Cena de Os Intocáveis, do diretor Brian de Palma
Reviraram na cova o esqueleto de Eliot Ness. A capitania hereditária de João de Barros, donatário que aqui nunca pôs os pés, parece que adivinhava o sucesso dos sucessores. Túmulo da dignidade humana e altar ostensivo de nulidades.
Quanto mais ostentação de estufar o peito, mais o ridículo se fronteiriça na ingênua pose da adolescência filosófica.
Ciência
31 de maio de 2011 às 17:58 | 2 ComentáriosA História é a única ciência produzida pelo homem. A única. Todas as outras ciências são de origem natural, com interferência ou especulação humana. A medicina, engenharia ou direito não são ciências. São técnicas aplicadoras de ciências. Matemática, física, biologia, citologia, química ou história são ciências que a medicina, engenharia ou o direito aplicam. Um fofa-bosta do poder não pode excluir ou mascarar fato histórico sob a conveniência do poder temporal. Quando falo de ciência ou aprendizado, cuido da regra. A exceção não abastece argumento, a não ser na ignorância. Que é a mais universal das categorias do conhecimento. A língua do boteco ou da esquina continua na esquina ou no boteco. O que eu conheço é muito pouco, mas me recuso a conhecer o que é pouco demais para que seja conhecimento. Com licença, pra não esquentar a cerveja!
Até quando me fere…
12 de maio de 2011 às 14:26 | 5 ComentáriosFoto de Valdemir Cunha (aqui)
Abraço minha terra até quando ela me escorraça. Amo cada lugar dela até quando ela me destrata. E se houve tempo em que por ela eu morreria, não posso desprezá-la agora, quando ela me maltrata. O que lhe fiz, terra minha, de tão ruinoso, que possa afiar suas garras e tentar ferir-me onde nenhum inimigo antigo conseguiu chegar? Beijo-lhe o ventre, ó desgraçada terra. Esse amor doentio, que lhe entrega tudo, também lhe oferece o rebenque e o lombo à insaciedade da sua injúria. E quando alguém de longe me oferecer justiça, eu vou esconder a ferida do seu ferro ingrato. Para que no meu afeto por você não apareça além do amor a mancha da própria terra desgraçada.
Poesia substantiva
28 de abril de 2011 às 9:17 | 13 ComentáriosMeu caro Tácito.
A poesia do seu Blog tá na medida, tanto no quanto quanto no tanto. O poema continente de Fernando Monteiro, devorador de ilhas. A arquitetura de Jarbas Martins, acasalando palavras que não se separarão jamais. O lirismo cru de Lívio Oliveira, esperando o braseiro para assadura. A prosa poética de Chico Guedes, buscando no cascalho das línguas, pelos mares, a reinvenção das palavras. Nina Rizzi, Carmen Vasconcelos, Ednar de Andrade, parecem vindas de Antemusa, defronte do Promontório da Lucárnia, onde cantavam com Agláope, Teoxíope e Parténope para naufragar os navegantes. Danclads de Andrade, Oreny Júnior. Não lembro de todos, mas leio todos. Jota Mombaça põe perfume francês numa ruma de cocô e sai de perto. Vai rir de longe dos narizes desavisados. Uma delícia de leitura. Nada de censura, de quantidade ou qualidade. Poesia é como democracia e trepar. Depois de posto sempre ganha do oposto.
poesia de ontem
6 de abril de 2011 às 11:41 | 11 ComentáriosSinto falta da poesia do bar./ Da recitação.
Não preciso ir a Roma para sentir Palestrina!
Levantar o copo e conseguir silêncio nos versos nerudas:
“Ainda que esta seja a última dor que ela me cause./ E estes os últimos versos que lhe escrevo”!
Um poema de José Régio, para Marcos Silva
7 de outubro de 2010 às 18:23 | 1 ComentárioUm dia, quando a tarde, arrefecendo,
Cinzenta se fizer, e eu for, também,anoitecendo,
E as aves já perdendo o gosto de cantar,
Se calem quando eu próprio me calar,
Meu Anjo! ao meu gelado desespero
Baixa mais uma vez
Teus olhos inclementes!
Clemências não n-as quero!
Não quero nada que por dó me dês.
Não quero emolientes.
Quero ao morrer ouvir-me dizer: “morro”.
Não me dês nada, pois senão que eu morra
Digno do teu socorro;
Sem que ele me socorra.
Tempo nulo
6 de outubro de 2010 às 17:59 | 3 ComentáriosQue miserável tempo é esse? Que não se respeita o direito ao não. Que se justifica voto e adesão sob a bengala do menor mal. De quem se acha no direito de escolher e impor o que é o menor mal. Não venho de tempo sereno, não venho de tempo sensato. Venho do tempo da liberdade cobrada com sangue. Guardando nas ventas o cheiro de carne podre, nas paredes de corredores escuros onde se derramava a placenta da violência nascida e a liberdade era apenas um amontoado de rugas. Não posso ser sereno. Não me foi dada a herança da sensatez . Eu quero a utopia. Eu quero o delírio. É meu direito de querer. Não chamo ninguém pra vir comigo. Vou só. A minha solidão tem o topete de não se iludir com a fantasia da esmola. O meu voto vale pouco, porque a democracia onde ele reside não vale nada. Não troco a liberdade que ganhei às custas dos restos mortais de companheiros que se perderam na sua grandiosidade, pela liberdade que me oferecem ao preço da minha pequenez. Quero a utopia. Quero o delírio. Alguém aí os tem para oferecer? Se não, me deixem em paz. Ou não me ofereçam lições que não pedi. Basta-me a companhia de Zé Régio. Não sei pra onde vou…não sei pra onde vou…Sei que não vou por aí.
Eugênio Neto
1 de outubro de 2010 às 7:26 | 2 Comentários
A morte de Eugênio Neto vira uma página da história do jornalismo político do Rio Grande do Norte. Grande figura humana. Não concordávamos com nada em matéria política, mas nossa amizade não precisou de afinidades ideológicas. A última vez o vi, logo após a publicação da Preá que fez uma matéria com ele, Eugênio me disse: “Tinha até escrito um artigo sobre você, mas agora não posso mais publicar. Pois vão dizer que essa matéria da Preá foi um negócio”. Disse rindo com as mãos trêmulas, quase derramando o café ao balançar a xícara. Aos seus familiares, minha associação à saudade.
Foto: João Maria Alves
O Brasil é um exame de fezes da democracia
29 de setembro de 2010 às 17:56 | 3 ComentáriosA Democracia há de ser conquista. E se a negação dela foi fruto de luta renhida dos seus inimigos, ela só poderá ser restaurada com a luta de igual compostura dos seus refeitores. Regime de consentimento, de negociação espúria: “tu me dás o poder e eu te garanto inocência dos crimes” , não aufere autoridade moral nem legitimidade para dignificar o poder. O poder exercido no Brasil não é legítimo nem digno. Nem democrático. Somos mendicantes da liberdade. Mendigos de uma democracia caolha, que diferentemente da arte, completa na forma, não se robustece no conteúdo. O estado público de cócoras ante a organização criminosa da bandidagem. A educação pública inadjetivável. Saúde, que saúde? Eleição? Eleição é prática em qualquer república bananeira. É conseqüência da liberdade e não causa. O Brasil é um exame de fezes da democracia. Cuja cultura vai mostrar as bactérias universalmente conhecidas. Quando vai mudar? Quando tivermos coragem de correr riscos da mudança. Essa eleição de agora é mais uma festa do circo. Voto Nulo.
Há obra e obra
29 de setembro de 2010 às 10:12 | ComentarNão tenho mais paciência com frases feitas e discurso de que “é preciso fazer alguma coisa”. É preciso não. É preciso fazer o impossível. Não apenas o possível fácil. O possível fácil todo mundo faz. O impossível faz a diferença. Desculpa de honestidade medíocre é negação da cultura. E quem aceita fazer parte do conjunto que fez o desonesto na cultura, é sócio da desonestidade. Se não dolosamente, mas por conveniência.
Também sou otimista, Tácito. Mesmo que o método do meu otimismo seja diferente do seu. Até quando discordo de alguém, preservo o respeito ao perceber a honestidade de propósitos e a inteligência do discordante. Caso da minha resposta ao Blog do Melo e ao Jornalista Carlos de Souza, sobre Vandré. Carlos de Souza é merecedor do meu respeito e admiração. Mas era meu dever de cidadania informar um equívoco histórico. Até por respeito aos que realmente sofreram os suplícios da era do chumbo.
Mas não devo reverência a quem anda querendo tapar o sol com balaio de cipó na defesa de uma ação cultural oficial desprovida de criatividade e coragem. Fazer qualquer coisa todo mundo faz. Qualquer obra também, basta usar uma moita de mofumbo.
Mitos e lavagem cerebral
28 de setembro de 2010 às 14:53 | 2 ComentáriosAs pessoas sentem uma dificuldade quase intransponível em sepultar ou rever os mitos que elas edificaram durante a vida. É como se fosse uma violência contra o momento mais belo da criação das crenças que é a mocidade. Se Che Guevara voltasse à vida e afirmasse ter cometidos erros práticos e exposto falsas teorias, não faltaria quem duvidasse da sinceridade de sua autocrítica. E uma das explicações seria a “lavagem cerebral”. Essa cretina desculpa que o poder também usa para justificar declarações antagônicas de aliados arrependidos. A recente entrevista de Geraldo Vandré, a uma rede de televisão que o próprio sempre abominou, tem gerado inúmeras análises e variadas interpretações. Que vão da psicanálise mais barata às suspeitas de um suplício merecedor de “compreensão”, “piedade” e “comiseração” .
Tudo falso. Vandré não foi torturado. Não foi preso. nem sofreu lavagem cerebral. Ele é, aos setenta e cinco anos, o mesmo Geraldo Pedroza de Araújo Dias. Genial, honesto e egocêntrico. Para Vandré, de cuja convivência e amizade privei, o único erro de Copérnico não foi descobrir que a terra girava em torno do sol, mas não declarar que o sol girava em torno de Vandré. Isso é um mal? Nem um mal nem um bem. Só um fato. Difícil são os arquitetos dos próprios mitos descobrirem que a edificação tem defeitos.
Geraldo Vandré é um dos maiores poetas do cancioneiro brasileiro. Um gênio da poesia cantada, sem ser um gênio musical. Uma figura humana completa de generosidade e dignidade pessoal. Incapaz de mentir para colher benefícios. Se ele elogiar o inelogiável, pode acreditar que o faz por convicção e não por venda. Mas é também um profundo gozador com a mediocridade reinante. Pode acreditar que ele está novamente jogando ironia e alpiste aos pássaros da mídia. É o que penso.
Acredite se quiser
14 de setembro de 2010 às 17:38 | 2 ComentáriosHoje à tarde, a Deputada Fátima Bezerra disse, na Câmara dos Deputados, que vai “debater” na próxima legislatura sobre um piso salarial digno para os professores. E chamou o atual piso de “vergonha salarial”. Engraçado: A deputada é deputada há mais de doze anos. O presidente da república, seu chefe e correligionário, é Presidente há oito anos. E só na próxima legislatura é que ela vai descobrir a necessidade dessa discussão? Ou vão inventar uma bolsa magistério? Só num país de mendicância alguém pode mendigar votos confiando na estupidez dos eleitores.
A reeleição de Wilma de Faria, para um segundo mandato, foi resultado de um governo razoável. Um julgamento popular. Com os defeitos e virtudes desse tipo de julgamento. Legitimidade assegurada por lei e costume. A sua provável derrota para o Senado, segundo as pesquisas, me parece a colheita do seu segundo mandato, que se aproxima da fronteira do péssimo. Em todas as áreas. Não é mérito dos seus adversários. Ela perde para ela mesma, com a colaboração imedível de assessores, afilhados e familiares. Todos com a desculpa do exemplo da líder. Ela ensinou, eles aprenderam.
O viver de rever
10 de setembro de 2010 às 17:58 | ComentarMexendo em papéis de que nem lembrava mais, cá nos alfarrábios da serra, encontro um texto de Gregório Bezerra oferecido a mim. E no mesmo uma referência a Abelardo da Hora. Gregório e Abelardo. Se o Recife precisasse ser resumido em dois nomes, Gregório e Abelardo ocupariam sem demérito a ausência de Capiba, Ascenso, Ariano, Arraes, Brenand. Gregório, a liberdade mutilada . Abelardo, a liberdade em forma de leite dos peitos das mulheres que ele esculpiu.
O que me dói
8 de setembro de 2010 às 15:26 | ComentarMe permita a gramática o pronome enclítico, me permita Vieira o verso frágil, me permita Homero a curta conta, me permita Bandeira o desamor. Me permita Cecília o motivo da rosa, me permita Vandré o esquecer das flores, me permita Cascudo o gesto de amanhecer. Me permita Pessoa a alma pequena, me permita Zé Régio o não vou por aí, me permita Quintana a verdade esquecida. E me permita Dom Miguel de Unamuno, nos versos da dor, substituir sua Espanha. Não me doem as pernas, não me doem os braços, não me dói o coração. É o Rio Grande do Norte que me dói.
Obra interrompida
8 de setembro de 2010 às 8:08 | 2 ComentáriosRecuperação do Forte dos Reis magos. Instalação de boxes para artesãos e atendimento a visitantes. Ampliação do estacionamento, que saiu de dezoito para oitenta e cinco veículos. Refeitura de todo o piso da passsarela de acesso. Todo o reboco precisava de reforma, foi todo refeito. Toda a cobertura, com telhas do mesmo estilo, conseguidas num casarão de Serra negra do Norte. Toda a instalação, virada gambiarra, foi substituída por material resistente à maresia, com previsão de durabilidade de quinze anos. Noutro local a duração seria de cento e cinqüenta anos. A iluminação externa posta em condições de evitar ação dos vândalos. Recuperação da Pinacoteca. Com a colocação de expositores, feitura de amparo contra incêndio, reboco e pintura. Recuperação do prédio da Fundação José Augusto, com a feitura de banheiros decentes, praça interna, duas galerias para exposição e um auditório de sessenta lugares. Construção do Teatro de Cultura Popular. Restauração do Museu do capitão Antas, em Pedro Avelino. Restauração do memorial do Mons. Expedito, em São Paulo do Potengi. Restauração do Mercado Público de Martins. Restauração do Solar da Baronesa, em Açu. Restauração da Casa do Padre Guerra, em Caicó. Restauração do Solar da Praça, em Parelhas. Edificação de quatorze Casas de Cultura e mais vinte e seis em fase de acabamento. Criação e edição da Revista Preá, dezessete números, no mais amplo e único trabalho de divulgação da produção cultural do Rio Grande do Norte. Reestruturação da Orquestra Sinfônica. Abertura da instituição cultural à opinião e participação de quem quis ou precisasse. Vários livros editados. Vários cedês impressos. Resgate das atividades de Manoel Marinheiro, Chico Daniel e Cornélio Campina. Restauração do Teatro Alberto Maranhão, com a retirada dos banheiros de rodoviária das proximidades da platéia e colocados decentemente num local apropriado. Renovação da estrutura de alvenaria, madeira e ferro. Interiorização das ações culturais, levando inclusive a Orquestra Sinfônica ao interior do Estado. Manutenção e ampliação do evento “Um presente de Natal”, para a Zona Norte e interior. Manutenção e apoio ao Prêmio Luis Carlos Guimarães. Manutenção e ampliação do projeto Seis e Meia. É do que lembro agora. Tem mais coisa. Não foi só discurso. Foi obra e debate frutífero. Com dispensa de holofotes e farrumbamba.
A Academia de Letras do Rio Grande do Norte confirma nossa tradição cultural. Preencheu de uma só tacada a cadeira dos padres e dos parentes.
Onde se lê Calvert, em Esmeralda, leia-se Javert. Com meu abraço e agradecimento ao escritor e procurador federal Marcelo Navarro Ribeiro Dantas.
Sonho
6 de agosto de 2010 às 10:44 | 2 ComentáriosMeu sonho inalcançavel de escritor: escrever como Mário Quintana e vender como Paulo Coelho.
Ad Perpetuam…
14 de maio de 2010 às 15:37 | 1 ComentárioPara Jarbas Martins.
Havia nessas grotas várias fontes/ que se julgavam perpétuas. Queimadas e outras mortes/ mataram quase todas. Gotejam Rei Memoriam poucas delas/ na espera de que se revogue o esquecimento.









