Introdução ao instante
Podiam notar uma ausência completa de transformações e um monarca asiático em visita a Londres.
Crimes invisíveis sob a lua foram revelados e alguns dos movimentos iniciais jamais pressentidos vieram à tona.
Para sempre permanecerão nos pólos mais afastados leões de pedra impenetráveis como esfinges.
A palavra erótica de Nei Leandro de Castro (ao poeta e pesquisador Laélio Ferreira)
4 de janeiro de 2012 às 8:32 | 1 ComentárioHá poucos dias tentei imitar – não sei se consegui – o que existe de mais autêntico, vivo e saudável na poesia norte-rio-grandense: o lirismo picaresco de Nei Leandro de Castro. Não estou sendo original nessa afirmação. O poeta e ensaísta português E.M. de Melo e Castro, em sua vasta e fundamental obra, já havia assinalado essa tópica na arte do poeta potiguar. Dando ao nosso poeta um status não reconhecido, infelizmente, pelos críticos do Sudeste. Talvez tenha faltado ao grande estudioso luso (que tomou parte nas lutas literárias e políticas de vanguarda, à época da ditadura salazarista ) um dado fundamental. É que não avaliou, por puro desconhecimento, a grande influência da poesia renascentista de Camões no Nordeste. E de seu avatar neoclássico – Manuel Maria du Bocage. Camões e Bocage, no Nordeste brasileiro, chegam a formar, no imaginário do povo, um fantástico ser mítico, onde a malícia, a astúcia, o escatológico, o sacro e o profano, o erudito e o popularesco indissoluvelmente se unem. Tarefa exercida com argúcia crítica e visão minuciosa pelo goiano Gilberto Mendonça Teles. A poesia de Nei Leandro de Castro nasce dessas fontes – e toma corpo, e nutre-se de fúria e grandiosidade, como rio sertanejo em suas enchentes.
O Cego Aderaldo finalizando uma peleja
3 de janeiro de 2012 às 15:50 | ComentarFaço lobo na cova se esconder, Gibóia ao me sentir fica a tremer, Hipopótamo me serve de cavalo, Faço o Eixo da terra dar estalo. Faço a morte ter de medo de morrer.
Glosa
2 de janeiro de 2012 às 20:33 | 2 ComentáriosMote: ESCAFEDEU-SE O MALANDRO, NESTA ARTE SOU O TAL.
Desafiei Nei Leandro, dei uma surra em Laélio, fiz-lhe engulir um Aurélio, escafedeu-se o malandro. Rilke se fez de escafandro, foi pesquisar o pré-sal. Quero ver quem o babau, o bunda-mole, o bandeja vem encarar a peleja. Nesta arte sou o tal.
t.e.lawrence, do poeta, antes de tudo, Fernando Monteiroo
30 de dezembro de 2011 às 20:59 | 3 Comentários
uma compulsão incontrolável de ler tudo o que fernando monteiro escreveu. já li e reli seu fundamental aspades, sua desconcertante (ou desconsertante, tanto faz) narrativa poética, sua poesia infográfica. e eis que, nestas vésperas de um ano novo, inicio a mesma tarefa de ler um livro seu – t.e.lawrence (FOTO). é um dever meu, tarefa que me impus, desde quando li uns borrados escritos de borges, e que será concluída com a visão esclarecedora de fernando monteiro. poeta, antes de tudo, antes que o difamem a lista desdenhosa dos críticos. e também cineasta, biógrafo, historiador e leitor. um brasileiro que engrandece pernambuco e o mundo, nestes inícios dos anos dez do século XXI.
Epigrama p/ Irani
26 de dezembro de 2011 às 10:37 | 6 ComentáriosMorrer-me todo sem que eu te peça,/morrer em tua pele, testa e unha,/iluminado só pelos teus olhos./ Não pela lua, falsa testemunha.
Breve antologia pessoal
10 de dezembro de 2011 às 8:17 | 3 Comentáriosversos bons, medíocres, ruins/ não há outro jeito, Sabídio/ um livro se faz assim.
Poetas torturados e mortos pela ditadura militar
7 de dezembro de 2011 às 13:46 | 2 ComentáriosLembro aqui o nome de um que era meu amigo: o poeta Emmanuel Bezerra dos Santos. Dediquei-lhe um poema (“ANTIELEGIA PARA EMMANUEL BEZERRA DOS SANTOS,UM NOME POR FAZER”, Ed. Sebo Vermelho, Natal, 2008) na passagem dos 35 anos em que foi assassinado pela repressão. O seu corpo foi enterrado como o de muitos irmãos indigentes do mundo, em que reina o Capitalismo. Enterraram-no em Perus e, tempos depois, foi trazido pela prefeita Erundina para o nosso Estado. Seu cadáver foi velado na Casa do Estudante de Natal, onde foi presidente.Acha-se agora no cemitério, junto ao mar, de sua cidade – Caiçara do Norte. As mãos de seus algozes cortaram a pele escura deste filho de pescador, de olhos verdes e que, talvez por isso, só via a Esperança por onde passou. Não lhe calaram, porém, a voz de metal e sonho naqueles terríveis anos de chumbo. Desde o mar de sua Caiçara, de onde saiu cantando ao encontro da morte em São Paulo, deixou-nos Emmanuel vivas lições de justiça e hu manismo. Como um novo Elpenor, bem merecia o epitáfio que para si o herói de Homero reivindicou : “…sem manto sem pranto, recorda-me. Reúne minhas armas num sepulcro junto ao mar, e grava: Um homem sem fortuna e um nome por fazer”.
Poema longo, poema curto
6 de dezembro de 2011 às 14:09 | ComentarUm poema,que mal chega a ocupar uma página, pode ser considerado, para os padrões de hoje, um poema longo.Ao organizar minhas FLORES VIRTUAIS DO SUBSTANTIVO PLURAL pergunto-me: certos poemas com que me deparo no SP devem ser publicados, em toda a sua inteireza, sem quebra do fluxo verbal que o alimenta, ou, por uma questão de comodidade e de tributo ao padrão estético da contemporaneidade, devem ser apresentados em seu fragmentarismo que, muitas vezes, afeta a sua íntegra e particularíssima beleza ? A minha inclinação é pela primeira solução, de acordo com o que o autor estabeleceu ao elaborar o seu poema. Tarefa difícil, bem sei, porque, não raro, enfrentamos questões que exigem certas acomodações, convencionalismos e arbirariedades editoriais afins.
Antologia do Substantivo Plural
3 de dezembro de 2011 às 15:52 | 10 ComentáriosAtenção, amigo Tácito Costa: Cheguei à conclusão que a antologia do Substantivo Plural não deve se restringir, apenas, à poesia enquanto forma, gênero literário etc. O conceito de texto poético abrange, por exemplo, a poesia literária, a poesia visual, o poema em prosa, a prosa, um video-poema, um texto dramático de Jairo Lima ou Cláudia Magalhães.Como devem ser vistas aquela bela foto em que Civone Medeiros aparece como Narciso, e a linguagem poético-perfomática de Jota Mombaça e Ramilla Souza ?Essas características híbridas, fragmentárias e marcadas pela indeterminação – levaram-me a esta nova visão, sobre o que de ótima qualidade vem sendo produzido neste bravo Substantivo Plural.O título, que encontrei pra minha antologia, expressa bem o que pretendo passar para meus leitores: AS FLORES VIRTUAIS DO SUBSTANTIVO PLURAL.
Discuso de difamação da cidade do Natal
17 de setembro de 2011 às 10:52 | ComentarAi de ti Cidade do Natal, batizada por Luís da Câmara Cacudo. Cidade de todos os pecados imortais.
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Cidade leviana, sequer mereces este indelével adjetivo que te acompanha para sempre.
Mediocridade e nulidades culturais
6 de setembro de 2011 às 11:42 | 9 ComentáriosO que me faz ficar indignado com esta cidade, é a premiação, no campo cultural, da mediocridade e até das nulidades.Leio na coluna de Woden que, neste momento, o Tribunal de Contas do Estado está conferindo a Medalha do Mérito Governador Dinarte Mariz ( por que não Djalma Maranhão ?) a uma leva de nomes sem nenhuma relevância, destituídos de quaisquer méritos no campo da intelectualidade- com exceção do professor Geraldo dos Santos Queiroz, autor de um livro indispensável para o conhecimento da nossa linguagem popular regional.A indignação aumenta quando penso que o coronel e senador, que dá nome à comenda, na época da ditadura militar foi, no mínimo, conivente com a censura e perseguição a intelectuais, escritores, poetas e artista.
Há críticos e críticos
26 de junho de 2011 às 19:03 | 7 ComentáriosMas veja o que é a crítica, meu caro Marcos. A crítica,como você lembrou, é passível também de ser criticada.Há críticos e críticos.Não creio que haja crítica imparcial.O leitor não é um ledor de códigos digitalizados.Baudelaire, engajado na verdade poética, só acreditava numa crítica parcial.Acho que você e eu estamos nessa também.E meu amigo Horácio Oliveira, meu mestre.O diabo é que existe uma crítica, baseada em interesses subalternos.Que está não somente baseada no ciúme e na inveja ( até admissível, por serem coisas humanas, demasiadamente humanas), mas calcada em interesses abjetos como o mercantilismo.Aí deixam de serem críticos para serem fiscais do mercado de idéias, a serviço do capitalismo.
Veja um exemplo: mal Chico Buarque,compositor e poeta, lança o seu álbum novo, e haja críticas, querendo negar o grande artista que ele sempre foi.Chegaram até dizer que o pior verso da música popular está nessa obra de Chico: “uma mulher sem orifício”. E com explicações descabidas: esse poeta com esse mau verso (no gosto caviloso deles) queria apenas encontrar um jeito para rimar com a palavra sacrifício.É zombar de nossas inteligências, não? Se acham que o verso é de mau gosto, é uma monstruosidade, é só consultar a história das artes, não é mesmo?A deformação é um recurso tão antigo nas artes.Está na arte egípcia, está na poesia de Homero, no moderníssimo Picasso (que unia, nos quadros dedicados às suas musas, suavidades a deformações geométricas).Em Buñuel,que botava pelos pubianos ou ânus nos rostos femininos.
O que dizes, meu caro Marcos Silva, que dizes meu mestre Horácio Oliveira?
PARA O TWITTER
28 de abril de 2011 às 8:29 | 4 Comentáriosenquanto te amo estes versos paralelas infinitas
SÚMULA
26 de abril de 2011 às 14:12 | 9 ComentáriosCom o tardo decassílabo hei de ferir a rosa, invejosa dos teus sonhos.Magnificarei teu seio, dançarei os teus quadris, denunciarei o alegre talo em flor entre teus dentes. Em tua clavícula depositarei o meu verso, que sonha ser de Gôngora ou de ouro.
Não só por amor a Roma
25 de abril de 2011 às 11:14 | 2 ComentáriosNão só por amor a Roma eu atravessaria esse Atlântico de desesperança.Iria, Socorro, num barco chamado Saudade.Chegaria a Roma mas não só por amor a Roma.Amor a Roma.Que belo palíndromo levaria para você, tão afeita aos mistérios da linguística.E tua devoção infantil por Sausseare e Derrida.Ainda não não eras fascinada, quando te conheci, bem saída da infância, por esses jogos acadêmicos.Ainda brincavas, com minhas primas, de Academia, teus pequenos pés morenos e triunfantes chegando ao Céu.Para disfarçar fingia conversar com teu irmão Jaime, tão jovem e afeito a assuntos, nome e coisas perigosíssimas: socialismo. passeatas, Luís Carlos Prestes e François Silvestre.Amor a Roma. Descobririas logo, nesse palíndromo, duas palavras como dois pequenos vagões, a mão ou uma peça ligando uma palavra à outra, em ums eterna viagem e torna-viagem.Vagaríamos pela Itália, à procura de uma cidadezinha adormecida na neve, como no poema de Ungaretti.Pernoita riámos, nessa cidade, tão estranha para nós dois, com suas quatro estações bem definidas.Tão diferente de nossa Angicos, com sua única e ilusória Estação.
Fase
23 de abril de 2011 às 15:26 | 2 ComentáriosDa varanda de um décimo nono andar de nuvens, na companhia de Irani, lembro neste sábado a minha fase Socorro.Tão breve como um beiral aonde voam andorinhas.Lembro suas risadas imprevistas, sua maneira de ser, seu mundo-Socorro, sua enganosa indiferença a qualquer projéto sério de vida.Lúdica Socorro.Se estivesse aqui, ao nosso lado, seria capaz de repetir, de uma maneira peculiaríssima, a palavra Sausseare, imitando o bico gracioso de sua mestra francesa.Ou, como era infantilmente buliçosa,seria capaz de pegar este velho despertador e, com o moreno dedo indicador, fazer girar, no sentido contrário ao dos relógios, os ponteiros. Ou talvez, como uma criança velha, se pusesse a brincar de ciclope, testa contra testa, os dois olhos do outro se fazendo um.Se estivesse aqui, lendo o Substantivo Plural ou o Bar Papo Furado, se deliciaria com o poema Sábado ,de meu amigo virtual Jairo Lima.Ou com o jornalismo glamouroso de Tácito Costa.Ela, a cultuadora de sáb ados, leves esoterismos e semióticas.Se deliciaria desconstruindo parágrafos, rearranjando-os, apontando, com sua bela unha íntima de curiosidade, a coincidência, num texto, do substantivo nomes com o advérbio menos.Seria capaz de sacar significados tão ocultos das palavras, com seu ruidoso jeito brincalhão, que espantaria as pombas de um telhado ou arrancaria risadas de um taxidermista. Breve e intensa fase Socorro, minha desconstrutora de entardeceres e palavras. Onde estiveres, envio-te estas palavras melancólicas que rondam nossas cabeças, como uma auréola de trevas.
Oferendas para um dia santo
21 de abril de 2011 às 10:07 | 8 ComentáriosAo dardo sanguíneo desferido pela aurora, implantado em tua coxa de marfim, eu dedicarei uma ode.E ao pássaro que, desgarrado do seu bando barulhento das manhãs, ouse pousar em teu travesseiro de ternuras. Com o dardo-decassílabo de um soneto ferirei a rosa, invejosa dos sonhos que adormecem sob as tuas pálpebras.Magnificarei teu seio, onde um rio denso e invisivel escorre mil ternuras.Dançarei os teus quadris, denunciarei o alegre talo de flor entre teus dentes.Em tua clavícula depositarei meu verso que sonha ser de Gôngora ou de ouro.Aprovarei as tuas unhas de ouromel, a lingerie de tua manhã santa, e pedirei com a voz de um mendigo surrante tuas palavras de prata a dizerem sempre, sempre, sempre.
Vale a pena citar Auden:
“…desconfio que sem um pouco de comicidade…”
Estação Angicos
14 de abril de 2011 às 11:42 | 4 ComentáriosLocus amoenus, ou nem tanto, a menos, meu Umbigo, a Origem do Mundo, o Logos. A estação ferroviária, sua parede como um mural anunciando sua data inaugural: 1933.Dez anos antes nascera na Praça Jota da Penha, que lembra o quixotesco herói bustificado, o poeta e professor Jarbas Martins. Máscara de José Jarbas Martins, filho de Luiz de França Martins e Maria Lutécia Péres de Araújo, sobrenome esse, depois, sequestrado pelas leis do matrimônio civil caducas.No registro do nome de minha mãe, sinalizavam-se, ao mesmo tempo, a arrogância cartorial, herdada de seu pai. Zacarias Antônio de Araújo, ex-tabelião em Macau, e a chegada tardia da República Nova, a de passos lentíssimos. Forasteira ilustre, passeava, como engomando as ruas, naquela Vila-com-ares- de- cidade ou Cidade-com-ares-de-vila. Angicos, pobre e imortal como no verso de Jorge Luís Borges que acabo de reinventar.



