemunhas deste episódio, meus pais nunca souberam de nada…</p>
<p><span style="color: #3366ff;">[* Paloma Jorge Amado é psicóloga.] </span></p>
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		<title>A manchete de uma morte</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/a-manchete-de-uma-morte/</link>
		<comments>http://www.substantivoplural.com.br/a-manchete-de-uma-morte/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 03 May 2011 12:14:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fernando monteiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.substantivoplural.com.br/?p=30637</guid>
		<description><![CDATA[MANCHETE DO &#8220;DIÁRIO DE PERNAMBUCO&#8221;:
http://www.diariodepernambuco.com.br/capa_diario.asp?editoria=Diario&#38;dia=02&#38;mes=05&#38;ano=2011
&#8220;O MUNDO ACORDA LIVRE DE BIN LADEN&#8221;
A manchete do Diário de Pernambuco desta segunda-feira (02/05/2011) não transmitiu uma NOTÍCIA propriamente, isto é, dois pontos:  &#8220;Bin Laden está morto&#8221;,  ou &#8220;Bin Laden foi assassinado por americanos&#8221;  ou até &#8220;Bin  Laden se fodeu&#8221;  &#8211; caso o jornal &#8220;mais antigo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>MANCHETE DO &#8220;DIÁRIO DE PERNAMBUCO&#8221;:<br />
<a rel="nofollow" href="http://www.diariodepernambuco.com.br/capa_diario.asp?editoria=Diario&amp;dia=02&amp;mes=05&amp;ano=2011" target="_blank">http://www.diariodepernambuco.com.br/capa_diario.asp?editoria=Diario&amp;dia=02&amp;mes=05&amp;ano=2011</a></p>
<p><strong>&#8220;O MUNDO ACORDA LIVRE DE BIN LADEN&#8221;</strong></p>
<p>A manchete do Diário de Pernambuco desta segunda-feira (02/05/2011) não transmitiu uma NOTÍCIA propriamente, isto é, <i>dois pontos</i>:  &#8220;Bin Laden está morto&#8221;,  ou &#8220;Bin Laden foi assassinado por americanos&#8221;  ou até &#8220;Bin  Laden se <i>fodeu&#8221; </i> &#8211; caso o jornal &#8220;mais antigo da América Latina&#8221; pudesse conjugar verbos como &#8221;foder&#8221; etc.  Porém,  <strong></strong> <strong></p>
<p>&#8220;O MUNDO ACORDA LIVRE DE BIN LADEN&#8221; é phoda.</strong> </p>
<p>Significa que o Diário <strong>supõe</strong> que o mundo inteiro (&#8220;Pernambuco falando [pelo e] para o mundo&#8221;?] queria &#8220;acordar livre&#8221; do terrorista yemenita.  </p>
<p>Mais: de certo modo, o jornal, com base nessa suposição, de alguma maneira se regojiza, exulta, <strong>sorri</strong> com todos os dentes de Osama, digo, de Obama. </p>
<p>Não é<i> jornalismo</i>. É uma suposição provinciana - e alegria  deslocada num senhor de quase 200 anos que, aparentemente, não sabe  mais escrever a manchete de uma morte. Algo como: &#8220;Morreu Bin Laden&#8221;. Só  isso. Meu amigo Antonio Camelo, antigo diretor de redação do  Diário, teria consertado a tal manchete, com os seus óculos na ponta do  nariz, antes de irem para as máquinas os antigos clichês dos bons tempos  de jornalismo sem lapsos freudianos (?)&#8230;    </p>
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